Guia para aplicação do BLW: fundamentos

Para ajudar as famílias que querem aplicar o método, coloco à disposição a tradução livre do guia para a introdução de alimentação complementar guiada pelo bebê, proposto pela autora Gill Rapley.

A versão original completa encontra-se disponível no site da autora (link).

Introdução

Implementar o BLW requer um entendimento do porquê essa abordagem pode ser considerada lógica e segura. A primeira seção deste guia explica a fundamentação lógica, destacando os princípios que apoiam o método e a última seção nos dá uma listagem dos pontos-chave. Seguir esse guia irá maximizar as chances do bebê e seus pais aproveitarem positivamente essa transição para a alimentação de sólidos, além de ajudar a garantir o bem estar do bebê.

A MAIORIA dos bebês estará pronta para começar a experimentar alimentos sólidos por volta dos seis meses de idade. Pais de bebês nascidos pré-termo (menos que 38 semanas de gestação) ou bebês que tem QUALQUER condição que possa afetar sua habilidade de ou lidar com o alimento de maneira segura ou de digerir uma série de nutrientes, são instruídos a procurarem um profissional de saúde ANTES de oferecerem alimentos sólidos ao seu bebê, e ANTES de decidirem utilizar o BLW como único método de oferta.

Fundamentação lógica

1. Amamentação como base para a alimentação independente

A amamentação exclusiva é recomendada nos primeiros seis meses de vida. É a preparação ideal para a alimentação de sólidos de maneira independente. Bebês amamentados alimentam-se no seu próprio tempo – e de fato, é impossível forçá-los a fazer qualquer outra coisa! Eles também controlam sua própria ingestão, escolhendo a duração de cada mamada. E, considerando que o sabor do leite materno modifica-se de acordo com a dieta da mãe, a amamentação prepara o bebê para novos sabores.

Bebês normais e saudáveis, quando amamentados, aparentam ser bem capazes de guiar sua própria introdução aos alimentos sólidos, se forem apropriadamente incentivados por seus pais. Entretanto, apesar da amamentação ser base da metodologia do BLW, muitos pais cujos bebês são alimentados com fórmula também acharam que o método funciona perfeitamente para eles também. A única diferença significante é que é essencial garantir que sejamoferecidas outras bebidas além de leite para o bebê alimentado com fórmula.

2. Entendendo a motivação do bebê

O BLW oferece ao bebê a oportunidade de descobrir outros alimentos como parte da descoberta do mundo ao seu redor. O bebê utiliza seu desejo em explorar e experienciar, além de praticar a imitação das atividades de outros. Permitindo ao bebê que ele determine o ritmo de cada refeição, e mantendo a ênfase na exploração e brincadeira mais do que na alimentação prapriamente dita, permitimos que a transição para a alimentação de sólidos seja feita de forma mais natural possível. Isso porque o que vai motivar o bebê a realizar essa transição será a curiosidade e não a fome.

Não há razões para coincidir os horários das refeições com os horários da amamentação. De fato, pensar na amamentação e na alimentação de sólidos como duas atividades distintas irá tornar a abordagem mais tranquila e prazerosa para ambos pais e bebê.

3. Ele não irá engasgar?

Muitos pais preocupam-se com o engasgo. Entretanto, existem boas razões para acreditar que bebês tem MENOR risco de engasgar se eles estão no controle do que colocam em sua própria boca do que quando eles são alimentados com uma colher. Isto porque bebês não são capazes de, intencionalmente, movimentar o alimento para o fundo da boca até que eles desenvolvam a habilidade de mastigar. E eles não desenvolvem a habilidade de mastigação até desenvolverem a habilidade de alcançar e pegar coisas. A habilidade de pegar coisas bem pequenas desenvolve-se posteriormente. Desta forma, um bebê mais novo não consegue colocar-se em risco porque simplesmente  ele não consegue capturar pequenos pedaços de alimento para colocá-lo na boca. Com a colher, entretanto, encorajamos o bebê a sugar o alimento para o fundo da boca, aumentando potencialmente o risco de engasgo.

Aparentemente, o desenvolvimento geral do bebê acompanha a capacidade do bebê de manejar o alimento na boca e digerí-lo. Um bebê que está com dificuldade para colocar o alimento na boca, provavelmente não está pronto para isso. É importante resistir à tentação de “ajudar” o bebê nestas cirscunstâncias, visto que suas habilidades adquiridas durante o desenvolvimento irão garantir que a transição para a alimentação sólida aconteça no momento certo, com risco mínimo de engasgo.

Virar o bebê de bruços ou deitá-lo durante a oferta de sólidos é muito perigoso. Um bebê que está mexendo com a comida deve sempre estar posicionado sentado e ereto. Essa posição garante que o alimento que ele não é capaz, ou que não quer engolir, irá cair de sua boca.

