BLW: onde estamos e para onde vamos?

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Após a descrição da introdução alimentar em livre-demanda ter sido publicada e descrita no livro “Baby-led weaning”, de Rapley e Murkett, em 2008, alguns pesquisadores começaram a se interessar e estudar o método. Em sete anos, ainda restam muitas dúvidas, mas as linhas de pesquisa já começam a ganhar forma. Gill Rapley, idealizadora do método, nos conta em seu website que, além dos estudos já publicados, ainda existem mais alguns em andamento, incluindo uma grande pesquisa sobre os riscos de gag e engasgo, comparando os métodos tradicional versus BLW. Ela mesmo está concluindo sua tese de doutorado, comparando alimentação passiva versus auto-alimentação do ponto de vista do bebê. Então muita informação ainda está por vir.

Um dos principais problemas no estudo e avanço das pesquisas em BLW é o fato destas serem feitas sumariamente por meio de questionários respondidos por voluntários. Isso pode facilmente enviesar resultados, já que as pessoas que se candidatam tem, de certa forma, grande interesse na divulgação do método. Além disso, entende-se que essa auto-seleção impacta em maiores graus de escolarização e idade entre os respondentes, comparativamente à população geral. É como avaliar apenas uma parte da população que não reflete a população geral.

Amy Brown, uma forte pesquisadora no assunto, acabou de publicar um artigo que investigou as diferenças no comportamento alimentar, bem-estar e personalidade entre um grupo de mães que segue uma introdução alimentar “baby-led” versus um grupo que segue uma abordagem tradicional. Essa pesquisa avaliou 604 questionários e seus resultados estatísticos mostraram que as ”mães BLW” tinham um grau de escolaridade significativamente maior, além de maior propensão a ter uma profissão com cargo gerencial. Observou também que as “mães BLW” tiveram menores pontuações em características pessoais que geralmente são associadas com obesidade infantil.

Outros estudos demonstraram que as “mães BLW” tendem a amamentar por mais tempo e introduzir a alimentação complementar mais tarde, quando comparadas às mães que seguem uma abordagem tradicional. Além disso, tem um estilo de alimentação menos restritivo, colocam menos pressão na situação de alimentação e tem menor preocupação em monitorar o peso da criança. Amy Brown reforça que esses achados, por si só, já podem interferir positivamente nas escolhas alimentares e experiências durante a introdução alimentar. Consequentemente, estão diretamente relacionados às diferenças encontradas em relação ao peso e comportamento alimentar entre os grupos.

Enquanto existem diversos estudos mostrando essas diferenças de estilo de vida e comportamento, ainda não foi publicado nenhuma pesquisa que mostre os efeitos do BLW na qualidade nutricional das dietas das famílias que seguem o método. Um estudo-piloto publicado em 2012 sugere que a família tende a modificar sua dieta nos três primeiros meses, mas depois disso retorna à alimentação ao usual. Os pesquisadores ressaltam o receio quanto à oferta excessiva de sódio e gorduras saturadas, e à adequação e balanceamento nutricional das dietas familiares, o que pode acabar colocando em risco o desenvolvimento e saúde geral da criança.

Uma extensa revisão de literatura foi publicada pela revista Nutrients, em 2012, reiterando a abordagem “Baby-led Weaning” como uma opção praticável para muitas crianças no momento da introdução da alimentação complementar. Porém, reforça algumas perguntas que, até a data de hoje, não temos resposta:

• Esses bebês conseguem obter nutrientes suficientes, incluindo aporte calórico e ferro?
• Esses bebês se alimentam com uma maior variedade de alimentos?
• O BLW é uma abordagem viável na prevenção da obesidade infantil, através da auto-seleção da ingestão?
• Anemia, engasgo e falha no crescimento são realmente preocupações reais para os bebês que seguem uma abordagem BLW?

Para se pensar no BLW em uma perspectiva populacional, seria necessário um estudo que avaliasse os riscos e benefícios do método, determinados pelo acompanhamento a longo prazo de dois grupos selecionados ao acaso, comparando-se os resultados entre o grupo BLW e o grupo controle. Não é um estudo fácil e nem tende a sair de uma hora para a outra. E enquanto não se tem uma resposta científica, as famílias que se interessam e são adeptas ao método continuam a se informar e compartilhar experiências através dos diversos fóruns de discussão sobre o assunto na internet.

Alguns países já se posicionaram a respeito do método, como é o caso da Nova Zelândia, onde o Ministro da Saúde desestimulou publicamente a utilização do método por entender que ainda não existem evidências científicas suficientes. O Departamento de Saúde Pública do Reino Unido, por sua vez, não cita o termo “BLW”, mas em uma publicação recente sobre a introdução da alimentação complementar, o Start4Life, em 2009, já incentiva as mães à oferecerem alimentos macios em pedaços a partir dos seis meses.

De qualquer forma, práticas como: incentivar hábitos familiares saudáveis, incentivar a participação ativa do bebê durante o processo de introdução alimentar, observar atentamente os sinais de fome e saciedade, não forçar a criança a comer e incentivar a mastigação já estão descritas pela OMS e são destacadas nos manuais da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2012 e no Guia Alimentar para crianças até 2 anos do Ministério da Saúde de 2013.

O que as pesquisas também não contam pra gente é o porquê ainda tantos profissionais não incentivam essas práticas, já que são amplamente conhecidas e comprovadas cientificamente como formas de melhorar a qualidade da saúde e comportamento alimentar das nossas crianças.

Enquanto muitos profissionais enxergam o BLW como “moda”, eu prefiro divulgar o método como uma maneira simples e eficaz de introduzir todas essas práticas no dia-a-dia de cada família, de forma simples e agradável para todos. Ainda que o BLW ainda não esteja cientificamente provado, todos os seus fundamentos fazem total sentido e a maioria pode facilmente ser incorporado na prática de quem opta por uma introdução alimentar participativa. Assim, ainda que o BLW não possa ser visto no âmbito da Saúde Pública, não há porque desconsiderar o método em uma consulta individualizada.

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Referências:

Brown A. Differences in eaing behaviour, well being and personality bettwen mothers following baby-led vs.traditional weaning styles. Maternal and Child Nutrition, 2015.

Sachs M. Baby-led weaning and current UK recommendations: are they compatible? Guest Editorial. Maternal and Child Nutrition, 2011.

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Brown A, Lee MD. Early influences on child satiety-responsiveness: the role of weaning style. Pediatric Obesity 2013.

Cameron, Sonya L., Anne-Louise M. Heath, and Rachael W. Taylor. “How feasible is baby-led weaning as an approach to infant feeding? A review of the evidence.” Nutrients 4.11 (2012): 1575-1609.

Rowan, Hannah, and Cristen Harris. “Baby-led weaning and the family diet. A pilot study.” Appetite 58.3 (2012): 1046-1049.