É necessário adiantar a introdução alimentar se a mãe volta ao trabalho (aos 4 meses)?

por Michelle Bento, Nutricionista

dreamstime_xl_75082612.jpg

Já é amplamente conhecido que a atual recomendação dos principais órgãos de saúde mundiais é iniciar a alimentação sólida aos 6 meses de idade.

Na prática, ainda é muito frequente que se inicie antes disso, entre os 4 e 6 meses de idade. Às vezes devido ao retorno da mãe ao trabalho, que dificulta a manutenção da livre demanda, outras vezes por indicação do pediatra. Algumas famílias se mostram ansiosas para ver o bebê comer outros alimentos e acreditam que o mesmo já está pronto para receber comida sólida.

Então vamos entender agora quais são as vantagens em se manter o aleitamento exclusivo até o sexto mês e de que forma podemos organizar a rotina da dupla mãe-bebê para aumentar as chances de atingir essa meta.

É completo

O leite materno é naturalmente o primeiro de alimento de escolha para bebês, sendo capaz de fornecer toda energia e nutrientes necessários para o crescimento e desenvolvimento adequados nos primeiros meses de vida. Além dos nutrientes adequados, o leite materno contém anticorpos que ajudam a proteger o bebê contra doenças comuns na infância, incluindo pneumonia e diarreia.

É prático

Verdade seja dita. É muito mais fácil e rápido oferecer o seio (ou até fazer a diluição da fórmula) do que se organizar – com um bebê pequeno e às vezes com mais outra(s) criança(s) mais velha(s)-  para preparar e oferecer a comida do bebê. O leite materno é um alimento completo, gratuito, livre de bactérias prejudiciais e pronto para consumo sempre que seu filho(a) precisar.

Reduz o risco de infecções

As evidências científicas mostram que não há nenhum benefício em fazer a introdução de alimentos complementares entre os 4 e 6 meses de idade. Em contrapartida, o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses diminui significativamente o risco de infecções gastrointestinais e doenças respiratórias, contribuindo para redução das taxas de mortalidade infantil, sem que haja nenhum déficit de crescimento. Mesmo no caso do aleitamento por fórmula, a manipulação para preparar a diluição do pó é bem menor do que para fazer o preparo da comida, sendo mais fácil fazer um controle higiênico afim de evitar uma toxinfecção alimentar.

Traz vantagens para a mãe

Aumentar o tempo de amamentação exclusiva também apresenta outras vantagens: contribui para recuperação do peso pré-gestacional, pode prolongar o tempo que a mãe permanece sem menstruar e vem havendo um aumento nas evidências de que o risco de desenvolver câncer de mama e ovários é menor em mulheres que amamentaram.

 

Tudo bem, já vimos que existem boas vantagens em manter o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses.

Mas concordamos que a realidade do mercado de trabalho não permite que boa parte das mães seja capaz de estar 100% disponível para aplicar a livre demanda e garantir a nutrição do bebê somente com leite materno até os 6 meses. Nesses casos, o que fazer?

A ordenha e armazenamento do leite pode ser realizada por aquelas mães que consigam retirar quantidades expressivas de leite através da bomba ou da ordenha manual.

 

Para aumentar o sucesso da ordenha, algumas dicas são importantes:

– Embora o Ministério da Saúde recomende que o leite materno não pasteurizado seja armazenado em freezer ou congelador por no máximo 15 dias, a ABM (The Academy of Breastfeeding Medicine) utiliza protocolos de tempo e temperatura seguros mais flexíveis, conforme quadro abaixo:

 

Local Temperatura Duração
Temperatura ambiente Até no máximo 25°C. acima disso, armazenamento em temperatura ambiente não é adequado. 6 a 8 horas
Refrigerador < 4°C. estoque o leite no fundo da geladeira, onde a temperatura é mais baixa. Até 5 dias
Freezer com compartimento localizado dentro do refrigerador

 

-15°C 2 semanas
Freezer com porta separada do refrigerador -18°C 3 a 6 meses

 

– Para fazer seu estoque antes da volta ao trabalho, procure fazer a ordenha em local tranquilo e sempre antes que o bebê venha ao seio, aumentando a chance de retirar quantidades expressivas de leite. Fazer a ordenha no primeiro horário da manhã costuma ajudar, uma vez que, em geral, o bebê mama menos na madrugada.

– Higienize as mãos e o local onde será realizada a ordenha e prenda os cabelos. Utilize recipientes de vidro com tampa plástica ou potes plásticos específicos para coleta de leite. Esse material deverá estar esterilizado.

– Se a mãe não conseguir retirar uma boa quantidade de leite através da ordenha, poderá tentar retirar o leite várias vezes no dia, juntando em um mesmo compartimento na geladeira. No final do dia, esse compartimento deve ser transferido para o congelador ou freezer.

– Os potes usados para armazenamento devem ser datados. Utilize sempre primeiro aquele que foi colhido antes.

– Caso haja um local disponível para ordenha e armazenamento no trabalho, o leite extraído na ausência do bebê poderá ser aproveitado. O ideal seria realizar de 2 a 4 ordenhas no período de ausência. No final do dia, o leite armazenado na geladeira ou freezer deverá ser imediatamente colocado em uma bolsa térmica com placas de gelo na lateral interna da bolsa. Esse leite deverá ser colocado no congelador ou freezer assim que chegar em casa.

-Caso não seja possível realizar a ordenha no trabalho, a mãe poderá tentar retirar leite assim que chegar em casa, antes que o bebê venha ao seio.

 

Oferta do leite materno

Preferencialmente, o leite ordenhado deverá ser oferecido ao bebê em copinho aberto ou copo de transição com bico rígido e sem válvula de controle de fluxo. O uso de mamadeiras é associado interrupção precoce do aleitamento materno, mesmo quando seu uso é iniciado após o estabelecimento da amamentação.

O leite deve ser transferido do congelador ou freezer para a geladeira com 12 horas de antecedência para fazer o descongelamento. Caso não seja possível, o leite pode ser retirado do freezer diretamente para ser aquecido, sendo descongelado no banho-maria.

Para aquecer ou descongelar o leite, aqueça a água em uma panela até ferver e desligue a chama do fogão. Coloque o recipiente com o leite dentro da água, agitando até que o leite seja reconstituído. O leite materno não deve ser fervido e nem aquecido em micro ondas. O leite descongelado não pode ser recongelado e o leite aquecido não poderá ser reaproveitado.

Na impossibilidade de fazer e manter a ordenha de leite materno, o melhor momento e a melhor forma para introdução dos alimentos sólidos deverá ser avaliada com um profissional de saúde capacitado.

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

Referências bibliográficas

 WHO. The Optimal Duration of Exclusive Breastfeeding: A Systematic Review WHO/NHD/01.08 (2002)

WHO. Infant and young child feeding: model chapter for textbooks for medical students and allied health professionals. Geneva: World Health Organization; 2009.

Academy of Breastfeeding Medicine. (2004) Clinical Protocol Number #8: Human Milk Storage Information for Home Use for Healthy Full Term Infants. Princeton Junction, New Jersey: Academy of Breastfeeding Medicine.

 

2-5