Tosse não é reflexo de gag. Reflexo de gag não é engasgo. E engasgo é coisa séria!! – parte 1

Já falamos aqui no blog sobre as diferenças entre engasgo e reflexo de gag, certo? Hoje vamos retomar alguns conceitos e esclarecer outros, que talvez ainda estejam meio nebulosos pra quem pratica ou é simpatizante do método baby-led weaning.

Bom, já aprendemos que o REFLEXO DE GAG é um reflexo protetor de vias aéreas, que devolve um alimento mal deglutido pra frente da boca. Esse alimento “devolvido”, por meio de uma “ânsia de vômito”, vai ser ou cuspido, ou novamente mastigado e deglutido. Aprendemos ainda, que bebês geralmente tem o reflexo de gag anteriorizado. Dessa forma, enquanto adultos apresentam o gag apenas na região das amídalas e da faringe, os bebês já apresentam o reflexo em base de língua, principalmente porque apresentam essa região mais elevada

Lembrando que o REFLEXO DE GAG é disparado a partir de determinada pressão, em determinado ponto da boca. Como o reflexo patelar, quando o médico bate o martelinho no joelho e a perna levanta. É por esse motivo que os gags acontecem com maior frequência quando o bebê coloca pedaços grandes dentro da boca e, principalmente, quando ainda não aprenderam a mastigar esses pedaços antes de engolir – o que acontece principalmente nas primeiras semanas de introdução alimentar.

No início da introdução alimentar tradicional, o bebê também pode apresentar o reflexo de gag para os alimentos pastosos/pastosos com pedaços. Isso porque, da mesma forma, ele ainda não aprendeu a organizar esses alimentos dentro da boca, transformando-os em um bolo alimentar para serem deglutidos. Assim, a papa se dispersa e o corpo, em um fascinante mecanismo de proteção, faz todos os esforços para que o alimento – mal deglutido – volte para a boca para ser cuspido ou manejado novamente para dar sequência correta à deglutição. Muita gente acha que o bebê não gostou da comida porque está tendo “ânsia”, mas na verdade é só mais uma parte do aprendizado – “mastigar” e engolir.

Essa primeira fase é fundamental na aprendizagem da mastigação e o bebê tem seus reflexos protetores em nível máximo de funcionamento – laringe e traquéia elevadas, dorso de língua elevado, reflexo de gag anteriorizado. Até que o corpo se acostume, e até que o bebê aprenda a manejar os alimentos em cavidade oral e toda sua anatomofisiologia comece a se modificar para ir ficando mais próxima do que temos quando adultos. É a melhor hora para investir em alimentos macios, fáceis do bebê manipular por conta própria. Tirinhas de cenoura, batata e outros legumes bem cozidos, raminhos macios de brócolis e couve flor, tiras de frutas macias como banana, mamão, abacate. Frutas macias como pêssego, ameixa, pêra.

Alguns bebês tem o reflexo de gag tão exacerbado, que costumam apresentar vômito após o disparo do reflexo. O vômito também pode acontecer caso o reflexo seja disparado continuamente, sem sucesso, como quando algo ficou “preso” no trajeto. Lembre-se que o corpo vai fazer de tudo pra eliminar o que foi mal deglutido. O vômito será o esforço final em expelir o que ficou preso em região oral/orofaringe e não está conseguindo ser retirado apenas com o reflexo de gag.

Bebês com refluxo crônico podem ter um reflexo de gag alterado, devido à modificação da mucosa e sensibilidade oro-faringea, podendo levar a inibição total do reflexo ou hipersensibilidade. Outras condições também podem levar à alteração do reflexo, por isso é sempre bom ter um acompanhamento profissional antes de subentender que todos os bebês irão acompanhar o mesmo padrão descrito nos livros.

No próximo post vamos falar da importância do reflexo de tosse e como ele se diferencia do reflexo de gag!

Fiquem atentos à MANOBRA DE HEIMLICH e SUPERVISÃO, SEMPRE!!!

Orange Appeal!

Referencias:

Kamen, Ruth Saletsky. “Impaired Development of Oral-Motor Functions Required for Normal Oral Feeding as a Consequence of Tube Feeding during InfancyImpaired Development of Oral-Motor Functions Required for Normal Oral Feeding as a Consequence of Tube Feeding during Infancy.” (1990).

Dodrill, Pamela. “Feeding Problems and Oropharyngeal Dysphagia in Children.” Journal of Gastroenterology and Hepatology Research 3.5 (2014).

Miller, Herbert C., GO’Neil Proud, and Franklin C. Behrle. “Variations in the gag, cough, and swallow reflexes and tone of the vocal cords as determined by direct laryngoscopy in newborn infants.” The Yale journal of biology and medicine 24.4 (1952): 284.

Scarborough, D. R., and L. G. Isaacson. “Hypothetical anatomical model to describe the aberrant gag reflex observed in a clinical population of orally deprived children.” Clinical Anatomy 19.7 (2006): 640-644.

http://www.aboutkidshealth.ca/en/healthaz/testsandtreatments/specialdiets/pages/sensitive-gag-reflex-transition-to-textured-foods.aspx

http://en.wikipedia.org/wiki/Pharyngeal_reflex

Imagem: http://lifetheuniverseandchicken.blogspot.com.br/2011/12/fascinating.html

Um comentário sobre “Tosse não é reflexo de gag. Reflexo de gag não é engasgo. E engasgo é coisa séria!! – parte 1

  1. Achamos a mesma foto p o gag reflex. Ótimo post. Mecanismos diferentes devem ser encarados de forma diferentes. Mamães e profissionais devem ter esse conhecimento e estar capacitados. Parabens. Abraços.

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