BLW não tem comprovação científica?

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Fica difícil falar sobre comprovação científica do BLW se você não acompanha com afinco as publicações mais recentes, não é mesmo? Por isso, eu fiz questão de preparar um resumo didático sobre os últimos achados do protocolo de pesquisa BLISS (Baby-led Introduction to Solids, ou “introdução alimentar conduzida pelo bebê”), uma versão modificada (e controlada) do BLW. O BLISS nada mais é do que um protocolo de intervenção baseado no modelo BLW, cuja finalidade é estudar os resultados de uma abordagem de introdução alimentar conduzida pelo bebê.

​Em resumo, as pesquisas mais recentes (1-3) já indicam que uma abordagem de introdução alimentar conduzida pelo bebê (baby-led), BEM ORIENTADA, quando comparada à abordagem tradicional:

– Não tem maior risco de engasgo;
– Não tem maior risco de falha de crescimento;
– Não tem maior risco para anemia;
– Tem ingestão calórica/energética similar e
– Não modifica o risco para obesidade.

Estes, e outros estudos semelhantes, estão sendo desenvolvidos na Universidade de Otago, na Nova Zelândia, pelo Departamento de Nutrição, com a consultoria de um fonoaudiólogo e um pediatra. Os pesquisadores elencaram 3 preocupações frequentes relatadas na literatura: o engasgo, a anemia e as falhas de crescimento. Com isso, desenvolveram uma metologia de orientação para uma introdução alimentar que sumariamente encoraja os pais a seguir uma abordagem conduzida pelo bebê.

Durante as consultas, realizadas da gestação ao primeiro ano de vida, são feitas intervenções e marcação dos resultados em pontos específicos, como: lactação, aderência ao BLISS, questionário de alimentação, antropometria, relatos de gag/engasgo, diário alimentar (com marcação do peso), auto-regulação de energia, comportamento alimentar parental, desenvolvimento motor, aceitabilidade e custo e coleta de sangue (ferro e zinco).

Entre os recursos pré-testados utilizados no BLISS estão: informações detalhadas sobre uma introdução alimentar conduzida pelo bebê, ideias de alimentos e livros de receitas adequados para cada idade, e informações de segurança, particularmente no que diz respeito ao engasgo. As características essenciais do BLISS são:

1) Oferecer alimentos que o bebê possa pegar com as mãos e se auto-alimentar
2) Oferecer um alimento rico em ferro em cada refeição.
3) Oferecer um alimento de alta densidade energética em cada refeição.
4) Oferecer alimentos preparados de forma adequada à idade de desenvolvimento da criança a fim de reduzir o risco de engasgamento, fornecendo uma lista de alimentos de alto risco para asfixia.

Apesar de um dos estudos (1) indicar ausência de eficácia na diminuição do risco de obesidade (não houve diferença entre os grupos), no geral, os resultados das pesquisas mais recentes são bastante importantes. O processo conduzido pelo bebê promoveu uma introdução alimentar bem-sucedida, demonstrado por melhores resultados nos indicadores: prazer em comer, comportamentos alimentares menos exigentes, alimentar-se sozinho aos 12 meses e maior duração da amamentação exclusiva.

Em resumo, a introdução alimentar conduzida pelo bebê foi considerada segura (4).

Não foram observadas diferenças entre os grupos em relação à ingestão de energia, falhas no crescimento ou anemia ferropriva. Os bebês do grupo BLISS tiveram mais episódios de gag aos 6 meses de idade, porém menor freqüência aos 8 meses de idade, e não foram observadas diferenças significativas nos números de eventos de engasgo.

Esses achados ajudam a aliviar as preocupações com a segurança de uma introdução alimentar conduzida pelo bebê. Os pais podem ter autonomia para escolher livremente a forma de introduzir alimentos ao bebê, e ainda, o BLW bem orientado pode até ser encorajado, com o objetivo de diminuir as preocupações com neofobia, recusa alimentar e comportamentos disruptivos durante refeições (4), vistos com cada vez mais frequência na infância.

O que é necessário ressaltar, no entanto, é que o protocolo de intervenção BLISS forneceu suporte e conselho individualizado para promover a oferta de alimentos ricos em ferro e energia e orientar quanto aos alimentos que representavam um risco de asfixia. Assim, a segurança da promoção do BLW para um público geral, sem acompanhamento, ainda precisa ser confirmada. De toda forma, os estudos ainda estão em andamento e bom, não se descobre a roda da noite para o dia, não é mesmo? Estamos todos ansiosos para os próximos resultados.

Esse texto foi elaborado a partir da aula “Evidências em BLW”, do Módulo 2 do Curso Avançado em Introdução Alimentar ParticipATIVA e Baby-led Weaning 2.0. O curso completo tem 40 horas e te dá toda a base teórico-prática para compreender, praticar e/ou orientar as abordagens de introdução alimentar tradicional responsiva, participativa ou guiada pelo bebê.

