Quando o bebê aprende a comer com o talher?

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Não existe data mágica para que o bebê se interesse em usar o talher…

As habilidades de auto-alimentação se desenvolvem gradualmente, conforme o desenvolvimento motor do bebê avança e os movimentos motores aumentam em número, velocidade, acurácia e complexidade. No nível cognitivo, o bebê começa a assimilar, pouco a pouco, os esquemas de auto-alimentação através da observação e experimentação. Por isso, quanto mais oportunidades, maiores as chances das habilidades se desenvolverem naturalmente, sem que haja a necessidade de “treino”.

HABILIDADES

Figura 1. O desenvolvimento de uma habilidade é dependente de uma série de fatores, inerentes ao próprio indivíduo, ao ambiente que o cerca e às características da própria tarefa

 

Treino, inclusive, é uma palavra que eu prefiro não usar. Pela perspectiva do Baby-led Weaning e da Introdução Alimentar ParticipATIVA, o bebê neurotípico está predisposto a aprender e se desenvolver, sequencial e progressivamente, em um meio que favorece seu aprendizado. Assim, os talheres poderiam ser disponibilizados desde o início, porém sem expectativas de que o bebê irá começar a usá-los no tempo do adulto. O bebê vai começar a utilizar os talheres a partir da disponibilidade destes e de sua própria prontidão motora e cognitiva.

 

Favorecendo o uso dos talheres

Dito isso, vamos falar sobre oportunidades, e como acompanhar o desenvolvimento motor e cognitivo do bebê, organizando o ambiente e as tarefas de forma que o entorno seja positivo e favorecedor ao desenvolvimento das habilidades necessárias para o uso dos talheres (Figura 1).

 

Familiarização

Não existe dia certo para apresentar os talheres. Eles podem ser colocados na mesa ou bandeja do cadeirão antes mesmo da apresentação dos alimentos. Bebês que já sentam antes dos seis meses, não só podem como devem participar dos momentos de refeição familiar.

Leve o bebê junto à mesa com vocês e deixe que ele manipule os talheres, copos e pratos como brinquedos. Isso tudo faz parte do processo de familiarização, especialmente no início.

Baby Eating Food With A Spoon, Toddler Eating Messy And Getting

Deixe o bebê explorar os utensílios assim que ele começar a sentar com mínimo apoio

 

Garfo ou colher?

Nenhum dos dois. Saiba que a base motora para levar um talher à boca se inicia no momento em que o bebê começa a levar as mãos e os objetos à boca. A destreza com os dedos, preensão, o equilíbrio, o alcance são habilidades prévias que podem ser adquiridas ainda com um mordedor, um brinquedo, um pedaço de brócolis ou uma colher. Cada qual com uma formas, textura e peso diferente, irão ensinar ao bebê os esquemas motores básicos que futuramente vão ser utilizados na aprendizagem da auto-alimentação com talheres. Então não se prenda à esse detalhe, apenas dê diferentes oportunidades.

A medida que o bebê vai mostrando aumento da complexidade nas habilidades motoras, como começar a levar à boca o alimento com mais facilidade, começar a esboçar um movimento grosseiro de pinça e transferir alimentos de uma mão à outra, o talher já pode ser colocado com o intuito de despertar interesse para a auto-alimentação. As próximas descobertas serão lentas e graduais, especialmente por observação e experimentação.

 

Experimentação

Não existe regra para começar por um ou outro utensílio, como já foi dito. Mas, respeitando as fases de desenvolvimento motor e cognitivo do bebê, é bem provável que vocês dois se frustem menos sabendo como lidar e o que esperar durante a curva de aprendizagem.

Uma boa forma de começar com os talheres é apresentando uma colher rasa, preenchida com algum alimento pegajoso. O  bebê vai naturalmente ver o objeto como um brinquedo e levá-lo à boca (ou ao olho, cabelo, bochechas rs). Aos poucos ele vai percebendo que aquele objeto pode transferir aquela “coisa” com sabor, do prato/bandeja para a boca. E começa tentar mergulhar a colher e lamber o que fica grudado nela.

