Uso da mamadeira após os seis meses de AME: será que faz diferença?

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A amamentação é considerada um fator determinante para o desenvolvimento craniofacial adequado, porque promove intenso exercício da musculatura orofacial, estimulando favoravelmente as funções da respiração, deglutição, mastigação e fala. Os movimentos de ordenha favorecem o correto fechamento labial durante o repouso e o desenvolvimento mandibular adequado. Além disso, beneficia o correto posicionamento da língua no palato (céu da boca), pela estimulação da tonicidade – que garante força e forma adequada à musculatura da língua.

Apesar das medidas de incentivo ao aleitamento adotadas pelos hospitais contemplados com o título de Amigo da Criança e da contra-indicação ao uso de mamadeira pela Norma Brasileira para Comercialização de Alimentos para Lactentes, os achados científicos mostram que existem dois momentos críticos para a apresentação desse tipo de utensílio à criança: logo após o parto e por volta do quarto mês de vida. A primeira situação ocorre em função de problemas relacionados à prática da amamentação, que dificultam o ganho de peso pela criança. Neste caso, é comum a prescrição, por parte dos profissionais de saúde, de fórmulas infantis, geralmente oferecidas na mamadeira, para complementar/substituir o leite materno, quando o correto seria investigar as dificuldades apresentadas pela mãe e oferecer orientação sobre o manejo da amamentação.

A introdução da mamadeira à rotina alimentar da criança, por volta do quarto mês de vida, está provavelmente relacionada ao término da licença-maternidade e ao retorno da mãe ao trabalho. Este é um momento caracterizado por muitos conflitos, tais como a escolha de um cuidador para o bebê e a forma de alimentação utilizada nos momentos de ausência da mãe. A mãe que opta por deixar a criança aos cuidados de instituições (creches/escolas), onde geralmente é estabelecido o uso de mamadeira, frequentemente não pode exigir a utilização de copos para a alimentação do seu filho. Os profissionais dessas instituições justificam essa prática pelo pequeno número de funcionários em relação ao número de crianças e pela dificuldade encontrada em alimentá-las usando copo.

A literatura é consistente em afirmar que usar mamadeira, em detrimento do aleitamento, acarreta conseqüências à saúde da criança. Porém, nenhum trabalho relata os efeitos da utilização da mamadeira sobre o desenvolvimento orofacial de crianças que foram amamentadas ao peito até o sexto mês de vida e que também utilizaram mamadeira.

Assim sendo, o objetivo do estudo de Carrascoza e colaboradores (2006) foi identificar e avaliar as possíveis conseqüências do uso da mamadeira sobre o desenvolvimento orofacial em crianças que foram amamentadas (exclusivamente ou não) até, pelo menos, os 6 meses de vida. Todas as crianças foram examinadas por uma dentista e uma fonoaudióloga, as quais foram treinadas pelos pesquisadores, a fim de padronizar o exame, sem, entretanto, conhecer os objetivos da pesquisa. No total, 202 crianças participaram da pesquisa, sendo divididas em dois grupos, para comparação:

  • Grupo 1: crianças que utilizaram apenas copo para ingestão de alimentos líquidos até 4 anos de idade (nunca usaram mamadeira) (n = 101)
  • Grupo 2: crianças amamentadas por no mínimo 6 meses, que utilizaram mamadeira por no mínimo 1 ano. Não foram incluídas no grupo crianças que apresentaram outros hábitos de sucção além da mamadeira (chupeta/dedo) (n=101)

O estudo mostrou diferença estatisticamente significante entre os grupos quanto ao vedamento labial, repouso da língua no palato (céu da boca), respiração nasal e formato da maxila. As ocorrências de maloclusões, fonoarticulação, profundidade do palato e presença de assimetria facial não apresentaram diferença estatística entre os grupos.

Os autores discutem que os movimentos de ordenha favorecem não só o vedamento labial como também o posicionamento da língua no palato, pela aquisição de tonicidade (“força”), consequente da intensa atividade dos músculos da língua. Isso também impede a passagem de ar pela boca, favorecendo a instalação e manutenção da respiração nasal. Esse tipo de respiração, além de aquecer, umidificar e filtrar o ar antes que ele chegue aos pulmões, é considerado essencial para o crescimento da maxila. A passagem de ar pelo nariz exerce pressão sobre o palato, fazendo com que ele abaixe e sofra expansão. Esse fenômeno possibilita que os ossos da face acompanhem o crescimento corporal, gerando espaço para a adequada erupção dos dentes.

Ao usar mamadeira, a língua atua apenas como dosador da saída de leite, tornando-se hipotônica (“fraca”) e incapaz de permanecer na posição correta. Isso confirma os resultados do presente estudo, que mostrou maior ocorrência de hipotonicidade e consequente repouso de língua em local incorreto entre as crianças que utilizaram mamadeira. A falta de função da língua, que faz com que ela repouse sobre a mandíbula, permite que o ar entre pela boca, facilitando a respiração oral. Novamente, os resultados deste estudo corroboram os achados da literatura, quando mostram que mais de 60% das crianças que usaram mamadeira apresentavam respiração oral ou mista.

A ausência da passagem de ar pelo nariz pode provocar redução do crescimento da maxila. Essa relação também foi comprovada pelo presente estudo, que revelou maior ocorrência de atresia maxilar em crianças que usaram mamadeira.

O repouso da língua na mandíbula também pode agir como desencadeante no crescimento inadequado da mandíbula. Essa ocorrência, associada à ausência da passagem de ar pelo nariz, pode levar ao desenvolvimento de mordida cruzada posterior. A literatura ainda acrescenta mais um agravante, pois relata que o bucinador – músculo responsável pela obtenção do leite da mamadeira – torna-se hipertrófico em casos de sucção prolongada, agravando a desproporção de crescimento maxila/mandíbula. Essa tonicidade inadequada, além de causar mordida cruzada e apinhamento dental, pode levar a alterações seqüenciais na face, como o estreitamento excessivo da maxila, atresia do palato, desvio de septo e comprometimento da estética e função do nariz.

Os resultados do estudo não mostraram diferença estatística, em relação à oclusão, entre os grupos. Entretanto, vale ressaltar que as crianças foram examinadas aos 36 meses de idade e que, por serem bastante jovens, poderiam ainda não apresentar mordida cruzada posterior. Essa hipótese é reforçada pela maior ocorrência de dois fatores desencadeantes da mordida cruzada posterior entre as crianças que usaram mamadeira: atresia da maxila e posicionamento de língua no arco inferior.

Assim, os resultados deste estudo mostraram que o uso da mamadeira, mesmo entre crianças que receberam aleitamento materno, interfere negativamente sobre o desenvolvimento orofacial.

Então mamães, após o desmame, que tal usar o copinho ao invés da mamadeira? Dá um pouco mais de trabalho, mas vai valer a pena! 🙂

Fonte:
Carrascoza KC, Possobon RF, Tomita LM, Moraes ABA. Conseqüências do uso da mamadeira para o desenvolvimento orofacial em crianças inicialmente amamentadas ao peito. J Pediatr (RJ), 82(5):395-8, 2006. Conteúdo completo disponível online em: http://www.jped.com.br/conteudo/06-82-05-395/port_print.htm#autor1

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