Pode esquentar o azeite?

por Nutricionista Michelle Bento

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O óleo pode ser aquecido por diversos meios, mas o método mais avaliado nos estudos é a fritura. O aquecimento provoca reações químicas que modificam as propriedades das gorduras, reduzindo a quantidade de ácidos graxos polinsaturados. O ômega-3 e ômega-6, considerados mais saudáveis, se perdem na fritura sendo transformados em gordura trans, provocando formação de espuma, modificando o sabor, aumentando o teor de ácidos graxos livres e formando novas substâncias. A intensidade dessas reações depende das condições de fritura, do tempo, da temperatura e da composição do óleo utilizado.

O ponto de fumaça dos óleo e gorduras diz respeito à temperatura em que começam a produzir fumaça e a se degradar. Neste ponto o óleo começa a sofrer as diversas reações vistas acima e passam a produzir acroleína. Os óleos com maior presença de gordura saturada e monoinsaturadas e aqueles que contêm menor teor de ácidos graxos livres são os menos suscetíveis à oxidação e associados com menor taxa de formação de acroleína e acrilamida. É possível observar na tabela abaixo que óleo de gergelim e linhaça, considerados saudáveis por serem ricos em ômega-6 e ômega-3, possuem ponto de fumaça mais baixo e não são, portanto, recomendados para aquecimento, devendo ser usados crus.

 

Gordura Ponto de fumaça
Manteiga comum 177°C
Manteiga ghee 252°C
Canola 240°C
Algodão 216°C
Azeite de oliva virgem 216°C
Azeite de oliva extra virgem 190°C
Óleo de gergelim 177°C
Óleo de linhaça 107°C

Fonte: The Vegetarian Health Institute  

O reaproveitamento do óleo não é recomendado, pois durante o aquecimento se formam maiores quantidades ácidos graxos livres e consequentemente se reduz drasticamente o ponto de fumaça original, o que resultará em mais altas emissões de substâncias tóxicas em baixas temperaturas.

A acrilamida é uma substância tóxica, associada a maior risco de câncer, e produzida pelas reações que os óleos e gorduras sofrem com o aquecimento. A tabela abaixo mostra a concentração de acrilamida em diferentes óleos vegetais e gorduras animais após o tratamento térmico a 180°C por 30 minutos (Daniali, 2016).

 

Óleo Conteúdo de acrilamida (mcg/kg)
Soja 2447
Óleo de palma 1442
Girassol 1226
Gergelim 1139
Azeite de oliva 542
Milho 430
Banha de porco 366
Manteiga ghee 211

 

Lim e colaboradores, em 2014, compararam o grau de oxidação e formação de acrilamida na fritura de batata usando 4 tipos de óleo: girassol, coco, canola e palma. O óleo de palma teve a menor concentração de acrilamida quando comparado com óleo de soja e de canola. Nesse estudo eles não encontraram diferença entre o conteúdo de acrilamida no óleo de coco e no óleo de canola, apesar do óleo de coco ser saturado. Os autores apontam a presença de ácidos graxos livres em maior quantidade no óleo de coco extra virgem como causa para esse achado.

Nas tabelas acima notamos que o azeite de oliva possui um ponto de fumaça adequado, acima de 180°C (em um refogado a temperatura é menor e o tempo de cozimento mais rápido, tornando a degradação mais controlada). Além disso, a formação de acrilamida é baixa quando em comparação com óleos refinados usados com frequência para cozimento. A manteiga ghee (aquela que passa por processo de clarificação) também possui um ponto de fumaça adequado e a formação de acrilamida é ainda menor, entretanto é uma gordura saturada, cujo consumo deve ser limitado por estar associada ao aumento do colesterol e aumento da resistência à insulina quando consumida em doses mais altas. Já o azeite de oliva possui efeito antioxidante, ajuda na melhora pressão arterial e controle de glicemia, atua no controle do colesterol e auxilia na diminuição do colesterol ruim (LDL), provoca uma redução no declínio cognitivo relacionado à idade e ao Alzheimer, evita formação de trombos, sendo importante para prevenção de doenças cardiovasculares.

Mas apesar de todos os benefícios conhecidos do azeite, muita gente ainda tem dúvidas quanto ao seu uso para aquecimento por acreditar que perca suas propriedades e, pior, comece a se transformar em uma gordura maléfica. Pois bem! Um estudo de revisão feito por Nogueira-de-Almeida e colaboradores em 2015, bem recente, tem como conclusão que o azeite de oliva extra virgem:

“é o óleo mais adequado para uso na forma crua, devido ao melhor perfil de ácidos graxos e à presença de antioxidantes. Mesmo após aquecimento em condições de uso doméstico, ele não sofre mudanças significativas em seu perfil de ácidos graxos. Em especial, cabe salientar que praticamente não ocorre formação de ácidos graxos trans ou de ácidos graxos saturados. Após aquecimento em condições de uso doméstico, não se observa a formação de substâncias tóxicas e o azeite de oliva extra virgem mantém cerca de 80% das substâncias antioxidantes”.

Frente à todas essas evidências, eu continuo sugerindo o azeite de oliva como a melhor opção a ser usada no preparo dos alimentos que serão consumidos por bebês em introdução alimentar, mas também para crianças maiores e adultos.

E sempre ressaltando que, não importa o tipo de óleo usado, a fritura não deve ser utilizada com frequência e o óleo nunca deve ser reaproveitado.

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

Referências bibliográficas

Poliana Cristina Mendonça Freire; Jorge Mancini-Filho; Tânia Aparecida Pinto de Castro Ferreira. Principais alterações físico-químicas em óleos e gorduras submetidos ao processo de fritura por imersão: regulamentação e efeitos na saúde. Revista de Nutrição. vol.26 no.3 Campinas May/June 2013

P.K. Lim, S. Jinap, M. Sanny, C.P. Tan, and A. Khatib. The Influence of Deep Frying Using Various Vegetable Oils on Acrylamide Formation in Sweet Potato (Ipomoea batatas L. Lam) Chips. Journal of Food Science. Vol. 79, Nr. 1, p. 115-121, 2014.

Daniali, G.; Jinap, S.;Hajeb, P.; Sanny, M.; Tan, C. P. Acrylamide formation in vegetable oils and animal fats during heat treatment. Food Chemistry 212 (2016) 244–249.

Carlos Alberto Nogueira-de-Almeida, Durval Ribas Filho, Elza Daniel de Mello, Graziela Melz, Ane Cristina Fayão Almeida. Azeite de Oliva e suas propriedades em preparações quentes: revisão da literatura. International Journal of Nutrology, v.8, n.2, p. 13-20, Mai / Ago 2015.

 

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