10 dicas para melhorar a alimentação das crianças pequenas

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Quem acompanha a gente no instagram e facebook, viu que começo do ano foi punk por aqui. Mas algumas coisas estão funcionando bem e acho que podem te ajudar:

1 – Acertar a rotina. Não é fácil, tem chororô, soneca sem almoço, almoço mais tarde, dia sem jantar, jantar com tv, fruta às 11 da noite, almoço requentado na janta… E apesar de eu me esforçar, tem dias que nada dá certo e que essas situações acontecem mesmo. #MaternidadeReal, nua e crua.

2 – Antecipar a rotina. Converso sobre tudo o que vai acontecer em cada horário, e reforço isso diariamente. Ele aprendeu o que é café da manhã, almoço, lanche e jantar, e o que se come e o que não se come em cada uma dessas refeições.

3 – Não ter hábito de comprar guloseimas. Ou eu acabava com os biscoitos, ou eles acabavam comigo. Isso não quer dizer que estão proibidos, apenas que dificilmente tem no armário.

4 – Colocar as “tentações” em cima da geladeira, onde ele não alcança. Aqui o principal é o pão. O combinado é comer pão, ou no café da manhã, ou no lanche da tarde.

5 – O almoço é a refeição mais sagrada. Almoçamos todos juntos e não tem barganha. Não quer almoçar, não precisa, mas também não tem pão-biscoito-chocolate-sorvete-fruta ou qualquer outra coisa que ele queira que não esteja entre as opções do almoço. Se não quiser almoçar, beleuza, à tarde ele pode comer alguma dessas coisas na hora do lanche. É claro que isso envolve um chororô nos dias que teima, e vários dias resolve sentar pra almoçar sozinho, depois que todos já terminaram e ele já se acalmou.

6 – Oferecer apenas frutas e/ou leite no café da manhã. Às vezes não consigo (porque ele vê a gente comendo outras coisas e pede), mas quando ele come só fruta no café da manhã, ele almoça bem melhor.

7 – Ajudar no preparo das refeições sempre que possível! No jantar, principalmente, adora fazer seu ovinho mexido.

8 – Se servir sozinho! Dica da Dani @bb_blw, aqui em casa deu super certo. Ele se serve do que mais gosta e come muito melhor (veja o vídeo).

9 – Café da manhã reforçado com ovos mexidos antes de qualquer festa regada a doces.

10 – Dar limites e respeitar. Embora minha maior dificuldade seja aceitar escolhas não saudáveis, sigo no mantra “faço minha parte” 🙂

Aline P

 

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5 dicas para criar uma criança que come de tudo

Traduzido e adaptado de Fit Pregnancy and Baby, escrito por Lindsay Tigar – Texto original aqui.

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Amplie o paladar do seu bebê!

Uma das melhores partes da vida é poder ter experiências através de todos os seus sentidos – e o sabor é uma das primeiras e melhores maneiras de experimentar o mundo.

As papilas gustativas de um bebê são desenvolvidas a partir do momento em que nascem, e cabe a você apresentar novos sabores e texturas para o seu pequeno. Mas como exatamente fazer isso? Alguns especialistas compartilham aqui tudo o que você precisa saber sobre o treinamento do paladar!

 

Por que treinar o paladar é importante?

Treinar o paladar é mais do que permitir que seu bebê coma uma dieta variada e saudável. “Ensinar as crianças a apreciar uma grande variedade de alimentos é tão vital quanto outras habilidades para a vida”, explica a nutricionista Diana K. Rice. “Não só irá ajudá-los a consumir regularmente uma dieta mais nutritiva, como também é uma importante habilidade social para toda a vida, além de reduzir as situações de estresse quando se come fora de casa”.

Também ajuda o bebê a interagir com seus irmãos (atuais ou futuros), construindo pontes que conectam toda sua família. Pense sobre aquela receita familiar incrível, ou simplesmente um dia da semana em que todos se reúnem à mesa: as famílias, muitas vezes, compartilham preferências alimentares que, embora não sejam herdadas, são encorajadas através das gerações. “Treinar o paladar é importante porque é inevitável”, explica Adina Pearson, nutricionista e autora do blog HealthyLittleEaters.com e co-autora do FeedingBytes.com. “Se você quer que seus filhos desfrutem os alimentos que sua família gosta, eles precisam ter experiências com eles”.

 

Quando você deve começar a treinar o paladar da criança?

Alguns especialistas acreditam que o treinamento do paladar acontece ainda no útero, com base na dieta da mãe. Mas esse treinamento oficialmente começa quando o bebê experimenta alimentos sólidos, diz Pearson: “Todos os bebês começam a treinar o paladar simplesmente através da seleção de alimentos oferecidos”.

Mas há mais do que apenas quais perfis de sabores seu bebê irá gostar: doces ou salgados, azedo ou amargo. Encoraje seu filho a interagir também com várias texturas, para que ele não desenvolva aversão a algo mais duro ou crocante, por exemplo. “Os princípios que apoiam o treinamento do sabor, como rotinas de refeições positivas e exploração de alimentos, podem ser feitos à medida que os sólidos são introduzidos – por exemplo, permitindo que o bebê toque e explore alimentos quando ele começa a desenvolver habilidades motoras”, explica Grace Wong, Mestre e Nutricionista Materno Infantil.

 

Como faço para começar?

Com tantas opções de alimentos, pode parecer um tanto desafiador descobrir como apresentar seu filho a uma variedade de sabores e texturas. Veja como fazer isso direito:

 

1 – Não apenas dê o que ele quer.

Se você tem ou conhece uma criança com mais de 3 anos de idade, então você definitivamente sabe como é um comedor exigente. Para evitar que seu filho queira criar o seu próprio jantar, experimente a sugestão da nutricionista Diana K. Rice: se você descobrir que seu bebê gosta de cenouras, apresente também a beterrabas.

“Mude o que você está oferecendo. Não pense, ‘Ah, ele gosta disso, vou ter certeza de dar-lhe muitas vezes.’ Pense, ‘Ok, ele gosta disso, então é melhor eu tentar um vegetal diferente hoje.’ Ofereça as cenouras novamente em cerca de uma semana para que seu filho se lembre dela “, explica Rice. “Você também pode usar os alimentos que seu bebê prefere e apresentá-lo a sabores adicionais. Pense em cenouras assadas com alho e ervas ou jogadas com um fio de vinagre balsâmico “.

 

2 – Desfrutem o comer em família.

Embora muitas famílias tenham dificuldade em encontrar o tempo necessário para isso, sabe-se que sentar e desfrutar de uma refeição em conjunto não é importante apenas para a construção de laços afetivos fortes, mas também para a normalização de sabores.

Wong diz que, mesmo que você não consiga fazer isso todas as noites, tente ao menos fazer refeições familiares nos finais de semana. Durante este tempo, seu bebê começará a assistir como o resto da família come e se sente mais confortável com o compartilhamento e a tentativa de provar novos alimentos – especialmente se eles o veem comer primeiro.

Wong diz que isso cria a mentalidade de que não há diferença entre “refeições para crianças” e “refeições para adultos”. “Adultos e crianças podem compartilhar a mesma refeição, incluindo alimentos que são familiares para seu filho, bem como alimentos novos”, diz Wong. “Desta forma, você não ficaria preso em uma rotina de servir os mesmos alimentos uma e outra vez novamente. Você tem a liberdade de servir uma variedade de alimentos e proporcionar-lhes oportunidades para explorar e familiarizar-se com novos alimentos”. Claro, certifique-se de que qualquer alimento familiar seja apropriado para a idade do seu bebê.

 

3 – Dê-lhe uma verdadeira prova, não uma refeição.

Rice diz que “as duas coisas mais importantes a ter em mente são começar com pequenas porções e oferecer alimentos consistentemente. Ofereça apenas uma quantidade de um novo alimento e não coloque um prato inteiro na frente do seu filho na esperança de que ele gostará e decidirá comer mais “, diz ela. “Se a criança comer o bocado, você pode oferecer mais, mas não pressioná-la. E se ela comeu ou não o pequeno bocado de comida, ofereça-o novamente em alguns dias até que ela finalmente esteja disposta a comer”. 

 

4 – Não fique desapontado se ele não gostar.

Não é um ataque pessoal ao seu estilo parental ou às suas habilidades culinárias, se seu filho simplesmente não consegue correr atrás das ervilhas. Ou do brócolis. Ampliar o paladar não é fazer do bebê um cozinheiro novato com um paladar refinado, mas sim, permitir que ele explore suas próprias preferências.

“Eu gosto de encorajar os pais a experimentar este exercício: coloque a criança no cadeirão e lhe ofereça três pequenos brinquedos. Ele vai em direção a um brinquedo e ignora outro? Você sente como uma falha porque seu filho está ignorando um brinquedo que você ofereceu? Eu duvido muito disso! 

Quem sabe por que as crianças têm as preferências que eles fazem?”, Diz Rice. “Com a comida, o importante a fazer é consistentemente apresentar um alimento que a criança já rejeitou antes de aceitá-lo. E se eles realmente parecem odiar um punhado de sabores, aceite. A maioria dos adultos tem algumas coisas que eles preferem não comer, também“.

 

5- Melhor tarde do que nunca …

Se você já passou da introdução alimentar, ainda há tempo para ampliar o paladar. “Não é tarde demais se o seu filho já é criança. Apenas comece o quanto antes”, recomenda Rice. “As preferências de sabores que desenvolvemos na infância influenciam nossos padrões de alimentação ao longo da vida. Quanto mais seu filho estranha novos alimentos, mais trabalho você terá para reverter essas preferências”.

 

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Como a alimentação pode melhorar ou piorar a prisão de ventre?

