Prevenindo o engasgo: a escolha do adulto faz toda a diferença

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Fonte: banco de imagens Google

Continuando nossa série sobre os mecanismos de defesa do bebê e situações de risco, hoje vamos falar de prática!! Depois de toda a teoria que vcs podem ler e reler aqui, aqui e aqui, hoje vamos falar de como podemos tornar o ambiente mais seguro possível e SIM, praticar o BLW com a maior tranquilidade e segurança, de forma que os benefícios sobreponham os riscos!

Antes de tudo, vamos relembrar algumas recomendações essenciais:

  1. Estar ciente das manobras de desobstrução que você pode fazer em casa.
  2. Insistir para que as crianças comam à mesa, sentadas. Evite alimentá-las enquanto  correm, andam, brincam, estão rindo. Não deixá-las deitar com alimento na boca.
  3. Supervisione SEMPRE a alimentação de crianças pequenas.
  4. Fique atento às crianças mais velhas. Muitos acidentes ocorrem quando irmãos ou irmãs mais velhas oferecem objetos ou alimentos perigosos para os menores.
  5. Evite comprar brinquedos com partes pequenas e mantenha objetos pequenos da casa fora do alcance das crianças. Siga a recomendação da embalagem dos brinquedos, com relação à idade ideal para aquisição. E não permita que crianças pequenas brinquem com moedas.

Manobra de Heilimch

De acordo com a literatura consultada (vide referências ao final do artigo), os alimentos mais frequentemente relacionados ao engasgo incluem:

  • Doces (especificamente doces duros ou pegajosos)
  • Qualquer oleaginosa e similares (amendoas, castanhas, amendoim etc)
  • Sementes (semente de girassol, caroço de azeitona etc)
  • Grãos crus (exemplo: feijão, arroz, milho etc)
  • Pedaços grandes de carne e queijos duros
  • Salsichas
  • Queijos pegajosos
  • Pedaços grandes e rígidos de carnes e queijos
  • Salgadinhos (principalmente duros como doritos, batata-frita etc)
  • Casca de fruta e frutas duras cruas (como a maçã e a pêra verde)
  • Uvas inteiras
  • Chicletes
  • Cubos de gelo
  • Creme de amendoim ou cream cheese em blocos grandes (pegajosos e grudam no céu da boca)
  • Pipoca – PRINCIPALMENTE o peruá (parte amarelinha)
  • Pretzels
  • Uvas passas
  • Vegetais duros crus e verduras cruas
  • Alimentos em forma de cordão (exemplo: broto de feijão, espaguete, verduras (ex:couve) cortadas em tiras etc)

Ufa! A lista é grande não? Mas pensando que muito do que está listado aí não é nem indicado para um bebê, já que é pura porcaria rs, ainda tem MUITA coisa pra oferecer! Então, por exemplo, alguns dos alimentos de alto risco que vocês podem tranquilamente passar sem oferecer pelo menos até os 4 anos de idade:

  • salsichas e linguiças
  • doces duros, molengos ou pegajosos. Ao contrário do que muita gente pensa, gelatina também é super perigoso, pois é escorregadio e, quando não mastigado, um pedaço pode tranquilamente obstruir a via aérea.
  • amendoins, sementes e oleaginosas (amendoas, castanhas, nozes etc)
  • uvas inteiras
  • pedaços grandes de carne ou queijo duro
  • mashmallows
  • pipoca
  • chiclete

E o que podemos fazer para melhorar a apresentação dos alimentos a fim de reduzir as chances de engasgo:

  • Os alimentos mais seguros para as crianças são aqueles cortados em pedaços que oferecem mínimo ou nenhum risco de “entupirem” a via aérea. Os desenhos abaixo ilustram a via aérea e como um objeto ou alimento pode facilmente obstruir totalmente a passagem de ar.
imagem via aerea do bebe

