O que você precisa saber sobre a Introdução Alimentar ParticipATIVA

Como já conversamos anteriormente, existem muitos mitos e crenças a respeito de como deveria ser feita uma introdução alimentar adequada. Apesar de estar minuciosamente descrita em diversos manuais de saúde ao redor do mundo, incluindo a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Ministério da Saúde do Brasilna prática, algumas crenças são fortemente assimiladas e difundidas pela cultura popular, por profissionais da saúde desatualizados e pela Indústria. Grande parte dessas crenças são baseadas em uma cultura milenar, dentro de um paradigma relacionado à escassez de alimento. Isso faz parte de uma grande bola de neve que tem sido um dos principais responsáveis pelo aumento do sobrepeso e doenças correlatas na infância.

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Com a ampliação da discussão sobre a abordagem Baby-led weaning  (BLW), tem sido possível refletir profundamente sobre o modelo de introdução alimentar tradicional atual. Embora as pesquisas nesse campo tenham avançado, até os dias de hoje, quando se fala em introdução alimentar utilizando o termo tradicional, parece impossível desvincular a oferta da papinha assistida através do modelo passivo do “aviãozinho“.

olha-o-aviãozinho
Fonte: Nani Humor

O BLW é um modelo completamente antagônico à essa alimentação complementar vista como tradicional, pois não prevê a oferta assistida pelos cuidadores em nenhum momento. Pelo contrário,  fundamenta-se na alimentação sob livre demanda e gerenciada pelo próprio bebê, confiando que ele possa ter total controle sobre sua própria alimentação, obviamente dentro da rotina proposta pela própria organização familiar.

Desta forma, ainda que os pais ofereçam alimentos em pedaços desde o início da IA, oferecer comida passivamente ao bebê vai na contramão dos principais fundamentos do BLW, que são o respeito à autonomia e a confiança de que o bebê sabe o que, quanto, como e com que ritmo irá comer. Para que ele exerça sua auto regulação sem interferências e sem a necessidade da interpretação do adulto em relação aos seus sinais de fome e saciedade.

Gill Rapley, em 2015, defendeu seu doutorado e nele observou algumas diferenças importantes ao comparar a auto-alimentação com a alimentação passiva com a colher. A seguir, as fotos mostram explicitamente como o bebê e o cuidador se comportam de formas bastante diferentes durante cada uma dessas situações:

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Dentro desse contexto, entender perfeitamente o que é o Baby-led Weaning é extremamente importante. Segundo Rapley, quem está ouvindo sobre BLW pela primeira precisa tomar decisões conscientes sobre o que estão fazendo ou pretendendo fazer. Caso contrário, tendem a desanimar quando o BLW “não funcionar”, mais frequentemente visto com a queixa “meu bebê não leva a comida à boca”, quando na verdade, no BLW há total respeito e confiança na própria intenção do bebê em levar ou não o alimento até a boca. Muitos bebês não demonstram prontidão para se alimentar até aproximadamente os 9 meses de vida e, de fato, forçar que ele prove um alimento em pedaço sem que ele esteja intrinsecamente pronto para recebê-lo poderia inclusive aumentar o risco de engasgo e levar a asfixia.

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Além disso, precisamos aumentar o conhecimento que temos sobre a alimentação infantil guiada pelo bebê. As pesquisas precisam de metodologia clara e concisa, caso contrário estamos comparando alho com bugalho, como dizia minha avó. BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança para saber o que ele mesmo precisa. Então “fazer um pouco de cada” ou “algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação assistida” pode funcionar pra você e pro seu contexto e dinâmica familiar, mas não é BLW.

E embora eu reconheça a importância da definição exata e das bases e fundamentos do BLW, concordo plenamente com o que Gill Rapley disse em seu workshop, em Novembro passado aqui no Brasil:

“o BLW é o ideal, mas a maternidade é real”

E a introdução alimentar tradicional vem historicamente tão cheia de significados, crenças e mitos, que fica impossível se encaixar em uma abordagem tradicional depois de entender e re-significar todo o paradigma que veio sendo criado ao longo do tempo. É dentro desse contexto que um grande número de famílias tenta encaixar os fundamentos da abordagem BLW na sua rotina de introdução alimentar, e não sabe muito bem ao certo explicar sua escolha. Geralmente dizem “faço um pouco de cada” – e como vimos, não existe “um pouco de BLW”.

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Foi em 2015 que o termo Introdução Alimentar ParticipATIVA começou a ganhar força, ainda no meio online, por conta de uma hashtag que eu comecei a usar no instagram e que se popularizou. Hoje, já são milhares postagens com a tag #iaparticipativa. E essa abordagem, ao meu ver, tomou essa proporção pelo acolhimento aos milhares de cuidadores que se identificam com o BLW, mas não conseguem levá-lo à prática em 100% da sua dinâmica. Recebo centenas de mensagens de famílias que se encantam com o BLW, mas não conseguem aplicá-lo à risca. E é nesse “limbo” que a gente se encontra, nessa busca pelo respeito, confiança e autonomia, ainda que exista a oferta de alimento guiada pelo adulto. É na busca pelos fundamentos do BLW na realidade, no contexto e no dia a dia de cada um.

