BLW não tem comprovação científica?

Fica difícil falar sobre comprovação científica do BLW se você não acompanha com afinco as publicações mais recentes, não é mesmo? Por isso, eu fiz questão de preparar um resumo didático sobre os últimos achados do protocolo de pesquisa BLISS (Baby-led Introduction to Solids, ou “introdução alimentar conduzida pelo bebê”), uma versão modificada (e controlada) do BLW. O BLISS nada mais é do que um protocolo de intervenção baseado no modelo BLW, cuja finalidade é estudar os resultados de uma abordagem de introdução alimentar conduzida pelo bebê.

​Em resumo, as pesquisas mais recentes (1-3) já indicam que uma abordagem de introdução alimentar conduzida pelo bebê (baby-led), BEM ORIENTADA, quando comparada à abordagem tradicional:

– Não tem maior risco de engasgo;
– Não tem maior risco de falha de crescimento;
– Não tem maior risco para anemia;
– Tem ingestão calórica/energética similar e
– Não modifica o risco para obesidade.

Estes, e outros estudos semelhantes, estão sendo desenvolvidos na Universidade de Otago, na Nova Zelândia, pelo Departamento de Nutrição, com a consultoria de um fonoaudiólogo e um pediatra. Os pesquisadores elencaram 3 preocupações frequentes relatadas na literatura: o engasgo, a anemia e as falhas de crescimento. Com isso, desenvolveram uma metologia de orientação para uma introdução alimentar que sumariamente encoraja os pais a seguir uma abordagem conduzida pelo bebê.

Durante as consultas, realizadas da gestação ao primeiro ano de vida, são feitas intervenções e marcação dos resultados em pontos específicos, como: lactação, aderência ao BLISS, questionário de alimentação, antropometria, relatos de gag/engasgo, diário alimentar (com marcação do peso), auto-regulação de energia, comportamento alimentar parental, desenvolvimento motor, aceitabilidade e custo e coleta de sangue (ferro e zinco).

Entre os recursos pré-testados utilizados no BLISS estão: informações detalhadas sobre uma introdução alimentar conduzida pelo bebê, ideias de alimentos e livros de receitas adequados para cada idade, e informações de segurança, particularmente no que diz respeito ao engasgo. As características essenciais do BLISS são:

1) Oferecer alimentos que o bebê possa pegar com as mãos e se auto-alimentar
2) Oferecer um alimento rico em ferro em cada refeição.
3) Oferecer um alimento de alta densidade energética em cada refeição.
4) Oferecer alimentos preparados de forma adequada à idade de desenvolvimento da criança a fim de reduzir o risco de engasgamento, fornecendo uma lista de alimentos de alto risco para asfixia.

Apesar de um dos estudos (1) indicar ausência de eficácia na diminuição do risco de obesidade (não houve diferença entre os grupos), no geral, os resultados das pesquisas mais recentes são bastante importantes. O processo conduzido pelo bebê promoveu uma introdução alimentar bem-sucedida, demonstrado por melhores resultados nos indicadores: prazer em comer, comportamentos alimentares menos exigentes, alimentar-se sozinho aos 12 meses e maior duração da amamentação exclusiva.

Em resumo, a introdução alimentar conduzida pelo bebê foi considerada segura (4).

Não foram observadas diferenças entre os grupos em relação à ingestão de energia, falhas no crescimento ou anemia ferropriva. Os bebês do grupo BLISS tiveram mais episódios de gag aos 6 meses de idade, porém menor freqüência aos 8 meses de idade, e não foram observadas diferenças significativas nos números de eventos de engasgo.

Esses achados ajudam a aliviar as preocupações com a segurança de uma introdução alimentar conduzida pelo bebê. Os pais podem ter autonomia para escolher livremente a forma de introduzir alimentos ao bebê, e ainda, o BLW bem orientado pode até ser encorajado, com o objetivo de diminuir as preocupações com neofobia, recusa alimentar e comportamentos disruptivos durante refeições (4), vistos com cada vez mais frequência na infância.

O que é necessário ressaltar, no entanto, é que o protocolo de intervenção BLISS forneceu suporte e conselho individualizado para promover a oferta de alimentos ricos em ferro e energia e orientar quanto aos alimentos que representavam um risco de asfixia. Assim, a segurança da promoção do BLW para um público geral, sem acompanhamento, ainda precisa ser confirmada. De toda forma, os estudos ainda estão em andamento e bom, não se descobre a roda da noite para o dia, não é mesmo? Estamos todos ansiosos para os próximos resultados.

Esse texto foi elaborado a partir da aula “Evidências em BLW”, do Módulo 2 do Curso Avançado em Introdução Alimentar ParticipATIVA e Baby-led Weaning 2.0. O curso completo tem 40 horas e te dá toda a base teórico-prática para compreender, praticar e/ou orientar as abordagens de introdução alimentar tradicional responsiva, participativa ou guiada pelo bebê.

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Referências:


1 – Taylor et al (2017). Effect of a Baby-Led Approach to Complementary Feeding on Infant Growth and Overweight: A Randomized Clinical Trial. JAMA Pediatr. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28692728

2 – Brown A. (2017). No difference in self-reported frequency of choking between infants introduced to solid foods using a baby-led weaning or traditional spoon-feeding approach. J Hum Nutr Diet. https://doi.org/10.1111/jhn.12528

3 – Fangupo et al (2016) A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2016/09/15/peds.2016-0772 

4 – Lakshman et al (2017). Baby-Led Weaning—Safe and Effective but Not Preventive of Obesity. JAMA Pediatr. doi:10.1001/jamapediatrics.2017.1766

 

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