Meu relato de desmame (gradual e conduzido)

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Desde que o Nícolas completou 1 ano e meio eu já vinha tendo vontade de diminuir o ritmo das mamadas. Principalmente as noturnas, que estavam muito exaustivas. E quanto mais eu percebia que ele se alimentava bem, mais a minha vontade crescia. Mas era um sentimento ainda muito contraditório e ambíguo dentro de mim, porque apesar da minha vontade e cansaço, eu sabia que o leite ainda era muito importante pra ele – além dele não apresentar nenhum indício de desmame natural. Ele amava muito seu tetê. Eu também não me via dando mamadeira em nenhum momento e, acima de tudo, não queria que fosse nada traumático pra nenhum de nós dois. O que me fazia respirar fundo, mudar o foco e prosseguir.

(Só um adendo: MUITA gente me disse “nossa, foi tão fácil desmamar meu filho” durante todo o nosso processo de desmame. Massss, 100% desses “desmames fáceis” eram acompanhados de leite na mamadeira. E isso não é desmame. O bebê continua mamando, suprindo sua necessidade oral de sucção – que sabemos que vai muito além da fome. Superar a fase oral, amigues, é que são elas!)

Bom, continuando, quando ele estava com 1 ano e 8 meses, ele entrou na escolinha. Ficava 6 horas por dia na escola, o que diminuiu um tanto considerável o número de mamadas no dia. Eu não quis que dessem leite na escola, ele ainda tinha leite materno quando estava comigo e se alimentava bem. Começou a comer ainda melhor no almoço da escola, sem as infinitas mamadas durante o dia. Em poucas semanas, o que parecia impossível aconteceu: a soneca da tarde, com as tias da escola, sem mamar, sem ninar. Fiquei CHO-CA-DA. rsrs Mas nasceu aquela esperança no peito: Ele aprendeu a dormir sem sugar.

Bom, até o final do ano, tudo corria igual: mamava muito quando estávamos juntos, dia e noite. O pit stop na escola, na volta pra casa, tinha que ter o tetê. Ele já chegava no saguão mega feliz e aprendeu a falar “tetê” antes de “mamãe” rsrs.

Em todo esse tempo, tive muitas fases de repulsa, um sentimento horrível que não desejo pra ninguém, mas que passaram, como tantos outros altos e baixos da vida. Pra mim ainda era mais sofrido ver ele chorar pelo tetê do que aguentar minha angústia, e isso me fez forte pra continuar. No fundo, eu nunca quis amamentar por muito mais do que dois anos, mas também nunca pensei em desrespeitar de forma alguma esse vínculo com um desmame abrupto.

Porém, em janeiro do ano seguinte, me descobri grávida.

E, além de uma fome e um sono absurdos, o que me fez perceber que alguma coisa estava muito diferente, foi a amamentação. Começou a ficar MUITO doloroso.

Sério. Imagine um alicate apertando seu mamilo. Durante 2 minutos. É isso que eu sentia todo início de mamada durante a gravidez. Não dava pra não gritar de dor, infelizmente. E EU decidi que não tinha mais disponibilidade pra amamentar nessa situação. Estava exausta, com um sono incontrolável e acordando 5 a 6 vezes por noite, chorando de dor pra amamentar.

Então, no Carnaval, Nícolas tinha acabado de completar 2 anos e decidi com meu marido que íamos tentar o desmame noturno. A estratégia seria: eu ia deitar no colchão ao lado da cama e meu marido na nossa cama junto com ele. Se ele acordasse, o marido ia acolher, dar água, suco, e tentar fazê-lo voltar a dormir.

Bem, como posso dizer…? Foi um fracasso. Ele chorou tanto de quase vomitar, ficou super agressivo durante o dia, se jogava no chão pra tudo, batia em todos (e principalmente em mim). Então, no segundo dia, cedi. Não aguentei, chorei, abracei e amamentei.

Ele ficou doente, teve febre altíssima, que ate hoje não sei se foi uma reação alérgica tardia à picadas de formiga ou se foi emocional. Desencanei. Voltei a amamentar (várias vezes) à noite, chorando de dor a cada mamada. Sentimento ruim no peito, angústia, e me sentindo culpada até o extremo por me sentir assim.

Em alguns dias, re-comecei o processo ao contrário. Reduzindo as mamadas do dia. Passei a não oferecer mais o seio pra tudo e a substituir uma mamadinha por qualquer outra coisa (uma brincadeira, água, uma fruta, um biscoito). Passei a distraí-lo na saída da escola e tirar o pit stop da mamada antes de ir pra casa. Passei a fazê-lo entender que ele ia mamar apenas pra dormir, já que essa era a maior dificuldade dele. Então consegui associar à mamada ao quarto dele e ele já entendia quando eu dizia: “você vai nanar?” quando ele tentava um aconchego. Então (na maioria das vezes) ele desistia e ia brincar.

