Como ajudar a criança a aceitar novos alimentos?

bigstock--155442632.jpg

Pais de crianças pequenas geralmente se preocupam com os hábitos alimentares dos seus filhos. As queixas se relacionam geralmente com a dieta excessivamente limitada aos ultraprocessados, a rejeição a qualquer coisa verde, a recusa de tentar qualquer coisa nova ou as explosivas batalhas durante as refeições, que tornam a hora de comer estressante para todos. Frequentemente pais exasperados que – convencidos de que eles tentaram tudo – chegam à conclusão de que seu filho é constitucionalmente um “comedor exigente” e que é incapaz de expandir seus horizontes.

Foi assim que duas especialistas no campo dos desafios alimentares: Jessica Piatak, terapeuta ocupacional, e Kristina Carraccia, fonoaudióloga, ambas do The Center for Discovery, com sede em Nova York, se especializam em trabalhar com crianças com graves dificuldades de desenvolvimento, distúrbios do espectro do autismo e fragilidades médicas. Elas desenvolveram uma abordagem denominada pelas autoras de “Exploração e descoberta de alimentos”, chamada de FED (Food Exploration and Discovery). Esta abordagem tem sido usada com sucesso para tratar crianças com distúrbios sensoriais e comportamentais severos. Crianças que tinham antes dietas extremamente limitadas, geralmente compostas por dois ou três alimentos processados, passaram a ter uma dieta mais variada, nutritiva e com base em alimentos inteiros.

Embora algumas crianças possam levar mais tempo do que outras para essa transição, as terapeutas dizem ainda não terem encontrado um “comedor exigente” cuja dieta não pudesse ser ampliada com sua abordagem gradual, personalizada e flexível. Sua abordagem baseia-se em um único princípio fundamental:

“o objetivo não é simplesmente fazer a criança comer em toda refeição, mas sim chegar a um ponto em que uma criança come porque está intrinsecamente motivada para fazê-lo”

Este é um objetivo de mudança de comportamento a longo prazo e, como tal, pode levar um grande período de tempo para alcançar. O processo é gradual e realizado em passos progressivos. Pode levar de três a seis meses até que uma variedade mais ampla tenha sido adicionada com sucesso, podendo variar de 10 dias a 2 anos. Mas até à data, todas as crianças finalmente chegaram lá. Com uma abordagem flexível, a mentalidade correta e muita paciência, você pode transformar a hora da refeição.

 

Aqui estão algumas das dicas para começar:

 

Nunca force uma criança a tocar, provar ou comer um alimento.

Muitas escolas e famílias empregam táticas pra que a criança “apenas experimente”, com a promessa de que, se eles não gostarem, podem dizer “não, obrigado”. Ou ainda, prometem recompensas, que serão dadas se a criança comer certo alimento no jantar.

Essas abordagens prejudicam o objetivo de ajudar as crianças a se sentirem confortáveis ​​o suficiente para tentar – e aceitar – novos alimentos. Pense em como você pode sentir se, ao visitar um país estrangeiro, você for forçado a morder insetos fritos ou cérebro de bezerro, mesmo se puder dizer depois “não, obrigado”! Isso é o que algumas crianças com desafios alimentares podem sentir ao enfrentar um prato de verdes desconhecidos – particularmente crianças do espectro autístico.

Se você está empenhado em criar uma criança que come de forma variada e em ter uma hora de comer harmoniosa, criar um momento de refeição sem pressão é essencial. Para fazê-lo, comprometa-se a ficar do seu lado da divisão da responsabilidade alimentar e resistir ao impulso de forçar, coagir, subornar ou colocar alimentos na boca do seu filho.

Como Ellyn Satter, referência mundial nas práticas de alimentação da infância, ensina:

“Você decide o que servir e quando. Seu filho consegue decidir se deve comê-lo e, em caso afirmativo, quanto.”

 

Defina orientações e expectativas para as refeições.

As crianças podem ficar ansiosas quando não sabem o que esperar, e muitas vezes fazem melhor quando as rotinas são previsíveis. Com a hora da refeição não é diferente. As crianças podem se preocupar que não haverá algo que eles queiram comer, ou talvez que eles sejam forçados a tentar algo assustador. Piatak e Carraccia usam vários mantras adaptados a tais situações para ajudar a colocar as crianças à vontade.

Um exemplo de tal mantra de refeições, de acordo com Carraccia, pode assemelhar-se a isto: “Nós sentamos com nossa família. Se houver algo no seu prato que você não gosta, você pode colocá-lo em outro prato. Você pode comê-lo se quiser, mas você não precisa. Todo mundo ajuda a limpar a mesa quando acabamos de comer”. Repetir frases como essa ajudam a tornar a hora da refeição confortável, reduzindo a pressão que pode levar a uma dinâmica disfuncional das refeições.

 

Incentive as crianças com desafios alimentares a brincar com comida … Longe da mesa.

A maior parte da terapia de alimentação no The Center for Discovery não ocorre perto da mesa de jantar, de acordo com Piatak. O sucesso na mesa de jantar começa com uma variedade de técnicas de dessensibilização baseadas no jogo, que permitem que as crianças se sintam confortáveis ​​com as vistas, aromas, texturas e, eventualmente, gostos, de um alimento desconhecido em um ambiente divertido e de baixa participação. O jogo de comida incentiva as crianças a interagir com novos alimentos de forma não ameaçadora, sem expectativas. Conforme eles vão aprendendo mais sobre as propriedades de um alimento, vão gradualmente ficando mais confortáveis ​​para lamber ou até mesmo provar.

Diz Piatak: “Nós vamos colar alimentos em um caminhão de brinquedo. Ou podemos colocar vegetais ralados em nossos rostos como uma barba ou bigode e fazer caras engraçadas no espelho. O jogo da água também é um dos favoritos: vamos brincar com alimentos na água e às vezes adicionar bolhas. Ensinaremos as crianças a cuspir comida em uma tigela, e eles geralmente adoram, acham engraçado. E uma vez que eles sabem que têm permissão para cuspir uma comida, eles podem estar dispostos a saboreá-la”. “A improvisação”, acrescenta Carraccia, “é a chave”.

 

Transição progressiva e gradual.

Roma não foi construída da noite para o dia, e não é realista esperar que uma criança que só coma nuggets de frango e macarrão sem molho de repente se transforme em alguém que ama couve e quinoa. A abordagem FED entende a criança como ela é, aprendendo sobre seus alimentos e marcas preferenciais e tentando replicá-los de maneiras sutilmente modificadas. “Começamos apresentando outras versões de seus alimentos favoritos – como talvez nuggets de frango orgânicos ou cachorros-quentes – para tentar replicar sua marca preferida. Ou podemos misturar algum arroz diferente com o tipo usual que eles aceitam em casa, ou trocar nosso queijo pelo seu tipo usual de queijo em um sanduíche de queijo grelhado “, explica Piatak.

Lentamente, os terapeutas começam a incorporar novos alimentos, continuando a fazer pequenas mudanças nos alimentos preferidos. Talvez adicione um tempero diferente à pizza para mudar o sabor. Então, pizza na crosta torna-se pizza no pão, pizza sem molho, pizza com uma meia colher de chá de proteína ou vegetais. Ao longo do tempo, eles podem tirar a parte do pão completamente e trocar por um hambúrguer de peru coberto com molho e queijo. Então o molho se foi. Em seguida, o hambúrguer de peru transita para um hambúrguer de vegetais, ou vegetais desfiados são incorporados em empanadas caseiras. Na população que Piatak e Carraccia atendem, este processo é intencional e, muitas vezes, lenta, para ajudar a dessensibilizar crianças com fortes aversões sensoriais a novos alimentos. Com crianças levemente seletivas, você poderia ignorar uma ou duas etapas no processo.

 

Ofereça o familiar ao introduzir o novo.

Muitas mães com quem falei são da opinião de que oferecer uma comida favorita, como batatas fritas ou cachorros-quentes, ao tentar introduzir uma comida nova e saudável prejudicaria suas chances de sucesso. Certamente, se houver uma comida preferida oferecida, então uma criança não tem incentivo para tentar o novo alimento, certo? De fato, o oposto provavelmente é verdadeiro.

Os níveis de ansiedade podem ser elevados quando uma criança encontra uma mesa cheia de alimentos desconhecidos, e o estresse pode fazê-la recuar, recusando insistentemente a provar qualquer coisa. Mas uma criança que acredita que tem pelo menos alguma coisa na mesa que ela possa comer confortavelmente, acaba entendendo que não estão apostando que ela irá provar algo novo. Então, a noite de cachorro-quente é um ótimo momento para introduzir um complemento, como uma sopa de ervilha. E a noite de pizza é uma oportunidade para oferecer um buffet de opções de cobertura – desde cogumelos e azeitonas até manjericão e alcachofras – que a criança pode encontrar e considerar.

