Tosse não é reflexo de gag. Reflexo de gag não é engasgo. E engasgo é coisa séria!! – parte 3

Nos últimos posts falamos sobre as diferenças entre os mecanismos de proteção de vias aéreas: reflexo de gag e reflexo de tosse, e como estes estão interrelacionados entre si. No post de hoje, vamos falar sobre o engasgo, consequência imediata da falha destes mecanismos de proteção. Ressaltando que o ENGASGO é uma CONDIÇÃO e não um REFLEXO. 

Relembrando que o objetivo desta série de posts não é amedrontar ninguém, mas dar a relevância necessária para que o público leigo não substime sinais importantes e nem coloque o bebê em risco pensando que o reflexo de gag pode operar milagres. Como já dissemos antes, o Baby-led weaning é um método excelente se bem orientado e conduzido. Acredita-se que o bebê exposto ao BLW tenha uma melhor capacidade em lidar com os sólidos e esteja menos predisposto ao engasgo, já que desenvolve suas habilidades intraorais – mas esse conhecimento é empírico, isto é, não validado pela ciência.

Após a publicação do livro da Rapley, em 2008, muitos paradigmas relacionados ao BLW foram sendo estabelecidos e muito do que se difunde como verdade absoluta acaba sendo decorrente da troca de experiência nos grupos de mães que praticam o método. No Brasil, o “achismo” acaba sendo ainda maior, porque o livro não foi traduzido para o português. Quem tem interesse em aplicar o método, é de fundamental importância compreender os fundamentos iniciais. Se não conseguir ler o livro, aprofunde-se nos arquivos dos grupos de BLW no facebook e xeretem o blog à vontade, tem muita informação importante e essencial.

Então, esclarecendo, o engasgo é definido como uma obstrução do fluxo aéreo, parcial ou completo, decorrente da entrada de um corpo estranho nas vias aéreas, podendo, em sua apresentação mais grave, levar à cianose e asfixia. Na obstrução parcial das vias aéreas a criança consegue tossir, respirar, emitir alguns sons ou até falar. Na obstrução total, a criança é incapaz de tossir, falar, chorar e isso é muito mais grave, pois pode evoluir para um quadro de asfixia e parada cardio-respiratória.

Os sinais mais evidentes de obstrução total de via aérea são:

  • coloração arroxeada/azulada da pele,
  • aumento progressivo da dificuldade respiratória,
  • inabilidade de chorar ou realizar algum som,
  • tosse fraca/ ineficaz,
  • ruído agudo durante a inspiração,
  • agitação e/ou confusão devido á falta de oxigenação cerebral,
  • sinal universal de engasgo e perda de consciência.

O engasgo definitivamente pode ser prevenido. Aproximadamente 50% dos engasgos acontecem com alimentos, sendo os outros 50% decorrentes da manipulação de pequenos objetos (moedas, botões, pedaços de móveis e brinquedos), especialmente quando os bebês começam a adquirir mobilidade. Esses dados podem variar, de acordo com a fonte, mas costumam apresentar-se em uma proporção equilibrada.

Não necessariamente um engasgo vai acarretar uma aspiração (entrada de corpo estranho nas via aéreas), mas pode acontecer. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, no Brasil, milho, feijão (crus) e amendoim são os grãos mais comumente aspirados na faixa etária pediátrica. Por outro lado, o material mais relacionado a óbito imediato por asfixia é o sintético, como balões de borracha, estruturas esféricas, sólidas ou não, como bola de vidro e brinquedos.

Os resultados qualitativos de um estudo sobre BLW mostraram que o risco potencial de engasgo foi a maior preocupação dos profissionais de saúde entrevistados, sendo o que os faz mais relutantes na recomendação do método. Outras preocupações dos profissionais foram a imaturidade do bebê de seis meses para mastigar pedaços grandes de alimentos, além do medo das mães deixarem seus bebês sozinhos com a comida. Apontaram também o clima competitivo entre as mães praticantes do método, sobre o progresso da alimentação de seus bebês. Há um receio por parte dos profissionais, de que as mães considerem o bebê “muito mais avançado” se ele experimentar certos tipos de alimentos antes de outros bebês, sentindo-se deste modo motivadas a oferecer alimentos perigosos, de potencial risco para engasgo.