 

A colher rasa é mais fácil porque dispende menos energia e complexidade tanto para  para encher a colher como também para capturar e retirar o alimento com os lábios. Pratos com bordas altas e que não escorregam também facilitam que o bebê consiga encher uma colher mais facilmente, para então poder carregá-la até à boca.

 

Algumas marcas estrangeiras já pensaram estrategicamente nessa fase inicial, desenvolvendo uma colher pequena, completamente reta (sem a “concha”) e cheia de vilosidades. Ela permite que o alimento grude ao material com facilidade, reduzindo o grau de complexidade da tarefa motora. Assim, a partir dos seis meses, alguns bebês já fazem o movimento simples de levá-la até boca, como fazem com qualquer outro brinquedo. O uso desse utensílio não é de fato essencial, mas pode auxiliar especialmente as crianças com algum atraso motor.

 

E eu não indico usar a colher torta, a não ser que seu bebê tenha alguma alteração física ou motora que a faça necessária. Simplesmente porque os movimentos que a criança faz para levar o alimento à boca com uma colher torta são diferentes dos movimento que ela faz quando usa uma colher regular. Lembre-se, a tarefa também é importante na aprendizagem, e derrubar faz parte. Em alguns casos, a colher torta pode dificultar a aprendizagem da colher normal, visto que a criança vai ter que reaprender a usar o utensílio.

Outra coisa que você também pode gostar de saber é que o controle motor dispendido para levar o alimento para a boca com o garfo é muito menos complexo do que com a colher (que precisa de mais acurácia, força e equilíbrio). Você pode mostrar ao bebê que é possível espetar o garfo em uma fruta picada, por exemplo, e deixar que ele faça o movimento de levar até a boca.

 

Usar o garfo e alimentos picados pode ser inclusive uma estratégia bem eficiente para aquela fase em que os bebês jogam a comida longe apenas para ver a trajetória e a queda (estão aprendendo relações de causa e consequência por volta de 9-10 meses). Ensinar uma habilidade diferente nesse momento pode desviar o foco dessa “jogatina” e instigá-los a querer praticar o uso do garfo. Leia mais: Os 10 maiores desafios do BLW

 

Vocês são o modelo

Bebês naturalmente aprendem por observação. Então, culturalmente, se a sua família utiliza colher, garfo e faca, e vocês dão a oportunidade da criança se familiarizar e ter experiências com esses utensílios, fiquem tranquilos!

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Dê tempo ao tempo

De fato, uma das coisas mais importantes que você deve assimilar é que o uso dos talheres não acontece da noite para o dia. A grande maioria dos bebês tende a utilizar os talheres como um batuque inicialmente, levando meses para usar o talher para transportar o alimento do prato à boca. Alguns bebês internalizam o esquema rapidamente, e amam comer com talher, outros podem demorar meses (ou anos) para que decidam utilizá-lo.

De qualquer forma, quando se opta por um estilo de criação ativa que preza pela autonomia, é importante deixar as expectativas de lado. Se o bebê estiver disposto a comer, com certeza ele irá preferir usar as mãos, se para ele assim for mais fácil e prazeroso.

À medida que ele se desenvolve e percebe que o talher o ajuda a levar certos alimentos com mais facilidade à boca (como por exemplo arroz e feijão, uma sopa ou um mingau), ele tende a se interessar mais pelo seu uso também. Isso tende a acontecer após 1 ano, quando não somente suas habilidades motoras estão mais eficientes, como também seus esquemas cognitivos e suas habilidades psicossociais estão se desenvolvendo a todo vapor. Cada vez mais eles vão querer autonomia e serem reconhecidos por isso!

Devagar e Sempre! 😉

 

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co


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Eventos com Gill Rapley e Tracey Murkett em Novembro, no Brasil

Pense numa oportunidade única?