Em todo esse processo, eu cedi inúmeras vezes. Cedia quando via que ele estava precisando de verdade daquele aconchego ou daquele leite. Que fazia diferença pra ele. E assim, pouco a pouco, ele foi me respeitando e eu respeitando ele.

Duas semanas depois da primeira tentativa (frustrada) de desmame noturno, resolvi tentar de novo. Dei mamá pra dormir e disse à ele que ele podia mamar de novo quando estivesse sol lá fora (deixei a janela aberta). Deixei o copo d’água do lado dele na cama e me deitei ao lado dele, abraçada com um travesseiro.

Foram duas noites (bem) difíceis, mas que nem se comparam à primeira tentativa. Disse à ele que meu tetê estava dodói, que estava doendo muito (e era verdade), mas que eu prometia dar de manhãzinha, quando o sol estivesse na janela. Na terceira noite, ele chorava, eu oferecia a água e ele voltava a dormir. Uma semana depois, ele às vezes acordava choramingando, mas voltava a dormir sozinho. Ou pegava o copo, bebe água e dormia abraçado com o copo. Estive do lado dele na cama em todo o processo. Por vezes, ele adormecia com a mãozinha encostada em mim.

Certa noite, depois de 2 anos, dormi a minha primeira noite inteira, sem choro e sem insônia. Acordei inchada e amarrotada. Ele viu o sol na janela, falou “mamãe” e se aconchegou ao meu lado. Abocanhou o mamilo, eu gritei de dor e ele mamou até adormecer de novo.

E assim fomos seguindo, gradualmente. Nunca pretendi amamentar em tandem, mas não conseguia muito prever o que havia por vir. Procurei não me preocupar e nem sofrer por antecedência. Um passo de cada vez.

Até o 6º mês de gravidez muita coisa aconteceu. Aos poucos, meu leite foi secando e, além de dolorido, estava angustiante demais amamentar… Um sentimento que não sei descrever, mas hoje me lembra algo muito parecido com uma repulsa. Uma vontade enorme de não estar ali.

Aos poucos, fui tentando tirar a última mamada que restava, que era a que fazia adormecê-lo por toda a noite. Consegui, algumas noites. E nessa mesma época ele começou com terríveis episódios de terror noturno. Muito muito terríveis mesmo. Nem oferecer o peito resolvia, ele parecia não nos enxergar. Tentei encontrar diversas causas para esses episódios, mas minha culpa só me fazia pensar no desmame conduzido. Essa mesma culpa que me acompanhou durante todo o processo. Não foi fácil, mas não me arrependo de nada, eu estava muito decidida mesmo.

Bom, fomos viajar, e passei 1 semana na casa da minha vó sofrendo muito, e já quase sem leite. Ele ainda estava acordando a noite, e tendo aqueles horríveis episódios de terror noturno. Chorei, chorei. Minha família (linda) me apoiou muito e me incentivou a respeitá-lo, entendê-lo! Afinal, estávamos quase lá!

E finalmente… Quando eu menos esperava… Voltamos de viagem e ele, cheio de saudades, quis dormir algumas noites com o pai… Conversei muito com ele e aos poucos ele foi mamando dia sim, dia não… Depois espaçando os dias, sem mais nenhum episódio de terror noturno… Começou a dormir a noite toda (a cama ainda compartilhada), até que finalmente assumi o desmame.

Assim, ele ainda chegou a pedir o tetê uma ou outra vez, mas conversamos, dormimos abraçadinhos e ele ficou bem! Começou a dormir das 10 as 10, às vezes choraminga a noite mas nem chega a acordar. Mudamos nossa rotina para a hora de dormir, agora subimos todos para o quarto, rezamos para todos que amamos, fazemos carinho nas costas e ele adormece. Às vezes quer dormir em cima da minha barriga, pro meu desespero rs. Mas entendo que seja uma fase de transição, ainda mais com o irmão por vir.

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Tenho explicado todos os dias pra ele que, quando o Joaquim nascer, ele não vai conseguir comer comidinha como o Nícolas. Então ele vai chorar e vamos precisar dar o tetê da mamãe. Ele já aprendeu e repete comigo toda essa história, todos os dias. Ele está muito carinhoso com a barriga e posso dizer que ninguém recebeu mais beijos do Nícolas nessa vida do que o Joaquim. rs

Hoje em dia já não tenho mais leite e ele está super tranquilo em relação ao seio. Não pede mais há semanas e quando me vê sem blusa acha engraçado, quer pegar e dá risada. Nem preciso dizer que me dá uma paz sem tamanho saber que tudo terminou bem.