Este mesmo estudo mostrou que uma parcela das mães relatou a maçã crua como uma das principais causas de engasgo entre seus bebês BLW. Alimentos crus preenchem o critério de alto risco para engasgo, principalmente em crianças sem dente, pois são rígidos e se dividem em inúmeros pequenos pedaços duros quando mordidos. O autor ressalta que é necessário desencorajar os pais que seguem o BLW a oferecer maçã crua para seus bebês.

Rapley e Murkett (2008) sugerem que o bebê tem muito menos probabilidade de vir a engasgar quando é ele quem leva o alimento à boca. Mas o que quero ressaltar com esse artigo é que o adulto é diretamente responsável pela disposição de alimentos seguros durante a alimentação pelo BLW. O bebê não tem maturidade para decidir o que é seguro ou não e leva tudo, absolutamente tudo à boca. A minha sugestão é que você também observe e respeite o desenvolvimento global do bebê durante o BLW. Se ele não é capaz de capturar um grão de arroz com o movimento de pinça, então dificilmente será capaz de manejá-lo com eficiência em cavidade oral. Todo seu desenvolvimento oral está em perfeita sintonia com seu desenvolvimento global e não há necessidade de estimular. Lembre-se que o BLW permite que o bebê se desenvolva naturalmente.

Acompanhar o bebê durante a refeição ajuda não somente na formação do vínculo, reforçando o aspecto social das refeições, como também assegura que você irá ver o bebê mastigando e manipulando sua comida, podendo avaliar rapidamente qualquer situação de risco. Sentar-se ereto, prestando atenção durante a refeição (e não fazer qualquer outra coisa concomitantemente – como brincar, engatinhar ou correr) é a forma mais segura das crianças aproveitarem o momento. Uma refeição sem pressa e uma parada para o lanche oferecem à criança tempo de sobra para mastigar e engolir a comida com segurança.

Outro fator que pode aumentar o risco de engasgo, segundo a literatura, é a presença do irmão mais velho, pois geralmente há no ambiente uma grande disposição de alimentos e objetos perigosos para a faixa etária do irmão menor. Assim, deve-se reforçar a supervisão e orientar aos mais velhos para não dividirem alimentos e objetos com crianças menores.

No próximo post vou fazer um apanhado dos alimentos campeões em engasgo e como podemos melhorar a apresentação dos alimentos para reduzir ao máximo o risco de engasgo em bebês e crianças. Fica de olho na nossa página do face: www.facebook.com/tanahoradopapa e fiquem à vontade para compartilhar as informações!!! 🙂

 Orange Appeal!

Referências:

Silva LA, Santos I.  Desobstrução de vias aéreas superiores em crianças menores de um ano  Rev. Enf. Profissional 2014. jan/abr, 1(1):267-275.

Chapin, Meyli M., et al. “Nonfatal choking on food among children 14 years or younger in the United States, 2001–2009.” Pediatrics 132.2 (2013): 275-281.

Rapley & Murkett. Baby-led weaning: Helping your baby to love good food. 2008.

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/000048.htm

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/presentations/100221_1.htm

American Academy of Pediatrics. “Policy statement–prevention of choking among children.” Pediatrics 125.3 (2010): 601-607.

American Academy of Pediatrics. Choking Prevention. Online: http://www.healthychildren.org/English/health-issues/injuries-emergencies/Pages/Choking-Prevention.aspx

Fraga, Andrea de Melo Alexandre, et al. “Aspiração de corpo estranho em crianças: aspectos clínicos, radiológicos e tratamento broncoscópico.” J Bras Pneumol 34.2 (2008): 74-82.

Padovani, Aline Rodrigues, et al. “Protocolo Fonoaudiológico de Avaliação do Risco para Disfagia (PARD) Dysphagia Risk Evaluation Protocol.” Rev Soc Bras Fonoaudiol 12.3 (2007): 199-205.

Denny, Sarah A., Nichole L. Hodges, and Gary A. Smith. “Choking in the Pediatric Population.” American Journal of Lifestyle Medicine (2014): 1559827614554901.

Padovani, Aline Rodrigues. Protocolo fonoaudiológico de introdução e transição da alimentação por via oral para pacientes com risco para disfagia (PITA). Diss. Universidade de São Paulo.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’ and mothers’ knowledge of, attitudes to and experiences with, Baby-Led Weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012;2

http://www.wetreatkidsbetter.org/2011/03/knowing-the-signs-of-choking-and-prevent/

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http://www.med.umich.edu/yourchild/topics/choking.htm

http://www.sbp.com.br/htn/noticias/aspiracao-de-corpo-estranho