Adotar uma abordagem guiada pelo bebê não significa abandonar todas as regras de segurança de senso comum. Embora seja muito improvável que um bebê mais novo consiga pegar um amendoim, acidentes podem e raramente irão acontecer – seja qual for a maneira de oferta. As regras normais de segurança durante a alimentação e brincadeira devem ser seguidas da mesma forma.

4. Garantindo nutrição adequada

Bebês que tem a oportunidade de alimentar-se sozinhos aparentemente aceitam uma maior variedade de alimentos. Isto porque eles provavelmente tem mais do que apenas o sabor do alimento para se concentrar durante a hora da refeição – eles também estão experimentando textura, cor, tamanho e forma. Adicionalmente, oferecer os alimentos separadamente, ou de uma forma que permita que o bebê os separe, possibilita que eles aprendam sobre uma variedadae de texturas e sabores. E permitindo que eles deixem de lado aquilo que eles parecem não gostar, os encoraja a estar preparado para provar coisas novas.

Os princípios gerais de uma boa nutrição para crianças se aplicam igualmente para bebês que estão tomando conta da própria introdução aos sólidos. Assim, fast food e alimentos com adição de açúcar e/ou sal devem ser evitados. Por outro lado, uma vez que o bebê é maior de seis meses de idade, não há necessidade de restringir os alimentos que podem ser oferecidos ao bebê (a menos que exista histórico familiar de alergias ou suspeita de alterações no sistema digestivo). Idealmente, ofereça frutas e vegetais, e alimentos mais duros devem ser levemente cozidos para que fiquem macios o suficiente para serem mastigados. Inicialmente, é melhor oferecer as carnes em pedaços grandes, para serem explorados e sugados. Uma vez que o bebê é capaz de pegar e soltar pedaços pequenos de comida, as carnes desfiadas/moídas funcionam bem. (Observação: bebês não precisam de dentes para morder e mastigar – as gengivas fazem um ótimo trabalho!).

Não há necessidade de cortar alimentos em pedaços pequenos. Na verdade, isso vai fazer a tarefa mais difícil para bebês menores. Um bom guia para o tamanho e forma necessária é o tamanho do punho do bebê, com um importante fator para se ter em mente: bebês pequenos não conseguem abrir o punho intencionalmente. Isso significa que eles tem melhor desempenho com o que tem forma de batata-frita ou tem uma “alça” (como o cabo do brócolis, por exemplo). Eles então podem mastigar o pedaço que está saindo para fora do punho fechado e soltar o restante depois – geralmente enquanto eles estão tentando pegar o próximo pedaço que parece mais interessante. Conforme suas habilidades são adquiridas, menos comida será desperdiçada.

5. E sobre as bebidas?

A produção da porção gordurosa do leite materno aumenta durante a mamada. Um bebê amamentado do peito reconhece a mudança e consegue controlar sua própria ingestão. Se ele quiser beber líquido, ele tende a mamar por um curto período, provavelmente de ambos seios, enquanto que, se ele está com fome, irá mamar por tempo maior. Este é o motivo pelo qual bebês que mamam no peito em livre demanda não precisam de outros líquidos, mesmo no calor.

Esse princípio pode ser trabalhado durante o período de transição para os alimentos que a família come, caso o bebê ainda esteja sendo amamentado em livre demanda. Um copo de água pode ser oferecido com as refeições como parte da oportunidade para exploração, mas não há necessidade de ficar preocupado se o bebê não ingere nada.

Bebês que tomam fórmula, por sua vez, precisam de uma abordagem ligeiramente diferenciada, visto que a fórmula tem a mesma consistência durante toda a mamada e portanto não sacia a sede. Oferecer água em intervalos regulares uma vez que o bebê está comendo pequenas quantidades de alimento é tudo que o bebê precisa para garantir uma adequada ingestão de líquidos.

A amamentação prolongada em livre demanda durante o período de introdução à alimentação complementar ainda tem a vantagem de permitir ao bebê decidir como e quando interromper sua ingestão de leite. Como ele está comendo mais durante as refeições, ele vai progressivamente “esquecendo” de pedir pela mamada, ou vai mamar menos por vez. Não há necessidade da mãe tomar decisões pelo bebê.

OBSERVAÇÃO: O conteúdo do guia é de única e exclusiva responsabilidade da autora e não existem conflitos de interesses com a publicação desta tradução livre. O conteúdo é atual até a data de Junho de 2008 e quaisquer modificações de orientação após essa data devem ser investigadas e conduzidas.

Fonte:

Rapley, G. Guia para implementação de uma abordagem de introdução de alimentos sólidos guiada pelo bebê. 2008. Disponível em: www.rapleyweaning.com. Último acesso: 31/08/2014.