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Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co

Referências:


1 – Taylor et al (2017). Effect of a Baby-Led Approach to Complementary Feeding on Infant Growth and Overweight: A Randomized Clinical Trial. JAMA Pediatr. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28692728

2 – Brown A. (2017). No difference in self-reported frequency of choking between infants introduced to solid foods using a baby-led weaning or traditional spoon-feeding approach. J Hum Nutr Diet. https://doi.org/10.1111/jhn.12528

3 – Fangupo et al (2016) A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2016/09/15/peds.2016-0772 

4 – Lakshman et al (2017). Baby-Led Weaning—Safe and Effective but Not Preventive of Obesity. JAMA Pediatr. doi:10.1001/jamapediatrics.2017.1766

 

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O que você precisa saber sobre a Introdução Alimentar ParticipATIVA

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Como já conversamos anteriormente, existem muitos mitos e crenças a respeito de como deveria ser feita uma introdução alimentar adequada. Apesar de estar minuciosamente descrita em diversos manuais de saúde ao redor do mundo, incluindo a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Ministério da Saúde do Brasilna prática, algumas crenças são fortemente assimiladas e difundidas pela cultura popular, por profissionais da saúde desatualizados e pela Indústria. Grande parte dessas crenças são baseadas em uma cultura milenar, dentro de um paradigma relacionado à escassez de alimento. Isso faz parte de uma grande bola de neve que tem sido um dos principais responsáveis pelo aumento do sobrepeso e doenças correlatas na infância.

Leia mais: Mitos e verdades sobre a introdução alimentar

Com a ampliação da discussão sobre a abordagem Baby-led weaning  (BLW), tem sido possível refletir profundamente sobre o modelo de introdução alimentar tradicional atual. Embora as pesquisas nesse campo tenham avançado, até os dias de hoje, quando se fala em introdução alimentar utilizando o termo tradicional, parece impossível desvincular a oferta da papinha assistida através do modelo passivo do “aviãozinho“.

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Fonte: Nani Humor

O BLW é um modelo completamente antagônico à essa alimentação complementar vista como tradicional, pois não prevê a oferta assistida pelos cuidadores em nenhum momento. Pelo contrário,  fundamenta-se na alimentação sob livre demanda e gerenciada pelo próprio bebê, confiando que ele possa ter total controle sobre sua própria alimentação, obviamente dentro da rotina proposta pela própria organização familiar.

Desta forma, ainda que os pais ofereçam alimentos em pedaços desde o início da IA, oferecer comida passivamente ao bebê vai na contramão dos principais fundamentos do BLW, que são o respeito à autonomia e a confiança de que o bebê sabe o que, quanto, como e com que ritmo irá comer. Para que ele exerça sua auto regulação sem interferências e sem a necessidade da interpretação do adulto em relação aos seus sinais de fome e saciedade.

Gill Rapley, em 2015, defendeu seu doutorado e nele observou algumas diferenças importantes ao comparar a auto-alimentação com a alimentação passiva com a colher. A seguir, as fotos mostram explicitamente como o bebê e o cuidador se comportam de formas bastante diferentes durante cada uma dessas situações:

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Dentro desse contexto, entender perfeitamente o que é o Baby-led Weaning é extremamente importante. Segundo Rapley, quem está ouvindo sobre BLW pela primeira precisa tomar decisões conscientes sobre o que estão fazendo ou pretendendo fazer. Caso contrário, tendem a desanimar quando o BLW “não funcionar”, mais frequentemente visto com a queixa “meu bebê não leva a comida à boca”, quando na verdade, no BLW há total respeito e confiança na própria intenção do bebê em levar ou não o alimento até a boca. Muitos bebês não demonstram prontidão para se alimentar até aproximadamente os 9 meses de vida e, de fato, forçar que ele prove um alimento em pedaço sem que ele esteja intrinsecamente pronto para recebê-lo poderia inclusive aumentar o risco de engasgo e levar a asfixia.

Leia mais: O BLW não deu certo comigo

Além disso, precisamos aumentar o conhecimento que temos sobre a alimentação infantil guiada pelo bebê. As pesquisas precisam de metodologia clara e concisa, caso contrário estamos comparando alho com bugalho, como dizia minha avó. BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança para saber o que ele mesmo precisa. Então “fazer um pouco de cada” ou “algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação assistida” pode funcionar pra você e pro seu contexto e dinâmica familiar, mas não é BLW.

E embora eu reconheça a importância da definição exata e das bases e fundamentos do BLW, concordo plenamente com o que Gill Rapley disse em seu workshop, em Novembro passado aqui no Brasil:

“o BLW é o ideal, mas a maternidade é real”

E a introdução alimentar tradicional vem historicamente tão cheia de significados, crenças e mitos, que fica impossível se encaixar em uma abordagem tradicional depois de entender e re-significar todo o paradigma que veio sendo criado ao longo do tempo. É dentro desse contexto que um grande número de famílias tenta encaixar os fundamentos da abordagem BLW na sua rotina de introdução alimentar, e não sabe muito bem ao certo explicar sua escolha. Geralmente dizem “faço um pouco de cada” – e como vimos, não existe “um pouco de BLW”.