Meu principal objetivo com o termo Introdução Alimentar ParticipATIVA é popularizar os fundamentos do BLW e o que há de mais atualizado em termos do conhecimento que temos acerca da alimentação infantil, acabando de vez com o paradigma desatualizado que recai sobre o termo introdução alimentar tradicional. Chega de papinhas processadas, apetrechos desnecessários criados pela indústria, mingaus açucarados pra engordar e “abre a boca, olha o aviãozinho”.

Com o tempo, minha expectativa é que o termo seja até desnecessário, a ponto que toda e qualquer Introdução Alimentar seja orientada de forma adequada e atualizada, com o bebê sendo considerado o protagonista em todo esse processo. De forma inédita no Brasil, em 2017, a Sociedade Brasileira de Pediatria, que antes considerava a evolução gradual da consistência dos alimentos a partir dos 8 meses (papa com pedaços), em sua última publicação já reconhece que no momento da alimentação complementar o bebê também deve experimentar com as mãos, estimulando a interação com a comida, explorando as diferentes texturas dos alimentos como parte natural de seu aprendizado sensório motor e evoluindo conforme seu tempo de desenvolvimento.

Pela minha experiência, a “Introdução Alimentar ParticipATIVA” é uma abordagem que tem se mostrado, na prática, em um continuum de transição, do que antes considerávamos normal, para o cenário que o BLW nos trouxe à tona. Passamos de um modelo que era completamente passivo e baseado na quantidade, na necessidade de ingestão de comida e no medo do engasgo, para o paradigma da qualidade, da abundância de aprendizagem e do respeito e confiança no bebê durante esse período. Entendendo o desenvolvimento infantil dentro desse processo e a importância das oportunidades para o desenvolvimento das habilidades de auto-alimentação.

Essa transição se apresenta em uma linha contínua, que liga o paradigma tradicional ao guiado pelo bebê, considerando esses dois movimentos completamente opostos. E onde coexistem, na linha desse continuum, milhares e milhares de cuidadores e bebês com suas devidas realidades, crenças, culturas, necessidades e dinâmicas familiares.

mudança de paradigma
Mudança do paradigma tradicional para o da introdução alimentar guiada pelo bebê. (Padovani, 2017)

 

Vale ressaltar que a Introdução Alimentar ParticipATIVA vai de encontro aos Manuais Oficiais de introdução alimentar em vigor no Brasil e no Mundo. E muito além, incentiva as famílias a entenderem o processo de prontidão do bebê, dentro da construção de uma rotina flexível, que tem início aos seis meses, e permite que gradativamente o bebê tenha espaço e oportunidade para se interessar pelos alimentos e começar a comer dentro do modelo de divisão de responsabilidades, como o proposto por Ellyn Satter e ampliado por Gill Rapley. Os cuidadores são incentivados a apresentar, desde o início da introdução alimentar, os alimentos em seu formato original, possibilitando não apenas que as crianças experienciem o máximo possível de sensações desde o seu primeiro contato com os alimentos, como também tenham cada vez mais autonomia, conforme progridem suas habilidades de auto-alimentação.

divisao de responsabilidades IA Participativa
Modelo de Divisão de Responsabilidades em uma abordagem ParticipATIVA

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Referências:

 

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção
Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos: um guia para o profissional da saúde na atenção básica. 2ª. ed, Ministério da Saúde, Brasília, 2013.

Padovani AR. Introdução Alimentar ParticipATIVA. Versão digital em e-book. Copyright CONALCOLab 2017 (no prelo).

Rapley G, Tracey M. Baby-led weaning: o desmame guiado pelo bebê. Editora Timo, 2017.

Rapley G. Spoon-feeding or self-feeding? The infant’s first experience of solid food. PhD (Philosophy). Canterbury Christ Church University. 2015.

Satter E. Child of Mine: feeding with love and good sense. Bull Publishing Company. 2000.

Sociedade Brasileira de Pediatria. A Alimentação Complementar e o Método BLW (Baby-Led Weaning). Departamento de Nutrologia, Guia Prático de Atualização, nº3. Maio, 2017.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP, 2012.

World Health Organization. Department of Nutrition for Health and Development. Complementary feeding: family foods for breastfed children. Geneva: WHO, 2000.

WHO. Global Consultation on Complementary Feeding. Guiding Principles for Complementary Feeding of the Breastfeed. December 10-3, 2001.