O BLW não deu certo comigo

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Seja através do Blog, ou do grupo de alunos do Curso Avançado em BLW, é muito comum que essa queixa chegue em mim. “O BLW não está dando certo”, ou “meu bebê não se interessa pela comida”, ou “meu bebê não come nada pelo método BLW”, entre outras, são variações da mesma queixa. E é sobre isso que vamos falar hoje.

Então você se depara, se interessa e aprende sobre o ‘método‘ BLW. Aprende todos os formatos de alimentos, sabe cortar, fazer bolinhos. Compra um cadeirão lindo, um babador estilosão, um cartão de memória maior pra tirar um montão de fotos, pega dezenas de receitinhas deliciosas e saudáveis… E o bebê simplesmente não toca na comida. Ou põe na boca e cospe. Ou pega e joga longe. É muito frustrante…

Sim, é extremamente frustrante – e te digo isso como alguém que sentiu isso na pele e que talvez esteja escrevendo esse post pra se lembrar, quando sentir isso novamente em alguns meses, com a introdução alimentar do segundinho. Mas apesar de ter estudado muito sobre COMO se faz o BLW, talvez você tenha deixado adormecido uma das coisas mais importantes, que é o PORQUE resolveu fazer o BLW.

Um paradigma não se constrói de um dia pro outro. De fato, é construído por anos a fio, e lhe são atribuídas verdades muitas vezes difíceis de serem postas a prova, contrariadas, ainda que pelo mais alternativo e diferentão dos seres. E o que quero dizer com isso é que o paradigma da alimentação infantil vem sendo lapidado há décadas com base em datas, horários e quantidades que o bebê precisa ingerir. E, ainda que falem em qualidade, as pesquisas na área são intensamente focadas na quantidade dessa qualidade. Incluindo, veja só, as pesquisas em BLW.

TODOS querem saber se o bebê ingere a quantidade de nutrientes suficiente pra atingir as metas estabelecidas pelas milhares de pesquisas que determinaram o quanto de cada porção e de cada nutriente um bebê deveria ingerir. 

Então levando-se em consideração esse paradigma, sim, o BLW não deu certo com você. Mas a partir do momento que você internaliza que você não está seguindo uma introdução alimentar padrão e que BLW não é sobre regras, métodos ou fórmulas mirabolantes de fazer um bebê comer melhor e não ser seletivo, você pode ter certeza que a coisa vai fluir. Não só vai fluir como vai ser muito menos estressante pra você e, acredite, pro bebê.

Então vou te dizer uma coisa muito importante. Seu bebê está próximo ou completou seis meses e já está sentando com pouco ou mínimo apoio? Esqueça os cortes, bolinhos, babadores, cadeirões e apetrechos sem fim. Leve o bebê à mesa com você. SEM EXPECTATIVA.

Não crie expectativas. Essa é o primeiro lembrete de ouro da introdução alimentar, independente da abordagem que você pretende seguir. 

Se vcs já estão em andamento e o bebê com 7, 8, 9 meses ainda não está comendo como o bebê do vizinho ou da blogueira, internalize e reflita sobre mais um conceito do BLW: PRONTIDÃO. BLW é sobre dar tempo ao desenvolvimento. É sobre não comparar. Entender que existem bebês prontos aos 5 meses e meio e bebês que só deslancham a comer depois de 1 ano de idade – independente de todo o esforço que você faça. E, se você comparar com bebês que comem papinha, aí a frustração só piora, porque dificilmente eles vão seguir o mesmo padrão no início da introdução alimentar.

Bebês que comem passivamente comem MAIS – e esse nunca foi o objetivo do BLW. Para que o bebê seja capaz de manipular os alimentos com suas habilidades motoras em desenvolvimento, os alimentos são dispostos em seu formato íntegro, e não em purê ou amassados. Isso significa que esses alimentos terão que ser manipulados, mastigados e deglutidos – o que é absolutamente esperado que se faça durante a alimentação.

Então, pra ficar mais fácil, vamos nos colocar no lugar do bebê. Quando você bebe um suco de frutas natural: 250 ml de suco de laranja tem em média 2 a 3 laranjas. Você está ingerindo 2 a 3 laranjas em, vamos dizer, no máximo 5 minutos? Tempo diferente você levaria para pegar 2 ou 3 laranjas, descascar, morder, tirar o suco com os dentes, manejar dentro da boca e engolir cada uma delas. Muitas pessoas ainda amam mastigar todo o bagaço, deixando só a parte branquinha para o lixo. Aproveitamento total, maior tempo dispendido, maior saciedade. Talvez seja por isso que não comemos 2 ou 3 laranjas de uma só vez?

