Recusa, controle e distúrbios alimentares: o efeito bola de neve

dreamstime_xl_8446323

A recusa alimentar atinge cerca de 25% de crianças em desenvolvimento normal. Essas recusas podem ser provocadas por uma combinação de fatores psicológicos, emocionais e sociais. Estudos que investigam as desordens alimentares em crianças avaliam componentes como a relação familiar, estrutura cultural, temperamento e desenvolvimento da criança, duração do aleitamento materno e práticas da introdução alimentar.

O hábito alimentar se forma a partir de experiências e práticas observadas dentro do âmbito familiar e social na primeira infância. Não surpreende então que a atitude dos pais em relação à comida e o tipo de abordagem dos pais no momento das refeições seja fator definitivo para o ciclo de recusa da criança.

Quando os pais criam expectativas e elas não são atendidas, um ambiente de  estresse pode ser gerado. Momentos de refeições infelizes e estressantes aumentam as chances de recusa. E vira uma bola de neve! Os pais se tornam mais ansiosos, mais exigentes, menos tolerantes e mais controladores. E pronto! Está instalado um distúrbio alimentar!

A recusa alimentar deve ser sempre avaliada em conjunto com o ganho de peso. E é muito comum essa queixa vir acompanhada de ganho de peso e desenvolvimento normais. Se o ganho de peso e o crescimento estão adequados e foi descartada uma causa orgânica (alergia alimentar, refluxo, problemas de deglutição etc), é preciso que a família entenda que cada criança tem o seu tempo e que a introdução alimentar é um evento a longo prazo.

Se a introdução alimentar for conduzida de maneira respeitosa, num ambiente tranquilo e de forma agradável, em algum momento aquele bebê vai despertar o interesse pela comida. E quando isso acontecer, sua relação com a comida será boa, haverá prazer em fazer as refeições.  Já o bebê que foi forçado a comer ou que teve sua comida batida e misturada no início da alimentação pode até aceitar nos primeiros meses, mas perde a oportunidade de conhecer os alimentos, experimentar texturas e sabores e, pior ainda, pode criar uma aversão ao alimento por conta do estresse gerado nas refeições.

Pensando em todas essas informações junto com a proposta do BLW, fica fácil entender porque algumas de suas vantagens incluem melhor relação com a comida, diminuição da seletividade alimentar, melhor qualidade da dieta, melhor controle de fome-saciedade. Entender que cada bebê tem seu tempo e deixá-los guiar o processo de transição do leite para a alimentação sólida, sem se preocupar com o ritmo ou quantidade, mas somente com a qualidade do que é oferecido possibilita uma introdução alimentar verdadeiramente respeitosa, tranquila, prazerosa.

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

 

Leia também:

O BLW não deu certo comigo

Os benefícios da Introdução Alimentar ParticipATIVA

Os 20 passos para a Introdução Alimentar ParticipATIVA – #IAparticipATIVA

 

Bibliografia:

TAN, S.; YILMAZ, A. E.; KARABEL, M.; KARA, S.; ALDEMIR, S.; KARABEL, D. Children with food refusal: An assessment of parental eating attitudes and their styles of coping with stress. Journal of the Chinese Medical Association, v.75, s.5, p.209-215, 2012.

LEVY, Y.; LEVY, A.; ZANGEN, T.; KORNFELD, L.; DALAL, I.; SAMUEL, E.; BOAZ, M.; DAVID, N. B.; DUNITZ, M.; LEVINE, A. Diagnostic Clues for Identification of Nonorganic vs Organic Causes of Food Refusal and Poor Feeding. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, v. 48, p. 355-362, 2009.

 

face-ads-2