Leia mais: Mitos e verdades sobre a introdução alimentar tradicional

Foi em 2015 que o termo Introdução Alimentar ParticipATIVA começou a ganhar força, ainda no meio online, por conta de uma hashtag que eu comecei a usar no instagram e que se popularizou. Hoje, já são milhares postagens com a tag #iaparticipativa. E essa abordagem, ao meu ver, tomou essa proporção pelo acolhimento aos milhares de cuidadores que se identificam com o BLW, mas não conseguem levá-lo à prática em 100% da sua dinâmica. Recebo centenas de mensagens de famílias que se encantam com o BLW, mas não conseguem aplicá-lo à risca. E é nesse “limbo” que a gente se encontra, nessa busca pelo respeito, confiança e autonomia, ainda que exista a oferta de alimento guiada pelo adulto. É na busca pelos fundamentos do BLW na realidade, no contexto e no dia a dia de cada um.

Meu principal objetivo com o termo Introdução Alimentar ParticipATIVA é popularizar os fundamentos do BLW e o que há de mais atualizado em termos do conhecimento que temos acerca da alimentação infantil, acabando de vez com o paradigma desatualizado que recai sobre o termo introdução alimentar tradicional. Chega de papinhas processadas, apetrechos desnecessários criados pela indústria, mingaus açucarados pra engordar e “abre a boca, olha o aviãozinho”.

Com o tempo, minha expectativa é que o termo seja até desnecessário, a ponto que toda e qualquer Introdução Alimentar seja orientada de forma adequada e atualizada, com o bebê sendo considerado o protagonista em todo esse processo. De forma inédita no Brasil, em 2017, a Sociedade Brasileira de Pediatria, que antes considerava a evolução gradual da consistência dos alimentos a partir dos 8 meses (papa com pedaços), em sua última publicação já reconhece que no momento da alimentação complementar o bebê também deve experimentar com as mãos, estimulando a interação com a comida, explorando as diferentes texturas dos alimentos como parte natural de seu aprendizado sensório motor e evoluindo conforme seu tempo de desenvolvimento.

Pela minha experiência, a “Introdução Alimentar ParticipATIVA” é uma abordagem que tem se mostrado, na prática, em um continuum de transição, do que antes considerávamos normal, para o cenário que o BLW nos trouxe à tona. Passamos de um modelo que era completamente passivo e baseado na quantidade, na necessidade de ingestão de comida e no medo do engasgo, para o paradigma da qualidade, da abundância de aprendizagem e do respeito e confiança no bebê durante esse período. Entendendo o desenvolvimento infantil dentro desse processo e a importância das oportunidades para o desenvolvimento das habilidades de auto-alimentação.

Essa transição se apresenta em uma linha contínua, que liga o paradigma tradicional ao guiado pelo bebê, considerando esses dois movimentos completamente opostos. E onde coexistem, na linha desse continuum, milhares e milhares de cuidadores e bebês com suas devidas realidades, crenças, culturas, necessidades e dinâmicas familiares.

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Mudança do paradigma tradicional para o da introdução alimentar guiada pelo bebê. (Padovani, 2017)

 

Vale ressaltar que a Introdução Alimentar ParticipATIVA vai de encontro aos Manuais Oficiais de introdução alimentar em vigor no Brasil e no Mundo. E muito além, incentiva as famílias a entenderem o processo de prontidão do bebê, dentro da construção de uma rotina flexível, que tem início aos seis meses, e permite que gradativamente o bebê tenha espaço e oportunidade para se interessar pelos alimentos e começar a comer dentro do modelo de divisão de responsabilidades, como o proposto por Ellyn Satter e ampliado por Gill Rapley. Os cuidadores são incentivados a apresentar, desde o início da introdução alimentar, os alimentos em seu formato original, possibilitando não apenas que as crianças experienciem o máximo possível de sensações desde o seu primeiro contato com os alimentos, como também tenham cada vez mais autonomia, conforme progridem suas habilidades de auto-alimentação.

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Modelo de Divisão de Responsabilidades em uma abordagem ParticipATIVA

 

Leia mais: O que você não sabe sobre o Baby-led Weaning


Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co

Saiba mais sobre o Curso Avançado em Introdução Alimentar ParticipATIVA e Baby-led Weaning AQUI.

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Referências:

 

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção
Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos: um guia para o profissional da saúde na atenção básica. 2ª. ed, Ministério da Saúde, Brasília, 2013.

Padovani AR. Introdução Alimentar ParticipATIVA. Versão digital em e-book. Copyright CONALCOLab 2017 (no prelo).

