O BLW é o melhor método de introdução alimentar?

por Michelle Bento

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Essa semana me deparei novamente com a seguinte pergunta no facebook: “Existem estudos que comprovem que o BLW é o melhor método de introdução alimentar?”

Acompanhando a pergunta, pessoas a favor do BLW discutiam a ausência de pesquisas e sobre como argumentar com aqueles que pediam as evidências que comprovem todos os seus benefícios. E esse mesmo tipo de discussão eu já vi acontecer tantas outras vezes, incluindo outros assuntos também relacionados à maternidade.

Eu começo ponderando o título de “melhor” concedido ao BLW. A grande questão aqui não é querer convencer a todos de que o blw é melhor. Afinal, não existe UM melhor. O ponto aqui é mostrar que na verdade o que vem sendo feito tradicionalmente é que está péssimo! É levantar uma discussão sobre como podemos melhorar esse cenário adaptando esses conceitos difundidos através do baby-led weaning à realidade de cada família.

 

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E para várias premissas dos BLW existe sim base científica. E eu reuni aqui algumas delas.

Já está mais do que claro que a idade ideal para iniciar a alimentação complementar é aos 6 meses, não antes disso. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, “é apenas a partir dos 6 meses de idade que as necessidades nutricionais do lactente não podem ser supridas apenas pelo leite humano. Também é a partir dessa idade que a maioria das crianças atinge um estágio de desenvolvimento geral e neurológico (mastigação, deglutição, digestão e excreção) que a habilita a receber outros alimentos que não o leite materno”. O bebê de 6 meses tem uma capacidade motora completamente diferente do bebê de 4 meses, idade em que se recomendava (ou se recomenda, pois infelizmente ainda é muito comum ver profissionais fazendo essa indicação) iniciar os alimentos sólidos.

O quadro a seguir mostra como o leite materno se mantém como principal fonte de energia durante os primeiros meses de introdução alimentar, sendo ultrapassado pelos alimentos somente entre 12 e 24 meses. Como o BLW é centrado na auto-alimentação e no início as habilidades motoras limitadas dificultam a ingestão de grande quantidade de alimentos, existe um medo grande por parte de pais e profissionais de que o bebê não vá receber tudo o que precisa. Entender que a transição do leite para o alimento sólido deve ser bem gradativa é fundamental para diminuir as expectativas em relação às quantidades que o bebe vai comer nas primeiras ofertas de comida, evitando frustrações que geram o ciclo de recusa alimentar da criança.

 

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“Crianças amamentadas desenvolvem muito cedo a capacidade de autocontrole sobre a ingestão de alimentos, de acordo com as suas necessidades, pelo aprendizado da saciedade e pela sensação fisiológica da fome durante o período de jejum. Mais tarde, dependendo dos alimentos e da forma como lhe são oferecidos, também desenvolvem o autocontrole sobre a seleção dos alimentos. E esse autocontrole sofrerá influência de outros fatores como o cultural e social. A prática das mães/pais ou dos profissionais de saúde que adotam esquemas rígidos de alimentação prejudica o adequado desenvolvimento do autocontrole da ingestão alimentar pela criança”.

Esse trecho foi retirado do Guia Alimentar Para Menores de 2 Anos do Ministério da Saúde, reforçando que o bebê é capaz de determinar sozinho a quantidade de alimentos que deve ingerir, através da sua auto regulação de fome-saciedade. O papel dos cuidadores é somente dar oportunidade, através da oferta de alimentos saudáveis e variados. Cabe ao bebê dizer o que e o quanto deseja comer.

A Organização Mundial de Saúde recomenda a “prática da alimentação responsiva, que usa os princípios de cuidados psicossociais ao se alimentar a criança. A prática inclui o respeito ao mecanismo fisiológico de auto-regulação do apetite da criança, ajudando-a a se alimentar até estar saciada, e requer sensibilidade da mãe/cuidador às indicações de fome e de saciedade da criança. Recomenda-se alimentar a criança lenta e pacientemente até que ela se sacie, jamais forçando-a a comer. As refeições devem ser prazerosas, com troca amorosa entre a criança quem a está alimentando, por meio de contato visual, toques, sorrisos e conversa. Se a criança recusar muitos alimentos, pode-se experimentar diferentes combinações, sabores, texturas e métodos de encorajamento não-coercitivos e que não distraiam a criança da refeição. Há evidências de que o estilo mais ativo de alimentar a criança melhora a ingestão de alimentos e o seu estado nutricional, bem como seu crescimento”.

Corroborando isso, um estudo bem recente, publicado agora no início do ano mostra que a alimentação responsiva é associada com melhores hábitos alimentares e uma melhor auto regulação de ingestão energética. Pais que utilizaram práticas alimentares não responsivas e não forneceram uma estrutura de alimentação adequada (tempo, local adequado e envolvimento familiar) relataram maiores dificuldades para que a criança comesse. Ao contrário, as famílias que usavam menos as práticas não responsivas e ofereciam melhor estrutura, relatavam que as crianças aproveitavam mais as refeições e não tinham dificuldade para comer.

Sobre o medo do bebê possa engasgar ao se auto-alimentar, um estudo conduzido por Fangupo e colaboradores (2016) acompanhou mais de 180 famílias divididas entre aquelas que praticavam a auto-alimentação e aquelas que ofereciam a alimentação na colher e concluiu que, desde que se forneça orientação adequada, bebês seguindo a abordagem BLISS (baby-led introduction to solids) não parecem estar sob maior risco de engasgo do que aqueles que seguindo uma prática mais tradicional. Na verdade, em ambos os grupos foram oferecidos alimentos potencialmente perigosos, o que significa que é preciso orientar muito bem os cuidadores a respeito de práticas seguras de alimentação, não importando a abordagem que será empregada.

 

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É claro que ainda existem questões não respondidas, como a ingestão adequada de micronutrientes, por exemplo. E para isso precisamos de mais estudos específicos com o BLW. Mas já temos o suficiente para mudar as práticas tradicionais e estimular a participação ativa do bebê no processo de introdução alimentar. Então vamos nos unir para incentivar esse tipo de abordagem mesmo que para algumas famílias o BLW não se encaixe. Dá pra fazer muito bem às nossas crianças ainda que elas não comam sozinhas os alimentos inteiros desde o começo. Basta apresentá-los na textura adequada, separados, com calma e respeitando as escolhas do bebê no que diz respeito à o que, quando e em que quantidade ele quer comer.

 

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Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

 

Referências:

MONTE, Cristina M. G.; GIUGLIANI, Elsa, R. J. Recomendações para alimentação complementar da criança em aleitamento materno. Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, v. 80, p. 131-141, 2004. Suplemento.

DEWEY, KATHRYN G.; BROWN, Kenneth H. Update on technical issues concerning complementary feeding of young children in developing countries and implications for intervention programs. Food and Nutrition Bulletin, v. 24, n.1, p. 5-28, 2003.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2 ed. – 2 reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 72p.

MONTE, C. M.; GIUGLIANI, E. R. Recommendations for the complementary feeding of the breastfed child. Jornal de Pediatria, v. 80, n.5, S131-S141, 2004.

FINNANE, J. M.; JANSEN, E.; MALLAN, K. M.; DANIELS, L.A. Mealtime Structure and responsive feeding practices are associated with lesse food fussiness and more food enjoyment in children. Journal of Nutrition Education and Behavior. V. 49, N.1, 2017.

FANGUPO, L. J.; HEATH, A. M.; WILLIAMS S. M.; et al. A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. 138(4), 2016.

 

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