 

Por Nutricionista Michelle Bento

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A prisão de ventre é uma queixa muito comum nos consultórios pediátricos e pode deixar os pais muito angustiados. Mas antes de falarmos de qualquer tipo de tratamento é preciso considerar que variações na consistência das fezes e frequência de evacuações em crianças é muito comum e não necessariamente essa mudança representa um problema. Essa alteração pode ser natural e/ou temporária e não causar nenhum mal. É esperado, por exemplo, que os bebês aos 4-6 meses evacuem menos vezes ao dia do que com 1 mês de vida e o padrão de evacuação de bebês que mamam leite materno é diferente daqueles que mamam fórmula.

Com o início da alimentação sólida as fezes vão começar a tomar mais forma, ficam mais consistentes e alguns passam por uma dificuldade momentânea na evacuação que diz respeito à adaptação à nova alimentação. Além disso, é comum que as crianças fiquem 2 ou 3 dias sem evacuar, mas com fezes macias e que não provocam nenhum incômodo. Portanto, é preciso que os pais estejam atentos não somente ao intervalo entre as evacuações, mas ao comportamento do bebê (bebês com constipação intestinal ficam mais irritados, pois podem sentir dor), se as fezes estão macias, pastosas ou ressecadas, no formato de pequenas bolinhas endurecidas e se o bebê faz força como se fosse fazer coco e não sai nada. Esses são alguns dos sinais de alerta.

A definição de constipação intestinal infantil segundo o critério de ROMA III inclui outras variáveis que não só a frequência de evacuação, justamente devido à grande variação normal que existe entre as crianças saudáveis. Para determinar que há constipação intestinal funcional, deve haver a presença de 2 ou mais dos seguintes sinais e com duração de pelo menos 1 mês em menores de 4 anos:

– Dois ou menos defecações por semana;

– Ao menos um episódio de incontinência fecal por semana (em crianças que já controlam o esfíncter);

– História de retenção excessiva de fezes (a criança parece segurar o coco, com medo de evacuar);

– História de dor para evacuar;

– Presença de bolo fecal no reto (deve ser avaliado pelo pediatra);

– História de fezes de grande diâmetro, que entopem o vaso sanitário.

Como a alimentação pode contribuir para evitar ou melhorar o problema?

Uma criança com dificuldade de evacuação pode estar ingerindo uma baixa quantidade de fibras.  Em bebês que estão começando a comer a ingestão de fibras será mesmo baixa, pois ainda se alimentam basicamente de leite. E em alguns pode ocorrer uma certa dificuldade na eliminação de fezes mais consistentes nas primeiras semanas que vão melhorando conforme o bebê for aumentando a ingestão de fibras. Mas vale lembrar mais uma vez que se o número de evacuações diminuiu, mas não existe nenhum outro sinal de alerta não é preciso se preocupar. Apenas observe como estará a consistência do coco quando ele o fizer. Agora se as evacuações estão menos frequentes e, além disso, o bebê tem irritabilidade, barriguinha distendida, faz força e não sai nada e as vezes estão ressecadas podemos tentar algumas mudanças na rotina para ajudar na eliminação do coco e evitar esse desconforto.

Na minha prática profissional não costumo fazer restrição de nenhum alimento, nem tão pouco sugerir que se use alimentos específicos diariamente para estimular a evacuação. Essa ideia de que alguns alimentos prendem e outros soltam vem da proporção de fibras solúveis e insolúveis que cada um deles possui. E na verdade cada uma tem o seu papel no funcionamento intestinal e, dentro de uma dieta equilibrada e variada, esses componentes vão se ajustando e não causam nenhum problema. Considero mais importante pensar na variedade de alimentos que essa criança recebe, avaliar se a hidratação está correta (e quanto mais fibra na alimentação, mais água é necessária) e usar alimentos mais ricos em gorduras saudáveis para ajudar na lubrificação, como o abacate, azeite e óleo de coco, por exemplo, que muitas vezes ficam esquecidos na alimentação das crianças pequenas. É bem comum que os pais recebam a orientação de cozinhar a comida do bebê com pouca ou nenhuma gordura, quando na verdade uma gordura de boa qualidade é fundamental.

Mas de qualquer forma cada criança e sua rotina devem ser avaliadas individualmente para que se identifique o que pode estar causando a dificuldade NAQUELA criança, no lugar de fazer orientações gerais e vagas que funcionariam como uma “fórmula” que todos podem e devem usar. Então, se seu filho (a) apresenta esse quadro vai ser muito mais eficaz e adequado procurar onde está a causa do problema (É fibra? É hidratação? A gordura está adequada? Tem alguma causa orgânica?) do que dizer que ele precisa  comer mais mamão e parar de comer bananas, certo?

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

Bibliografia

UJJAL PODDAR. Approach to Constipation in Children. Indian Pediatrics, v. 53, p. 319-327, 2016.

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Meu bebê parou de comer!

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Durante a fase de introdução alimentar, os bebês passam por diversas fases de inapetência, o que é absolutamente normal, mas deixa qualquer cuidador de cabelo em pé. São inúmeras as razões, que afetam não só a alimentação, como também o humor e o sono do bebê. Por isso, antes de se gabar aos quatro ventos que seu filho come tudo, ou dorme a noite inteira, previna os cuspes na testa e tente passar pelos 3 primeiros anos de vida sem surtar em cada uma dessas fases.

As dificuldades alimentares em crianças em desenvolvimento típico podem ter início durante essas fases de inapetência. Ao invés de tratar esses períodos como uma etapa de desenvolvimento normal da criança, profissionais despreparados costumam piorar a situação com a simples frase “esse bebê precisa comer”. Uma frase tão curta, mas com um potencial enorme de desequilibrar toda uma dinâmica de alimentação. A família torna-se ansiosa, aumentando os níveis de estresse e frustração durante as refeições. E o impacto emocional durante as refeições tem grande influência nos resultados futuros de alimentação (Morris & Klein, 2000).

Uma grande falácia do atendimento pediátrico em qualquer especialidade é orientar o desmame para que o bebê coma mais. Acontece que durante os dois primeiros anos de vida o alimento é complementar ao leite materno, e não o contrário. Por isso, amamentar até os dois anos ou mais, como recomenda a Organização Mundial da Saúde, só faz com que a família tenha mais segurança em respeitar a criança nessas fases de inapetência, e passar por esses períodos sem trauma ou estresse.

Os primeiros três anos de vida coincidem com uma série de grandes mudanças na vida do bebê. Muitas vezes acontecem em série, e em concomitância com outras situações, podem deixar o bebê bastante agitado, desregulando seu padrão habitual de fome e sono. Sabendo-se que é esperado que o bebê passe por essas fases transitórias, o cuidador torna-se atento à mudanças sutis no comportamento, relacionando as causas e baixando a expectativa em relação aos padrões de alimentação e sono.

Demonstrar empatia, acolher e buscar soluções viáveis a curto prazo são essenciais para que família e bebê passem por essas fases sem traumas.

Saltos de Desenvolvimento

“Meu filho não quer mais ficar no cadeirão, está com 11 meses e fica jogando a comida no chão e olhando pra baixo. Está quase andando e não para quieto um minuto. Não sei mais o que fazer”

Toda vez que o bebê começa a desenvolver uma nova habilidade, ele fica tão excitado durante o processo, que quer praticar a todo momento. Durante esses períodos, eles podem resistir às rotinas já estabelecidas e podem mudar os padrões aos quais os pais já estavam habituados, como a hora da refeição.

Nos dias que antecedem o chamado salto de desenvolvimento, o bebê se sente perdido dentro do que já lhe era conhecido. Seus sistemas perceptivo e cognitivo mudaram, houve maturação neurológica, mas não houve tempo hábil para adaptação às mudanças.

O bebê passa a reconhecer o mundo de forma diferente, situação que com frequência gera ansiedade. O bebê tende a voltar para o seu porto seguro, geralmente, a mãe. O resultado é o aumento da demanda de mamadas, do colo e a modificação dos padrões de sono, humor e apetite. Mas depois da aquisição de uma nova habilidade (como sorrir, interagir, sentar, engatinhar, andar, falar) o bebê dá um salto no desenvolvimento e fica feliz com o final da ‘crise’.

A duração de cada salto pode variar, podendo durar dias ou semanas, podendo voltar ao padrão anterior como se nada tivesse acontecido. A aquisição da nova habilidade é facilmente notável e o bebê está claramente satisfeito e independente com a nova situação. Essas aquisições ocorrem em vários aspectos: desenvolvimento motor, desenvolvimento do controle motor fino, linguagem e desenvolvimento social.

Seria cômico, se não fosse trágico, mas no primeiro ano de vida o bebê passa por saltos de desenvolvimento praticamente todos os meses. Então é bem natural que o apetite seja extremamente flutuante no primeiro ano de vida.

 

Picos de crescimento

“Meu filho não quer mais comer, chora quando o coloco sentado no cadeirão, só quer peito, peito, peito…”

Picos de crescimento são fenômenos que se referem ao crescimento do bebê, períodos em que precisam de mais alimento para crescer em um ritmo mais acelerado. Então um bebê que dormia longos períodos à noite, pode começar a acordar mais e solicitar mais mamadas. Esta necessidade geralmente dura de poucos dias a uma semana, seguido de um retorno ao padrão menor de mamadas, mas agora com o organismo da mãe adaptado a produzir mais leite. É muito importante respeitar a demanda aumentada, pois somente assim a produção de leite materno poderá se ajustar perfeitamente às necessidades do bebê.