Rapley G, Tracey M. Baby-led weaning: o desmame guiado pelo bebê. Editora Timo, 2017.

Rapley G. Spoon-feeding or self-feeding? The infant’s first experience of solid food. PhD (Philosophy). Canterbury Christ Church University. 2015.

Satter E. Child of Mine: feeding with love and good sense. Bull Publishing Company. 2000.

Sociedade Brasileira de Pediatria. A Alimentação Complementar e o Método BLW (Baby-Led Weaning). Departamento de Nutrologia, Guia Prático de Atualização, nº3. Maio, 2017.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP, 2012.

World Health Organization. Department of Nutrition for Health and Development. Complementary feeding: family foods for breastfed children. Geneva: WHO, 2000.

WHO. Global Consultation on Complementary Feeding. Guiding Principles for Complementary Feeding of the Breastfeed. December 10-3, 2001.

Pesquisa mostra que o BLW não aumenta o risco de engasgo durante a introdução alimentar

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Um artigo publicado em dezembro de 2017, no Journal of Human Nutrition and Dietetics, mostrou ausência de associação entre o aumento do risco de engasgo e o Baby-led Weaning (BLW).

Segundo a autora do estudo, Dra Amy Brown, do Departamento de Saúde Pública da Universidade de Swansea (Reino Unido), esses resultados devem ser considerados com cautela, dadas as limitações metodológicas da pesquisa. Entretanto, interpretados no contexto, já nos dão um amplo panorama para entender a segurança da abordagem e oferecem um importante caminho a se trilhar nas próximas pesquisas.

O estudo foi feito através de questionário de auto-relato, explorando episódios de engasgo entre bebês em fase de introdução alimentar. Em especial, a autora comparou a abordagem BLW, que permite que os bebês se auto-alimentem de acordo com a alimentação familiar, com a abordagem tradicional de oferecer papinha na colher.

No total, foram entrevistadas 1151 mães de bebês com idade entre 4 a 12 meses, que responderam espontaneamente sobre o modo pelo qual introduziram os alimentos aos seus bebês (seguindo um BLW estrito, uma abordagem flexível do BLW ou uma abordagem tradicional). As mães foram perguntadas sobre a frequência de colheradas e de papinhas (porcentagem por refeição) e relataram episódios de engasgo. Caso o bebê já tivesse engasgado, as mães foram perguntadas quantas vezes, com que tipo de textura (papa, papa granulada, alimentos em pedaços) e exemplos de alimentos específicos.

No total, 13,6% dos bebês haviam engasgado pelo menos uma vez (n=155/1151). Não foram encontradas diferenças significativas relacionadas à abordagem escolhida, ou à proporção de colheradas e o uso de papas. Ou seja, o risco de já ter engasgado pelo menos uma vez foi o mesmo entre bebês que seguiram uma abordagem BLW (estrita ou flexível) e aqueles que seguiram uma abordagem tradicional.

Os achados corroboram dados de estudos prévios, que sugerem que o BLW não aumenta o risco de engasgo durante a introdução alimentar. 

Entretanto, examinando a frequência de engasgo entre os bebês que engasgaram pelo menos uma vez (n=155), a autora observou uma associação positiva entre a abordagem tradicional e um aumento na frequência de episódios de engasgo, especialmente relacionada à textura.

Quanto maior a proporção do uso de colheradas e papas, maior foi a frequência de engasgo com a papa granulada e alimentos em pedaços. 

Sabe-se que a textura é uma característica bastante importante durante a aprendizagem da mastigação. Dra Brown argumenta que esses resultados podem ser devido à baixa exposição às texturas mais firmes, como dos alimentos em pedaços, na abordagem tradicional.

A autora reforça que seus achados não deveriam ser considerados como evidência definitiva do BLW em relação ao engasgo , visto que a amostra do estudo representa um recorte não aleatório da população. Assim como pesquisas prévias, a maioria das mães do estudo tinham mais de 25 anos e ensino superior. Neste estudo em particular, foram recrutadas através de fóruns online de introdução alimentar, ou seja, fizeram uma opção ativa pelo BLW, tendiam a ter contato com outras mães que também optaram pelo método e, no geral, são extremamente bem informadas sobre a abordagem. Os resultados do estudo podem, em parte, ser mais positivos por esse background materno, considerado pela autora como “padrão ouro”. Para generalizar esses resultados, seria necessário uma amosta muito mais diversa, e igualmente randomizada.

Que tipo de educação seria necessária para garantir que os alimentos no BLW fossem oferecidos de forma apropriada ao nível de desenvolvimento do bebê?

 

Para saber mais sobre o Curso Avançado em Introdução Alimentar ParticipATIVA e BLW acesse: conalco.com.br/cursoblw

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co

Referência:

Brown A. (2017) No difference in self-reported frequency of choking between infants introduced to solid foods using a baby-led weaning or traditional spoon-feeding approach. J Hum Nutr Diet. https://doi.org/10.1111/jhn.12528

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Você realmente sabe o que é o BLW e a Introdução Alimentar ParticipATIVA?