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Não sei se vc viu, mas eu conversei com a Ana Basaglia, da Editora Timo, e falamos sobre todas as novidades do lançamento do livro Baby-led Weaning e a visita das autoras ao Brasil, em novembro! Dá só uma olhada nos eventos que vão acontecer:

Dia 24/11 – sexta, das 14 às 18h
Palestra para Profissionais: a Abordagem Baby-led Weaning, com Gill Rapley e Tracey Murkett (ingresso PRESENCIAL E TRANSMISSÃO AO VIVO)

  • No auditório do SIMESP – Sindicato dos Médicos de São Paulo, na Bela Vista, em São Paulo.
  • O encontro terá 4h de duração, com tradução simultânea, espaço para perguntas e respostas, autógrafos e fotos, e um delicioso coffee-break para interação.
  • Todos os ingressos presenciais darão direito ao livro inédito “BLW – O desmame guiado pelo bebê” e certificado de presença assinado pelas organizadoras do evento (SIMESP/CONALCO), além de outros brindes-surpresa.
  • Atenção: apenas 60 vagas para o encontro presencial / primeiro lote com desconto até 25/10!

 

Dia 25/11 – sábado, das 14 às 18h
Palestra para Pais e Mães: a Abordagem Baby-led Weaning na prática, com Gill Rapley e Tracey Murkett (PRESENCIAL)

  • No Hotel Golden Tulip Paulista Plaza da Alameda Santos, em São Paulo.
  • O encontro terá 4h de duração, com tradução simultânea, espaço para perguntas e respostas, autógrafos e fotos, e um delicioso coffee-break no intervalo.
  • Todos os ingressos presenciais darão direito direito ao livro inédito “BLW – O desmame guiado pelo bebê”, certificado de presença assinado pelas organizadoras do evento (Timo/CONALCO), voucher para visitar a Casa do Brincar e ingresso para um bate-papo online*, com uma hora de duração, 15 dias depois do encontro, com uma nutricionista e uma fonoaudióloga brasileiras, para esclarecer dúvidas a respeito da abordagem BLW, além de outros brindes-surpresa.
  • A Casa do Brincar estará presente apoiando as famílias que precisarem levar seu bebê de colo ou criança pequena ao evento, proporcionando um espaço de recreação para os maiorzinhos e trocadores para os bebês.

 

Dia 27/11 – segunda, das 8 às 16h
Workshop de imersão: a Abordagem Baby-led Weaning, com Gill Rapley e Tracey Murkett (PRESENCIAL – apenas 10 vagas restantes)

  • Em um espaço exclusivo dentro da Praça São Lourenço, em São Paulo, com estacionamento com valet incluso.
  • O curso de imersão terá 8h de duração no total, com tradução simultânea, espaço para perguntas e respostas, autógrafos e fotos.
  • O coffee-break, o café da manhã e o almoço em buffet completo e variado (com sucos e sobremesas) estão inclusos, onde será possível uma incrível interação com as autoras.
  • Todos os ingressos darão direito ao livro inédito “BLW – O desmame guiado pelo bebê” e certificado de presença assinado pelas organizadoras do evento, além de outros brindes-surpresa.

 

Nossa, eu to animadíssima!!! E você, me conta o que achou? Vai conseguir ir?
Vou estar em todos os eventos e vai ser um prazer te dar um abraço ao vivo e a cores! 🙂

Um beijão e até mais!

Com carinho,

Aline Padovani

Lançamento da versão brasileira do livro Baby-led Weaning: o que vem por aí!

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O post de hoje escrevo com tanto entusiasmo que chego a me emocionar! Vcs sabem, a abordagem BLW foi um divisor de águas na minha vida, e foi através da leitura do Livro “Baby-led Weaning” que um mundo inteiro se abriu diante das minhas possibilidades de atuação profissional.
Na última semana, tive o imenso prazer de fazer a última revisão dos termos técnicos do livro e posso dizer? Que reconfortante ler BLW direto da fonte, em nossa própria língua! Gill e Tracey escrevem com uma leveza e clareza inigualáveis! Reler o livro em português foi reafirmar tudo o que venho fortemente difundindo aqui no Brasil há mais de 3 anos! Vc deve imaginar como estou ansiosa pra conhecer a Gill pessoalmente!
E pra te contar tudo o q vem por aí, eu marquei um encontro online com a Ana Basaglia, da Editora Timo! Ela vai contar tudinho que você precisa saber sobre a vinda das autoras para o Brasil!
Ao se inscrever gratuitamente neste encontro, você concorre à 1 exemplar da edição brasileira do livro e à 1 vaga na palestra presencial para os pais!!!
Já te adianto que, agora em novembro, as queridas Gill Rapley e Tracey Murkett vem para o Brasil para o lançamento de “Baby-led Weaning – o desmame guiado pelo bebê”, pela editora Timo! E o CONALCO, em parceria com a Timo, está organizando 3 eventos SUPER bacanas pra quem trabalha, quer trabalhar ou simplesmente quer aprender mais sobre a abordagem BLW direto da fonte! 

