BLW: o que o pediatra tem a ver com isso?

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Esse é um assunto extremamente delicado que, desde o CONALCO, cada vez mais tenho tentado trazer à tona. Tenho sentido que cada dia mais as pessoas estão confiando menos nos profissionais de saúde que as acompanham. E principalmente as pessoas que têm mais acesso à informação.

Antigamente, os profissionais de saúde, especialmente a classe médica, era detentora absoluta da informação em saúde. Seus clientes/pacientes, por sua vez, aderiam facilmente ao “faço-o-que-vc-manda”, “porque-sim”, pois não tinham cacife pra bancar nenhuma decisão diferente, por falta de informação. Faltava algo que chamamos de EMPODERAMENTO. Ser agente da sua própria vida. Ser ativo no processo decisório que concerne a sua própria saúde e à saúde e criação dos seus filhos.

O que mudou? TODAS as formas de comunicação mudaram COMPLETAMENTE. Estar alheio à essas mudanças é ficar pra trás em um passado que não tem mais volta. A internet continua cheia de informação ruim, é verdade. Mas cada vez mais está cheia de informações boas também.

No “mundo materno virtual” – e se você é mãe sabe exatamente o que quero dizer – cada vez mais há troca ativa de conhecimento e experiências. Pra se EMPODERAR, uma pessoa tem que saber ler, interpretar e assimilar a informação dentro do seu próprio contexto. O que reconheço, com infelicidade, que não é pra todos. Muita gente, quando se depara com informação nova, não sabe como lidar. O que é natural. A vida toda, lhes foi dito o que fazer. O que esperar. Não é fácil ser agente da própria sorte e das próprias escolhas. Tem que se bancar. Tem que aceitar que, remar contra a maré, quebrar paradigmas e pré-conceitos é extremamente difícil e muitas vezes frustrante. Já cheguei a escutar “deixe-me errar em paz!” – sendo que, honestamente, quem sou eu pra dizer o que é certo e o que é errado? Refletir sobretudo, sobre tudo. Concordar em partes, faz parte.

Bom, mas felizmente,muita gente já se coloca como protagonista de sua própria história. Mesmo com todas as dificuldades, quer fazer suas próprias escolhas. O profissional de saúde que se coloca contra esse empoderamento, acaba criando uma barreira tão intransponível em sua relação com o paciente, que chego a pensar que já não existe mais confiança mútua, e portanto, já não existe mais assistência.

Não sei em que momento da História nos perdemos a ponto de não enxergar mais as pessoas como únicas. A olhar somente dados, estatísticas, teorias, gráficos. A prescrever exames sem exame clínico. A prescrever fórmulas sem avaliar um quadro geral de saúde, o bem-estar, a qualidade de vida e desenvolvimento.

Podemos entender que existem sim, aqueles que preferem ser conduzidos cegamente. Por outro lado, por que não assistir à uma mãe empoderada criar seus filhos e poder acompanhar de perto o manejo clínico integral desse bebê? A que ponto chegamos quando uma mãe não tem confiança para contar ao pediatra que está alimentando seu bebê de uma forma diferente daquela sugerida por ele? Ou que decidiu manter o aleitamento exclusivo mesmo que o bebê não tenha ganho tanto peso quanto o gráfico sugeria? A que ponto chegamos quando não aceitamos que uma mãe empoderada é capaz de ouvir as necessidades do seu próprio filho?

Tenho ouvido cada vez mais frequente: “Pediatra não cuida de alimentação”. Infelizmente, reconheço os reais motivos de se propagar uma frase tão equivocada. Muitos profissionais de saúde não ouvem as mães. Não escutam suas necessidades, anseios, desejos. Uma mãe é capaz de mudar o mundo com a criação de seus filhos. Olhe pra essa mãe, entenda o seu contexto, reflita sobre suas escolhas. Não feche as portas pra essa mãe, porque essa porta dificilmente se torna a abrir.

Bom, queria que vocês, queridas leitoras, soubessem que eu não concordo com essa frase. Médicos não estudaram para tratar de doenças, como vejo muitas pessoas dizendo. A Medicina evoluiu tanto na promoção e prevenção de saúde, que não há motivo para se pensar que alimentação e saúde não estão diretamente relacionadas. Aliás, se o seu bebê fica doente, uma das primeiras coisas que deveria vir com o raciocínio diagnóstico é algo relacionado à alimentação. Então de onde vem essa assertiva? De onde tiraram que alimentação e saúde não são interligados?

Para finalizar esse post com tom de desabafo, fica meu desejo de que todos os profissionais de saúde possam olhar seus pacientes em sua integralidade. Não esquecendo que por trás de cada indivíduo existe uma família, um contexto e uma dinâmica. Multifatorial. Não-excludente.

E um desejo ainda maior de que uma mãe empoderada consiga novamente ter confiança no profissional de saúde que a acompanha.

Eu me recuso a desistir.

Com carinho,

Aline


 

LEIA TAMBÉM: Mas afinal, quem cuida da alimentação?

 


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4 comentários sobre “BLW: o que o pediatra tem a ver com isso?

  1. Lendo seu post hoje me fez ficar com medo, pois se não podemos confiar no medico em quem podemos, ok temos a opção de procurar outros médico até achar um que entenda nossos anseios, mas não deveria ser assim 😔
    Hj tive a consulta de 4 meses do meu bebê, e como retorno ao trabalho quando ele completar 5 meses, minha médica, receitou a introdução de frutas e papinhas salgada (com acréscimo de sal) batida no liquidificador e coada…. Questionei o fato de ter lido muito a respeito, que o recomendado era apenas com 6 meses, (sem questionar a questão do liquidificador e da peneira)! Ela me falou que como eu volto ao trabalho antes dos 6 meses, o bebê sendo alimentado somente com leite materno, ofertado na mamadeira, ele provavelmente iria desmamar precocemente 😳
    Enfim, fico triste com isso, terei que sair na saga de uma nova pediatra, ou simplesmente seguir meus instintos, e fazer da forma que eu acredito ser a melhor maneira….

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  2. Escrevi um texto enorme, mas acho que não publiquei…
    Hj passei na consulta de 4 meses com a pediatra, e sai de lá estarrecida!
    Volto a trabalhar quando ele completar 5 meses, e com a orientação da pediatra, devo iniciar as frutas e a papinha salgada, ( deve ser batida no liquidificador, acrescenta-se sal e peneirar), questionei a médica que eu tinha lido muito a respeito e que somente era recomendado o início da alimentação com 6 meses, ela me explicou que, se eu ofertar apenas o leite materno na mamadeira, provavelmente o bebê terá um desmame precoce, devido às várias ofertas da mamadeira durante o dia….
    Enfim me entristece, pois terei que iniciar uma saga atrás de uma pediatra no plano de saúde, que atenda meus anseios….

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  3. Aline post muito bom, concordo que cada criança é unica, cada família é única e os profissionais precisam se atualizar. Estudos existem, medicina muda todos os dias e se a mãe não se sente segura com seu pediatra, precisa escolher outro mas muitas preferem procurar orientações apenas em redes sociais copiando o que uma mãe faz e dá para seu filho sem nenhuma supervisao profissional.

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  4. Pingback: Introdução alimentar: o papel do pediatra nas escolhas certas | pediatria descomplicada

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