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Semana passada, assisti uma live em um canal de grande impacto no Youtube e me preocupei bastante com a mensagem sobre BLW que ficou no ar. Entre algumas coisas que falaram sobre a abordagem, no geral ficou a ideia de que “o bebê só conseguiria comer comida em palitinhos”, que “esses bebês nunca usarão talheres” e – o pior de tudo – que “o BLW exigiria além do desenvolvimento do bebê, o que acabaria por criar crianças frustradas com sua própria alimentação”.

Vou citar minha querida colega e parceira Viviane Vieira, do Maternidade Sem Neura, que esteve comigo presente em todos os eventos #BLWnoBRASIL do último mês e fez considerações bastante importantes em sua página no Facebook:

“Compreender que BLW é só comida de palitinho reduz em muito essa abordagem. E quando alguém pensa que BLW impõe algo ao bebê quando ele não está preparado, deixando-o frustrado e com percepção negativa da alimentação só me leva a entender que se está falando de outra coisa que não é o BLW. BLW não impõe. Pelo contrário, dá oportunidade. Ele não força o bebê para uma situação que ele não está pronto. Ele considera o seu desenvolvimento para que, somente então, o bebê coma. Se um bebê é livre para comer, por que ele ficaria com uma conotação negativa da comida? E podem ficar tranquilos pq as crianças não vão comer com a mão para sempre (a não ser que faça parte da cultura dela). Olha que surpresa! Ela manuseia o talher até mais rapidamente do que outras crianças! Mas concordo que BLW é um desafio para muitas famílias por causa do contexto social, incluindo o fim da licença da mãe. Porém, se pensarmos assim, também deixaremos de apoiar a amamentação, não?”

Quem acompanha meu trabalho sabe que não sou contra alimentos amassados ou papinhas. Minha luta maior é para que as pessoas entendam que entre querer que o bebê coma e o bebê estar pronto pra comer, existem mil nuances no processo. Que um bebê de seis meses começa a apresentar sinais de prontidão para se auto-alimentar e que podar esse processo, fazendo tudo por ele, pode ser bastante prejudicial para o seu desenvolvimento. E que mais do que tudo, para se desenvolver integralmente, a criança precisa de oportunidades.

E não, não são os bebês BLW que se frustram. É o ADULTO que se frustra, quando espera que em data certa o bebê pegue um alimento e leve-o à boca, sem que ele esteja pronto e disposto à isso. O paradigma da introdução alimentar tradicional não responde às questões do BLW. É impossível comparar qualquer resultado entre as duas abordagens, pois elas são absolutamente opostas.

E muitas e muitas vezes, considerem, o BLW pode ser a resposta para uma introdução alimentar tradicional que não dá certo. Porque frustrante mesmo é tentar dar colheradas para um bebê que claramente proclama por autonomia. Frustrante é quando o cuidador se desconecta completamente do bebê e insiste para que ele coma a quantidade que está escrita nos manuais. Frustrante é fazer comidinha organiquinha amassadinha e o bebê não abrir a boca nem por decreto. Frustante é acompanhar tantas e tantas famílias e bebês que fazem BLW FELIZES, querer contar isso pro mundo e empatar num discurso tão infeliz quanto esse em um meio de comunicação potente. Isso sim é frustrante PACAS.

As matrículas para a versão 2.0 do Curso Avançado em Introdução Alimentar ParticipATIVA e BLW já estão abertas. 

Você pode conferir todo o conteúdo e valores do curso aqui

Bora espalhar a mensagem pro mundo!

Se quiser conversar, vou receber sua mensagem com muito carinho. Manda suas dúvidas também, terei o maior prazer de respondê-las ao vivo!

Um grande beijo,

Com carinho,
Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co


 

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A Polêmica do Suco de Frutas para Bebês

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Fonte: Bigstock

 

O suco de frutas tem, historicamente, uma participação importante na alimentação infantil, tendo sido usado por pediatras como uma forma de oferecer maiores quantidades de vitamina C e líquidos ao bebê e crianças pequenas, devido à sua boa aceitação. Entretanto, há relatos de associação entre o consumo excessivo de suco e falha de crescimento, baixa estatura e obesidade, embora esses achados ainda precisem ser confirmados por mais estudos. A teoria de que o consumo de sucos naturais sem adição de açúcar possa causa sobrepeso em crianças ainda é controversa.

Auerbach e colaboradores (2017), em um estudo de meta análise recente (meta análise é um tipo de pesquisa em que se avalia estatisticamente os resultados de vários estudos publicados na literatura) encontraram um pequeno aumento de peso entre crianças menores de 6 anos que consumiam sucos, mas este resultado não teve uma relevância clínica à níveis individuais. Crianças entre 1 e 2 anos parecem estar mais suscetíveis ao aumento de peso. O tipo de suco consumido parece ter relação com o aumento de peso. Nos EUA, crianças menores que tendem a consumir mais suco de maçã possuem um aumento de IMC mais significativo do que as mais velhas, que dão preferência para suco de laranja em geral. Isso tem relação com a carga glicêmica dos sucos. O suco de maçã possui uma concentração maior de açúcar do que o suco de laranja.

