Posso combinar métodos? O BLW e a oferta da papinha – Parte II

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Com a popularidade crescente do método BLW em alguns países como Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália, as pesquisas começaram a tomar forma. Em sua maioria trabalhos de análise de prontuários de pacientes e respostas de questionários aplicados com voluntários.

Conforme essas pesquisas foram sendo conduzidas, foi-se percebendo que existia, entre as mães simpatizantes com o método, uma linha contínua de aderência ao BLW. Isso significa que algumas mães eram extremamente rígidas em seguir todas as “regras” que o livro propunha, outras nem tanto. E entre as mães “nem tanto”, algumas auxiliavam o bebê somente quando estavam comendo fora, ou quando precisavam oferecer algo que precisava de colher (como iogurte, por exemplo) e outras praticavam aproximadamente 50/50 tradicional/BLW.

Ou seja, existiam mães BLW para todos os gostos. Tanto, que alguns pesquisadores encontraram dificuldades para dividir essas mães em grupos, para poder compará-los (os grupos) entre si. Um dos estudos, por exemplo, utilizou um limiar de no máximo 10% de alimentação assistida (oferecida pelo cuidador) para definir quem seria adepto do BLW e quem seria adepto ao método tradicional. Já outros estudos optaram por separar essas mães em grupos mais flexíveis. Tudo isso para poder comparar as diferenças nos resultados quando se aplicava o método BLW estritamente ou de maneira mais flexível.

Interessantemente, uma proporção de famílias que reportaram estar utilizando o BLW estavam na verdade utilizando uma abordagem mais flexível do método, a qual incluía uma combinação de alimentação independente e alimentação assistida. Geralmente, isso ocorria quando o bebê era aparentemente incapaz de se alimentar sozinho (por exemplo quando estava doente) ou especificamente para garantir apropriada ingestão de ferro (em alguns países é muito comum oferecer o cereal rico em ferro no café da manhã após os seis meses). O que os pesquisadores puderam inferir foi que o BLW e a alimentação assistida não eram vistos pela comunidade como métodos dicotômicos (que seria um excluindo o outro), mas sim estilos de alimentação infantil que poderiam ser combinados para adequar as necessidades da criança e da família em determinadas situações.

Outro fato importante a ser destacado é que a maior parte dos resultados positivos foram observados principalmente no grupo mais aderente ao BLW (pouca ou nenhuma oferta assistida). Famílias que seguiram o BLW de forma mais rígida também apresentaram melhores comportamentos em relação à saúde e nutrição. A maioria desses bebês foi amamentada exclusivamente até os seis meses e iniciaram alimentação complementar somente após essa idade, como sugere a OMS. Interessantemente, mães que seguiram o BLW rigidamente (pouca ou nenhuma oferta assistida) apresentaram melhores níveis de educação formal.

Uma questão de semântica.

É importante ressaltar que, dar uma fruta ou um legume na mão da criança uma vez ou outra, ou oferecer os sólidos para a criança durante a oferta da papinha, não caracteriza BLW. O termo ficou em evidência como uma “moda” entre as mães, mas é importante entender o conceito original. Entenda, pesquise, pergunte, troque ideias e receitas com outras mães que já aplicaram ou que estão aplicando o método, inclusive para receber suporte e “apoio moral”. Quanto mais você entender o método, mais sentido ele vai fazer pra você e maiores as chances de você estar praticando com sucesso o melhor que o BLW tem a oferecer para seu bebê.

Praticar o BLW precisa de muito empenho, paciência e requer que você, acima de tudo, confie no seu bebê. Ele vai ser o principal ditador das regras. Ele vai te dizer o que, como, quando e quanto quer comer. Pode ser que você deixe a disposição uma série de alimentos e ele te diga (mesmo sem falar) que não é ali nem agora que ele gostaria de estar. Não se desespere, tenha paciência, controle a ansiedade. Dê tempo à ele. A alimentação é em livre-demanda. Se ele não quer comer agora, tente daqui meia hora. Coloque-se no lugar do bebê e tente entender a vontade dele. E lembre-se que o leite é a principal fonte de nutrição do bebê durante o primeiro ano de vida. Discuta suplementos de vitaminas e ferro com o seu pediatra de confiança.

E importantíssimo: BLW só depois que o bebê for capaz de sentar com pouco ou sem apoio e capturar objetos com a mão e levá-los à boca. Antes disso, se for necessária a introdução de alimentação complementar, somente o método tradicional é indicado.

Vale lembrar que o método tradicional de introdução de alimentação complementar é amplamente utilizado e é inclusive o proposto pelo Ministério da Saúde do Brasil atualmente. Se vc é uma pessoa que gosta de ter total controle da situação, entre de cabeça no método tradicional. Porém, caso opte pelo método tradicional, sugiro que não deixe de oferecer alimentos em pedaços (finger food) vez ou outra para seu bebê. O estímulo sensorial destes alimentos é extremamente importante e vão auxiliar no correto desenvolvimento oral do seu bebê. Na dúvida, consulte um fonoaudiólogo.

Referências:

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Rapley G, Murkett T. Baby-led weaning: helping your child love good food. London, UK: Vermilion, 2008.

Brown A, Lee MD. Early influences on child satiety-responsiveness: the role of weaning style. Pediatric Obesity 2013.