Piatak e Carraccia usam o familiar como trampolim para novos alimentos. Se uma criança ama iogurte, por exemplo, ela pode mergulhar um florete de brócolis no iogurte e apenas sentir a textura do brócolis na língua enquanto lambe o iogurte. Importante: aconselha-se paciência com a transição. Só porque uma criança não coloca a comida na boca, isso não significa que o progresso não está sendo feito. Cada nova exposição desensibiliza um pouco mais a criança e, à medida que aumenta o conforto, cresce também a vontade de experimentar novos alimentos.

 

Nunca atrapalhe as crianças a comerem algo.

A confiança é a base do relacionamento com a alimentação, como em qualquer outro relacionamento, e você está violando essa confiança ao, vamos dizer, esconder espinafres processados em seus brownies, ou beterrabas em suas vitaminas. Além disso, uma vez que o objetivo é fazer com que as crianças comam porque são intrinsecamente motivadas a fazê-lo, você não vai conseguir nada escondendo um pedaço de espinafre no corpo da criança que não  escolheu consumir por sua própria vontade. É como ganhar uma batalha, mas perder a guerra. Carraccia explica que não é necessário esconder o que é diferente na comida da criança. “Nós dizemos: ‘Esta é pizza com um pouco de brócolis’, e nunca tentamos enganar. Nós sempre somos honestos, e não tentamos misturar as coisas para que a criança não saiba, porque todo esse processo é baseado na confiança”.

 

Texto traduzido e adaptado de Health US News, escrito pela Nutricionista Tamara Duker Freuman, texto original aqui.

10 dicas para melhorar a alimentação das crianças pequenas

bigstock--135849584

Quem acompanha a gente no instagram e facebook, viu que começo do ano foi punk por aqui. Mas algumas coisas estão funcionando bem e acho que podem te ajudar:

1 – Acertar a rotina. Não é fácil, tem chororô, soneca sem almoço, almoço mais tarde, dia sem jantar, jantar com tv, fruta às 11 da noite, almoço requentado na janta… E apesar de eu me esforçar, tem dias que nada dá certo e que essas situações acontecem mesmo. #MaternidadeReal, nua e crua.

2 – Antecipar a rotina. Converso sobre tudo o que vai acontecer em cada horário, e reforço isso diariamente. Ele aprendeu o que é café da manhã, almoço, lanche e jantar, e o que se come e o que não se come em cada uma dessas refeições.

3 – Não ter hábito de comprar guloseimas. Ou eu acabava com os biscoitos, ou eles acabavam comigo. Isso não quer dizer que estão proibidos, apenas que dificilmente tem no armário.

4 – Colocar as “tentações” em cima da geladeira, onde ele não alcança. Aqui o principal é o pão. O combinado é comer pão, ou no café da manhã, ou no lanche da tarde.

5 – O almoço é a refeição mais sagrada. Almoçamos todos juntos e não tem barganha. Não quer almoçar, não precisa, mas também não tem pão-biscoito-chocolate-sorvete-fruta ou qualquer outra coisa que ele queira que não esteja entre as opções do almoço. Se não quiser almoçar, beleuza, à tarde ele pode comer alguma dessas coisas na hora do lanche. É claro que isso envolve um chororô nos dias que teima, e vários dias resolve sentar pra almoçar sozinho, depois que todos já terminaram e ele já se acalmou.

6 – Oferecer apenas frutas e/ou leite no café da manhã. Às vezes não consigo (porque ele vê a gente comendo outras coisas e pede), mas quando ele come só fruta no café da manhã, ele almoça bem melhor.

7 – Ajudar no preparo das refeições sempre que possível! No jantar, principalmente, adora fazer seu ovinho mexido.

8 – Se servir sozinho! Dica da Dani @bb_blw, aqui em casa deu super certo. Ele se serve do que mais gosta e come muito melhor (veja o vídeo).

9 – Café da manhã reforçado com ovos mexidos antes de qualquer festa regada a doces.

10 – Dar limites e respeitar. Embora minha maior dificuldade seja aceitar escolhas não saudáveis, sigo no mantra “faço minha parte” 🙂

Aline P

 

CONALCO2017

5 dicas para criar uma criança que come de tudo

Traduzido e adaptado de Fit Pregnancy and Baby, escrito por Lindsay Tigar – Texto original aqui.

dreamstime_xl_72948182.jpg

Amplie o paladar do seu bebê!

Uma das melhores partes da vida é poder ter experiências através de todos os seus sentidos – e o sabor é uma das primeiras e melhores maneiras de experimentar o mundo.

As papilas gustativas de um bebê são desenvolvidas a partir do momento em que nascem, e cabe a você apresentar novos sabores e texturas para o seu pequeno. Mas como exatamente fazer isso? Alguns especialistas compartilham aqui tudo o que você precisa saber sobre o treinamento do paladar!

 

Por que treinar o paladar é importante?

Treinar o paladar é mais do que permitir que seu bebê coma uma dieta variada e saudável. “Ensinar as crianças a apreciar uma grande variedade de alimentos é tão vital quanto outras habilidades para a vida”, explica a nutricionista Diana K. Rice. “Não só irá ajudá-los a consumir regularmente uma dieta mais nutritiva, como também é uma importante habilidade social para toda a vida, além de reduzir as situações de estresse quando se come fora de casa”.

Também ajuda o bebê a interagir com seus irmãos (atuais ou futuros), construindo pontes que conectam toda sua família. Pense sobre aquela receita familiar incrível, ou simplesmente um dia da semana em que todos se reúnem à mesa: as famílias, muitas vezes, compartilham preferências alimentares que, embora não sejam herdadas, são encorajadas através das gerações. “Treinar o paladar é importante porque é inevitável”, explica Adina Pearson, nutricionista e autora do blog HealthyLittleEaters.com e co-autora do FeedingBytes.com. “Se você quer que seus filhos desfrutem os alimentos que sua família gosta, eles precisam ter experiências com eles”.

 

Quando você deve começar a treinar o paladar da criança?

Alguns especialistas acreditam que o treinamento do paladar acontece ainda no útero, com base na dieta da mãe. Mas esse treinamento oficialmente começa quando o bebê experimenta alimentos sólidos, diz Pearson: “Todos os bebês começam a treinar o paladar simplesmente através da seleção de alimentos oferecidos”.

Mas há mais do que apenas quais perfis de sabores seu bebê irá gostar: doces ou salgados, azedo ou amargo. Encoraje seu filho a interagir também com várias texturas, para que ele não desenvolva aversão a algo mais duro ou crocante, por exemplo. “Os princípios que apoiam o treinamento do sabor, como rotinas de refeições positivas e exploração de alimentos, podem ser feitos à medida que os sólidos são introduzidos – por exemplo, permitindo que o bebê toque e explore alimentos quando ele começa a desenvolver habilidades motoras”, explica Grace Wong, Mestre e Nutricionista Materno Infantil.

 

Como faço para começar?

Com tantas opções de alimentos, pode parecer um tanto desafiador descobrir como apresentar seu filho a uma variedade de sabores e texturas. Veja como fazer isso direito:

 

1 – Não apenas dê o que ele quer.

Se você tem ou conhece uma criança com mais de 3 anos de idade, então você definitivamente sabe como é um comedor exigente. Para evitar que seu filho queira criar o seu próprio jantar, experimente a sugestão da nutricionista Diana K. Rice: se você descobrir que seu bebê gosta de cenouras, apresente também a beterrabas.

“Mude o que você está oferecendo. Não pense, ‘Ah, ele gosta disso, vou ter certeza de dar-lhe muitas vezes.’ Pense, ‘Ok, ele gosta disso, então é melhor eu tentar um vegetal diferente hoje.’ Ofereça as cenouras novamente em cerca de uma semana para que seu filho se lembre dela “, explica Rice. “Você também pode usar os alimentos que seu bebê prefere e apresentá-lo a sabores adicionais. Pense em cenouras assadas com alho e ervas ou jogadas com um fio de vinagre balsâmico “.

 

2 – Desfrutem o comer em família.

Embora muitas famílias tenham dificuldade em encontrar o tempo necessário para isso, sabe-se que sentar e desfrutar de uma refeição em conjunto não é importante apenas para a construção de laços afetivos fortes, mas também para a normalização de sabores.

