O que você está fazendo é BLW? E isso importa?

por Gill Rapley, Julho 2016*

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Recebo muitas perguntas sobre ser possível mudar da introdução alimentar tradicional para o BLW, ou fazer um pouco de ambos. Eu também ouço histórias sobre os pais que estão sendo convidados a deixar grupos online porque eles não são “verdadeiros” BLW. Então eu pensei que era hora de eu explicar o meu pensamento sobre tudo isso.

 

O que é BLW?

Pergunta-se frequentemente “Você está fazendo BLW ou você está alimentando na colher?”. Mas a verdadeira questão deveria ser “Você está fazendo uma abordagem dirigida pelo bebê ou uma tradicional?”. Isso porque a introdução alimentar guiada pelo bebê (BLW) não é um método de alimentação, mas uma abordagem com fundamentos sobre bebês e comida.

É sobre como você vê as capacidades do seu bebê em relação à alimentação, e não apenas se você o alimenta com uma colher.

BLW engloba oferecer alimentos saudáveis, compartilhando as refeições da família, certificando-se de que apenas seu bebê coloque comida em sua boca, e confiando que ele saiba se deve comer, o que comer, o quanto e com que rapidez – além de oferecer seus alimentos palpáveis desde o início e deixá-la pegá-los com as mãos. É muito possível decidir não usar colheres e papinhas, sem abraçar completamente a confiança e o respeito para o seu bebê, que é realmente sobre o que é o BLW.

Podemos “mudar” para o BLW?

Sim! Acredito firmemente que nunca é tarde demais para mudar para o BLW.

PORÉM, quando um bebê começou com papinhas, sendo alimentado com a colher, não podemos defini-lo como tendo sido inteiramente BLW (veja Porque as definições importam, abaixo), mas isso não significa que ele e seus pais não podem ser ditos atualmente seguindo uma abordagem BLW. Não é diferente de uma mãe que começa a alimentação de fórmula e, em seguida, muda para a amamentaçãoseu bebê não terá sido “exclusivamente amamentado” mas eles são, no entanto, uma dupla amamentando agora.

Todos têm o direito de mudar sua abordagem quando aprendem algo novo, ou quando descobrem que o que eles escolheram não está funcionando para eles.

Podemos “fazer um pouco de ambos”?

Este é um assunto delicado. Eu sou totalmente a favor dos pais fazendo o que funciona melhor para eles e seu filho. Se isso envolve uma combinação de alimentação de colher e auto-alimentação, que assim seja. O que não é, no entanto, é uma combinação de BLW e introdução alimentar tradicional – é apenas o processo convencional, a partir de seis meses (a partir de quando a papinha sempre foi recomendada).

BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança dele para saber o que ele precisa.

Se você o está enchendo com uma colher depois dele ter tido com próprias mãos, então você não está realmente confiando nele. O ponto é que confiar em seu bebê e não confiar muito nele são simplesmente incompatíveis. Assim, ao fazer algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação da colher pode funcionar para você, mas não é BLW.

Um monte de pais que dizem que estão “fazendo um pouco de ambos” estão de fato apenas seguindo a introdução alimentar tradicional, sem perceber. A razão está relacionada com o tempo: o BLW estava começando a ser falado aproximadamente na mesma época que a idade mínima recomendada para alimentação sólida estava mudando de quatro meses para seis meses (2002). O resultado é que muitos pais não percebem que alimentos sólidos já foram recomendados a partir de seis meses – juntamente com papinhas – antes disso. Eles acreditam, portanto, que oferecer ao seu bebê qualquer alimento sólido significa que eles estão “fazendo (um pouco de) BLW”.

Por que as definições importam?

A definição de BLW realmente importa? Eu acredito que sim, por duas razões.

