A saga das imperfeições

Sabe, toda vez que “preparo a mesa” de refeição aqui em casa, lembro demais da minha época de estágios na faculdade. Lembro dos atendimentos das crianças de diferentes laboratórios complexos: gagueira, surdez, síndromes. E também das crianças que atendíamos no Centro de Saúde Escola, casos mais simples, mas de igual complexidade no quesito “atender crianças”.

Criança não é adulto, óbvio. Às vezes, parece que a gente se esquece disso. Criança não entende que vc passou a noite anterior preparando uma terapia, que cada brincadeira nova é na verdade um estímulo para uma habilidade que ela ainda não conquistou – mas que é importante pra ela. Criança simplesmente age, impulsivamente, do jeito que ela gostaria de agir, naquele momento. Sem pensar em regras, contravenções, normas, costumes, morais, nada disso. Isso é coisa de adulto, pensar com a cabeça. Criança pensa com o coração e dribla a racionalidade do adulto. Então, cabe ao adulto, se reinventar, a todo instante, se quiser acompanhar o ritmo e ainda assim satisfazer às (suas) necessidades iniciais.

Em terapia, por exemplo, pode-se programar o que irá ser trabalhado. Mas o “como”, muitas vezes tem que ser ajustado no meio do caminho. E se vc não se der conta da dinâmica e ficar preso à regras justas e intransponíveis, pode acabar se frustrando e não atingindo o resultado esperado. A criança dita o passo, o terapeuta se ajusta e os resultados de acordo com os objetivos iniciais são atingidos. E ajustar não significa mudar de rota. De caminho. De ideia. Ceder. Não. Significa adaptar ou modificar uma situação para que esta se torne mais efetiva ou apropriada. O problema está em mudar ou fugir do objetivo inicial. Aí, é bem provável que o resultado não seja o esperado.

E assim tudo isso me vem à mente, como num flash. Cá estou eu, com meu bebê, cheia de expectativas para que no mínimo ele tente colocar algo na boca. Sei de todos os “podes” e “não podes” e me preparo mentalmente pra me lembrar de todos eles no processo. Preparo nossa comidinha com todo carinho, entre uma soneca e uma musiquinha na TV, limpo toda a área do cadeirão, ponho babador, faço meu prato junto ao dele, tudo correndo pra não gelar a comida.

E aí ele olha pra comida e estica os braços. Pro lado, sabe, tipo Cristo Redentor. Como quem diz: não vou tocar nessa “burdega”. Respiro fundo, começo a comer minha comida, exclamando: “huummm, nossa, que delícia de papá!”. Nada feito. Parece que agora ele começa a choramingar. Mudo de tática. Finjo que não estou olhando pra ele e começo a comer, normalmente. Ele para de chorar. Dou uma olhada de rabo de olho e vejo que ele pôs a mão na comida e logo tirou, tipo com nojo. Suspiro. Converso com ele: “Nicolas, só experimenta, por favor, mamãe fez com tanto carinho!”. Faz uma cara de bravo e balança os bracinhos. Pego um pedaço da comida dele com a mão e como. Ele me olha, intrigado. Pego um pedaço da comida e passo nos lábios dele. Ele vira o rosto, mas parece gostar. Como mais um pedaço e ofereço o próximo pedaço pra ele. Ele abre a boca e pega o pedaço dos meus dedos. Começa a mastigar como se nada tivesse acontecido! Resolve pegar o que tem na mesa, chacoalha, lambe, morde, cospe, joga longe, mastiga e engole, e eu continuo oferecendo com os dedos vez ou outra. E assim vai até que tudo está ou no chão ou na boca. Cadeirão direto pro banho.

Esse é um relato de apenas uma refeição em um dia desses qualquer na nossa saga da introdução alimentar aqui em casa. Já teve dia em que o BLW foi perfeito. Desses que vc vê no YouTube e pensa “nossa, queria que fosse assim!”. Mas a maioria dos dias é assim, normal. Fazendo de tudo pra aderir ao baby-led, me esforçando pra não ajudar, pra deixar ele se desenvolver por si próprio. As vezes sou perfeita, na maioria das vezes sou normal. E Nícolas continua sendo um bebê, imprevisível como é.

Quero chegar no ponto de dizer a vocês que a introdução alimentar é um processo, e não um momento pontual. Então, por mais que vocês se preparem, leiam, estudem sobre o BLW, saibam: imprevistos acontecem. Não importa o motivo. São tantas, mas tantas, mas taaantas variáveis que envolvem o momento da refeição, que eu poderia (e ainda vou) escrever um post só sobre isso.

Por isso, saibam que não estão sozinhxs. Compartilho toda a teoria e racionalização do método, mas simplesmente não consigo ser perfeita 100% das vezes, 100% das refeições. Posso dizer à vocês como é o certo, mas absolutamente entendo quando dá errado, pois estou sentindo na pele.

E sendo BLW ou não, compartilho com vocês meus objetivos a curto prazo, pois esses sim continuam sendo sempre os mesmos, independente das imperfeições durante o processo:
– Sempre esperar pela iniciativa dele comer sozinho. Caso não aconteça, sempre “oferecer” ao invés de “dar”.
– Entender que ele pode não estar com fome ou ter outras necessidades a serem atendidas naquele momento – e eu sempre posso tentar mais tarde.
– Deixar que ele manipule e experimente tudo o que envolve o momento da refeição – mesmo que seja eu quem esteja oferecendo e mesmo que isso implique em uma bagunça sem tamanho.
– Comer sempre junto com ele, mesmo que seja um snack ou a própria comida dele.
– Não me estressar e não estressar meu bebê durante o momento da refeição – por qualquer motivo que seja.
– Manter o aleitamento materno em livre demanda.

Prontxs para o próximo capítulo?

Sintam-se a vontade para compartilhar comigo todas as dores e delícias de ser quem a gente é! 😜

Beijocas e bom BLW pra vcs!

Aline