Wong diz que, mesmo que você não consiga fazer isso todas as noites, tente ao menos fazer refeições familiares nos finais de semana. Durante este tempo, seu bebê começará a assistir como o resto da família come e se sente mais confortável com o compartilhamento e a tentativa de provar novos alimentos – especialmente se eles o veem comer primeiro.

Wong diz que isso cria a mentalidade de que não há diferença entre “refeições para crianças” e “refeições para adultos”. “Adultos e crianças podem compartilhar a mesma refeição, incluindo alimentos que são familiares para seu filho, bem como alimentos novos”, diz Wong. “Desta forma, você não ficaria preso em uma rotina de servir os mesmos alimentos uma e outra vez novamente. Você tem a liberdade de servir uma variedade de alimentos e proporcionar-lhes oportunidades para explorar e familiarizar-se com novos alimentos”. Claro, certifique-se de que qualquer alimento familiar seja apropriado para a idade do seu bebê.

 

3 – Dê-lhe uma verdadeira prova, não uma refeição.

Rice diz que “as duas coisas mais importantes a ter em mente são começar com pequenas porções e oferecer alimentos consistentemente. Ofereça apenas uma quantidade de um novo alimento e não coloque um prato inteiro na frente do seu filho na esperança de que ele gostará e decidirá comer mais “, diz ela. “Se a criança comer o bocado, você pode oferecer mais, mas não pressioná-la. E se ela comeu ou não o pequeno bocado de comida, ofereça-o novamente em alguns dias até que ela finalmente esteja disposta a comer”. 

 

4 – Não fique desapontado se ele não gostar.

Não é um ataque pessoal ao seu estilo parental ou às suas habilidades culinárias, se seu filho simplesmente não consegue correr atrás das ervilhas. Ou do brócolis. Ampliar o paladar não é fazer do bebê um cozinheiro novato com um paladar refinado, mas sim, permitir que ele explore suas próprias preferências.

“Eu gosto de encorajar os pais a experimentar este exercício: coloque a criança no cadeirão e lhe ofereça três pequenos brinquedos. Ele vai em direção a um brinquedo e ignora outro? Você sente como uma falha porque seu filho está ignorando um brinquedo que você ofereceu? Eu duvido muito disso! 

Quem sabe por que as crianças têm as preferências que eles fazem?”, Diz Rice. “Com a comida, o importante a fazer é consistentemente apresentar um alimento que a criança já rejeitou antes de aceitá-lo. E se eles realmente parecem odiar um punhado de sabores, aceite. A maioria dos adultos tem algumas coisas que eles preferem não comer, também“.

 

5- Melhor tarde do que nunca …

Se você já passou da introdução alimentar, ainda há tempo para ampliar o paladar. “Não é tarde demais se o seu filho já é criança. Apenas comece o quanto antes”, recomenda Rice. “As preferências de sabores que desenvolvemos na infância influenciam nossos padrões de alimentação ao longo da vida. Quanto mais seu filho estranha novos alimentos, mais trabalho você terá para reverter essas preferências”.

 

CONALCO2017

Como a alimentação pode melhorar ou piorar a prisão de ventre?

 

Por Nutricionista Michelle Bento

Untitled design (42)

A prisão de ventre é uma queixa muito comum nos consultórios pediátricos e pode deixar os pais muito angustiados. Mas antes de falarmos de qualquer tipo de tratamento é preciso considerar que variações na consistência das fezes e frequência de evacuações em crianças é muito comum e não necessariamente essa mudança representa um problema. Essa alteração pode ser natural e/ou temporária e não causar nenhum mal. É esperado, por exemplo, que os bebês aos 4-6 meses evacuem menos vezes ao dia do que com 1 mês de vida e o padrão de evacuação de bebês que mamam leite materno é diferente daqueles que mamam fórmula.

Com o início da alimentação sólida as fezes vão começar a tomar mais forma, ficam mais consistentes e alguns passam por uma dificuldade momentânea na evacuação que diz respeito à adaptação à nova alimentação. Além disso, é comum que as crianças fiquem 2 ou 3 dias sem evacuar, mas com fezes macias e que não provocam nenhum incômodo. Portanto, é preciso que os pais estejam atentos não somente ao intervalo entre as evacuações, mas ao comportamento do bebê (bebês com constipação intestinal ficam mais irritados, pois podem sentir dor), se as fezes estão macias, pastosas ou ressecadas, no formato de pequenas bolinhas endurecidas e se o bebê faz força como se fosse fazer coco e não sai nada. Esses são alguns dos sinais de alerta.

A definição de constipação intestinal infantil segundo o critério de ROMA III inclui outras variáveis que não só a frequência de evacuação, justamente devido à grande variação normal que existe entre as crianças saudáveis. Para determinar que há constipação intestinal funcional, deve haver a presença de 2 ou mais dos seguintes sinais e com duração de pelo menos 1 mês em menores de 4 anos:

– Dois ou menos defecações por semana;

– Ao menos um episódio de incontinência fecal por semana (em crianças que já controlam o esfíncter);

– História de retenção excessiva de fezes (a criança parece segurar o coco, com medo de evacuar);

– História de dor para evacuar;

– Presença de bolo fecal no reto (deve ser avaliado pelo pediatra);

– História de fezes de grande diâmetro, que entopem o vaso sanitário.

Como a alimentação pode contribuir para evitar ou melhorar o problema?

Uma criança com dificuldade de evacuação pode estar ingerindo uma baixa quantidade de fibras.  Em bebês que estão começando a comer a ingestão de fibras será mesmo baixa, pois ainda se alimentam basicamente de leite. E em alguns pode ocorrer uma certa dificuldade na eliminação de fezes mais consistentes nas primeiras semanas que vão melhorando conforme o bebê for aumentando a ingestão de fibras. Mas vale lembrar mais uma vez que se o número de evacuações diminuiu, mas não existe nenhum outro sinal de alerta não é preciso se preocupar. Apenas observe como estará a consistência do coco quando ele o fizer. Agora se as evacuações estão menos frequentes e, além disso, o bebê tem irritabilidade, barriguinha distendida, faz força e não sai nada e as vezes estão ressecadas podemos tentar algumas mudanças na rotina para ajudar na eliminação do coco e evitar esse desconforto.

Na minha prática profissional não costumo fazer restrição de nenhum alimento, nem tão pouco sugerir que se use alimentos específicos diariamente para estimular a evacuação. Essa ideia de que alguns alimentos prendem e outros soltam vem da proporção de fibras solúveis e insolúveis que cada um deles possui. E na verdade cada uma tem o seu papel no funcionamento intestinal e, dentro de uma dieta equilibrada e variada, esses componentes vão se ajustando e não causam nenhum problema. Considero mais importante pensar na variedade de alimentos que essa criança recebe, avaliar se a hidratação está correta (e quanto mais fibra na alimentação, mais água é necessária) e usar alimentos mais ricos em gorduras saudáveis para ajudar na lubrificação, como o abacate, azeite e óleo de coco, por exemplo, que muitas vezes ficam esquecidos na alimentação das crianças pequenas. É bem comum que os pais recebam a orientação de cozinhar a comida do bebê com pouca ou nenhuma gordura, quando na verdade uma gordura de boa qualidade é fundamental.

Mas de qualquer forma cada criança e sua rotina devem ser avaliadas individualmente para que se identifique o que pode estar causando a dificuldade NAQUELA criança, no lugar de fazer orientações gerais e vagas que funcionariam como uma “fórmula” que todos podem e devem usar. Então, se seu filho (a) apresenta esse quadro vai ser muito mais eficaz e adequado procurar onde está a causa do problema (É fibra? É hidratação? A gordura está adequada? Tem alguma causa orgânica?) do que dizer que ele precisa  comer mais mamão e parar de comer bananas, certo?

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

Bibliografia

UJJAL PODDAR. Approach to Constipation in Children. Indian Pediatrics, v. 53, p. 319-327, 2016.

CONALCO2017

Meu bebê parou de comer!

dreamstime_xl_50906537.jpg

Durante a fase de introdução alimentar, os bebês passam por diversas fases de inapetência, o que é absolutamente normal, mas deixa qualquer cuidador de cabelo em pé. São inúmeras as razões, que afetam não só a alimentação, como também o humor e o sono do bebê. Por isso, antes de se gabar aos quatro ventos que seu filho come tudo, ou dorme a noite inteira, previna os cuspes na testa e tente passar pelos 3 primeiros anos de vida sem surtar em cada uma dessas fases.