Em um documento publicado agora em 2017, a Academia Americana de Pediatria limita o consumo de sucos na infância sob algumas justificativas que vou resumir aqui:

  1. Sucos de fruta não oferecem nenhum benefício nutricional para bebês menores de 1 ano de idade.
  2. Sucos de frutas não oferecem nenhum benefício nutricional em relação às frutas para bebês ou crianças e não desempenham papel essencial em uma dieta saudável e equilibrada.
  3. Sucos naturais sem adição de açúcar podem ser incluídos moderadamente como parte de uma dieta equilibrada em maiores de 1 ano, mas sucos industrializados não são equivalentes e não deveriam ser oferecidos.
  4. Sucos possuem um alto teor de carboidratos com baixo conteúdo de proteína, gordura e algumas vitaminas e minerais. Quando seu consumo é excessivo acabam reduzindo a ingestão de outros alimentos mais completos e podem contribuir para má nutrição, sendo associados algumas vezes com ocorrência de baixa estatura.
  5. O consumo de sucos, especialmente quando oferecidos na mamadeira, está relacionado ao aumento da ocorrência de cárie dentária, devido ao seu maior conteúdo de carboidrato.
  6. Seu consumo excessivo pode provocar diarreia, flatulência excessiva, gases e dores abdominais.

Segundo o Ministério da Saúde (2013), os sucos não devem ser utilizados como uma refeição ou lanche, por conterem menor densidade energética que a fruta em pedaços, especialmente durante a introdução alimentar, uma vez que a capacidade gástrica dos bebês é pequena. A Academia Americana de Pediatria recomenda que não mais que metade das porções de frutas recomendadas para crianças venham dos sucos, o que significa aproximadamente 120 a 180 ml ao dia para crianças de 1 a 6 anos e 240 a 350 ml ao dia para crianças acima de 7 anos. Bebês com menos de 1 ano não devem consumir sucos.

Do meu ponto de vista, como nutricionista, o motivo principal para contraindicar os sucos diz respeito à formação de hábito. E quanto mais cedo o suco é introduzido na vida da criança, mais ele vai estar enraizado em seu dia a dia. E eu vejo aí três problemas:

  1. Conforme a criança cresce, sua preferência por suco tende a aumentar (afinal ele é docinho e fácil de ingerir) e ela pede cada vez mais, tornando difícil controlar as quantidades.
  2. Há uma possibilidade grande dessa criança passar a preferir o suco à fruta, diminuindo consideravelmente seu consumo (quantas crianças não conhecemos que bebem muito suco e não comem nenhuma fruta?).
  3. Fora isso, à medida que a criança pede mais suco, vai ficando mais difícil para essa família manter o consumo de sucos naturais – quem tem tempo, não é verdade? – E o industrializado pode ir ganhando espaço.

 

É obvio que o suco não deve ser proibido, afinal, já vimos acima que ele pode fazer parte de uma dieta saudável e equilibrada em quantidades moderadas. Mas podemos deixar esse suco para ocasiões pontuais, evitando incluir no dia a dia da criança.

Portanto, o que eu tenho recomendado na minha prática profissional é priorizar o consumo das frutas, ao invés do suco, e não oferecer para menores de 1 ano. Após o primeiro aniversário, não incluí-lo na rotina alimentar, embora não exista problema em oferecer quando a criança estiver em uma festa ou num almoço em um restaurante, ou eventualmente num café da manhã mais caprichado do final de semana, quando toda a família consegue sentar-se junta e com mais tempo à mesa.

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

Referências

Brandon J. Auerbach; Fred M. Wolf; Abigail Hikida; Petra Vallila-Buchman; Alyson Littman; Douglas Thompson; Diana Louden; Daniel R. Taber; James Krieger. Fruit Juice and Change in BMI: A Meta-analysis. PEDIATRICS Volume 139, number 4, April 2017.

Cristina M. G. Monte1, Elsa R. J. Giugliani. Recomendações para alimentação complementar
da criança em aleitamento materno. Jornal de Pediatria – Vol. 80, Nº5(supl), pag. S131- S141, 2004.

Ministério da saúde. Guia alimentar para crianças menores de dois anos. Um guia para o profissional da saúde na atenção básica. Brasília – DF, 2013.

Quando e como oferecer carnes ao bebê? (BLW e participATIVA)

Por Nutricionista Clara Rodrigues

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Foto: Ana Quesada

No momento da introdução alimentar, muitas dúvidas surgem e a oferta de cárneos sempre gera muita insegurança. Quando posso oferecer carnes? Que carnes oferecer? Como preparar? Como cortar? Espero que esse texto ajude a sanar algumas dessas dúvidas.

