Garantindo energia e ferro para o bebê no BLW

Devido ao número limitado de estudos sobre o BLW, ainda há uma grande preocupação por parte de alguns órgãos e profissionais de saúde quanto à segurança de que o bebê estará ingerindo alimento suficiente para atender suas demandas, em especial de energia e ferro, garantindo um adequado crescimento e desenvolvimento.

Até o momento, nenhum estudo avaliou a adequação na ingestão alimentar de bebês seguindo o método. Aparentemente, muitos pais preferem oferecer verduras e frutas no início da introdução alimentar através do BLW, inclusive pela facilidade em adaptar esses alimentos ao formato necessário para a auto alimentação.  Em contrapartida, a OMS – Organização Mundial da Saúde recomenda que as carnes sejam oferecidas desde o princípio da alimentação complementar, uma vez que são a melhor fonte de ferro e zinco na dieta das crianças.

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Pensando nas questões acima, Cameron e colaboradores desenvolveram uma versão modificada do BLW, chamada Baby-Led Introduction to Solids (BLISS), que em tradução livre significa introdução aos sólidos guiada pelo bebê. No BLISS, o bebê continua no controle da sua introdução alimentar, através do auto alimentação, porém os pais recebem orientações específicas para atingir as necessidades energéticas, evitar deficiência de ferro e diminuir o risco de engasgo.

 

As características essenciais do BLISS são:

  • Oferecer alimentos que o bebê possa agarrar e levar à boca sozinho, de acordo com o que recomenda o BLW;
  • Oferecer um alimento rico em ferro em cada refeição;
  • Oferecer um alimento energético em cada refeição;
  • Oferecer alimentos apropriados para o desenvolvimento do bebê de acordo com a idade, reduzindo o risco de engasgo e evitar oferecer alimentos listados como de alto risco para engasgo.

 

O que significa isso em termos práticos, adaptando para a realidade brasileira?

No quadro abaixo está um resumo de recomendações para atingir a proposta do BLISS, com adição de mais algumas informações importantes para aumentar a biodisponibilidade do ferro e para garantir refeições de boa densidade calórica, evitando falhas no crescimento e desenvolvimento do bebê.

 

Objetivo da recomendação Recomendações específicas aos cuidadores
Aumentar a ingestão de alimentos ricos em ferro – Ofereça um alimento rico em ferro de alta disponibilidade em cada refeição, entre eles: fígado, carne vermelha, frango, porco e peixe

– Ofereça com regularidade os alimentos ricos em ferro de média e baixa disponibilidade: vegetais verde escuros, feijões, grão de bico (incluindo pasta de grão de bico), lentilha

-Utilize receitas para oferecer com segurança os alimentos que o bebê não consegue agarrar no princípio (vegetais folhosos, por exemplo)

– Não atrase a introdução alimentar para além dos 6 meses de idade

Melhorar a absorção de ferro – Deixe os grãos integrais (arroz integral, feijões, grão de bico, lentilha) de molho em água com limão por 12 horas, descartando a água do remolho antes de cozinhar

– Ofereça uma fruta rica em vitamina C junto com as grandes refeições: laranja, tangerina, morango, manga, abacaxi, kiwi, carambola, pêssego

Garantir boa oferta dos demais nutrientes -Ofereça uma variedade de alimentos, repetindo diversas vezes os alimentos recusados no princípio

– Ofereça de 3 a 5 alimentos diferentes em cada refeição, mas disponha na bandeja apenas um pedaço de cada por vez, repondo sempre que for preciso

Reduzir o risco de falhas no crescimento, como resultado de uma baixa ingestão calórica de corrente da auto alimentação – Ofereça ao menos um alimento energético em cada grande refeição: batata (doce, baroa, inglesa), inhame, aipim, cará, abóbora, abacate, banana, azeite, óleo de coco, carnes em geral, feijões e outras leguminosas

 

Veja também: Prevenindo o engasgo: a escolha do adulto faz toda a diferença

 

De qualquer forma, todas as orientações adicionadas à metodologia do BLISS já deveriam estar sendo feitas por profissionais realmente capacitados para atender este público. Daí a importância de fazer um acompanhamento do processo com um bom nutricionista e/ou pediatra.

Mas a grande novidade do BLISS é que teremos um grande estudo sendo bem conduzido para confirmar (ou não) as aclamadas vantagens do BLW, incluindo: melhora da auto regulação de ingestão calórica, maior desenvolvimento das funções motoras, melhor qualidade da dieta e do comportamento alimentar. Além disso, esse estudo irá verificar se as modificações sugeridas pelo BLISS ajudam a manter um bom estado nutricional de ferro e zinco e reduzir os riscos de engasgo.

Principalmente diante de todas essas informações, os pais podem se pegar pensando “coma mais” ou “coma tudo”. É normal ficar ansioso em relação ao quê e o quanto o bebê vai comer. Mas tente se lembrar de que bebês são ótimos em regular seu apetite, comendo somente o que precisam. O seu papel é continuar oferecendo refeições variadas e nutritivas para que ele aprenda a ter hábitos saudáveis em seu próprio tempo.

 

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

 

Referências:
Cameron SL, Taylor RW, Heath AL. Development and pilot testing of Baby-Led Introduction to SolidS–a version of Baby-Led Weaning modified to address concerns about iron deficiency, growth faltering and choking. BMC Pediatr. 2015 Aug 26; 15:99.

 

Daniels L et al. Baby-Led Introduction to SolidS (BLISS) study: a randomised controlled trial of a baby-led approach to complementary feeding. BMC Pediatr. 2015 Nov 12;15:179.

 

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