Com a Ana, vou te contar sobre as novidades da versão brasileira do livro baby-led Weaning, sobre os eventos com as autoras, curso de imersão em BLW e vamos sortear 1 exemplar da edição brasileira do livro e 1 vaga para a palestra presencial com os pais!!! 

Esperamos por você!

Com carinho,

Aline Padovani

Concurso BLW Brasil: suas fotos publicadas na versão brasileira do livro!

ATUALIZAÇÃO 09/09/2017:

VENCEDORES DO CONCURSO (Chequem seus emails por gentileza)

  1. quinteros.rocio@
  2. analuciavendel@
  3. talita.deffente@
  4. natalia_valli@
  5. anapaula.cutolo@
  6. melinacaldani2@
  7. storino.sandra@
  8. ana.abreus@
  9. marianacarraca@
  10. lorenabit@
  11. ananery.pmg@
  12. muchmamae@
  13. simonemenzani@
  14. carolfesteves@
  15. vivianevieira@
  16. vi_assis@
  17. persis.castro@
  18. draamandaluiza@
  19. biancapizzato@
  20. cibeleneves@
  21. @mairasoares
  22. anairampasquale@

 

Lembrando que todas as fotos recebidas serão utilizadas para divulgar o “Baby-led Weaning” no Brasil! 🙂 Gill e Tracey receberam as fotos com muito carinho e se propuseram também a utilizar as fotos no Workshop que farão em São Paulo! ❤

Aproveito pra divulgar o site oficial do evento, com informações sobre o lançamento do livro, Palestras e Workshops, e a introdução do livro já em português pra vc baixar em PDF! Corre lá!

Muito obrigada a todas que participaram!!!

Com carinho,

Ana, Aline e toda equipe

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Que tal ter uma foto criativa do seu bebê na versão brasileira do livro ‘Baby-led Weaning‘, de Gill Rapley e Tracey Murkett?

Em parceria com a Editora Timo, lançamos o #concursoBLWnoBrasil

Baixe o regulamento nesse link: Regulamento Concurso Cultural.

Escolha uma categoria e envie sua foto!

As melhores fotos, além de participarem da edição brasileira do livro, ganharão um exemplar autografado e um acesso à transmissão ao vivo do evento com as duas autoras no Brasil!

Demais né!!!  Compartilha com alguém que você acha que gostaria de participar!!!

 

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É cedo demais pra começar a introdução alimentar?

por Gill Rapley , Janeiro 2017*

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Tentar iniciar a introdução alimentar quando o bebê ainda não está pronto pode ser bem frustrante. Mas e quando o bebê demonstra todos os sinais que está pronto mas ainda não completou os 6 meses?

Frequentemente sou contatada por pais de bebês de 22-24 semanas que mostram interesse pela comida sólida. Eles estão com receio de começarem muito cedo, ainda que sintam que seus bebês estão dando claros sinais de que estejam prontos. Enquanto estou impossibilitada de oferecer um guia específico para bebês individualmente, minha resposta geral para esse dilema é como segue.

A ‘regra’ do 6 meses é importante porque mantém os bebês a salvo da intervenção precoce da introdução alimentar. Então eu sempre me refiro à isso em tudo que digo. Contudo, minha posição atual , baseada em minhas pesquisas e minha experiência clínica é que, qualquer coisa que o bebê esteja pronto pra fazer é provavelmente o que é certo para aquele bebê. Há uma boa razão para acreditar que as habilidades de desenvolvimento que são visíveis pra nós (como sentar na posição vertical) são confiáveis indicadores de que a natureza do sistema interno (digestivo) do bebê raramente comete erros.