Pode ser que o bebê se prontifique à comer mais, se ele já tiver entendido que comer mata a fome. Por outro lado, se o bebê ainda associa a saciedade com a alimentação láctea, é bem provável que ele recuse a comida em detrimento ao leite, pois é dessa forma que o corpo dele entende que ele vai garantir o necessário para crescer. Além disso, o leite materno é um alimento muito completo e tem muito mais calorias do que uma papinha ou pedaços de frutas ou legumes. Sabiamente, seu corpinho vai preferir o que irá lhe garantir maior aporte calórico e menor gasto de energia para essas fases de “estirão”.

Nesses períodos a mãe pode interpretar incorretamente e achar que seu leite é insuficiente, ou pior, ser induzida a achar que seu leite é fraco. Em ambos casos, a primeira solução parece ser o complemento de leite artificial. O que é um erro, pois perde-se o poderoso estímulo de sucção no peito, prejudicando o equilíbrio perfeito da natureza de produzir o leite conforme a demanda.

Outra situação bastante frequente relacionada ao crescimento é que, mais cedo ou mais tarde, o bebê passa a comer menos, devido à mudança do ritmo de crescimento da criança. No primeiro ano, os bebês engordam e crescem mais rapidamente do que em qualquer outro período da vida fora da barriga da mãe. E a criança de 1 a 6 anos, que cresce lentamente, come proporcionalmente menos do que a de seis meses ou a de doze anos, que estão em períodos de rápido crescimento.

É importante reforçar que nem toda criança come igual, nem cresce no mesmo ritmo ou acompanha as curvas de peso. Por isso, é essencial avaliar outros dados, e que isso seja feito em uma consulta individualizada, preferencialmente com um o pediatra e o suporte de um nutricionista infantil.

 

Angústia da separação

“Meu bebê não aceita ficar no cadeirão, só quer ficar no colo. Só come com outras pessoas, comigo só quer peito, peito, peito…”

Por volta de 6-8 meses, o bebê começa a perceber que é um indivíduo separado da mãe. Essa descoberta lhe traz angústia e medo, e por isso ele pode pedir mais colo, chorar mais que o usual e solicitar muita mais atenção da mãe.

Neste momento, a mãe ainda é o centro do mundo do bebê e representa seu porto seguro. Como a noção de permanência não está completamente estabelecida, essa angústia é muito acentuada. O bebê não consegue entender que a mãe continua ali, mesmo quando está longe do seu campo de visão.

A Dra Andréia Mortensen, neurocientista, explica o seguinte:

“O sistema de angústia da separação, localizado no cérebro inferior, está geneticamente programado para ser hipersensível. Nos primeiros estágios da evolução humana era muito perigoso que o bebê estivesse longe da sua mãe. Se não chorasse para alertar seus pais do seu paradeiro, não conseguiria sobreviver. Então, quando o bebê sofre pela ausência dos seus pais, no seu cérebro ativam-se as mesmas zonas que quando sofre uma dor física. Ou seja, a linguagem da perda é idêntica à linguagem da dor. Não tem sentido aliviar as dores físicas, como um corte no joelho, e não consolar as dores emocionais, como a angústia da separação. Mas, infelizmente, é isso o que fazem muitos pais, por não conseguirem aceitar que a dor emocional de seu filho é tão real como a física. Essa é uma verdade neurobiológica que todos deveríamos respeitar.

O período “crítico” de desenvolvimento emocional e social ocorre nos primeiros 18 meses da criança. A parte do cérebro que regula as emoções – a amídala – é formada cedo, de acordo com as experiências que o cérebro recebe. O desenvolvimento de um vínculo emocional, empatia e confiança, e todos os aspectos da inteligência emocional fornecem o fundamento para desenvolvimento de outros aspectos emocionais conforme a criança cresce. Então, nutrir emocionalmente e responsivamente o bebê é importante para que a criança aprenda empatia, felicidade, otimismo e resiliência na vida.

Então, se se a mãe tiver que se afastar do filho pequeno para trabalhar ou por outro motivo, muito carinho, conversa, paciência e coerência nas atitudes são necessários para que ele continue tendo confiança nela e supere esse período de crise. É também muito importante certificar-se que o bebê criou um vínculo afetivo com o outro cuidador. 

Nessa fase, procure passar todo tempo possível com seu bebê, principalmente se trabalha fora. Separe os momentos logo após o reencontro do dia de trabalho para ter dedicação exclusiva a ele. Sente confortavelmente, faça contato olho no olho, amamente, interaja com seu bebê. Você pode estar cansada e estressada depois da longa jornada de trabalho, mas se conseguir um pouco de energia para receber seu bebê com alegria, você também se sentirá melhor após alguns minutos de uma reconexão significativa. Somente depois pense no jantar, no banho e outros afazeres. Considere promover proximidade na hora de dormir se suspeita que o bebê tem acordado mais a noite por estar passando por um pico de ansiedade de separação.”

Leia o texto completo da Dra Andréia Mortensen, sobre saltos de desenvolvimento, picos de crescimento e angústia da separação, nesse LINK.

 

O nascimento dos dentes

“Meu bebê não quer mais pegar a comida, vira o rosto para a colher, empurra e joga tudo no chão. Está salivando muito, acho que vem dente por aí…”

Os dentes começam a nascer mais ou menos aos 6 meses de idade. Os primeiros a aparecer são os incisivos centrais inferiores, seguidos pelos incisivos centrais superiores, e incisivos laterais inferiores. Por volta de 1 ano e meio surgem os incisivos laterais superiores, e então começa a erupção dos dentes mais posteriores como os caninos e os molares. Aos 3 anos, aproximadamente, o bebê terá todos os dentes de leite. E é normal um atraso de aproximadamente 8 meses.

 

Os primeiros sinais de que os dentinhos estão chegando são coceira na gengiva pela pressão dos dentes, gengiva mais abaulada e esbranquiçada e aumento da salivação por conta do amadurecimento das glândulas salivares e pela incapacidade do bebê engolir toda a saliva. Alguns bebês ainda apresentam: dor, febre baixa (até 38º), diarreia e acidez nas fezes (o que pode causar assaduras), constipação nasal e aumento de secreção nasal. Apesar desses últimos não terem comprovação científica, não é incomum encontrar relato desses sintomas entre os bebês dessa idade.

Todos esses sintomas deixam o bebê mais agitado, podendo facilmente interferir nos padrões de alimentação e sono. Alimentos mais consistentes ajudam a massagear a gengiva, mas se houver dor, é comum que o bebê os rejeite completamente. Ofereça alimentos frios e amolecidos, progredindo a consistência aos poucos, até que se perceba que o incômodo maior tenha passado. A melhor forma de saber isso é deixando os sólidos à disposição. O próprio bebê vai saber quando é a hora de voltar a comer normalmente.

Géis anestésicos podem levar ao engasgo e aspiração pela dessensibilização da região orofaríngea e são portanto contra-indicados. A Associação Brasileira de Odontopediatria comunicou ainda, em nota oficial, que produtos a base de benzocaína não devem ser usados em crianças menores de dois anos de idade, exceto sob a orientação e supervisão de um profissional de saúde. O Comitê de Drogas dos EUA (FDA) fez um alerta ao público de que o uso de benzocaína, principal ingrediente de produtos fármacos usados para reduzir a dor na boca ou nas gengivas, está associado a uma rara, mas grave doença. Esta condição é chamada metemoglobinemia e resulta na redução significativa da quantidade de oxigênio transportado no sangue, podendo levar à óbito.

Se a irritação e/ou dor for muito intensa, consulte o pediatra. Você pode ainda tentar tratamentos homeopáticos ou fitoterápicos, com profissionais especializados.

 

 

Outras mudanças

“Há dias meu bebê não aceita nada além de frutas. Mudamos de casa há 1 mês e ele começou a ir para a escola. Seus horários de soneca estão todos desregulados e ele tem aumentado as mamadas noturnas…”

Outros acontecimentos, como o nascimento de um irmãozinho/a, introdução de alimentos novos, o retorno da mãe ao trabalho e entrada em creche, viagens, doenças, separação dos pais, atritos com coleguinhas, ausência de um ente querido, entre outros, podem interferir no sono e na alimentação da criança.

Outros motivos que podem ocasionar a falta de apetite em crianças é quando estão resfriadas, gripadas, com alguma infecção, principalmente de garganta. O calor excessivo pode dar moleza, desânimo e vontade de “comer nada” também. Nesses casos, ofereça muito líquido para hidratação e alimentos mais leves, já que a criança não consegue se alimentar normalmente.

Em todos esses casos, tenha muita paciência e empatia. Coloque-se no lugar da criança, e espere a causa ser resolvida para que, gradualmente, a rotina pode ser restabelecida.

Cabe ressaltar que períodos prolongados de inapetência, associados ou não com perda de peso e falha no crescimento, devem ser investigados. Se a criança apresenta sonolência, palidez e pouca disposição junto com a falta de fome pode indicar falta de nutrientes importantes, como ferro, cálcio, vitaminas e zinco. Leve-a ao pediatra e fale com ele sobre a situação. Alguns exames podem ser feitos. Entre outras causas mais graves, que devem ser investigadas e tratadas estão: doença do refluxo gastroesofágico, alterações no sistema digestivo, anemia, alterações motoras, doenças infecciosas, entre outras causas.

 

Faltará algum nutriente se ele não comer nada além do leite?

A partir dos 6 meses, a reserva de ferro que alguns bebês tinham ao nascer se acaba, e eles precisam comer ferro de outras fontes. É um dos motivos pelos quais se inicia a alimentação complementar aos 6 meses. Outros bebês, tem uma reserva de ferro maior e não precisariam de ferro extra até os 12 meses ou mais.

