É cedo demais pra começar a introdução alimentar?

por Gill Rapley , Janeiro 2017*

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Tentar iniciar a introdução alimentar quando o bebê ainda não está pronto pode ser bem frustrante. Mas e quando o bebê demonstra todos os sinais que está pronto mas ainda não completou os 6 meses?

Frequentemente sou contatada por pais de bebês de 22-24 semanas que mostram interesse pela comida sólida. Eles estão com receio de começarem muito cedo, ainda que sintam que seus bebês estão dando claros sinais de que estejam prontos. Enquanto estou impossibilitada de oferecer um guia específico para bebês individualmente, minha resposta geral para esse dilema é como segue.

A ‘regra’ do 6 meses é importante porque mantém os bebês a salvo da intervenção precoce da introdução alimentar. Então eu sempre me refiro à isso em tudo que digo. Contudo, minha posição atual , baseada em minhas pesquisas e minha experiência clínica é que, qualquer coisa que o bebê esteja pronto pra fazer é provavelmente o que é certo para aquele bebê. Há uma boa razão para acreditar que as habilidades de desenvolvimento que são visíveis pra nós (como sentar na posição vertical) são confiáveis indicadores de que a natureza do sistema interno (digestivo) do bebê raramente comete erros.

Assim, se um bebê saudável pode (genuinamente) sentar na vertical, agarrar a comida e colocá-la em sua boca SOZINHO, então ele provavelmente está pronto pra fazer exatamente isso. Se ele também está pronto para mastigar – e talvez até mesmo engolir – isso é bom, mas é mais provável que essas habilidades sigam no devido tempo.

Uma das razões pela qual faço questão de enfatizar a ‘regra’ dos 6 meses, embora eu não considere algo imutável, é que é muito mais fácil para aqueles que não entendem o conceito de BLW, entender mal qualquer sugestão de que começar mais cedo do que é aceitável. Esse pode ser o começo de uma inclinação escorregadia para práticas perigosas, e absolutamente imperdoável.

O problema é que é tentador ver mais habilidade em um filho do que ele realmente apresenta, e oferecer apenas um pouco de ajuda para capacitá-lo, ou para alcançar um objetivo em particular. Na maioria das vezes isso não importa, mas quando se trata de comer, a capacidade do bebê – ou incapacidade – para manejar a sequência de ações necessárias é um importante fator de segurança.

Ajudá-los a superar um obstáculo que ainda não conseguem administrar por si mesmos (ex: fornecendo apoio extra para sentar ou estender a mão, guiando os braços para a boca, ou – pior – colocando a comida na boca ‘para ajudar’) é potencialmente perigoso. É útil lembrar que essa ‘conquista’ de comer é objetivo dos adultos não das crianças. O bebê não sabe o que é o ponto de tudo isso – ele está apenas descobrindo como funciona seu próprio corpo e as coisas ao redor dele.

Se ele não consegue levar a comida na própria boca, e daí? Ele não ‘falhou’- e ele não tem noção de que precisa de ajuda. O papel dos pais é dar a OPORTUNIDADE pra fazer tudo que ele estiver pronto pra fazer, seja tocando a comida, pegando, lambendo, mastigando e/ou engolindo – ou nenhuma das opções – e isso não capacita o bebê de fazer alguma coisa que ele ainda não consiga manejar.

Os seis meses representam uma média de idade de prontidão, da mesma forma que a maioria dos bebês dão seu primeiro passo por volta do seu primeiro aniversário. Claramente alguns estarão prontos pra andar mais cedo, e alguns mais tarde do que isso. Nós não tentamos impedir aqueles que estão prontos pra andar antes da idade ‘correta’.

Se nós estamos preparados pra aceitar que boa proporção de bebês não estão prontos pra se alimentar com comidas sólidas até terem sete, oito, nove meses, então é perfeitamente sensato permitir que também terão alguns que podem começar a fazer isso antes de alcançar a ‘mágica’ idade dos seis meses. O ponto crucial, da forma como vejo, é que essa atitude deve ser espontânea e independente. 

Em minha opinião, argumentos sobre a idade ‘certa’ para introduzir alimentos sólidos são importantes apenas se os pais é que estão decidindo quando colocar a comida na boca do bebê. Como acontece, é claro, com a introdução alimentar tradicional com a colher. Tais argumentos são redundantes se a decisão é feita pelo bebê, porque todos os bebês desenvolvem habilidades de comer em uma sequência definida, alinhadas com sua maturidade global.

Teoricamente, não há razão para não oferecer oportunidade para um bebê de um ou dois meses de idade sentar-se ou pegar alimentos de um prato. O que impede isso de ser uma opção sensata não é o fato de ser uma idade ‘errada’, mas sim o fato do bebê simplesmente não ser capaz de fazê-lo. O mesmo se aplica para três, quatro e cinco meses.

É extremamente improvável que qualquer infante abaixo de cinco meses e meio seria, sem nenhuma ‘ajuda’, capaz de conseguir mais do que o gosto de um alimento sólido.

Há aqueles que podem ser a exceção, não a regra. Desde que isso esteja completamente compreendido, começar sólidos, na minha opinião, não constitui um problema. A chave da mudança de tudo isso é que nós não temos as palavras certas para descrever a introdução de alimentos sólidos quando o bebê está no controle.

‘Começar sólidos’ com uma alimentação de colher e papinhas, significa alguém colocando comida na boca do bebê, no dia decidido por eles. Mas ‘começar sólidos’ usando o BLW simplesmente significa fornecer aos bebês a oportunidade de comer se e quando eles quiserem e forem capazes. É o bebê que decide a partir daí.

*Texto traduzido do site http://www.rapleyweaning.com, com autorização expressa da autora

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