As dificuldades alimentares em crianças em desenvolvimento típico podem ter início durante essas fases de inapetência. Ao invés de tratar esses períodos como uma etapa de desenvolvimento normal da criança, profissionais despreparados costumam piorar a situação com a simples frase “esse bebê precisa comer”. Uma frase tão curta, mas com um potencial enorme de desequilibrar toda uma dinâmica de alimentação. A família torna-se ansiosa, aumentando os níveis de estresse e frustração durante as refeições. E o impacto emocional durante as refeições tem grande influência nos resultados futuros de alimentação (Morris & Klein, 2000).

Uma grande falácia do atendimento pediátrico em qualquer especialidade é orientar o desmame para que o bebê coma mais. Acontece que durante os dois primeiros anos de vida o alimento é complementar ao leite materno, e não o contrário. Por isso, amamentar até os dois anos ou mais, como recomenda a Organização Mundial da Saúde, só faz com que a família tenha mais segurança em respeitar a criança nessas fases de inapetência, e passar por esses períodos sem trauma ou estresse.

Os primeiros três anos de vida coincidem com uma série de grandes mudanças na vida do bebê. Muitas vezes acontecem em série, e em concomitância com outras situações, podem deixar o bebê bastante agitado, desregulando seu padrão habitual de fome e sono. Sabendo-se que é esperado que o bebê passe por essas fases transitórias, o cuidador torna-se atento à mudanças sutis no comportamento, relacionando as causas e baixando a expectativa em relação aos padrões de alimentação e sono.

Demonstrar empatia, acolher e buscar soluções viáveis a curto prazo são essenciais para que família e bebê passem por essas fases sem traumas.

Saltos de Desenvolvimento

“Meu filho não quer mais ficar no cadeirão, está com 11 meses e fica jogando a comida no chão e olhando pra baixo. Está quase andando e não para quieto um minuto. Não sei mais o que fazer”

Toda vez que o bebê começa a desenvolver uma nova habilidade, ele fica tão excitado durante o processo, que quer praticar a todo momento. Durante esses períodos, eles podem resistir às rotinas já estabelecidas e podem mudar os padrões aos quais os pais já estavam habituados, como a hora da refeição.

Nos dias que antecedem o chamado salto de desenvolvimento, o bebê se sente perdido dentro do que já lhe era conhecido. Seus sistemas perceptivo e cognitivo mudaram, houve maturação neurológica, mas não houve tempo hábil para adaptação às mudanças.

O bebê passa a reconhecer o mundo de forma diferente, situação que com frequência gera ansiedade. O bebê tende a voltar para o seu porto seguro, geralmente, a mãe. O resultado é o aumento da demanda de mamadas, do colo e a modificação dos padrões de sono, humor e apetite. Mas depois da aquisição de uma nova habilidade (como sorrir, interagir, sentar, engatinhar, andar, falar) o bebê dá um salto no desenvolvimento e fica feliz com o final da ‘crise’.

A duração de cada salto pode variar, podendo durar dias ou semanas, podendo voltar ao padrão anterior como se nada tivesse acontecido. A aquisição da nova habilidade é facilmente notável e o bebê está claramente satisfeito e independente com a nova situação. Essas aquisições ocorrem em vários aspectos: desenvolvimento motor, desenvolvimento do controle motor fino, linguagem e desenvolvimento social.

Seria cômico, se não fosse trágico, mas no primeiro ano de vida o bebê passa por saltos de desenvolvimento praticamente todos os meses. Então é bem natural que o apetite seja extremamente flutuante no primeiro ano de vida.

 

Picos de crescimento

“Meu filho não quer mais comer, chora quando o coloco sentado no cadeirão, só quer peito, peito, peito…”

Picos de crescimento são fenômenos que se referem ao crescimento do bebê, períodos em que precisam de mais alimento para crescer em um ritmo mais acelerado. Então um bebê que dormia longos períodos à noite, pode começar a acordar mais e solicitar mais mamadas. Esta necessidade geralmente dura de poucos dias a uma semana, seguido de um retorno ao padrão menor de mamadas, mas agora com o organismo da mãe adaptado a produzir mais leite. É muito importante respeitar a demanda aumentada, pois somente assim a produção de leite materno poderá se ajustar perfeitamente às necessidades do bebê.

Pode ser que o bebê se prontifique à comer mais, se ele já tiver entendido que comer mata a fome. Por outro lado, se o bebê ainda associa a saciedade com a alimentação láctea, é bem provável que ele recuse a comida em detrimento ao leite, pois é dessa forma que o corpo dele entende que ele vai garantir o necessário para crescer. Além disso, o leite materno é um alimento muito completo e tem muito mais calorias do que uma papinha ou pedaços de frutas ou legumes. Sabiamente, seu corpinho vai preferir o que irá lhe garantir maior aporte calórico e menor gasto de energia para essas fases de “estirão”.

Nesses períodos a mãe pode interpretar incorretamente e achar que seu leite é insuficiente, ou pior, ser induzida a achar que seu leite é fraco. Em ambos casos, a primeira solução parece ser o complemento de leite artificial. O que é um erro, pois perde-se o poderoso estímulo de sucção no peito, prejudicando o equilíbrio perfeito da natureza de produzir o leite conforme a demanda.

Outra situação bastante frequente relacionada ao crescimento é que, mais cedo ou mais tarde, o bebê passa a comer menos, devido à mudança do ritmo de crescimento da criança. No primeiro ano, os bebês engordam e crescem mais rapidamente do que em qualquer outro período da vida fora da barriga da mãe. E a criança de 1 a 6 anos, que cresce lentamente, come proporcionalmente menos do que a de seis meses ou a de doze anos, que estão em períodos de rápido crescimento.

É importante reforçar que nem toda criança come igual, nem cresce no mesmo ritmo ou acompanha as curvas de peso. Por isso, é essencial avaliar outros dados, e que isso seja feito em uma consulta individualizada, preferencialmente com um o pediatra e o suporte de um nutricionista infantil.

 

Angústia da separação

“Meu bebê não aceita ficar no cadeirão, só quer ficar no colo. Só come com outras pessoas, comigo só quer peito, peito, peito…”

Por volta de 6-8 meses, o bebê começa a perceber que é um indivíduo separado da mãe. Essa descoberta lhe traz angústia e medo, e por isso ele pode pedir mais colo, chorar mais que o usual e solicitar muita mais atenção da mãe.

Neste momento, a mãe ainda é o centro do mundo do bebê e representa seu porto seguro. Como a noção de permanência não está completamente estabelecida, essa angústia é muito acentuada. O bebê não consegue entender que a mãe continua ali, mesmo quando está longe do seu campo de visão.

A Dra Andréia Mortensen, neurocientista, explica o seguinte:

“O sistema de angústia da separação, localizado no cérebro inferior, está geneticamente programado para ser hipersensível. Nos primeiros estágios da evolução humana era muito perigoso que o bebê estivesse longe da sua mãe. Se não chorasse para alertar seus pais do seu paradeiro, não conseguiria sobreviver. Então, quando o bebê sofre pela ausência dos seus pais, no seu cérebro ativam-se as mesmas zonas que quando sofre uma dor física. Ou seja, a linguagem da perda é idêntica à linguagem da dor. Não tem sentido aliviar as dores físicas, como um corte no joelho, e não consolar as dores emocionais, como a angústia da separação. Mas, infelizmente, é isso o que fazem muitos pais, por não conseguirem aceitar que a dor emocional de seu filho é tão real como a física. Essa é uma verdade neurobiológica que todos deveríamos respeitar.

O período “crítico” de desenvolvimento emocional e social ocorre nos primeiros 18 meses da criança. A parte do cérebro que regula as emoções – a amídala – é formada cedo, de acordo com as experiências que o cérebro recebe. O desenvolvimento de um vínculo emocional, empatia e confiança, e todos os aspectos da inteligência emocional fornecem o fundamento para desenvolvimento de outros aspectos emocionais conforme a criança cresce. Então, nutrir emocionalmente e responsivamente o bebê é importante para que a criança aprenda empatia, felicidade, otimismo e resiliência na vida.

Então, se se a mãe tiver que se afastar do filho pequeno para trabalhar ou por outro motivo, muito carinho, conversa, paciência e coerência nas atitudes são necessários para que ele continue tendo confiança nela e supere esse período de crise. É também muito importante certificar-se que o bebê criou um vínculo afetivo com o outro cuidador. 