A introdução de carnes na alimentação do bebê pode ser iniciada a partir dos 6 meses, junto com os outros alimentos. Muitas pessoas acham que as carnes precisam ser magras, mas não é necessário ter medo de optar por cortes de frango ou carne bovina que tenham mais gordura, pois os bebês têm uma necessidade proporcionalmente maior de gorduras do que o adulto.

Além disso, cortes mais gordurosos costumam ter uma textura menos seca, o que facilita a mastigação e deglutição, principalmente, no início da introdução alimentar. Músculo, acém, paleta, coxinha da asa, sobrecoxa, filé de peixe são ótimas opções para iniciar. As carnes de bode, carneiro, porco e rã (sim, rã!) também podem ser oferecidas, desde o início. Sempre lembrando que é de extrema importância verificar a procedência de qualquer tipo de carne, no momento da compra.

Cortar a carne no sentido transversal das fibras faz com que não se soltem fiapos longos e difíceis de engolir. Oferecer os cárneos no formato de almôndegas ou de hamburguinho (caseiro, claro) facilita para o bebê pegar com a mão, enquanto não tem o movimento de pinça desenvolvido. Misturar a carne triturada com legumes cozidos macios (como abóbora, cenoura ou batata) também pode ser uma opção para facilitar a deglutição, especialmente nos casos em que a carne tiver uma textura mais seca.

À medida que o desenvolvimento do bebê atinge outros marcos, ele aprimora as habilidades motoras globais e orais e, mesmo alimentos mais secos, passam a ser mastigados e deglutidos sem dificuldade. Respeitar as etapas de desenvolvimento do bebê e adaptar a alimentação às habilidades adquiridas é essencial, tanto na introdução dos cárneos como nos outros grupos alimentares. Lembre-se: a meta é que até os 12 meses o bebê esteja comendo a comida da família.

 


Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal die.png

 


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Quando o bebê aprende a comer com o talher?

Asian toddler girl eating cereals with milk on high chair at home

Não existe data mágica para que o bebê se interesse em usar o talher…

As habilidades de auto-alimentação se desenvolvem gradualmente, conforme o desenvolvimento motor do bebê avança e os movimentos motores aumentam em número, velocidade, acurácia e complexidade. No nível cognitivo, o bebê começa a assimilar, pouco a pouco, os esquemas de auto-alimentação através da observação e experimentação. Por isso, quanto mais oportunidades, maiores as chances das habilidades se desenvolverem naturalmente, sem que haja a necessidade de “treino”.

HABILIDADES

Figura 1. O desenvolvimento de uma habilidade é dependente de uma série de fatores, inerentes ao próprio indivíduo, ao ambiente que o cerca e às características da própria tarefa

 

Treino, inclusive, é uma palavra que eu prefiro não usar. Pela perspectiva do Baby-led Weaning e da Introdução Alimentar ParticipATIVA, o bebê neurotípico está predisposto a aprender e se desenvolver, sequencial e progressivamente, em um meio que favorece seu aprendizado. Assim, os talheres poderiam ser disponibilizados desde o início, porém sem expectativas de que o bebê irá começar a usá-los no tempo do adulto. O bebê vai começar a utilizar os talheres a partir da disponibilidade destes e de sua própria prontidão motora e cognitiva.

 

Favorecendo o uso dos talheres

Dito isso, vamos falar sobre oportunidades, e como acompanhar o desenvolvimento motor e cognitivo do bebê, organizando o ambiente e as tarefas de forma que o entorno seja positivo e favorecedor ao desenvolvimento das habilidades necessárias para o uso dos talheres (Figura 1).

 

Familiarização

Não existe dia certo para apresentar os talheres. Eles podem ser colocados na mesa ou bandeja do cadeirão antes mesmo da apresentação dos alimentos. Bebês que já sentam antes dos seis meses, não só podem como devem participar dos momentos de refeição familiar.

Leve o bebê junto à mesa com vocês e deixe que ele manipule os talheres, copos e pratos como brinquedos. Isso tudo faz parte do processo de familiarização, especialmente no início.

Baby Eating Food With A Spoon, Toddler Eating Messy And Getting

Deixe o bebê explorar os utensílios assim que ele começar a sentar com mínimo apoio

 

Garfo ou colher?

Nenhum dos dois. Saiba que a base motora para levar um talher à boca se inicia no momento em que o bebê começa a levar as mãos e os objetos à boca. A destreza com os dedos, preensão, o equilíbrio, o alcance são habilidades prévias que podem ser adquiridas ainda com um mordedor, um brinquedo, um pedaço de brócolis ou uma colher. Cada qual com uma formas, textura e peso diferente, irão ensinar ao bebê os esquemas motores básicos que futuramente vão ser utilizados na aprendizagem da auto-alimentação com talheres. Então não se prenda à esse detalhe, apenas dê diferentes oportunidades.