Fraga e colaboradores, 2008

imagem via aerea do bebe2

Denny e colaboradores, 2014

  • Cortar salsichas e alimentos de formatos similares (exemplo: cenoura) no sentido do comprimento, em “formato de batata-frita” – o ideal é fugir do formato que tende a “entupir” a glote, como visto nas ilustrações acima.
  • Amaciar vegetais e frutas duras, cozinhando-os na água, forno ou vapor, a fim de que se tornem fáceis de mastigar por amassamento com as gengivas. A consistência ideal para BLW é a de salada de legumes: nem muito duro, nem muito mole (pois esfarela na mão do bebê que não tem controle da força).
  • Quando o bebê ainda é “banguela”, você pode oferecer as frutas com parte da casca para facilitar a preensão palmar (já que a maioria escorrega). Mas é prudente retirar as cascas das frutas quando o bebê já tem dentes e é capaz de “rasgar” a casca com a força da mordida.
  • CARNES! Campeãs de dúvidas!
    • Enquanto o bebê ainda não tem o movimento de pinça desenvolvido, você pode oferecer as carnes:
      • desfiadas umidificadas (molho ou purê) em pequenas porções;
      • ou bem cozidas, macias, cortadas em tiras ou cubos, no sentido transversal das fibras (assim os pedaços que se soltam ficam pequenos e fáceis de mastigar);
      • ou também, carnes moídas em formato de hamburguer, almôndega ou croquete.
    • Conforme o bebê adquire o movimento de pinça, o ideal é:
      • cortar em pedaços bem pequenos,
      • desfiados
      • ou carne moída,
      • até que o bebê tenha habilidade para mastigar pedaços maiores com o nascimento dos molares (até os dois anos mais ou menos).
  • Alimentos pegajosos (exemplo: cream cheese, pasta de amendoim e similares) se consumidos, devem ser apresentados em porções pequenas, pois podem “grudar” no céu da boca.
  • Algumas leguminosas como o quiabo e a vagem costumam ser queridinhos no BLW, pois são de fácil preensão. Mas atentem-se para as sementinhas e os grãos de feijão que podem desprender desses alimentos e escorregar para o fundo da boca. A melhor forma de oferecer esses alimentos é cortadinho em rodelas pequenas quando o bebê já é capaz de pegá-las.
  • Alimentos fibrosos e/ou duros para mastigar mesmo após o cozimento (ex: quiabo, vagem, brocolis comum, folhas etc) são mais fáceis de mastigar se cortados em pedaços pequenos e/ou misturados à outras preparações/receitas.
  • Hidratar as frutas secas e cozinhar bem os grãos antes de oferecê-los aos bebês.
  • Milho verde na espiga deve estar beeem molinho (daqueles que estouram nos dentes), para os “banguelas”, vcs podem “rasgar” os grãos com um ralador de queijo.
  • É extremamente arriscado oferecer uvas inteiras aos bebês e crianças pequenas, assim como qualquer outro alimento neste formato (tomatinhos, cerejas, jabuticabas, azeitonas, ovinho de codorna, entre outros). Quaisquer alimentos nestes formatos devem ser cortados longitudinalmente em duas ou quatro partes. Cortes transversais não são indicados, pois não “quebram” o formato do alimento que é capaz de “entupir” a glote.
  • Retirar sementes e caroços.
  • As folhas podem ser oferecidas cozidas ou cruas, mas sempre bem picadas. Como no início o bebê não consegue pegar os pedacinhos, sugiro que você ainda assim misture folhas verdes em outras receitas (ex: omelete), para que o bebê também sinta o gosto “amarguinho” que a maioria das folhas verde-escura tem.
  • Evite pães de forma e/ou pães brancos industrializados “massudos”, pois quando misturados à saliva formam uma pasta grudenta que pode dificultar a mastigação e deglutição do bebê, levando à gags excessivos (e possível engasgo ou vômito).
  • Caso for oferecer água durante as refeições, certifique-se de que não há alimento sólido dentro da boca. O manejo de líquidos com os sólidos dispersos na boca é extremamente difícil e pode comumente levar ao engasgo. Oferecer líquidos durante um engasgo pode inclusive levar à piora do engasgo e consequente aspiração.