Nessa fase, procure passar todo tempo possível com seu bebê, principalmente se trabalha fora. Separe os momentos logo após o reencontro do dia de trabalho para ter dedicação exclusiva a ele. Sente confortavelmente, faça contato olho no olho, amamente, interaja com seu bebê. Você pode estar cansada e estressada depois da longa jornada de trabalho, mas se conseguir um pouco de energia para receber seu bebê com alegria, você também se sentirá melhor após alguns minutos de uma reconexão significativa. Somente depois pense no jantar, no banho e outros afazeres. Considere promover proximidade na hora de dormir se suspeita que o bebê tem acordado mais a noite por estar passando por um pico de ansiedade de separação.”

Leia o texto completo da Dra Andréia Mortensen, sobre saltos de desenvolvimento, picos de crescimento e angústia da separação, nesse LINK.

 

O nascimento dos dentes

“Meu bebê não quer mais pegar a comida, vira o rosto para a colher, empurra e joga tudo no chão. Está salivando muito, acho que vem dente por aí…”

Os dentes começam a nascer mais ou menos aos 6 meses de idade. Os primeiros a aparecer são os incisivos centrais inferiores, seguidos pelos incisivos centrais superiores, e incisivos laterais inferiores. Por volta de 1 ano e meio surgem os incisivos laterais superiores, e então começa a erupção dos dentes mais posteriores como os caninos e os molares. Aos 3 anos, aproximadamente, o bebê terá todos os dentes de leite. E é normal um atraso de aproximadamente 8 meses.

 

Os primeiros sinais de que os dentinhos estão chegando são coceira na gengiva pela pressão dos dentes, gengiva mais abaulada e esbranquiçada e aumento da salivação por conta do amadurecimento das glândulas salivares e pela incapacidade do bebê engolir toda a saliva. Alguns bebês ainda apresentam: dor, febre baixa (até 38º), diarreia e acidez nas fezes (o que pode causar assaduras), constipação nasal e aumento de secreção nasal. Apesar desses últimos não terem comprovação científica, não é incomum encontrar relato desses sintomas entre os bebês dessa idade.

Todos esses sintomas deixam o bebê mais agitado, podendo facilmente interferir nos padrões de alimentação e sono. Alimentos mais consistentes ajudam a massagear a gengiva, mas se houver dor, é comum que o bebê os rejeite completamente. Ofereça alimentos frios e amolecidos, progredindo a consistência aos poucos, até que se perceba que o incômodo maior tenha passado. A melhor forma de saber isso é deixando os sólidos à disposição. O próprio bebê vai saber quando é a hora de voltar a comer normalmente.

Géis anestésicos podem levar ao engasgo e aspiração pela dessensibilização da região orofaríngea e são portanto contra-indicados. A Associação Brasileira de Odontopediatria comunicou ainda, em nota oficial, que produtos a base de benzocaína não devem ser usados em crianças menores de dois anos de idade, exceto sob a orientação e supervisão de um profissional de saúde. O Comitê de Drogas dos EUA (FDA) fez um alerta ao público de que o uso de benzocaína, principal ingrediente de produtos fármacos usados para reduzir a dor na boca ou nas gengivas, está associado a uma rara, mas grave doença. Esta condição é chamada metemoglobinemia e resulta na redução significativa da quantidade de oxigênio transportado no sangue, podendo levar à óbito.

Se a irritação e/ou dor for muito intensa, consulte o pediatra. Você pode ainda tentar tratamentos homeopáticos ou fitoterápicos, com profissionais especializados.

 

 

Outras mudanças

“Há dias meu bebê não aceita nada além de frutas. Mudamos de casa há 1 mês e ele começou a ir para a escola. Seus horários de soneca estão todos desregulados e ele tem aumentado as mamadas noturnas…”

Outros acontecimentos, como o nascimento de um irmãozinho/a, introdução de alimentos novos, o retorno da mãe ao trabalho e entrada em creche, viagens, doenças, separação dos pais, atritos com coleguinhas, ausência de um ente querido, entre outros, podem interferir no sono e na alimentação da criança.

Outros motivos que podem ocasionar a falta de apetite em crianças é quando estão resfriadas, gripadas, com alguma infecção, principalmente de garganta. O calor excessivo pode dar moleza, desânimo e vontade de “comer nada” também. Nesses casos, ofereça muito líquido para hidratação e alimentos mais leves, já que a criança não consegue se alimentar normalmente.

Em todos esses casos, tenha muita paciência e empatia. Coloque-se no lugar da criança, e espere a causa ser resolvida para que, gradualmente, a rotina pode ser restabelecida.

Cabe ressaltar que períodos prolongados de inapetência, associados ou não com perda de peso e falha no crescimento, devem ser investigados. Se a criança apresenta sonolência, palidez e pouca disposição junto com a falta de fome pode indicar falta de nutrientes importantes, como ferro, cálcio, vitaminas e zinco. Leve-a ao pediatra e fale com ele sobre a situação. Alguns exames podem ser feitos. Entre outras causas mais graves, que devem ser investigadas e tratadas estão: doença do refluxo gastroesofágico, alterações no sistema digestivo, anemia, alterações motoras, doenças infecciosas, entre outras causas.

 

Faltará algum nutriente se ele não comer nada além do leite?

A partir dos 6 meses, a reserva de ferro que alguns bebês tinham ao nascer se acaba, e eles precisam comer ferro de outras fontes. É um dos motivos pelos quais se inicia a alimentação complementar aos 6 meses. Outros bebês, tem uma reserva de ferro maior e não precisariam de ferro extra até os 12 meses ou mais.

Por isso, é importante que, entre os primeiros alimentos que forem oferecidos ao bebê, estejam as carnes e os ovos, e que possam comer frutas ricas em vitaminas C antes ou após as refeições, que auxilia na absorção do ferro. A nutricionista Michelle Bento explica tudo isso melhor nesse post aquiGarantindo energia e ferro para o bebê no BLW

 

Aline P

 

CONALCO2017

 

Referências:

Dra Relva (2013). O livro da Maternagem. Pediatria Radical.

Gonzales, C (2016). Meu filho não come. ed Timo.

Morris & Klein (2000). Pre-Feeding Skills: A Comprehensive Resource for Mealtime Development 2nd Edition.

 

Mandel et al (2005). Energy Contents of Expressed Human Breast Milk in Prolonged Lactation. 

 

Sites consultados:

https://fortissima.com.br/2013/09/25/causa-falta-apetite-criancas-16290/

http://guiadobebe.uol.com.br/fases-de-crescimento-e-desenvolvimento-que-modificam-o-sono-do-bebe-e-da-crianca/

http://guiadobebe.uol.com.br/primeiros-dentinhos/

O que você não sabe sobre o Baby-led Weaning

Introdução alimentar: tradicional, BLW ou participativa? – Parte II

por Aline Padovani, Fonoaudióloga

dreamstime_xl_19021767

 

Na introdução alimentar tradicional são os pais quem decidem quando e como o bebê começa a comer, e quando acaba a alimentação à base de leite. Já no baby-led weaning, o bebê tem autonomia para decidir quando começa e quando termina todo esse processo, e a alimentação é baseada nos seus instintos inatos e na sua capacidade de auto-regulação.

O BLW é uma abordagem de introdução alimentar que engloba oferecer alimentos saudáveis, compartilhando as refeições da família, certificando-se de que apenas o bebê coloque comida em sua própria boca. Aos pais e cuidadores, fica a responsabilidade de confiar que ele saiba se deve comer, o que comer, o quanto e com que rapidez – além de oferecer alimentos palpáveis desde o início, possibilitando assim que eles peguem com suas próprias mãos (Rapley, 2016).

E assim como a Introdução Alimentar Tradicional, o BLW também está cerceado por crenças que dificultam o entendimento da abordagem e, portanto, dificultam sua aceitação. Inúmeras famílias adaptam-se completamente ao BLW, sendo urgente a desmistificação de alguns conceitos para que os profissionais da saúde que acompanham essas famílias estejam aptos e prontos para aconselhá-las.

Saiba mais sobre o Curso Avançado em BLW e Introdução Alimentar ParticipATIVA.

 

“BLW é comer alimentos em pedaços”

Eu costumo dizer que os alimentos em pedaços são o meio e não o fim. Adequar os cortes dos alimentos para que o bebê possa pegá-los é muito importante pois, de outra forma, suas habilidades seriam insuficientes pra que ele tivesse autonomia pra se auto-alimentar, sem interferência, desde o início. Mas embora seja uma etapa fundamental do processo, o objetivo principal é que a partir da apresentação dos alimentos em pedaços, o bebê seja capaz de ser o protagonista da sua própria alimentação.

