Posso combinar métodos? O BLW e a oferta da papinha

A idéia de oferecer alimentos em pedaços (finger food) para os bebês não é nova. Instintivamente, mães de todas as partes do mundo sempre ofereceram um pedaço de fruta, um biscoito, um pedaço de pão, normalmente quando o bebê começa a se interessar pelo alimento inteiro e mostra autonomia para segurá-lo e levá-lo à boca com destreza. A mãe, já acostumada a ver o bebê comer suas papinhas com eficiência – geralmente por volta dos 8-9 meses começa a oferecer um pedaço ou outro de alimento inteiro ao bebê. Muitas vezes – mas não somente – no intuito de distraí-lo, em um intervalo entre refeições.

O BLW – por sua vez – também apoia-se na ideia de oferecer alimentos em sua forma original ao bebê. Mas mais do que isso, reforça a ideia de que o bebê deve alimentar-se sozinho, em todas as refeições, desde o seu primeiro contato com o alimento, aos 6 meses de idade – período no qual a maioria dos bebês já está apto para sentar sem apoio, capturar e levar objetos à boca, e digerir alimentos. Sem purês, sem colheradas, sem aviõezinhos, sem pressa na introdução dos sólidos. O BLW, acima de tudo, apoia-se na ideia de que até um ano de idade o principal alimento do bebê é o leite – seja o leite materno ou artificial.

Sobre a oferta de papas, o livro é bem claro:

Acontece alguma coisa se eu combinar o BLW e a alimentação com a colher?

A maioria dos bebês preferem comer sozinhos do que outra pessoa lhes dê de comer, porque tem prazer de fazer coisas por si próprios e aprender habilidades novas. Muitos pais recorrem ao BLW quando seu bebê se nega que lhe dêem de comer com a colher.

Existe um mito, segundo o qual se deve convencer os bebês para que aceitem a alimentação com a colher. Estes são alguns dos motivos mais frequentes:

– a crença errônea de que os bebês tem que se “acostumar” à colher a certa idade.
– a crença errônea de que os bebês precisam comer iogurte diariamente e que não são capazes de comer sozinhos.
– a preocupação pela sujeira que pode fazer um bebê que come sozinho.
– a preocupação por não saber se o bebê come o suficiente por si só e precisam acabar de “enchê-lo” com purês.

Alguns pais querem que o bebê se acostume que lhe dêem de comer com a colher, para se porventura precisem fazê-lo, e existem outros que simplesmente  querem dispor desta opção, além e deixá-lo comer sozinho.

Todavia, a opinião do bebê pode ser bem diferente. Muitos bebês que aprendem a comer sozinhos deixam em seguida muito claro que não querem que ninguém lhes dê de comer. Conseguem transmitir esta mensagem de múltiplas maneiras, e a principal é arrebatar a colher ao adulto. Isso é aparentemente  certeiro no caso dos bebês que mamam no peito, já que até esse momento eles próprios tiveram controle da sua alimentação. Tenha em conta que, se de vez em quando você insiste em dar comida pro seu filho, enquanto que em outras ocasiões você o deixa comer sozinho, você estará enviando mensagens contraditórias sobre a confiança depositada nele e no tanto que você o permite ser independente.

Se o bebê aceita a colher, pode-se combinar os purês com o método BLW sem se preocupar. Entretanto, se o método lhe interessou pelas vantagens que oferece ao bebê, RECOMENDAMOS que não dê os purês em cada refeição. Caso o faça, é possível que o bebê não pratique com texturas o suficiente ou que não tenha muitas oportunidades de praticar e desenvolver suas habilidades. Também existe a possibilidade de que vc caia na tentação de tentar persuadi-lo a comer mais do que comeria se sozinho. É melhor reservar a colher para alimentos concretos, como iogurtes e cremes por exemplo, ou dar (na mão) do bebê uma colher já cheia de vez em quando, para que seja ele quem decida quando levar à boca. (O livro ainda tem conselhos para como oferecer alimentos semilíquidos para que o bebê coma sozinho).

(Rapley e Murkett, 2008)

Ou seja, a autora deixa claro que NÃO É PROIBIDO, mas quando oferecemos um purê ou oferecemos a comida com a colher para o bebê, também acabamos perdendo uma parte do conceito do BLW. Ainda temos inúmeras vantagens utilizando o método parcialmente, mas podemos estar deixando de ganhar algumas habilidades que são inerentes ao método em sua forma mais pura.

Assim, de acordo com a TEORIA DO LIVRO, é que NÃO HÁ NECESSIDADE. Além disso, até o momento, ainda que demonstrados por resultados iniciais, não foram observados aspectos negativos com a aplicação do BLW de forma mais rígida (definida como pouca ou nenhuma oferta assistida). Pelo contrário, os resultados iniciais mostraram que os bebês expostos ao BLW desta forma apresentaram maior resposta de saciedade e redução da probabilidade de sobrepeso aos 18-24 meses.

NA PRÁTICA, você deve fazer o que achar mais conveniente dentro do seu contexto! É evidente que cada ser humano é único e isso inclui o bebê, a mãe e a família como um todo. Por mais que as vezes tenhamos a intenção de praticar um método rígido, é possível que, por algum motivo – qualquer que seja, alguma “regra” nos escape. Isso não é uma característica só sua, mãe. Como você pôde ver, mesmo nos países onde o método é altamente difundido, existem diferentes tipos de aderência ao método. Uns confiam plenamente; outros utilizam-se de alguns ensinamentos para complementar o que já vinham praticando sem muita noção do que estavam fazendo; outros tentam praticar o máximo de vezes possíveis mas deparam-se com dificuldades como: troca de cuidador, ida para a creche, horários apertados ou mal-entendimento do método pela família. Você saberá o quanto da proposta do BLW cabe em sua vida, do seu bebê e sua família. Não se apegue aos rótulos, mas ao melhor que você pode fazer pelo seu bebê e sua família no momento.

Por fim, quando estamos falando de um método cuja eficácia ainda não foi comprovada cientificamente, todo questionamento e toda análise pontual e de contexto é válida. Assim, é natural que uma mãe se questione se seu bebê ingere alimento suficiente com o BLW (as próprias pesquisas questionam isso e ainda não há uma resposta válida). Quando um bebê fica doente, quando um bebê demonstra pouco ou nenhum interesse pela comida, quando apresenta deficit de crescimento, aja imediatamente. Abuse do seu sexto sentido de mãe, não confie em métodos infalíveis – e principalmente aqueles não validados pela ciência. E sempre, sempre discuta aplicabilidade do método com o pediatra do seu bebê! 🙂

Referências:

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Rapley G, Murkett T. Baby-led weaning: helping your child love good food. London, UK: Vermilion, 2008.

Brown A, Lee MD. Early influences on child satiety-responsiveness: the role of weaning style. Pediatric Obesity 2013.

Ferreira, LP; Befi-Lopes, DM; Limongi, SCO. Tratado de Fonoaudiologia. São Paulo: Rocca, 2004. p. 415-38.

Ministério da Saúde, Organização Pan-Americana da Saúde. Guia alimentar para crianças menores de 2 anos. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2005.

World Health Organization. Department of Nutrition for Health and Development. Complementary feeding: family foods for breastfed children. Geneva: WHO, 2000.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP 2012.