Primeiro, é importante para os pais que estão ouvindo sobre BLW pela primeira vez. Se eles estão a tomar uma decisão informada sobre como eles querem abordar a introdução alimentar do seu bebê, eles precisam entender o caráter subjacente ao BLW. Se não o fizerem, poderão implementar apenas parte dele, e dessa forma desanimarem quando não funcionar. Pior, eles podem fazer algo perigoso, como colocar pedaços de comida na boca do bebê, o que poderia levar a asfixia.

A segunda razão pela qual acredito que a definição é importante é permitir um aumento do conhecimento sobre crianças e alimentos – globalmente. Se pensarmos que os benefícios a longo prazo para os bebês que fizeram BLW devem ser provados (melhores hábitos alimentares, menos risco de obesidade etc)  – ou mesmo desmentidos – pela pesquisa científica, então os estudos precisam definir clara e inequivocamente o que é um “verdadeiro BLW”. Se os pesquisadores se propuseram a comparar os bebês que foram BLW com os bebês à maneira tradicional, sem definir com precisão o que esses termos significam, então há um risco real de que alguns bebês serão ditos BLW, quando, por exemplo, eles tiveram papinhas pelas duas primeiras semanas, ou foram rotineiramente alimentados em certas refeições, ou foram sempre alimentados separadamente do resto da família.

Este enlameamento das águas tornaria os resultados da pesquisa sem sentido, e poderia muito bem significar que alguns dos benefícios reais da BLW não aparecem. É a mesma insistência dos pesquisadores para que haja uma definição clara de ‘amamentação exclusiva’, cuja importância só foi percebida quando as diferenças reais entre o aleitamento materno e a alimentação de fórmula começaram a surgir.

Pertencendo ao ‘clube’

Então o que isso significa para os grupos e fóruns BLW ?

Os pais que estão “fazendo um pouco de ambos”, ou que começaram seguindo uma abordagem convencional e depois “mudaram” para a BLW podem ser membros do “clube” BLW?

Minha resposta é sim, eu acho que eles deveriam. Embora eu acredite que é importante para todos que esteja claro se o que eles estão fazendo é ou não é BLW “de verdade”, eu não acredito que alguém deva se sentir excluído por não escolher (ou ser capaz) de segui-lo à risca. Todo mundo é diferente: para alguns, sua rede de apoio da família e amigos é pro-BLW, enquanto outros enfrentam resistência a cada dia. Alguns bebês têm desafios médicos ou de desenvolvimento específicos que afetam sua alimentação.

Para muitos pais, ser capaz de compartilhar as experiências dos outros é o que lhes dá a coragem de continuar no nível que eles estão, ou para dar um salto para o ‘completo’ BLW.

As pessoas se reúnem em diferentes pontos ao longo da rota parental, mas ainda podemos ser amigos e viajar juntos, compartilhando o que temos em comum, ao mesmo tempo, respeitando nossas diferenças. Embora não seja útil admitir pessoas cuja intenção é causar problemas, eu gostaria de pensar que alguém que está genuinamente interessado em descobrir mais sobre BLW poderia se sentir bem-vindo em um grupo BLW.

*Texto traduzido do site http://www.rapleyweaning.com, com autorização expressa da autora

Leia Mais: O conceito de Introdução Alimentar Participativa (IA ParticipATIVA)

Leia Mais: Os 20 passos para a Introdução Alimentar ParticipATIVA – #IAparticipATIVA

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Até quando vai a introdução alimentar?

Promoção de saúde tem sido um dos meus principais focos de atuação fonoaudiológica no momento e esse é o ponto de partida para o artigo de hoje. Eu venho batendo na tecla de que é extremamente mais fácil e prazeroso trabalhar com uma família durante a fase de introdução alimentar – e é quando se inicia a Educação Alimentar. Mas até quando vai a introdução alimentar? 