Assim, BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança dele para saber o que ele precisa. Se você está preocupado em oferecer o que restou com uma colher, depois do bebê ter comido com suas próprias mãos, então você não está realmente confiando nele. E o ponto é que confiar em seu bebê e não confiar muito nele são simplesmente incompatíveis. Assim, ao fazer algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação da colher pode funcionar para você, mas não é BLW (Rapley, 2016)

Leia mais: O que você está fazendo é BLW? E isso importa?

 

“Bebês não são capazes de comer sozinhos”

Não apenas os bebês SÃO capazes de comer sozinhos a partir dos seis meses, como muitos aceitam ser alimentados apenas dessa forma. Muitas famílias relatam que nem sabiam sobre a existência do BLW (“isso já existia desde que o mundo é mundo”), mas já entendiam que essa era a única forma que o bebê estava disposto a se alimentar.

Bom, você ainda pode não estar convencido disso, até ver essa enorme quantidade de bebês comendo por si só aqui.

Vale ressaltar que estamos falando de bebês nascidos a termo, em desenvolvimento típico. Quaisquer condições que dificultem ou prolonguem demasiado o aprendizagem da auto-alimentação, com certeza fazem com o que o BLW seja repensado. Cada caso deve ser avaliado individualmente pelo profissional de saúde que acompanha a família e o bebê.

 

“Bebês precisam comer papinhas”

Como vimos, a história da “papinha batida” tem sua fundamentação em toda a história da alimentação complementar. Bebês que iniciam a alimentação precocemente, devido à imaturidade no desenvolvimento motor, não tem outra opção senão receber um alimento pastoso homogêneo na colher. Por outro lado, ao estudar o desenvolvimento infantil, fica muito evidente que a oferta de semi-sólidos e sólidos poderia ser iniciada à partir de sinais de prontidão do bebê, observados através das habilidades de auto-alimentação que se tornam mais intensas e presentes por volta dos seis meses de vida.

Leia mais: Introdução alimentar: tradicional, BLW ou participativa? – Parte I

E é através da História que entendemos que existe um senso comum, que diz que os primeiros alimentos do bebê precisam ser amassados, homogêneos e oferecidos em uma colher. Rapley (2008, 2015) ressalta que, apesar desse senso comum, essa não é de fato uma prática comprovada cientificamente. Segundo a autora, não existem evidências que suportem a necessidade de um bebê de seis meses iniciar sua alimentação apenas com alimentos pastosos homogêneos, ou mesmo a necessidade de receber colheradas.

Cichero (2016-1), em uma revisão de literatura, tentou fortemente defender a ideia de que os bebês não estão preparados para manejar alimentos em pedaços aos seis meses, descrevendo todo o padrão de aprendizagem das habilidades motoras orais estudado até então. Mas durante toda sua revisão, a autora utiliza, em sua maioria, artigos e textos de livros escritos previamente à 2003, quando a OMS passou a indicar a introdução alimentar aos seis meses. Foi nessa mesma época que Gill Rapley também começou a falar sobre Baby-led Weaning, lançando seu primeiro livro apenas em 2008. Fato é, não adianta comparar o desenvolvimento dos bebês que fazem BLW desde o início, com os bebês que começam a introdução alimentar através da decisão do adulto e sendo alimentados passivamente com a colher. Novos estudos sobre o desenvolvimento motor oral, a partir da prontidão do bebê para se auto-alimentar, são necessários para trazer luz à essa discussão.

Atualmente, a OMS orienta oferecer alimentos que a criança possa pegar somente a partir dos 9 meses, enquanto o Ministério da Saúde do Brasil e Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam aumentar gradativamente a consistência da “papa” a partir dos 8 meses. A Sociedade Brasileira de Pediatria se posicionou recentemente (2017) em seu Guia Prático de Atualização sobre Alimentação Complementar e o Método Baby-led Weaning e, em sua conclusão, orienta:

“Reconhece-se que no momento da alimentação complementar, o lactente pode receber os alimentos amassados oferecidos na colher, mas também deve experimentar com as mãos, explorar as diferentes texturas dos alimentos como parte natural de seu aprendizado sensório motor. Deve-se estimular a interação com a comida, evoluindo de acordo com seu tempo de desenvolvimento.”

A UNICEF e o NHS do Reino Unido, em parceria, lançaram o Start4life, uma iniciativa para auxiliar os pais a darem um começo de vida mais saudável a seus bebês. Em sua brochura (2011), não mencionam o baby-led weaning, mas orientam:

“A partir dos 6 meses, incentive o bebê a comer alimentos em pedaços que ele possa facilmente segurar com as mãos, para ajudar ele a praticar por ele mesmo. Comece com alimentos em pedaços que se amassam facilmente na boca e que são grandes o suficientes para que eles consigam agarrar com as mãos. Sempre fique ao lado do seu bebê enquanto ele está comendo.”

Já o artigo ilustrado a seguir é referente ao ano de 1964, período no qual os bebês começavam a comer “a qualquer momento a partir do nascimento”:

1964 -

“Deveriam ser dados sólidos para as crianças mastigarem a partir do momento em que elas estão prontas: em uma criança típica isto acontece aos 6 – 7 meses”

 

“Bebês não conseguem mastigar e engolir pedaços”

Essa crença deriva da crença anterior, relacionada ao estudo das funções orais através de pesquisas feitas com bebês alimentados passivamente com a colher. Como discutimos anteriormente, novos estudos são necessários para avaliar o desenvolvimento das funções orofaciais a partir da prontidão do bebê para se auto-alimentar.

O BLW considera o desenvolvimento da maioria dos bebês aos 6 meses, incluindo a prontidão para receber alimentos sob diferentes perspectivas: sistema gastrodigestivo está mais preparado, o controle postural permite que o bebê comece a sentar sem apoio por volta desta idade, os primeiros dentes podem começar a nascer, o bebê está adquirindo maior movimentação da musculatura proximal e distal, conseguindo alcançar, agarrar objetos e levá-los à boca, o que leva à inibição do reflexo de protrusão de língua. O reflexo de gag ainda encontra-se anteriorizado, protegendo o bebê contra engasgos, principalmente no início, onde eles ainda estão aprendendo a mastigar.

Cichero (2016-2), em uma segunda revisão de literatura, novamente tenta reforçar que os bebês precisam passar por uma fase de transição, aprendendo a mastigar por meio da exposição à papa com pequenos pedaços macios, passando a mastigar de forma segura, alimentos naturalmente macios, como banana e abacate apenas a partir dos 10 meses. Toda a base de seu estudo e revisão são de datas anteriores à descrição do BLW e, como já coloquei anteriormente, não há como explicar o BLW através de pesquisas sobre mastigação feitas com bebês em introdução alimentar tradicional. Observe a tabela a seguir (em inglês):

mastigação tabela.JPG

Cichero, 2016 (2)

Curiosamente, desde que o BLW começou a ser difundido, primeiramente na Inglaterra em 2002, e mundialmente após o lançamento do primeiro livro da Gill Rapley em 2008, não houve nenhum relato de caso de efeito adverso com o uso da abordagem, até o momento. Muito pelo contrário, a abordagem vem sendo cada vez mais compreendida e utilizada na prática, conforme pode ser visto nesse link aqui. O vídeo a seguir mostra um bebê de quase seis meses comendo seu primeiro alimento:

Em sua tese de doutorado, Delaney (2010) encontrou evidências de que purês não necessariamente são mais fáceis de comer e que, aprimorar as habilidades em comer purês não melhora a forma com que lidamos com os sólidos. Delaney também encontrou evidências que a experiência acelera o desenvolvimento das habilidades mastigatórias para acima do que seria esperado apenas pela maturidade do desenvolvimento. Observou também que bebês de 8 meses são capazes de demonstrar um grande número de habilidades, em uma variedade de texturas, contrariando o que antigamente se considerava padrão.

Rapley (2016), em resposta à um estudo neozelandês que compara a introdução alimentar tradicional ao baby-led weaning, diz o seguinte:

“Quando se trata de engasgo, é importante notar que a natureza do alimento não é o único fator. A postura e habilidades de mastigação do indivíduo também importam, assim como sua capacidade em se concentrar na alimentação.

(…) alguns escritores acreditam que os bebês BLW podem ser mais propensos a sufocar “porque eles estão se alimentando de alimentos integrais durante os estágios iniciais da alimentação complementar, enquanto eles ainda estão aprendendo a mastigar e engolir”. Mas isso implica que os bebês podem “aprender” a mastigar e engolir sem ser dado qualquer coisa mastigável. Não é assim que o desenvolvimento funciona!