Pra finalizar, queria deixar um trecho que li no site do Dr Moises, que fez muito sentido pra mim e gostaria de compartilhar com vocês:

Nem todo mundo que fuma tem câncer de pulmão, nem todo mundo que bebe bebida alcoólica tem cirrose, nem todo mundo que tem relação sem preservativos tem AIDS. Mas há uma chance maior de isso tudo acontecer. Nem por isso, deixamos de orientar a forma que se julga adequada (não fumar, não beber e relações sexuais sempre com proteção).

Assim, nem todas as crianças que usarem andador terão acidentes e serão internadas, nem todas as crianças que estiverem em um carro fora das cadeirinhas vão morrer em acidentes, nem todas as crianças que consumirem mel abaixo de um ano de idade terão botulismo, e nem todas as crianças que tomarem sucos terão obesidade ou diabetes tipo 2. Mas há uma chance maior de isso tudo acontecer. Nem por isso, deixamos de orientar a forma que se julga adequada (não usar andador, no carro, sempre na cadeirinha, não oferecer mel abaixo de um ano de idade e não oferecer sucos abaixo de um ano de idade e dar preferência para as frutas in natura).

Por isso, querida leitoras, o recado hoje é: estejam cientes e conscientes sobre os riscos, sobre como podem facilitar a alimentação segura e agir em caso de necessidade, tornando o BLW um método apenas leve e prazeroso de introdução alimentar. Sei que provavelmente vocês já deram muitos dos alimentos citados aí em cima, assim como eu, mas o que quero sempre difundir são as ESCOLHAS CONSCIENTES!

Sabendo o que esperar e como agir em caso de necessidade, TUDO fica mais traquilo e seguro para o bebê e mais fácil pra você, que provavelmente vai ter que dar a mesma santa explicação sobre BLW pra todos à sua volta!

😀

Se tiverem mais dicas ou quiserem compartilhar experiências, deixem um recadinho por aqui!

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Referências:

Silva LA, Santos I.  Desobstrução de vias aéreas superiores em crianças menores de um ano  Rev. Enf. Profissional 2014. jan/abr, 1(1):267-275.

Chapin, Meyli M., et al. “Nonfatal choking on food among children 14 years or younger in the United States, 2001–2009.” Pediatrics 132.2 (2013): 275-281.

Rapley & Murkett. Baby-led weaning: Helping your baby to love good food. 2008.

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/000048.htm

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/presentations/100221_1.htm

American Academy of Pediatrics. “Policy statement–prevention of choking among children.” Pediatrics 125.3 (2010): 601-607.

American Academy of Pediatrics. Choking Prevention. Online: http://www.healthychildren.org/English/health-issues/injuries-emergencies/Pages/Choking-Prevention.aspx

Fraga, Andrea de Melo Alexandre, et al. “Aspiração de corpo estranho em crianças: aspectos clínicos, radiológicos e tratamento broncoscópico.” J Bras Pneumol 34.2 (2008): 74-82.

Padovani, Aline Rodrigues, et al. “Protocolo Fonoaudiológico de Avaliação do Risco para Disfagia (PARD) Dysphagia Risk Evaluation Protocol.” Rev Soc Bras Fonoaudiol 12.3 (2007): 199-205.

Denny, Sarah A., Nichole L. Hodges, and Gary A. Smith. “Choking in the Pediatric Population.” American Journal of Lifestyle Medicine (2014): 1559827614554901.

Padovani, Aline Rodrigues. Protocolo fonoaudiológico de introdução e transição da alimentação por via oral para pacientes com risco para disfagia (PITA). Diss. Universidade de São Paulo.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’ and mothers’ knowledge of, attitudes to and experiences with, Baby-Led Weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012;2

http://www.wetreatkidsbetter.org/2011/03/knowing-the-signs-of-choking-and-prevent/

http://www.nhs.uk/conditions/pregnancy-and-baby/pages/helping-choking-baby.aspx

http://www.med.umich.edu/yourchild/topics/choking.htm

http://www.sbp.com.br/htn/noticias/aspiracao-de-corpo-estranho

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