Por isso, é importante que, entre os primeiros alimentos que forem oferecidos ao bebê, estejam as carnes e os ovos, e que possam comer frutas ricas em vitaminas C antes ou após as refeições, que auxilia na absorção do ferro. A nutricionista Michelle Bento explica tudo isso melhor nesse post aquiGarantindo energia e ferro para o bebê no BLW

 

Aline P

 

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Referências:

Dra Relva (2013). O livro da Maternagem. Pediatria Radical.

Gonzales, C (2016). Meu filho não come. ed Timo.

Morris & Klein (2000). Pre-Feeding Skills: A Comprehensive Resource for Mealtime Development 2nd Edition.

 

Mandel et al (2005). Energy Contents of Expressed Human Breast Milk in Prolonged Lactation. 

 

Sites consultados:

https://fortissima.com.br/2013/09/25/causa-falta-apetite-criancas-16290/

http://guiadobebe.uol.com.br/fases-de-crescimento-e-desenvolvimento-que-modificam-o-sono-do-bebe-e-da-crianca/

http://guiadobebe.uol.com.br/primeiros-dentinhos/

O que você não sabe sobre o Baby-led Weaning

Introdução alimentar: tradicional, BLW ou participativa? – Parte II

por Aline Padovani, Fonoaudióloga

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Na introdução alimentar tradicional são os pais quem decidem quando e como o bebê começa a comer, e quando acaba a alimentação à base de leite. Já no baby-led weaning, o bebê tem autonomia para decidir quando começa e quando termina todo esse processo, e a alimentação é baseada nos seus instintos inatos e na sua capacidade de auto-regulação.

O BLW é uma abordagem de introdução alimentar que engloba oferecer alimentos saudáveis, compartilhando as refeições da família, certificando-se de que apenas o bebê coloque comida em sua própria boca. Aos pais e cuidadores, fica a responsabilidade de confiar que ele saiba se deve comer, o que comer, o quanto e com que rapidez – além de oferecer alimentos palpáveis desde o início, possibilitando assim que eles peguem com suas próprias mãos (Rapley, 2016).

E assim como a Introdução Alimentar Tradicional, o BLW também está cerceado por crenças que dificultam o entendimento da abordagem e, portanto, dificultam sua aceitação. Inúmeras famílias adaptam-se completamente ao BLW, sendo urgente a desmistificação de alguns conceitos para que os profissionais da saúde que acompanham essas famílias estejam aptos e prontos para aconselhá-las.

Saiba mais sobre o Curso Avançado em BLW e Introdução Alimentar ParticipATIVA.

 

“BLW é comer alimentos em pedaços”

Eu costumo dizer que os alimentos em pedaços são o meio e não o fim. Adequar os cortes dos alimentos para que o bebê possa pegá-los é muito importante pois, de outra forma, suas habilidades seriam insuficientes pra que ele tivesse autonomia pra se auto-alimentar, sem interferência, desde o início. Mas embora seja uma etapa fundamental do processo, o objetivo principal é que a partir da apresentação dos alimentos em pedaços, o bebê seja capaz de ser o protagonista da sua própria alimentação.

Assim, BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança dele para saber o que ele precisa. Se você está preocupado em oferecer o que restou com uma colher, depois do bebê ter comido com suas próprias mãos, então você não está realmente confiando nele. E o ponto é que confiar em seu bebê e não confiar muito nele são simplesmente incompatíveis. Assim, ao fazer algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação da colher pode funcionar para você, mas não é BLW (Rapley, 2016)

Leia mais: O que você está fazendo é BLW? E isso importa?

 

“Bebês não são capazes de comer sozinhos”

Não apenas os bebês SÃO capazes de comer sozinhos a partir dos seis meses, como muitos aceitam ser alimentados apenas dessa forma. Muitas famílias relatam que nem sabiam sobre a existência do BLW (“isso já existia desde que o mundo é mundo”), mas já entendiam que essa era a única forma que o bebê estava disposto a se alimentar.

Bom, você ainda pode não estar convencido disso, até ver essa enorme quantidade de bebês comendo por si só aqui.

Vale ressaltar que estamos falando de bebês nascidos a termo, em desenvolvimento típico. Quaisquer condições que dificultem ou prolonguem demasiado o aprendizagem da auto-alimentação, com certeza fazem com o que o BLW seja repensado. Cada caso deve ser avaliado individualmente pelo profissional de saúde que acompanha a família e o bebê.

 

“Bebês precisam comer papinhas”

Como vimos, a história da “papinha batida” tem sua fundamentação em toda a história da alimentação complementar. Bebês que iniciam a alimentação precocemente, devido à imaturidade no desenvolvimento motor, não tem outra opção senão receber um alimento pastoso homogêneo na colher. Por outro lado, ao estudar o desenvolvimento infantil, fica muito evidente que a oferta de semi-sólidos e sólidos poderia ser iniciada à partir de sinais de prontidão do bebê, observados através das habilidades de auto-alimentação que se tornam mais intensas e presentes por volta dos seis meses de vida.

Leia mais: Introdução alimentar: tradicional, BLW ou participativa? – Parte I

E é através da História que entendemos que existe um senso comum, que diz que os primeiros alimentos do bebê precisam ser amassados, homogêneos e oferecidos em uma colher. Rapley (2008, 2015) ressalta que, apesar desse senso comum, essa não é de fato uma prática comprovada cientificamente. Segundo a autora, não existem evidências que suportem a necessidade de um bebê de seis meses iniciar sua alimentação apenas com alimentos pastosos homogêneos, ou mesmo a necessidade de receber colheradas.

Cichero (2016-1), em uma revisão de literatura, tentou fortemente defender a ideia de que os bebês não estão preparados para manejar alimentos em pedaços aos seis meses, descrevendo todo o padrão de aprendizagem das habilidades motoras orais estudado até então. Mas durante toda sua revisão, a autora utiliza, em sua maioria, artigos e textos de livros escritos previamente à 2003, quando a OMS passou a indicar a introdução alimentar aos seis meses. Foi nessa mesma época que Gill Rapley também começou a falar sobre Baby-led Weaning, lançando seu primeiro livro apenas em 2008. Fato é, não adianta comparar o desenvolvimento dos bebês que fazem BLW desde o início, com os bebês que começam a introdução alimentar através da decisão do adulto e sendo alimentados passivamente com a colher. Novos estudos sobre o desenvolvimento motor oral, a partir da prontidão do bebê para se auto-alimentar, são necessários para trazer luz à essa discussão.

Atualmente, a OMS orienta oferecer alimentos que a criança possa pegar somente a partir dos 9 meses, enquanto o Ministério da Saúde do Brasil e Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam aumentar gradativamente a consistência da “papa” a partir dos 8 meses. A Sociedade Brasileira de Pediatria se posicionou recentemente (2017) em seu Guia Prático de Atualização sobre Alimentação Complementar e o Método Baby-led Weaning e, em sua conclusão, orienta:

“Reconhece-se que no momento da alimentação complementar, o lactente pode receber os alimentos amassados oferecidos na colher, mas também deve experimentar com as mãos, explorar as diferentes texturas dos alimentos como parte natural de seu aprendizado sensório motor. Deve-se estimular a interação com a comida, evoluindo de acordo com seu tempo de desenvolvimento.”

A UNICEF e o NHS do Reino Unido, em parceria, lançaram o Start4life, uma iniciativa para auxiliar os pais a darem um começo de vida mais saudável a seus bebês. Em sua brochura (2011), não mencionam o baby-led weaning, mas orientam:

“A partir dos 6 meses, incentive o bebê a comer alimentos em pedaços que ele possa facilmente segurar com as mãos, para ajudar ele a praticar por ele mesmo. Comece com alimentos em pedaços que se amassam facilmente na boca e que são grandes o suficientes para que eles consigam agarrar com as mãos. Sempre fique ao lado do seu bebê enquanto ele está comendo.”

Já o artigo ilustrado a seguir é referente ao ano de 1964, período no qual os bebês começavam a comer “a qualquer momento a partir do nascimento”:

1964 -

“Deveriam ser dados sólidos para as crianças mastigarem a partir do momento em que elas estão prontas: em uma criança típica isto acontece aos 6 – 7 meses”

 

“Bebês não conseguem mastigar e engolir pedaços”

Essa crença deriva da crença anterior, relacionada ao estudo das funções orais através de pesquisas feitas com bebês alimentados passivamente com a colher. Como discutimos anteriormente, novos estudos são necessários para avaliar o desenvolvimento das funções orofaciais a partir da prontidão do bebê para se auto-alimentar.

O BLW considera o desenvolvimento da maioria dos bebês aos 6 meses, incluindo a prontidão para receber alimentos sob diferentes perspectivas: sistema gastrodigestivo está mais preparado, o controle postural permite que o bebê comece a sentar sem apoio por volta desta idade, os primeiros dentes podem começar a nascer, o bebê está adquirindo maior movimentação da musculatura proximal e distal, conseguindo alcançar, agarrar objetos e levá-los à boca, o que leva à inibição do reflexo de protrusão de língua. O reflexo de gag ainda encontra-se anteriorizado, protegendo o bebê contra engasgos, principalmente no início, onde eles ainda estão aprendendo a mastigar.