De fato, não há evidência de que os bebês BLW estejam mais em risco de engasgamento do que bebês que são alimentados com colher.

Na verdade, o oposto pode até ser verdade, uma vez que os bebês BLW têm a oportunidade de praticar a mastigação a partir do momento em que as habilidades relevantes estão se desenvolvendo. Além disso, uma vez que não estão sob pressão para comer, eles são capazes de se concentrar no alimento e comer conscientemente, em seu próprio ritmo, o que lhes permite concentrar-se no que está acontecendo dentro de sua boca.

Se é o caso que os pais BLW são mais propensos a oferecer alimentos que apresentam um “risco de asfixia”, pode ser porque os bebês têm demonstrado que eles têm as habilidades necessárias para gerenciá-los.”

Pra finalizar, um estudo conduzido por Fangupo e colaboradores (2016) acompanhou mais de 180 famílias divididas entre aquelas que praticavam a auto-alimentação e aquelas que ofereciam a alimentação na colher. Os pesquisadores observaram que bebês que se auto-alimentavam não apresentaram maior ou menor risco de engasgo do que aqueles submetidos à uma prática mais tradicional. Na verdade, para ambos os grupos foram oferecidos alimentos potencialmente perigosos. O que significa que é preciso orientar muito bem os cuidadores a respeito de práticas seguras de alimentação, não importando a abordagem que será empregada.

 

“Bebês tem que se ‘acostumar’ à colher

Durante muitos e muitos anos os bebês foram obrigados a começar a comer muito cedo, então não havia outra opção senão “se acostumar à colher”. Primeiro porque é apenas por volta dos seis meses que o bebê consegue sentar sem apoio e liberar os braços, as mãos e a mandíbula, o que é essencial para a auto-alimentação. E também porque, como o reflexo de protrusão de língua ainda é muito forte e presente antes dos seis meses, utilizava-se a colher para inibir esse reflexo e, assim, conseguir alimentar o bebê.

Dessa forma, o adulto empurrava a comida dentro da boca e o reflexo de protrusão de língua jogava todo o alimento para fora. Até que, empurrando continuamente a colher sobre a língua, o reflexo era inibido e o bebê finalmente “se acostumava” à situação, praticamente apenas deglutindo a sopa espessa que lhe era colocada na boca.

Observando o desenvolvimento natural das habilidades de auto-alimentação, é bem nítido que o reflexo de protrusão de língua começa a desaparecer à medida que outros sinais vão ficando bem evidentes, como a melhora da preensão e do alcance de objetos, que vão em direção à boca e são manipulados com lábios, língua e bochechas pelo próprio bebê. Assim, a colher se torna um mero detalhe.

Bom, a natureza parece muito sábia, não é? Mas os humanos se acham muito espertos e continuaram a empurrar a colher na língua do bebê para poder ‘inibir’ esse reflexo e, por volta dos seis meses, poder oferecer pequenos pedaços misturados à sopa. Anos depois, foi-se dado conta que o sistema gastro-digestivo do bebê está melhor preparado para receber outros alimentos, além do leite materno, apenas após os seis meses. O que coincide com o desaparecimento natural do reflexo de protrusão de língua. Será apenas um acaso da natureza? Ou o próprio corpo do bebê avisando que ainda não está preparado? Ainda não existem pesquisas que comprovem essa teoria.

O que se sabe é que o modo como os bebês e crianças pequenas aprendem seus hábitos e preferências alimentares, dentro do contexto da relação cuidador-criança, ainda é pouco estudado. Existem evidências que suportam tanto contribuições feitas pela exposição precoce à práticas tradicionais (como alimentar com uma colher), como também por outras três formas de aprendizagem: familiarização, associação e observação (Birch & Doub, 2014).

A aprendizagem através da familiarização acontece através da experiência. E a distinção entre o que é familiar e o que não é tem um peso muito forte na avaliação da criança: o que lhe é familiar tende a ser preferido, e o que não é tende a ser evitado. Assim, as crianças tendem a preferir objetos, pessoas e atividades que lhe são familiares. Por isso, dar oportunidades para o bebê ter contato com os talheres desde cedo é essencial. Ele não precisa usar, a princípio. Com o tempo, e dadas devidas oportunidades, ele vai se interessar e tentar usá-lo.

A aprendizagem associativa envolve a associação entre duas situações e/ou estímulos. Então, no caso dos talheres, não necessariamente é preciso que ele seja alimentado com o talher desde cedo. A princípio, ele pode por exemplo usar um pão ou um palito de legume para capturar um purê grosso e levar à boca. As situações às quais o bebê é exposto o ensinam muito, ainda que ele não seja diretamente alimentado com uma colher.

A aprendizagem observacional, como o próprio nome diz, acontece pela observação dos modelos. As influências sociais tem um peso importante e entre os principais modelos estão os pais, a família, outros cuidadores e a creche/escolinha. Por isso, se culturalmente todos à volta do bebê comem com talheres, é bem improvável que ele vá comer com as mãos pra sempre.

 

“Bebês não comem o suficiente por si só”

Nós temos uma mania muito inconveniente de achar que sabemos exatamente o quanto o outro deveria comer.  Quando uma mãe está amamentando, ela é frequentemente posta à prova: “seu leite não é suficiente, você precisa complementar”. Quando o bebê começa a comer, logo surgem os comentários: “ele come muito pouco, ele precisa comer mais”. E o que acontece na adolescência e vida adulta? A quantidade é sempre posta à prova.

Embora se tenha uma ideia do que cada indivíduo precisa pra se manter vivo e saudável, não se sabe ao certo o quanto cada um precisa para saciar a sua própria fome e seu desejo de comer. A família tem um papel fundamental no modo como a criança aprende a comer, especialmente através de estratégias que utiliza para reconhecer os sinais de fome e saciedade. A auto-suficiência da criança em relação à sua ingestão de comida é o que contribui para um comportamento alimentar adequado (Silva e colaboradores, 2016).

O que acontece é que, no baby-led weaning, não há interferência externa, então não há a dependência da interpretação e intervenção do cuidador. Como o BLW é centrado na auto-alimentação e, no início, as habilidades motoras limitadas dificultam a ingestão de grande quantidade de alimentos, existe um grande medo grande por parte de pais e profissionais de que o bebê não vá receber tudo o que precisa.

Mas entender que a transição do leite para o alimento sólido deve ser gradativa é fundamental para diminuir as expectativas em relação às quantidades que o bebê vai comer nas primeiras ofertas de comida, evitando frustrações que geram o ciclo de recusa alimentar da criança.

 

Leia Mais: Recusa, controle e distúrbios alimentares: o efeito bola de neve

O quadro a seguir mostra como o leite materno se mantém como principal fonte de energia durante os primeiros meses de introdução alimentar, sendo ultrapassado pelos alimentos somente entre 12 e 24 meses.

tabela-1

Leia mais: BLW: O bebê vai comer tudo o que precisa?

É claro que existem questões não respondidas, como a ingestão adequada de micronutrientes, por exemplo. Isso pode ser particularmente relevante se alimentos de baixa densidade calórica, como legumes e frutas, forem predominantes na dieta do bebê. Por isso, independente da abordagem escolhida para a introdução alimentar, é urgente e necessário que profissionais da saúde enfatizem a importância de se incluir alimentos energéticos e ricos em ferro desde o início da alimentação complementar (Morison e colaboradores, 2016).

Leia mais: Garantindo energia e ferro para o bebê no BLW

E ainda que o BLW seja provavelmente passível de ser seguido pela maioria das famílias de bebês nascidos a termo e em desenvolvimento típico, é claro que pode não ser a melhor opção para todos os bebês em todas as situações. Bebês com atraso no desenvolvimento motor ou outras alterações orais e/ou motoras podem não ser capazes de atingir suas necessidades calóricas e de nutrientes sem precisar de alguma assistência durante a alimentação (Cameron e colaboradores, 2012).

Leia mais: O BLW é o melhor método de introdução alimentar?

 

Aline P.png

 

face-ads-2

Referências

Birch & Doub. Learning to eat: birth to age 2y. Am J Clin Nutr 2014; 99: 723S.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., 2. reimpr. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015.

Castilho, SD & Barros Filho, AA. (2010). Alimentos utilizados ao longo da história para nutrir lactentes. Jornal de Pediatria, 86(3), 179-188.

Cichero, J. (1), Introducing solid foods using baby-led weaning vs. spoon-feeding: A focus on oral development, nutrient intake and quality of research to bring balance to the debate. Nutr Bull: 41(1), 2016.