No campo de estudo da Nutrição, entende-se que os primeiros anos de vida de uma criança, especialmente os dois primeiros, são caracterizados pelo crescimento acelerado e enormes aquisições no processo de desenvolvimento necessárias para a alimentação. Isso inclui as habilidades para receber, mastigar e digerir outros alimentos, além do leite materno, e o autocontrole no processo de ingestão de alimentos, para atingir o padrão alimentar cultural do adulto.

Então até os dois anos (aproximadamente), espera-se que a criança esteja comendo uma variedade de alimentos, em suas diferentes formas, texturas e sabores. Espera-se que seja capaz de solicitar comida quando tem fome e que recuse ou pare de comer espontaneamente quando se sente saciada. O paladar vem se formando desde a gestação e é provável que a criança já tenha um repertório alimentar no qual se basear.

Não coincidentemente, a introdução alimentar tem uma parte importante na Teoria dos Primeiros Mil Dias do Bebê. Esse é o período de maior formação de novas conexões cerebrais durante o desenvolvimento, e hoje sabemos que é dependente de uma série de fatores, tanto intrínsecos (biológicos) como extrínsecos (ambientais).

Os dois primeiros anos de vida do bebê, segundo Piaget, também são caracterizados pelo intenso aprendizado sensório-motor. Isso significa que o bebê descobre o mundo através das suas experiências sensoriais, por meio da ação. Então, para aprender, o bebê precisa interagir com o meio. Por isso eu falo tanto em dar oportunidades! Nesse caso, esse é nosso principal fator extrínseco.

Durante a fase sensório-motora, o bebê é um potencial explorador. Absolutamente tudo lhe chama a atenção e, com o avanço no desenvolvimento motor, ele consegue começar a levar o que lhe chama a atenção até a boca, que é quando se inicia o período de reconhecimento externo. Essa fase é chamada por Freud de Fase Oral.

A fase oral tem início no momento em que o bebê nasce até completar um ano, aproximadamente. A boca é o primeiro meio de contato com o mundo que o rodeia, e por meio dela o bebê experiencia dor, frustração e satisfação, através de pulsões orais. O seu principal objeto de desejo é o seio materno, que proporciona alimento e satisfação. Sugar, morder, mastigar e comer são sinônimos de prazer, independente da fome. A fase oral é também marcada pela ligação entre a mãe e o bebê e se caracteriza por ser o período em que a base da personalidade e o ego são formados.

Ainda de acordo com a Teoria Piagetiana, a partir de reflexos neurológicos básicos, o bebê começa a construir esquemas de ação para assimilar mentalmente o meio. A inteligência é prática. As noções de espaço e tempo são construídas pela ação. O contato com o meio é direto e imediato, sem representação ou pensamento. Então, por exemplo, o bebê pega o que está em sua mão; suga o que é posto em sua boca; o que está diante de si. Aprimorando esses esquemas, é capaz de ver um objeto, pegá-lo e levá-lo a boca. E assim por diante.

É aí que entram o BLW e a Alimentação Participativa, como propostas de promoção da saúde e educação alimentar. Quando tiramos o bebê do papel passivo de sua própria alimentação, e passamos a ter um agente ATIVO, que interage, aprende e assimila os esquemas de alimentação (e não só de ingestão) através de suas próprias experiências, passamos a considerar a introdução alimentar em uma perspectiva muito mais ampla e funcional.

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introdução alimentar sob diferentes pontos de vista

Nessa perspectiva, a apresentação de um alimento em formato de finger food passa a ser um mero detalhe, cujo objetivo vai muito além de “deixar o bebê brincar com a comida”. A interação e a descoberta do mundo para o bebê é feita através da experiência! É importante separar o que é dar comida na mão e o que é BLW e alimentação participativa, de fato.

Assimilar o BLW significa entender o conceito de prontidão. Gradativamente as habilidades motoras vão dando maiores oportunidades dele interagir com o meio, assim como as habilidades motoras orais começam a dar maiores oportunidades dele interagir com o alimento dentro da boca. Tendo oportunidades de aprendizagem, em pouco tempo o bebê consegue se auto-alimentar com eficiência também. Aos poucos, assimila que o momento de interação com a comida, além de divertido, também mata a fome. E é ainda um poderoso momento de socialização.