Entender que você está comparando duas situações que são completamente diferentes vai te dar muito mais tranquilidade pra observar o SEU bebê – e não o bebê da vizinha. 

O BLW também permite que o bebê que demonstre, intuitivamente, o que ele precisa comer. Isso significa que podem ter semanas (sim, SEMANAS) que ele só aceite as proteínas. Ou os vegetais. Ou as frutas. Ou os carboidratos. E nós ainda não temos pesquisas suficientes que nos mostrem que o melhor caminho é permitir com que eles fiquem livres pra escolher, intuitivamente, o que tem vontade ou necessidade de comer. Mas eu posso com muita convicção te afirmar que eles não estão de dieta ou conscientemente pensando: “hmmm só vou comer os carboidratos essa semana”. Ou “eu não gosto de verdinhos”. O estágio cognitivo não lhes permite isso.

Durante a introdução alimentar, existe uma série de fatores inerentes ao próprio crescimento e desenvolvimento que podem fazer com que essas “preferências” apareçam e da mesma forma desapareçam, como se nada tivesse acontecido. No momento em que escrevo esse texto, meu filho está prestes a completar 3 anos e já passou por inúmeras destas fases. Recusou banana durante todo seu primeiro ano, durante o estirão de crescimento do segundo ano de vida chegou a pedir 3 bananas e comer de uma vez e hoje, no terceiro ano de vida, pega a banana da fruteira e come quando tem vontade, não mais do que 1 banana por vez.

Deixar com que o bebê dite o ritmo e o caminho pode ser extremamente natural se vc tem um pequeno glutão em casa. Se o seu bebê aceita tudo desde o princípio, é bem provável que você nunca tenha se questionado sobre o BLW. Mas a maioria dos bebês não são assim.

A maioria dos bebês demora a engatar a comer uma quantidade que seja suficiente pra nós, dentro do paradigma de alimentação infantil ao qual estamos habituados. E o BLW deixa isso muito perceptível.

E isso pode se transformar em um pesadelo, se a gente cria a expectativa de que o bebê precisa a qualquer custo comer uma quantidade pré-determinada. Se a gente começar a comparar bebês em BLW entre si, vamos perceber que a maioria começa a mastigar e engolir melhor aos 8-9 meses, coincidentemente quando há uma melhora expressiva da coordenação motora global e oral. Natural e conforme o esperado para o desenvolvimento. E BLW não era exatamente sobre isso? 

E então passa-se o tempo, o bebê já come bem, sozinho, com as mãos. Eu começo a tentar treiná-lo. Treinar a aceitação do prato ou o manejo o talher. Treinar a pinça, treinar o copo, treinar, treinar… “Mas não está dando certo… bem que me disseram que ele ia comer com a mão pra sempre“. Calma. Respire fundo e lembre-se de novo que BLW não é sobre treino, mas sobre… OPORTUNIDADE!

Prontidão não se refere somente aos grandes marcos do desenvolvimento infantil, como sentar, andar e falar. Envolve também mínimas coisas, como levar um objeto à boca, morder, equilibrar um talher com comida, compreender frases simples e por aí vai.

Todas as pequenas e grandes aquisições psicomotoras demandam oportunidades pra serem  desenvolvidas, mas independem do nosso poder de persuasão. 

Então o cerne não é ensinar, treinar ou esperar que ele se desenvolva mais rápido. Mas sim dar tempo e oportunidade para que se desenvolva no tempo certo. No tempo do SEU bebê. Reforce o conceito e não crie expectativas quanto ao que seu bebê já apresenta ou deixa de apresentar. BLW não é sobre ser o bebê mais desenvolvido do pedaço. É sobre um bebê que tem total autonomia para poder se desenvolver naturalmente, dentro de um ambiente repleto de oportunidades sensório-motoras. BLW é sobre comer o que se tem vontade, se é que se tem vontade.

Ao escolher o BLW, eu imagino que você tenha enfrentado alguma resistência externa, seja pela sua família, amigos, pediatra… Alguém por aí deve ter feito vc duvidar se era isso mesmo que você queria. E o tempo passa, o bebê da ‘vizinha’ come, o bebê da blogueira come, todo mundo come, menos o seu bebê. E aí, a cobrança externa começa a pesar nas suas decisões. Volta a ansiedade, volta a expectativa e volta a frustração. Pra isso, o santo remédio se chama AUTO-PODER. Lembra do tal empoderamento? Pois é. Faça suas escolhas tranquilas, de coração aberto. E não tenha medo de mudar, se o seu coração lhe disser assim. Se vc decidiu tentar oferecer a comida, enverede para a introdução alimentar participativa, vai ser igualmente respeitoso e produtivo.

 

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