Cichero J (2). Unlocking opportunities in food design for infants, children, and the elderly: Understanding milestones in chewing and swallowing across the lifespan for new innovations. Journal Texture Studies, 2016.

Delaney & Arvedson. Development Of Swallowing And Feeding. Dev Disabil Res Rev, 2008.

Delaney AL. Oral-motor movement patterns in feeding development. PhD (Communicative Disorders). University of Wisconsin-Madison. 2010.

DEWEY, KATHRYN G.; BROWN, Kenneth H. Update on technical issues concerning complementary feeding of young children in developing countries and implications for intervention programs. Food and Nutrition Bulletin, v. 24, n.1, p. 5-28, 2003.

FANGUPO, L. J.; HEATH, A. M.; WILLIAMS S. M.; et al. A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. 138(4), 2016.

Harbron et al. Responsive feeding: establishing healthy eating behaviour early on in life. S Afr J Clin Nutr S141 2013;26(3).

Le Reverend et al. Review: Anatomical, functional, physiological and behavioural aspects of the development of mastication in early childhood. British Journal of Nutrition, 2013.

Morison, BJ; Taylor, RW; Haszard, JJ et al (2016) ‘How different are baby-led weaning and conventional complementary feeding? A cross-sectional study of infants aged 6-8 months’, BMJ Open

PAHO/WHO. Guiding principles for complementary feeding of the breastfed child. Washington DC, Pan American Health Organization/World Health Organization, 2003.

Rapley & Murkett. Baby-led Weaning: The essential guide to introducing solid foods and helping your baby to grow up a happy and confident eater. The Experiment: New York, 2008.

Rapley G. Spoon-feeding or self-feeding? The infant’s first experience of solid food. PhD (Philosophy). Canterbury Christ Church University. 2015.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP 2012.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia: Guia Prático de Atualização. A Alimentação Complementar e o Método BLW (Baby-Led Weaning). Maio 2017.

 

Pode esquentar o azeite?

por Nutricionista Michelle Bento

dreamstime_l_1492075.jpg

O óleo pode ser aquecido por diversos meios, mas o método mais avaliado nos estudos é a fritura. O aquecimento provoca reações químicas que modificam as propriedades das gorduras, reduzindo a quantidade de ácidos graxos polinsaturados. O ômega-3 e ômega-6, considerados mais saudáveis, se perdem na fritura sendo transformados em gordura trans, provocando formação de espuma, modificando o sabor, aumentando o teor de ácidos graxos livres e formando novas substâncias. A intensidade dessas reações depende das condições de fritura, do tempo, da temperatura e da composição do óleo utilizado.

O ponto de fumaça dos óleo e gorduras diz respeito à temperatura em que começam a produzir fumaça e a se degradar. Neste ponto o óleo começa a sofrer as diversas reações vistas acima e passam a produzir acroleína. Os óleos com maior presença de gordura saturada e monoinsaturadas e aqueles que contêm menor teor de ácidos graxos livres são os menos suscetíveis à oxidação e associados com menor taxa de formação de acroleína e acrilamida. É possível observar na tabela abaixo que óleo de gergelim e linhaça, considerados saudáveis por serem ricos em ômega-6 e ômega-3, possuem ponto de fumaça mais baixo e não são, portanto, recomendados para aquecimento, devendo ser usados crus.

 

Gordura Ponto de fumaça
Manteiga comum 177°C
Manteiga ghee 252°C
Canola 240°C
Algodão 216°C
Azeite de oliva virgem 216°C
Azeite de oliva extra virgem 190°C
Óleo de gergelim 177°C
Óleo de linhaça 107°C

Fonte: The Vegetarian Health Institute  

O reaproveitamento do óleo não é recomendado, pois durante o aquecimento se formam maiores quantidades ácidos graxos livres e consequentemente se reduz drasticamente o ponto de fumaça original, o que resultará em mais altas emissões de substâncias tóxicas em baixas temperaturas.

A acrilamida é uma substância tóxica, associada a maior risco de câncer, e produzida pelas reações que os óleos e gorduras sofrem com o aquecimento. A tabela abaixo mostra a concentração de acrilamida em diferentes óleos vegetais e gorduras animais após o tratamento térmico a 180°C por 30 minutos (Daniali, 2016).

 

Óleo Conteúdo de acrilamida (mcg/kg)
Soja 2447
Óleo de palma 1442
Girassol 1226
Gergelim 1139
Azeite de oliva 542
Milho 430
Banha de porco 366
Manteiga ghee 211

 

Lim e colaboradores, em 2014, compararam o grau de oxidação e formação de acrilamida na fritura de batata usando 4 tipos de óleo: girassol, coco, canola e palma. O óleo de palma teve a menor concentração de acrilamida quando comparado com óleo de soja e de canola. Nesse estudo eles não encontraram diferença entre o conteúdo de acrilamida no óleo de coco e no óleo de canola, apesar do óleo de coco ser saturado. Os autores apontam a presença de ácidos graxos livres em maior quantidade no óleo de coco extra virgem como causa para esse achado.

Nas tabelas acima notamos que o azeite de oliva possui um ponto de fumaça adequado, acima de 180°C (em um refogado a temperatura é menor e o tempo de cozimento mais rápido, tornando a degradação mais controlada). Além disso, a formação de acrilamida é baixa quando em comparação com óleos refinados usados com frequência para cozimento. A manteiga ghee (aquela que passa por processo de clarificação) também possui um ponto de fumaça adequado e a formação de acrilamida é ainda menor, entretanto é uma gordura saturada, cujo consumo deve ser limitado por estar associada ao aumento do colesterol e aumento da resistência à insulina quando consumida em doses mais altas. Já o azeite de oliva possui efeito antioxidante, ajuda na melhora pressão arterial e controle de glicemia, atua no controle do colesterol e auxilia na diminuição do colesterol ruim (LDL), provoca uma redução no declínio cognitivo relacionado à idade e ao Alzheimer, evita formação de trombos, sendo importante para prevenção de doenças cardiovasculares.

Mas apesar de todos os benefícios conhecidos do azeite, muita gente ainda tem dúvidas quanto ao seu uso para aquecimento por acreditar que perca suas propriedades e, pior, comece a se transformar em uma gordura maléfica. Pois bem! Um estudo de revisão feito por Nogueira-de-Almeida e colaboradores em 2015, bem recente, tem como conclusão que o azeite de oliva extra virgem:

“é o óleo mais adequado para uso na forma crua, devido ao melhor perfil de ácidos graxos e à presença de antioxidantes. Mesmo após aquecimento em condições de uso doméstico, ele não sofre mudanças significativas em seu perfil de ácidos graxos. Em especial, cabe salientar que praticamente não ocorre formação de ácidos graxos trans ou de ácidos graxos saturados. Após aquecimento em condições de uso doméstico, não se observa a formação de substâncias tóxicas e o azeite de oliva extra virgem mantém cerca de 80% das substâncias antioxidantes”.

Frente à todas essas evidências, eu continuo sugerindo o azeite de oliva como a melhor opção a ser usada no preparo dos alimentos que serão consumidos por bebês em introdução alimentar, mas também para crianças maiores e adultos.

E sempre ressaltando que, não importa o tipo de óleo usado, a fritura não deve ser utilizada com frequência e o óleo nunca deve ser reaproveitado.

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

Referências bibliográficas

Poliana Cristina Mendonça Freire; Jorge Mancini-Filho; Tânia Aparecida Pinto de Castro Ferreira. Principais alterações físico-químicas em óleos e gorduras submetidos ao processo de fritura por imersão: regulamentação e efeitos na saúde. Revista de Nutrição. vol.26 no.3 Campinas May/June 2013

P.K. Lim, S. Jinap, M. Sanny, C.P. Tan, and A. Khatib. The Influence of Deep Frying Using Various Vegetable Oils on Acrylamide Formation in Sweet Potato (Ipomoea batatas L. Lam) Chips. Journal of Food Science. Vol. 79, Nr. 1, p. 115-121, 2014.

Daniali, G.; Jinap, S.;Hajeb, P.; Sanny, M.; Tan, C. P. Acrylamide formation in vegetable oils and animal fats during heat treatment. Food Chemistry 212 (2016) 244–249.

Carlos Alberto Nogueira-de-Almeida, Durval Ribas Filho, Elza Daniel de Mello, Graziela Melz, Ane Cristina Fayão Almeida. Azeite de Oliva e suas propriedades em preparações quentes: revisão da literatura. International Journal of Nutrology, v.8, n.2, p. 13-20, Mai / Ago 2015.

 

conalco