Assim, se um bebê saudável pode (genuinamente) sentar na vertical, agarrar a comida e colocá-la em sua boca SOZINHO, então ele provavelmente está pronto pra fazer exatamente isso. Se ele também está pronto para mastigar – e talvez até mesmo engolir – isso é bom, mas é mais provável que essas habilidades sigam no devido tempo.

Uma das razões pela qual faço questão de enfatizar a ‘regra’ dos 6 meses, embora eu não considere algo imutável, é que é muito mais fácil para aqueles que não entendem o conceito de BLW, entender mal qualquer sugestão de que começar mais cedo do que é aceitável. Esse pode ser o começo de uma inclinação escorregadia para práticas perigosas, e absolutamente imperdoável.

O problema é que é tentador ver mais habilidade em um filho do que ele realmente apresenta, e oferecer apenas um pouco de ajuda para capacitá-lo, ou para alcançar um objetivo em particular. Na maioria das vezes isso não importa, mas quando se trata de comer, a capacidade do bebê – ou incapacidade – para manejar a sequência de ações necessárias é um importante fator de segurança.

Ajudá-los a superar um obstáculo que ainda não conseguem administrar por si mesmos (ex: fornecendo apoio extra para sentar ou estender a mão, guiando os braços para a boca, ou – pior – colocando a comida na boca ‘para ajudar’) é potencialmente perigoso. É útil lembrar que essa ‘conquista’ de comer é objetivo dos adultos não das crianças. O bebê não sabe o que é o ponto de tudo isso – ele está apenas descobrindo como funciona seu próprio corpo e as coisas ao redor dele.

Se ele não consegue levar a comida na própria boca, e daí? Ele não ‘falhou’- e ele não tem noção de que precisa de ajuda. O papel dos pais é dar a OPORTUNIDADE pra fazer tudo que ele estiver pronto pra fazer, seja tocando a comida, pegando, lambendo, mastigando e/ou engolindo – ou nenhuma das opções – e isso não capacita o bebê de fazer alguma coisa que ele ainda não consiga manejar.

Os seis meses representam uma média de idade de prontidão, da mesma forma que a maioria dos bebês dão seu primeiro passo por volta do seu primeiro aniversário. Claramente alguns estarão prontos pra andar mais cedo, e alguns mais tarde do que isso. Nós não tentamos impedir aqueles que estão prontos pra andar antes da idade ‘correta’.

Se nós estamos preparados pra aceitar que boa proporção de bebês não estão prontos pra se alimentar com comidas sólidas até terem sete, oito, nove meses, então é perfeitamente sensato permitir que também terão alguns que podem começar a fazer isso antes de alcançar a ‘mágica’ idade dos seis meses. O ponto crucial, da forma como vejo, é que essa atitude deve ser espontânea e independente. 

Em minha opinião, argumentos sobre a idade ‘certa’ para introduzir alimentos sólidos são importantes apenas se os pais é que estão decidindo quando colocar a comida na boca do bebê. Como acontece, é claro, com a introdução alimentar tradicional com a colher. Tais argumentos são redundantes se a decisão é feita pelo bebê, porque todos os bebês desenvolvem habilidades de comer em uma sequência definida, alinhadas com sua maturidade global.

Teoricamente, não há razão para não oferecer oportunidade para um bebê de um ou dois meses de idade sentar-se ou pegar alimentos de um prato. O que impede isso de ser uma opção sensata não é o fato de ser uma idade ‘errada’, mas sim o fato do bebê simplesmente não ser capaz de fazê-lo. O mesmo se aplica para três, quatro e cinco meses.

É extremamente improvável que qualquer infante abaixo de cinco meses e meio seria, sem nenhuma ‘ajuda’, capaz de conseguir mais do que o gosto de um alimento sólido.

Há aqueles que podem ser a exceção, não a regra. Desde que isso esteja completamente compreendido, começar sólidos, na minha opinião, não constitui um problema. A chave da mudança de tudo isso é que nós não temos as palavras certas para descrever a introdução de alimentos sólidos quando o bebê está no controle.

‘Começar sólidos’ com uma alimentação de colher e papinhas, significa alguém colocando comida na boca do bebê, no dia decidido por eles. Mas ‘começar sólidos’ usando o BLW simplesmente significa fornecer aos bebês a oportunidade de comer se e quando eles quiserem e forem capazes. É o bebê que decide a partir daí.