Cichero (2016-2), em uma segunda revisão de literatura, novamente tenta reforçar que os bebês precisam passar por uma fase de transição, aprendendo a mastigar por meio da exposição à papa com pequenos pedaços macios, passando a mastigar de forma segura, alimentos naturalmente macios, como banana e abacate apenas a partir dos 10 meses. Toda a base de seu estudo e revisão são de datas anteriores à descrição do BLW e, como já coloquei anteriormente, não há como explicar o BLW através de pesquisas sobre mastigação feitas com bebês em introdução alimentar tradicional. Observe a tabela a seguir (em inglês):

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Cichero, 2016 (2)

Curiosamente, desde que o BLW começou a ser difundido, primeiramente na Inglaterra em 2002, e mundialmente após o lançamento do primeiro livro da Gill Rapley em 2008, não houve nenhum relato de caso de efeito adverso com o uso da abordagem, até o momento. Muito pelo contrário, a abordagem vem sendo cada vez mais compreendida e utilizada na prática, conforme pode ser visto nesse link aqui. O vídeo a seguir mostra um bebê de quase seis meses comendo seu primeiro alimento:

Em sua tese de doutorado, Delaney (2010) encontrou evidências de que purês não necessariamente são mais fáceis de comer e que, aprimorar as habilidades em comer purês não melhora a forma com que lidamos com os sólidos. Delaney também encontrou evidências que a experiência acelera o desenvolvimento das habilidades mastigatórias para acima do que seria esperado apenas pela maturidade do desenvolvimento. Observou também que bebês de 8 meses são capazes de demonstrar um grande número de habilidades, em uma variedade de texturas, contrariando o que antigamente se considerava padrão.

Rapley (2016), em resposta à um estudo neozelandês que compara a introdução alimentar tradicional ao baby-led weaning, diz o seguinte:

“Quando se trata de engasgo, é importante notar que a natureza do alimento não é o único fator. A postura e habilidades de mastigação do indivíduo também importam, assim como sua capacidade em se concentrar na alimentação.

(…) alguns escritores acreditam que os bebês BLW podem ser mais propensos a sufocar “porque eles estão se alimentando de alimentos integrais durante os estágios iniciais da alimentação complementar, enquanto eles ainda estão aprendendo a mastigar e engolir”. Mas isso implica que os bebês podem “aprender” a mastigar e engolir sem ser dado qualquer coisa mastigável. Não é assim que o desenvolvimento funciona!

De fato, não há evidência de que os bebês BLW estejam mais em risco de engasgamento do que bebês que são alimentados com colher.

Na verdade, o oposto pode até ser verdade, uma vez que os bebês BLW têm a oportunidade de praticar a mastigação a partir do momento em que as habilidades relevantes estão se desenvolvendo. Além disso, uma vez que não estão sob pressão para comer, eles são capazes de se concentrar no alimento e comer conscientemente, em seu próprio ritmo, o que lhes permite concentrar-se no que está acontecendo dentro de sua boca.

Se é o caso que os pais BLW são mais propensos a oferecer alimentos que apresentam um “risco de asfixia”, pode ser porque os bebês têm demonstrado que eles têm as habilidades necessárias para gerenciá-los.”

Pra finalizar, um estudo conduzido por Fangupo e colaboradores (2016) acompanhou mais de 180 famílias divididas entre aquelas que praticavam a auto-alimentação e aquelas que ofereciam a alimentação na colher. Os pesquisadores observaram que bebês que se auto-alimentavam não apresentaram maior ou menor risco de engasgo do que aqueles submetidos à uma prática mais tradicional. Na verdade, para ambos os grupos foram oferecidos alimentos potencialmente perigosos. O que significa que é preciso orientar muito bem os cuidadores a respeito de práticas seguras de alimentação, não importando a abordagem que será empregada.

 

“Bebês tem que se ‘acostumar’ à colher

Durante muitos e muitos anos os bebês foram obrigados a começar a comer muito cedo, então não havia outra opção senão “se acostumar à colher”. Primeiro porque é apenas por volta dos seis meses que o bebê consegue sentar sem apoio e liberar os braços, as mãos e a mandíbula, o que é essencial para a auto-alimentação. E também porque, como o reflexo de protrusão de língua ainda é muito forte e presente antes dos seis meses, utilizava-se a colher para inibir esse reflexo e, assim, conseguir alimentar o bebê.

Dessa forma, o adulto empurrava a comida dentro da boca e o reflexo de protrusão de língua jogava todo o alimento para fora. Até que, empurrando continuamente a colher sobre a língua, o reflexo era inibido e o bebê finalmente “se acostumava” à situação, praticamente apenas deglutindo a sopa espessa que lhe era colocada na boca.

Observando o desenvolvimento natural das habilidades de auto-alimentação, é bem nítido que o reflexo de protrusão de língua começa a desaparecer à medida que outros sinais vão ficando bem evidentes, como a melhora da preensão e do alcance de objetos, que vão em direção à boca e são manipulados com lábios, língua e bochechas pelo próprio bebê. Assim, a colher se torna um mero detalhe.

Bom, a natureza parece muito sábia, não é? Mas os humanos se acham muito espertos e continuaram a empurrar a colher na língua do bebê para poder ‘inibir’ esse reflexo e, por volta dos seis meses, poder oferecer pequenos pedaços misturados à sopa. Anos depois, foi-se dado conta que o sistema gastro-digestivo do bebê está melhor preparado para receber outros alimentos, além do leite materno, apenas após os seis meses. O que coincide com o desaparecimento natural do reflexo de protrusão de língua. Será apenas um acaso da natureza? Ou o próprio corpo do bebê avisando que ainda não está preparado? Ainda não existem pesquisas que comprovem essa teoria.

O que se sabe é que o modo como os bebês e crianças pequenas aprendem seus hábitos e preferências alimentares, dentro do contexto da relação cuidador-criança, ainda é pouco estudado. Existem evidências que suportam tanto contribuições feitas pela exposição precoce à práticas tradicionais (como alimentar com uma colher), como também por outras três formas de aprendizagem: familiarização, associação e observação (Birch & Doub, 2014).

A aprendizagem através da familiarização acontece através da experiência. E a distinção entre o que é familiar e o que não é tem um peso muito forte na avaliação da criança: o que lhe é familiar tende a ser preferido, e o que não é tende a ser evitado. Assim, as crianças tendem a preferir objetos, pessoas e atividades que lhe são familiares. Por isso, dar oportunidades para o bebê ter contato com os talheres desde cedo é essencial. Ele não precisa usar, a princípio. Com o tempo, e dadas devidas oportunidades, ele vai se interessar e tentar usá-lo.

A aprendizagem associativa envolve a associação entre duas situações e/ou estímulos. Então, no caso dos talheres, não necessariamente é preciso que ele seja alimentado com o talher desde cedo. A princípio, ele pode por exemplo usar um pão ou um palito de legume para capturar um purê grosso e levar à boca. As situações às quais o bebê é exposto o ensinam muito, ainda que ele não seja diretamente alimentado com uma colher.

A aprendizagem observacional, como o próprio nome diz, acontece pela observação dos modelos. As influências sociais tem um peso importante e entre os principais modelos estão os pais, a família, outros cuidadores e a creche/escolinha. Por isso, se culturalmente todos à volta do bebê comem com talheres, é bem improvável que ele vá comer com as mãos pra sempre.

 

“Bebês não comem o suficiente por si só”

Nós temos uma mania muito inconveniente de achar que sabemos exatamente o quanto o outro deveria comer.  Quando uma mãe está amamentando, ela é frequentemente posta à prova: “seu leite não é suficiente, você precisa complementar”. Quando o bebê começa a comer, logo surgem os comentários: “ele come muito pouco, ele precisa comer mais”. E o que acontece na adolescência e vida adulta? A quantidade é sempre posta à prova.

Embora se tenha uma ideia do que cada indivíduo precisa pra se manter vivo e saudável, não se sabe ao certo o quanto cada um precisa para saciar a sua própria fome e seu desejo de comer. A família tem um papel fundamental no modo como a criança aprende a comer, especialmente através de estratégias que utiliza para reconhecer os sinais de fome e saciedade. A auto-suficiência da criança em relação à sua ingestão de comida é o que contribui para um comportamento alimentar adequado (Silva e colaboradores, 2016).

O que acontece é que, no baby-led weaning, não há interferência externa, então não há a dependência da interpretação e intervenção do cuidador. Como o BLW é centrado na auto-alimentação e, no início, as habilidades motoras limitadas dificultam a ingestão de grande quantidade de alimentos, existe um grande medo grande por parte de pais e profissionais de que o bebê não vá receber tudo o que precisa.

Mas entender que a transição do leite para o alimento sólido deve ser gradativa é fundamental para diminuir as expectativas em relação às quantidades que o bebê vai comer nas primeiras ofertas de comida, evitando frustrações que geram o ciclo de recusa alimentar da criança.

 

Leia Mais: Recusa, controle e distúrbios alimentares: o efeito bola de neve

O quadro a seguir mostra como o leite materno se mantém como principal fonte de energia durante os primeiros meses de introdução alimentar, sendo ultrapassado pelos alimentos somente entre 12 e 24 meses.

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Leia mais: BLW: O bebê vai comer tudo o que precisa?

É claro que existem questões não respondidas, como a ingestão adequada de micronutrientes, por exemplo. Isso pode ser particularmente relevante se alimentos de baixa densidade calórica, como legumes e frutas, forem predominantes na dieta do bebê. Por isso, independente da abordagem escolhida para a introdução alimentar, é urgente e necessário que profissionais da saúde enfatizem a importância de se incluir alimentos energéticos e ricos em ferro desde o início da alimentação complementar (Morison e colaboradores, 2016).

Leia mais: Garantindo energia e ferro para o bebê no BLW

E ainda que o BLW seja provavelmente passível de ser seguido pela maioria das famílias de bebês nascidos a termo e em desenvolvimento típico, é claro que pode não ser a melhor opção para todos os bebês em todas as situações. Bebês com atraso no desenvolvimento motor ou outras alterações orais e/ou motoras podem não ser capazes de atingir suas necessidades calóricas e de nutrientes sem precisar de alguma assistência durante a alimentação (Cameron e colaboradores, 2012).