A medida que o bebê vai mostrando aumento da complexidade nas habilidades motoras, como começar a levar à boca o alimento com mais facilidade, começar a esboçar um movimento grosseiro de pinça e transferir alimentos de uma mão à outra, o talher já pode ser colocado com o intuito de despertar interesse para a auto-alimentação. As próximas descobertas serão lentas e graduais, especialmente por observação e experimentação.

 

Experimentação

Não existe regra para começar por um ou outro utensílio, como já foi dito. Mas, respeitando as fases de desenvolvimento motor e cognitivo do bebê, é bem provável que vocês dois se frustem menos sabendo como lidar e o que esperar durante a curva de aprendizagem.

Uma boa forma de começar com os talheres é apresentando uma colher rasa, preenchida com algum alimento pegajoso. O  bebê vai naturalmente ver o objeto como um brinquedo e levá-lo à boca (ou ao olho, cabelo, bochechas rs). Aos poucos ele vai percebendo que aquele objeto pode transferir aquela “coisa” com sabor, do prato/bandeja para a boca. E começa tentar mergulhar a colher e lamber o que fica grudado nela.

 

A colher rasa é mais fácil porque dispende menos energia e complexidade tanto para  para encher a colher como também para capturar e retirar o alimento com os lábios. Pratos com bordas altas e que não escorregam também facilitam que o bebê consiga encher uma colher mais facilmente, para então poder carregá-la até à boca.

 

Algumas marcas estrangeiras já pensaram estrategicamente nessa fase inicial, desenvolvendo uma colher pequena, completamente reta (sem a “concha”) e cheia de vilosidades. Ela permite que o alimento grude ao material com facilidade, reduzindo o grau de complexidade da tarefa motora. Assim, a partir dos seis meses, alguns bebês já fazem o movimento simples de levá-la até boca, como fazem com qualquer outro brinquedo. O uso desse utensílio não é de fato essencial, mas pode auxiliar especialmente as crianças com algum atraso motor.

 

E eu não indico usar a colher torta, a não ser que seu bebê tenha alguma alteração física ou motora que a faça necessária. Simplesmente porque os movimentos que a criança faz para levar o alimento à boca com uma colher torta são diferentes dos movimento que ela faz quando usa uma colher regular. Lembre-se, a tarefa também é importante na aprendizagem, e derrubar faz parte. Em alguns casos, a colher torta pode dificultar a aprendizagem da colher normal, visto que a criança vai ter que reaprender a usar o utensílio.

Outra coisa que você também pode gostar de saber é que o controle motor dispendido para levar o alimento para a boca com o garfo é muito menos complexo do que com a colher (que precisa de mais acurácia, força e equilíbrio). Você pode mostrar ao bebê que é possível espetar o garfo em uma fruta picada, por exemplo, e deixar que ele faça o movimento de levar até a boca.

 

Usar o garfo e alimentos picados pode ser inclusive uma estratégia bem eficiente para aquela fase em que os bebês jogam a comida longe apenas para ver a trajetória e a queda (estão aprendendo relações de causa e consequência por volta de 9-10 meses). Ensinar uma habilidade diferente nesse momento pode desviar o foco dessa “jogatina” e instigá-los a querer praticar o uso do garfo. Leia mais: Os 10 maiores desafios do BLW

 

Vocês são o modelo

Bebês naturalmente aprendem por observação. Então, culturalmente, se a sua família utiliza colher, garfo e faca, e vocês dão a oportunidade da criança se familiarizar e ter experiências com esses utensílios, fiquem tranquilos!

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Dê tempo ao tempo

De fato, uma das coisas mais importantes que você deve assimilar é que o uso dos talheres não acontece da noite para o dia. A grande maioria dos bebês tende a utilizar os talheres como um batuque inicialmente, levando meses para usar o talher para transportar o alimento do prato à boca. Alguns bebês internalizam o esquema rapidamente, e amam comer com talher, outros podem demorar meses (ou anos) para que decidam utilizá-lo.

De qualquer forma, quando se opta por um estilo de criação ativa que preza pela autonomia, é importante deixar as expectativas de lado. Se o bebê estiver disposto a comer, com certeza ele irá preferir usar as mãos, se para ele assim for mais fácil e prazeroso.

À medida que ele se desenvolve e percebe que o talher o ajuda a levar certos alimentos com mais facilidade à boca (como por exemplo arroz e feijão, uma sopa ou um mingau), ele tende a se interessar mais pelo seu uso também. Isso tende a acontecer após 1 ano, quando não somente suas habilidades motoras estão mais eficientes, como também seus esquemas cognitivos e suas habilidades psicossociais estão se desenvolvendo a todo vapor. Cada vez mais eles vão querer autonomia e serem reconhecidos por isso!

Devagar e Sempre! 😉

 

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co


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