*Texto traduzido do site http://www.rapleyweaning.com, com autorização expressa da autora

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O BLW é o melhor método de introdução alimentar?

por Michelle Bento

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Essa semana me deparei novamente com a seguinte pergunta no facebook: “Existem estudos que comprovem que o BLW é o melhor método de introdução alimentar?”

Acompanhando a pergunta, pessoas a favor do BLW discutiam a ausência de pesquisas e sobre como argumentar com aqueles que pediam as evidências que comprovem todos os seus benefícios. E esse mesmo tipo de discussão eu já vi acontecer tantas outras vezes, incluindo outros assuntos também relacionados à maternidade.

Eu começo ponderando o título de “melhor” concedido ao BLW. A grande questão aqui não é querer convencer a todos de que o blw é melhor. Afinal, não existe UM melhor. O ponto aqui é mostrar que na verdade o que vem sendo feito tradicionalmente é que está péssimo! É levantar uma discussão sobre como podemos melhorar esse cenário adaptando esses conceitos difundidos através do baby-led weaning à realidade de cada família.

 

Leia mais: Os benefícios da Introdução Alimentar ParticipATIVA

 

E para várias premissas dos BLW existe sim base científica. E eu reuni aqui algumas delas.

Já está mais do que claro que a idade ideal para iniciar a alimentação complementar é aos 6 meses, não antes disso. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, “é apenas a partir dos 6 meses de idade que as necessidades nutricionais do lactente não podem ser supridas apenas pelo leite humano. Também é a partir dessa idade que a maioria das crianças atinge um estágio de desenvolvimento geral e neurológico (mastigação, deglutição, digestão e excreção) que a habilita a receber outros alimentos que não o leite materno”. O bebê de 6 meses tem uma capacidade motora completamente diferente do bebê de 4 meses, idade em que se recomendava (ou se recomenda, pois infelizmente ainda é muito comum ver profissionais fazendo essa indicação) iniciar os alimentos sólidos.

O quadro a seguir mostra como o leite materno se mantém como principal fonte de energia durante os primeiros meses de introdução alimentar, sendo ultrapassado pelos alimentos somente entre 12 e 24 meses. Como o BLW é centrado na auto-alimentação e no início as habilidades motoras limitadas dificultam a ingestão de grande quantidade de alimentos, existe um medo grande por parte de pais e profissionais de que o bebê não vá receber tudo o que precisa. Entender que a transição do leite para o alimento sólido deve ser bem gradativa é fundamental para diminuir as expectativas em relação às quantidades que o bebe vai comer nas primeiras ofertas de comida, evitando frustrações que geram o ciclo de recusa alimentar da criança.

 

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Leia Mais: Recusa, controle e distúrbios alimentares: o efeito bola de neve

 

“Crianças amamentadas desenvolvem muito cedo a capacidade de autocontrole sobre a ingestão de alimentos, de acordo com as suas necessidades, pelo aprendizado da saciedade e pela sensação fisiológica da fome durante o período de jejum. Mais tarde, dependendo dos alimentos e da forma como lhe são oferecidos, também desenvolvem o autocontrole sobre a seleção dos alimentos. E esse autocontrole sofrerá influência de outros fatores como o cultural e social. A prática das mães/pais ou dos profissionais de saúde que adotam esquemas rígidos de alimentação prejudica o adequado desenvolvimento do autocontrole da ingestão alimentar pela criança”.

Esse trecho foi retirado do Guia Alimentar Para Menores de 2 Anos do Ministério da Saúde, reforçando que o bebê é capaz de determinar sozinho a quantidade de alimentos que deve ingerir, através da sua auto regulação de fome-saciedade. O papel dos cuidadores é somente dar oportunidade, através da oferta de alimentos saudáveis e variados. Cabe ao bebê dizer o que e o quanto deseja comer.