No auge do desespero cheguei a dar outros leites, mas sempre soltou muito o intestino dele. Ele começou a comer melhor ainda depois do desmame, então realmente não me preocupo com isso. Seguimos felizes e saudáveis assim.

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Pra finalizar, a mensagem que eu queria deixar é que sim, eu sei que posso amamentar grávida. Eu sei que o melhor é esperar o desmame natural. Mas também sei que a gente precisa entender e respeitar nossos limites. E que isso não necessariamente envolve desrespeitar os limites dos nossos filhos. Enquanto eu estiver bem, serei uma boa mãe, a melhor que posso ser. Porque consigo colocar racionalmente meus desejos de lado, ter empatia e ouvir com o coração. E isso me deixa com a consciência tranquila e o coração em paz.

Espero ajudar de alguma forma com esse relato.

Precisamos falar mais sobre isso. 

Beijos,

Aline

 

7 comentários sobre “Meu relato de desmame (gradual e conduzido)

  1. Lindo!

    Obrigada por abrir seu coração, Aline!

    Aqui temos 1 ano e 1 mês de amamentação em livre demanda e tem dias que eu também penso em desmame, porque nem sinal dele querer largar o Tetê. E ler um relato tao sincero, honesto, real e cheio de carinho me dá forças pra fazer as coisas do jeito certo: com amor!

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  2. Que relato lindooo!!

    Muito ampr e respeito envolvido…

    Aqui ainda 2 anos e 2 meses de aleitamento, mas sinto que é muito mais pela minha ausência durante o dia por causa do trabalho.

    Vou aguardar o processo gradual e natural… o nosso tempo!

    Parabéns por ser esta pessoa linda e compartilhar sua rotina de amor com o Nicolas. Vocês inspiram muuuuitas mães!
    Beijooo

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  3. Muito bacana seu relato! Super sincero! Já passei por um desmame super tranquilo do meu filho mais velho e não entendia qdo as mães tinham dificuldade em desmamar, mas agora com a mais nova já estou sofrendo só de pensar como vai ser difícil pq ela é muito mais dependente do peito. O sentimento de repulsa já está rolando por aqui e espero ter a mesma força que você teve. Parabéns e boa sorte com o novo bebê!

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  4. Olá Aline! Adorei seu relato! Já o li duas vezes! Obrigado por compartilhar sua experiência!

    Amamento meu segundo filho de 1 ano e 4 meses em livre demanda e tb tenho dificuldades para que possamos dormir a noite toda…O Caio acorda de 2 a 3 (4 qdo está saindo dentes) vezes por noite para mamar…é mto cansativo não dormirmos bem…

    Já li bastante sobre o desmame noturno e tenho até dificuldade de colocar em prática as dicas da Elizabeth Pantley…

    A maioria dos bebês que mamam no peito em Livre Demanda, têm dificildade para dormir a noite toda? É pelo hábito de terem a necessidade de adormecerem no peito? (E tb porque as mães adeptas à LD não tiram o bebê do peito para ele adormecer sozinho?)

    Vou aguardar ansiosa pelos seus próximos POSTs…”Precisamos falar mais sobre isto”!

    Por enquanto também quero um desmame natural, no tempo em que o Caio indicar (e se eu aguentar esperar este tempo!). Mas preciso mto de ajuda para conseguir pelo menos o dermame noturno… Queria tanto dormir mais horas seguidas…

    Vc já ouviu falar do método do Dr. Jay Gordon (de NY)? Que ensina uma forma para o nenê dormir pelo menos 7horas seguidas? (Seu programa levaria 10 dias)…

    Será que alguém tentou? Teve sucesso?

    De qquer forma, obrigada pelo relato, obrigada pelo espaço de troca!!! É tão bom saber que não somos as únicas…

    Te acompanho desde a minha participação no CONALCO! Parabéns por tantas iniciativas maravilhosas!

    Ab,
    Carolina

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  5. Parabéns Aline. Por tudo. Você é inspiradora. Muitas lágrimas por aqui lendo seu relato. Minha primeira filha aqui com 10 meses, mas já um pouco cansada pelas noites mal dormidas, se somar a gravidez já faz mais de 1 ano sem dormir à noite toda. Mas seguimos firme e forte. Ela ainda precisa muito do peito e eu vou utilizar todas as minhas energias, até a última gota, para que esse processo seja gradual e tenha um final feliz como o seu. Beijos

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