Leia mais: O BLW é o melhor método de introdução alimentar?

 

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Referências

Birch & Doub. Learning to eat: birth to age 2y. Am J Clin Nutr 2014; 99: 723S.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., 2. reimpr. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015.

Castilho, SD & Barros Filho, AA. (2010). Alimentos utilizados ao longo da história para nutrir lactentes. Jornal de Pediatria, 86(3), 179-188.

Cichero, J. (1), Introducing solid foods using baby-led weaning vs. spoon-feeding: A focus on oral development, nutrient intake and quality of research to bring balance to the debate. Nutr Bull: 41(1), 2016.

Cichero J (2). Unlocking opportunities in food design for infants, children, and the elderly: Understanding milestones in chewing and swallowing across the lifespan for new innovations. Journal Texture Studies, 2016.

Delaney & Arvedson. Development Of Swallowing And Feeding. Dev Disabil Res Rev, 2008.

Delaney AL. Oral-motor movement patterns in feeding development. PhD (Communicative Disorders). University of Wisconsin-Madison. 2010.

DEWEY, KATHRYN G.; BROWN, Kenneth H. Update on technical issues concerning complementary feeding of young children in developing countries and implications for intervention programs. Food and Nutrition Bulletin, v. 24, n.1, p. 5-28, 2003.

FANGUPO, L. J.; HEATH, A. M.; WILLIAMS S. M.; et al. A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. 138(4), 2016.

Harbron et al. Responsive feeding: establishing healthy eating behaviour early on in life. S Afr J Clin Nutr S141 2013;26(3).

Le Reverend et al. Review: Anatomical, functional, physiological and behavioural aspects of the development of mastication in early childhood. British Journal of Nutrition, 2013.

Morison, BJ; Taylor, RW; Haszard, JJ et al (2016) ‘How different are baby-led weaning and conventional complementary feeding? A cross-sectional study of infants aged 6-8 months’, BMJ Open

PAHO/WHO. Guiding principles for complementary feeding of the breastfed child. Washington DC, Pan American Health Organization/World Health Organization, 2003.

Rapley & Murkett. Baby-led Weaning: The essential guide to introducing solid foods and helping your baby to grow up a happy and confident eater. The Experiment: New York, 2008.

Rapley G. Spoon-feeding or self-feeding? The infant’s first experience of solid food. PhD (Philosophy). Canterbury Christ Church University. 2015.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP 2012.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia: Guia Prático de Atualização. A Alimentação Complementar e o Método BLW (Baby-Led Weaning). Maio 2017.

 

Pode esquentar o azeite?

por Nutricionista Michelle Bento

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O óleo pode ser aquecido por diversos meios, mas o método mais avaliado nos estudos é a fritura. O aquecimento provoca reações químicas que modificam as propriedades das gorduras, reduzindo a quantidade de ácidos graxos polinsaturados. O ômega-3 e ômega-6, considerados mais saudáveis, se perdem na fritura sendo transformados em gordura trans, provocando formação de espuma, modificando o sabor, aumentando o teor de ácidos graxos livres e formando novas substâncias. A intensidade dessas reações depende das condições de fritura, do tempo, da temperatura e da composição do óleo utilizado.

O ponto de fumaça dos óleo e gorduras diz respeito à temperatura em que começam a produzir fumaça e a se degradar. Neste ponto o óleo começa a sofrer as diversas reações vistas acima e passam a produzir acroleína. Os óleos com maior presença de gordura saturada e monoinsaturadas e aqueles que contêm menor teor de ácidos graxos livres são os menos suscetíveis à oxidação e associados com menor taxa de formação de acroleína e acrilamida. É possível observar na tabela abaixo que óleo de gergelim e linhaça, considerados saudáveis por serem ricos em ômega-6 e ômega-3, possuem ponto de fumaça mais baixo e não são, portanto, recomendados para aquecimento, devendo ser usados crus.

 

Gordura Ponto de fumaça
Manteiga comum 177°C
Manteiga ghee 252°C
Canola 240°C
Algodão 216°C
Azeite de oliva virgem 216°C
Azeite de oliva extra virgem 190°C
Óleo de gergelim 177°C
Óleo de linhaça 107°C

Fonte: The Vegetarian Health Institute  

O reaproveitamento do óleo não é recomendado, pois durante o aquecimento se formam maiores quantidades ácidos graxos livres e consequentemente se reduz drasticamente o ponto de fumaça original, o que resultará em mais altas emissões de substâncias tóxicas em baixas temperaturas.

A acrilamida é uma substância tóxica, associada a maior risco de câncer, e produzida pelas reações que os óleos e gorduras sofrem com o aquecimento. A tabela abaixo mostra a concentração de acrilamida em diferentes óleos vegetais e gorduras animais após o tratamento térmico a 180°C por 30 minutos (Daniali, 2016).

 

Óleo Conteúdo de acrilamida (mcg/kg)
Soja 2447
Óleo de palma 1442
Girassol 1226
Gergelim 1139
Azeite de oliva 542
Milho 430
Banha de porco 366
Manteiga ghee 211

 

Lim e colaboradores, em 2014, compararam o grau de oxidação e formação de acrilamida na fritura de batata usando 4 tipos de óleo: girassol, coco, canola e palma. O óleo de palma teve a menor concentração de acrilamida quando comparado com óleo de soja e de canola. Nesse estudo eles não encontraram diferença entre o conteúdo de acrilamida no óleo de coco e no óleo de canola, apesar do óleo de coco ser saturado. Os autores apontam a presença de ácidos graxos livres em maior quantidade no óleo de coco extra virgem como causa para esse achado.

Nas tabelas acima notamos que o azeite de oliva possui um ponto de fumaça adequado, acima de 180°C (em um refogado a temperatura é menor e o tempo de cozimento mais rápido, tornando a degradação mais controlada). Além disso, a formação de acrilamida é baixa quando em comparação com óleos refinados usados com frequência para cozimento. A manteiga ghee (aquela que passa por processo de clarificação) também possui um ponto de fumaça adequado e a formação de acrilamida é ainda menor, entretanto é uma gordura saturada, cujo consumo deve ser limitado por estar associada ao aumento do colesterol e aumento da resistência à insulina quando consumida em doses mais altas. Já o azeite de oliva possui efeito antioxidante, ajuda na melhora pressão arterial e controle de glicemia, atua no controle do colesterol e auxilia na diminuição do colesterol ruim (LDL), provoca uma redução no declínio cognitivo relacionado à idade e ao Alzheimer, evita formação de trombos, sendo importante para prevenção de doenças cardiovasculares.

Mas apesar de todos os benefícios conhecidos do azeite, muita gente ainda tem dúvidas quanto ao seu uso para aquecimento por acreditar que perca suas propriedades e, pior, comece a se transformar em uma gordura maléfica. Pois bem! Um estudo de revisão feito por Nogueira-de-Almeida e colaboradores em 2015, bem recente, tem como conclusão que o azeite de oliva extra virgem:

“é o óleo mais adequado para uso na forma crua, devido ao melhor perfil de ácidos graxos e à presença de antioxidantes. Mesmo após aquecimento em condições de uso doméstico, ele não sofre mudanças significativas em seu perfil de ácidos graxos. Em especial, cabe salientar que praticamente não ocorre formação de ácidos graxos trans ou de ácidos graxos saturados. Após aquecimento em condições de uso doméstico, não se observa a formação de substâncias tóxicas e o azeite de oliva extra virgem mantém cerca de 80% das substâncias antioxidantes”.

Frente à todas essas evidências, eu continuo sugerindo o azeite de oliva como a melhor opção a ser usada no preparo dos alimentos que serão consumidos por bebês em introdução alimentar, mas também para crianças maiores e adultos.

E sempre ressaltando que, não importa o tipo de óleo usado, a fritura não deve ser utilizada com frequência e o óleo nunca deve ser reaproveitado.

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

Referências bibliográficas

Poliana Cristina Mendonça Freire; Jorge Mancini-Filho; Tânia Aparecida Pinto de Castro Ferreira. Principais alterações físico-químicas em óleos e gorduras submetidos ao processo de fritura por imersão: regulamentação e efeitos na saúde. Revista de Nutrição. vol.26 no.3 Campinas May/June 2013

P.K. Lim, S. Jinap, M. Sanny, C.P. Tan, and A. Khatib. The Influence of Deep Frying Using Various Vegetable Oils on Acrylamide Formation in Sweet Potato (Ipomoea batatas L. Lam) Chips. Journal of Food Science. Vol. 79, Nr. 1, p. 115-121, 2014.

Daniali, G.; Jinap, S.;Hajeb, P.; Sanny, M.; Tan, C. P. Acrylamide formation in vegetable oils and animal fats during heat treatment. Food Chemistry 212 (2016) 244–249.

Carlos Alberto Nogueira-de-Almeida, Durval Ribas Filho, Elza Daniel de Mello, Graziela Melz, Ane Cristina Fayão Almeida. Azeite de Oliva e suas propriedades em preparações quentes: revisão da literatura. International Journal of Nutrology, v.8, n.2, p. 13-20, Mai / Ago 2015.

 

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Mitos e verdades sobre a introdução alimentar tradicional

por Aline Padovani

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Você está prestes a começar a introdução alimentar do bebê e se vê repleto de possibilidades… Nossa, “na minha época não era assim”. Talvez essa seja a primeira reação quando você começa a procurar sobre o assunto. Reconhecer que o conhecimento científico não é estático e sim, as recomendações mudam com o tempo, é um excelente começo.