A Organização Mundial de Saúde recomenda a “prática da alimentação responsiva, que usa os princípios de cuidados psicossociais ao se alimentar a criança. A prática inclui o respeito ao mecanismo fisiológico de auto-regulação do apetite da criança, ajudando-a a se alimentar até estar saciada, e requer sensibilidade da mãe/cuidador às indicações de fome e de saciedade da criança. Recomenda-se alimentar a criança lenta e pacientemente até que ela se sacie, jamais forçando-a a comer. As refeições devem ser prazerosas, com troca amorosa entre a criança quem a está alimentando, por meio de contato visual, toques, sorrisos e conversa. Se a criança recusar muitos alimentos, pode-se experimentar diferentes combinações, sabores, texturas e métodos de encorajamento não-coercitivos e que não distraiam a criança da refeição. Há evidências de que o estilo mais ativo de alimentar a criança melhora a ingestão de alimentos e o seu estado nutricional, bem como seu crescimento”.

Corroborando isso, um estudo bem recente, publicado agora no início do ano mostra que a alimentação responsiva é associada com melhores hábitos alimentares e uma melhor auto regulação de ingestão energética. Pais que utilizaram práticas alimentares não responsivas e não forneceram uma estrutura de alimentação adequada (tempo, local adequado e envolvimento familiar) relataram maiores dificuldades para que a criança comesse. Ao contrário, as famílias que usavam menos as práticas não responsivas e ofereciam melhor estrutura, relatavam que as crianças aproveitavam mais as refeições e não tinham dificuldade para comer.

Sobre o medo do bebê possa engasgar ao se auto-alimentar, um estudo conduzido por Fangupo e colaboradores (2016) acompanhou mais de 180 famílias divididas entre aquelas que praticavam a auto-alimentação e aquelas que ofereciam a alimentação na colher e concluiu que, desde que se forneça orientação adequada, bebês seguindo a abordagem BLISS (baby-led introduction to solids) não parecem estar sob maior risco de engasgo do que aqueles que seguindo uma prática mais tradicional. Na verdade, em ambos os grupos foram oferecidos alimentos potencialmente perigosos, o que significa que é preciso orientar muito bem os cuidadores a respeito de práticas seguras de alimentação, não importando a abordagem que será empregada.

 

Leia Mais: Prevenindo o engasgo: a escolha do adulto faz toda a diferença

 

É claro que ainda existem questões não respondidas, como a ingestão adequada de micronutrientes, por exemplo. E para isso precisamos de mais estudos específicos com o BLW. Mas já temos o suficiente para mudar as práticas tradicionais e estimular a participação ativa do bebê no processo de introdução alimentar. Então vamos nos unir para incentivar esse tipo de abordagem mesmo que para algumas famílias o BLW não se encaixe. Dá pra fazer muito bem às nossas crianças ainda que elas não comam sozinhas os alimentos inteiros desde o começo. Basta apresentá-los na textura adequada, separados, com calma e respeitando as escolhas do bebê no que diz respeito à o que, quando e em que quantidade ele quer comer.

 

Leia Mais: O conceito de Introdução Alimentar Participativa (IA ParticipATIVA)

Leia Mais: Os 20 passos para a Introdução Alimentar ParticipATIVA – #IAparticipATIVA

 

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

 

Referências:

MONTE, Cristina M. G.; GIUGLIANI, Elsa, R. J. Recomendações para alimentação complementar da criança em aleitamento materno. Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, v. 80, p. 131-141, 2004. Suplemento.

DEWEY, KATHRYN G.; BROWN, Kenneth H. Update on technical issues concerning complementary feeding of young children in developing countries and implications for intervention programs. Food and Nutrition Bulletin, v. 24, n.1, p. 5-28, 2003.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2 ed. – 2 reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 72p.

MONTE, C. M.; GIUGLIANI, E. R. Recommendations for the complementary feeding of the breastfed child. Jornal de Pediatria, v. 80, n.5, S131-S141, 2004.

FINNANE, J. M.; JANSEN, E.; MALLAN, K. M.; DANIELS, L.A. Mealtime Structure and responsive feeding practices are associated with lesse food fussiness and more food enjoyment in children. Journal of Nutrition Education and Behavior. V. 49, N.1, 2017.

FANGUPO, L. J.; HEATH, A. M.; WILLIAMS S. M.; et al. A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. 138(4), 2016.

 

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