Vamos nessa série de posts conhecer um pouco melhor sobre o que há de verdade e o que há de mitos e crenças envolvendo esse período tão importante da vida dos bebês. Mais do que “escolher um método”, seria importante que você refletisse e entendesse a complexidade dessa fase, e assimilasse o que funciona pra você, pra sua família e pro seu contexto.

I – A introdução alimentar tradicional

Infelizmente, existem muitos mitos e crenças a respeito da introdução alimentar tradicional. Apesar de estar minuciosamente descrita em diversos manuais de saúde ao redor do mundo, incluindo a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Ministério da Saúde do Brasil, na prática, essas crenças são fortemente assimiladas e difundidas pela cultura popular (o famoso “palpite”), por profissionais da saúde desatualizados e pela Indústria. Isso faz parte de uma grande bola de neve que tem sido um dos principais responsáveis pelo aumento do sobrepeso e doenças correlatas na infância.

O mito do “leite fraco”

O mito do leite fraco acompanha a mãe desde o nascimento, mas acentua-se fortemente após os seis meses, quando o bebê teoricamente deve começar a comer. De alguma forma, a cultura popular reforça o mito com a crença de que “o leite vira água”.

Aos pais, são ditos que o leite não nutre, e que o bebê tem que comer. Essa crença leva um esforço absurdo para fazer com que o bebê coma a todo e qualquer custo. Profissionais da saúde desatualizados reforçam o mito, indicando o desmame e o uso de fórmulas “fortificadas”. A indústria, obviamente, se aproveita de tudo isso e lança produtos e mais produtos que são de fácil aceitação e viciam prontamente o paladar infantil, como as papinhas prontas, os amidos açucarados e as farinhas para “engrossar” o leite.

Como pode ser visto no gráfico abaixo, o leite materno não vira água após os seis meses. Na realidade, o leite materno é capaz de suprir mais da metade da necessidade calórica de um bebê até os 12 meses. A alimentação complementa o leite, e não o contrário. E todas as grandes instituições de saúde ao redor do mundo já consideram que o leite materno é o alimento ideal e perfeito para os bebês até os 6 meses e que a amamentação deveria ser incentivada até os dois anos ou mais.

Energia leite materno OMS

Fonte: Organização Mundial da Saúde, 2009

Tendo em mente que o leite materno é o principal alimento do bebê no primeiro ano de vida, os pais se sentem muito mais tranquilos para assimilar que a introdução alimentar pode ser feita lenta e gradualmente, conforme preconizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (2012):

A introdução de alimentos novos e de consistência diferente da amamentação é um momento de grande aprendizado para o lactente, mas também, como toda novidade, é um momento de crise. A amamentação tem o poder de aliar alimentação a afeto, e esta passagem deve ter também afeto na condução. O uso da colher deve ser iniciado com o lactente no colo da mãe ou de quem der as colheradas. A paciência e a suavidade, assim como palavras tranquilizadoras e manifestações positivas, devem completar os esforços de quem ajuda nesta iniciação.

A maneira como será conduzida a mudança do regime de aleitamento materno exclusivo para essa multiplicidade de opções poderá determinar, a curto, médio ou longo prazo, atitudes favoráveis ou não em relação ao hábito e ao comportamento alimentar. O respeito ao tempo de adaptação aos novos alimentos, assim como às preferências e às novas quantidades de comida, modificará a ação destes alimentos em mecanismos reguladores do apetite e da saciedade. Assim, deve-se respeitar a autorregulação do lactente, não interferindo na sua decisão de não querer mais o alimento.

A crença do “bebê saudável é bebê gordinho”

Não que bebês gordinhos não sejam saudáveis, mas a grande verdade é que, magrinho ou gordinho, essas não são as únicas características que determinam a saúde do bebê. Outros aspectos, além do peso, são igualmente importantes, como os dados de nascimento, crescimento e desenvolvimento do bebê. Uma avaliação e orientação individualizada, com um profissional especializado e atualizado, é fundamental.

A Indústria tem se apropriado dessa crença há muitos anos, levando os pais a acreditar que é necessário complementar a alimentação do lactente com farináceos açucarados, geralmente adicionados ao leite, para que o bebê possa aceitar melhor e engordar mais. Leia mais: Receitas de MINGAU DE VERDADE: porque seu bebê não precisa comer ultraprocessados

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“um alimento que tem ajudado a criar, sãs e robustas, milhões e milhões de crianças em todo o mundo” (trecho de uma propaganda de leite, de 1949). Fonte: propagandashistoricas.com.br

A crença de que “tem que raspar o prato”

Essa crença é baseada em uma cultura milenar, dentro do paradigma da escassez de alimento. Entretanto, ao longo do tempo, houveram mudanças dramáticas no tipo e na oferta de alimentos. Aos poucos, a escassez foi sendo substituída pela gigantesca oferta de produtos ultraprocessados, produzidos em larga escala, hiperenergéticos, deliciosos e baratos. E ainda que a desnutrição seja um problema real e atual em alguns países, observa-se o aumento cada vez mais expressivo dos índices de obesidade no Brasil e no Mundo.

A crença de que a criança tem que raspar o prato prevê um comportamento extremamente controlador e/ou restritivo dos pais, que determinam previamente o quanto a criança precisa comer. Derivam, dessa cultura, as práticas tradicionalistas:

  • oferecer comida como calmante,
  • oferecer comida a todo momento,
  • oferecer grandes porções,
  • oferecer apenas alimentos preferidos,
  • distrair a criança para que ela coma mais e
  • fazer pressão para comer tudo o que tem no prato.

Muitos estudos, entretanto, já demonstraram melhores resultados de alimentação infantil quando permite-se que a criança se auto-regule, sendo respeitada em seus sinais de fome e saciedade.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2009), sabe-se que o sucesso da alimentação complementar depende não somente do que é servido, mas também de como, quando, onde e por quem é servido. A hipótese de alguns pesquisadores é que, quanto mais ativo for o estilo de alimentação ao qual a criança é exposta, melhor será sua aceitação. Assim, a OMS recomenda um estilo de alimentação responsivo, aplicando os princípios psicossociais de cuidado:

  1. auxiliar diretamente o bebê, atentando-se às pistas de fome e saciedade;
  2. alimentar devagar e pacientemente, encorajando a comer – mas não forçando;
  3. oferecer diferentes combinações, sabores e texturas;
  4. minimizar as distrações durante as refeições;
  5. lembrar que os momentos de alimentação são períodos de aprendizado e amor.

Em um conceito ampliado, a alimentação responsiva significa “reciprocidade entre a criança e seu cuidador”. E inclui 4 passos principais (Harbron et al, 2013):

  1. Criação de uma rotina estruturada: expectativas e emoções já conhecidas promovem interação.
  2. Sinalização por meio de pistas: comunicação através de ações motoras, expressões faciais ou vocalização.
  3. Pronta resposta do cuidador a esses sinais, oferecendo suporte apenas se necessário e apropriado.
  4. A criança consegue perceber claramente e prevê a resposta do adulto.

Confiar na quantidade que a criança está disposta a comer é, sem dúvida, uma das maiores quebras de paradigma dos últimos tempos. E é a base para a construção de uma relação de confiança com o seu cuidador e com a sua própria alimentação. Na introdução alimentar tradicional, os pais devem ser os responsáveis pelo que e quando oferecem, e também pelo modo como isso é realizado. Mas apenas a criança deve ser responsável pela quantidade de alimento que ela come (Junqueira, 2017).

O mito “o bebê precisa começar a comer aos 4 meses”

Não há como discorrer sobre alguns mitos sem falar sobre a história da alimentação complementar, que por sua vez é claramente dependente da história do aleitamento materno.

No decorrer da história, inúmeros estudiosos se dispuseram a entender a necessidade e o tempo da introdução dos alimentos na vida dos bebês, sendo orientado que se começasse tão cedo quanto 1 mês de vida e tão tarde quanto 2 a 3 anos de idade. Para se ter uma ideia, no século XVI, os bebês começavam a comer por volta de 7 a 9 meses, situação que foi antecipada para 2 a 4 meses nos 2 séculos seguintes. Castilho e Filho (2010), em sua revisão de literatura discorrem que:

À medida que as mães deixaram de amamentar, os sólidos passaram a ser introduzidos mais cedo. Se a edição de 1911 de Diseases of Infancy and Childhood (Holt) recomendava que os vegetais fossem introduzidos a partir dos 3 anos, sua reedição (1929) indicava que isso deveria ocorrer aos 9 meses. Outros estudos também mostravam essa tendência.

Em 1920, vegetais peneirados eram introduzidos no final do primeiro ano, tubérculos com 18 meses e outros alimentos só após os 2 anos.

Na década de 50, frutas e vegetais eram prescritos a partir dos 4 meses, e na seguinte, 83% das crianças de 1 mês atendidas no distrito de Colúmbia já recebiam algum alimento mais consistente.

Em uma pesquisa realizada em Los Angeles (1976), Hollen observou que 1/3 dos médicos indicavam a introdução de sólidos nas primeiras 6 semanas e quase 2/3, antes dos 3 meses.

Ao mesmo tempo em que isso acontecia, a introdução do leite animal passou a ocorrer cada vez mais cedo, e a prevalência da amamentação diminuiu ainda mais entre 1930 e 1970. Muitas vezes, o uso de fórmulas industrializadas ficava restrito a poucos meses devido ao alto custo se comparado ao leite de vaca.”

Foi a partir da década de 1980 que as coisas começaram a mudar, quando o pesquisador brasileiro Cesar Victora liderou uma pesquisa  considerada um divisor de águas na área de alimentação infantil. Seu trabalho foi o primeiro a mostrar que a amamentação exclusiva (sem oferta de águas ou chás para os bebês) ajudava a reduzir em 14 vezes o risco de morte por diarreia e em 3,6 vezes o risco de morte infantil por doenças respiratórias. A pesquisa, que mais tarde foi replicada em outros países, alterou totalmente a recomendação da alimentação infantil, mais de 20 anos depois, quando, em 2001, a Organização Mundial da Saúde, passou a indicar que os bebês se alimentassem exclusivamente com leite materno durante os seis primeiros meses de vida. 

O Manual de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (2012) descreve de forma muito explícita:

Não há evidências de que exista alguma vantagem na introdução precoce (antes dos seis meses) de outros alimentos que não o leite humano na dieta da criança. Por outro lado, os relatos de que essa prática possa ser prejudicial são abundantes.”

E ainda:

“A partir do sexto mês de vida, deve-se introduzir a alimentação complementar, mantendo-se o aleitamento materno até os 2 anos de idade ou mais. Retardar a introdução de alimentos complementares não protege a criança do desenvolvimento de doenças alérgicas, podendo mesmo aumentar este risco. A introdução de grande variedade de alimentos sólidos por volta de 3 a 4 meses de vida parece elevar o risco de eczema atópico e de alergia alimentar.”

Leia mais: O bebê está pronto para a introdução alimentar? (O que dizem as pesquisas)

O mito do “suquinho de laranja”

Também relacionado à história do aleitamento materno e da fórmula infantil, a introdução do suco de frutas precocemente deriva da época em que os leites artificiais não tinham nutrientes suficientes, e o leite de vaca era dado em maior escala. Castilho e Filho (2010) comentam que:

“Enquanto os alemães utilizavam leite fervido para seu preparo, os estadunidenses priorizavam o leite in natura por observarem que certas doenças, como o escorbuto, ocorriam predominantemente em crianças alimentadas com leite esterilizado, pasteurizado ou condensado. Em 1912, Funk sugeriu que o beribéri, o escorbuto, a pelagra e o raquitismo eram decorrentes da falta de vitaminas na dieta. Essa descoberta determinou a recomendação de que se suplementasse a alimentação com suco de frutas e óleo de fígado de bacalhau. Desde então, o uso do leite fervido deixou de representar uma ameaça à saúde, e o emprego de fórmulas diluídas se popularizou.”

Ainda que datada do início do século passado,  essa é uma orientação que ainda hoje percorre os consultórios pediátricos, orientando-se o suco de laranja, em horários de substituição ao leite, aos 4 meses. Mas a Sociedade Brasileira de Pediatria, em sua última publicação sobre alimentação complementar (2012), é bem coerente ao afirmar:

“O tipo de fruta a ser oferecido terá de respeitar características regionais, custo, estação do ano e presença de fibras, lembrando que nenhuma fruta é contraindicada. Os sucos naturais devem ser evitados, mas se forem administrados que sejam dados no copo, de preferência após as refeições principais, e não em substituição a estas, em dose máxima de 100 mL/dia, com a finalidade de melhorar a absorção do ferro não heme presente nos alimentos como feijão e folhas verde-escuras.”

A crença de que “o bebê vai engasgar”

Essa crença, como vocês já podem imaginar, também tem sua explicação com o decorrer da história da alimentação complementar. Na pré-história, o homem caçava seus próprios alimentos, e os rebanhos ainda não haviam sido organizados. Como não havia como extrair leites de outros animais, quando a mãe não podia amamentar, a criança estava condenada à morte, a menos que outra mulher a substituísse nessa mesma função. Nessa época, a amamentação se prolongava provavelmente até a criança ser capaz de procurar seu próprio alimento (Castilho e Filho, 2010)

Nessa busca por alimento, não havia outra forma senão seguir seus próprios instintos e desenvolver suas habilidades para se auto-alimentar, naturalmente, como todos os mamíferos. Mas como vimos, no decorrer da história, os pais foram orientados a iniciar a alimentação em inúmeras e diferentes fases do desenvolvimento. Observe a figura a seguir:

desenvolvimento motor

Fonte: Pinterest

Consegue claramente perceber a sutileza das etapas do desenvolvimento motor global do bebê de 1 a 6 meses?

Até por volta de 6 meses, o bebê não tem condições motoras para estabilizar seu corpo em uma linha média, o que é essencial para garantir o movimento mandibular e, por consequência, os movimentos de lateralização de língua necessários durante a mastigação. Somente a partir dos 4 meses é que o bebê começa a tentar pegar um objeto e levá-lo à boca, atividade que vai se aprimorando e atinge seu ápice dos 5 aos 7 meses. A partir daí, essa atividade também vai dando lugar à curiosidade e exploração de outras formas, como rotacionar o objeto e transferi-lo entre as mãos. Leia mais: O bebê precisa conseguir sentar para comer sólidos?

Por esse motivo, bebês que iniciam a alimentação precocemente, não tem outra opção senão receber um alimento pastoso homogêneo na colher. Por outro lado, ao estudar o desenvolvimento infantil, fica muito evidente que a oferta de semi-sólidos e sólidos poderia ser iniciada à partir de sinais de prontidão do bebê, observada através das habilidades de auto-alimentação que se tornam mais intensas e presentes por volta dos seis meses de vida. É inclusive uma janela de oportunidades muito importante, visto que o período crítico para apresentação de sólidos, descrito em literatura, é entre 6 a 9 meses. Estudos mostram que crianças que tiveram introdução de sólidos depois dos 10 meses eram mais seletivas e ingeriam menos comida aos 15 meses e aos 7 anos de idade (Le Reverend et al, 2013).

É preciso dar oportunidade para o bebê aprender a mastigar . E quando é o próprio bebê que controla o alimento em sua boca, ele tem total controle da situação. Se está difícil, ele não vai colocar mais. Mas quando falamos em alimentação tradicional, ainda que a gente tente não interferir no processo, de certa forma estamos sujeito a errar, interpretar erroneamente os sinais do bebê. Principalmente porque quem decide quando começar a alimentação complementar, na introdução alimentar tradicional, é o adulto.

Dessa forma, é possível que o bebê ainda não esteja, em termos de desenvolvimento, preparado para manejar alimentos sólidos em sua boca. Como a introdução alimentar tradicional prevê a total dependência do adulto, ainda é recomendado amassar a comida em forma de purê para iniciar a introdução alimentar tradicional. Essa, sem dúvida, é a forma mais segura de iniciar a introdução alimentar tradicional.

É bem possível que o bebê engasgue, por exemplo, se você tentar dar uma colherada enquanto ainda ele tem comida na boca. Ou ainda, tentar dar uma colherada quando ele realmente está com dificuldade de mastigar. Por esse motivo, a progressão das consistências na introdução alimentar tradicional se faz necessária. É impossível predizer se o bebê está realmente preparado para receber sólidos em sua boca se a decisão de alimentar parte do adulto, e não do próprio bebê. Quando um bebê está no controle da situação, ele só vai colocar comida na boca quando estiver confortável para aquilo. Isso é instintivo, natural. Leia mais: E se meu bebê engasgar?

Mas embora a Sociedade Brasileira de Pediatria (2012) já recomende que o bebê comece a comer os alimentos que fazem parte da rotina familiar, progredindo a consistência da alimentação a partir dos 9 meses, muitas famílias insistem na consistência pastosa homogênea e no máximo pastosa heterogênea para além do primeiro ano de vida. Com o passar do tempo, a ausência de estímulos necessários para o aprendizado da mastigação leva a uma inabilidade para manejar alimentos sólidos na boca, ocasionando frequentemente uma recusa e aversão por alimentos dessa textura. A criança não come simplesmente porque não sabe comer.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (2012):

“A consistência dos alimentos deve ser progressivamente elevada, respeitando-se o desenvolvimento da criança e evitando-se, dessa forma, a administração de alimentos muito diluídos (com baixa densidade energética) para propiciar a oferta calórica adequada. Além disso, as crianças que não recebem alimentos em pedaços até os 10 meses apresentam, posteriormente, maior dificuldade de aceitação de alimentos sólidos.”

e ainda:

A alimentação complementar pode ser chamada de transição quando for especialmente preparada para a criança pequena até que ela possa receber alimentos da mesma consistência dos consumidos pela família (em torno dos 9-11 meses de idade).

Os alimentos utilizados pela família (modificados ou simplesmente alimentos da família) são os que fazem parte do hábito familiar, devem ser oferecidos inicialmente em forma de papa, passando-se a apresentá-los em pequenos pedaços dos 9 aos 11 meses e, aos 12 meses, na mesma consistência com que são consumidos pela família. Nesse momento, cabe ao pediatra avaliar a qualidade dos alimentos consumidos pela família”

 

CONALCO2017

Referências:

  • Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., 2. reimpr. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015.
  • PAHO/WHO. Guiding principles for complementary feeding of the breastfed child. Washington DC, Pan American Health Organization/World Health Organization, 2003.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP 2012.
  • Le Reverend et al. Review: Anatomical, functional, physiological and behavioural aspects of the development of mastication in early childhood. British Journal of Nutrition, 2013.
  • Delaney & Arvedson. Development Of Swallowing And Feeding. Dev Disabil Res Rev, 2008.
  • Harbron et al. Responsive feeding: establishing healthy eating behaviour early on in life. S Afr J Clin Nutr S141 2013;26(3).
  • Birch & Doub. Learning to eat: birth to age 2y. Am J Clin Nutr 2014; 99: 723S.
  • Castilho, Silvia Diez, & Barros Filho, Antônio de Azevedo. (2010). Alimentos utilizados ao longo da história para nutrir lactentes. Jornal de Pediatria, 86(3), 179-188.