E isso não vai ser de uma hora pra outra. Você pode confundir a criança se ora você assume que ela tem autonomia ora você assume que não, e faz ela engolir comida a todo custo. Nesse contexto, ora eu tenho autonomia ora não, a criança pode sim acabar demorando mais tempo pra assimilar que quando tem autonomia também é capaz de saciar sua própria fome. Então é rever todo o processo e não somente uma situação específica em que a criança tem contato com um alimento no formato original. Interagir com o alimento propicia ao bebê uma série de informações sensoriais essenciais no desenvolvimento da sua relação com a alimentação, a longo prazo.

Conhecer sabores e texturas distintamente e poder relacioná-los com uma série de outras informações sensoriais está diretamente ligado à preferência por determinados tipos ou grupos de alimentos, por exemplo. Por isso, como intermediadores, acabamos falhando ao considerar que a única chance de interagir ativamente com um alimento em seu formato original seria “praticando a mastigação” com um biscoito doce ou um pedaço de pão. Muitas vezes, esse é o único meio pelo qual a criança interage ativamente com o alimentos durante a fase de introdução alimentar.

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1 – A famosa “papinha marrom”, com informações sensoriais praticamente nulas. 2 – Papinha com pedaços, típica da introdução alimentar tradicional, com informações sensoriais limitadas e sobrepostas. 3 – Exemplo de apresentação de um prato na Alimentação Participativa, com alimentos separados e levemente amassados, com a possibilidade do bebê pegar caso tenha interesse. 4 – Exemplo de apresentação dos alimentos no BLW, com alimentos no seu formato original.

A modulação motora oral também começa a se formar ativamente durante essa fase, através da mordida, mastigação e deglutição. Como qualquer outro esquema motor, é extremamente ligado ao número de oportunidades. Se uma criança não aceita alimentos duros aos 3, 4 anos de idade, é bem provável que seja porque ela não tenha sido exposta a este tipo de alimento em sua janela de oportunidade. Ou seja, a questão não é não querer, mas nem saber o que fazer com aquilo dentro da boca.

Da mesma forma, todas as atitudes e hábitos aos quais o bebê é exposto durante essa fase são a base da construção de sua relação com a comida. Se um bebê assimila que ele pode colocar na boca e cuspir, ou simplesmente rejeitar (não pegar) o alimento, deixando-o de lado, ele internaliza positivamente a situação. Posteriormente, no campo simbólico, desenvolve a habilidade de provar coisas novas e diferentes sabendo que ele pode simplesmente não comer se não quiser.

Mas assim como não existe uma idade mágica pra caminhar, pra falar e pra comer, também não existe uma idade mágica pra que a criança mude de fase. Esse é o nosso fator biológico, então a introdução alimentar e a janela de oportunidades “até os dois anos” é uma idade aproximada e pode variar muito de criança pra criança.

Assim, por volta dos dois anos, a criança entra em um período que é chamado de pré-operatório, também chamado de estágio da inteligência simbólica . Caracteriza-se, principalmente, pela interiorização de esquemas de ação construídos no estágio sensório-motor. 

A criança, neste estágio, é egocêntrica, e não consegue se colocar abstratamente no lugar do outro; não aceita a ideia do acaso e tudo deve ter uma explicação (é fase dos “por quês”), já pode agir por simulação (“como se fosse”), possui percepção global sem discriminar detalhes, e deixa se levar pela aparência sem relacionar fatos.

Nessa fase, você irá perceber que a criança vai começar a categorizar os brinquedos, perceber cores, formas, tamanhos e começar a diferenciá-las. A inteligência/cognição está dando um passo à frente. E assim como na brincadeira, a hora da refeição também vai sofrer interferências.

É a hora que a criança começa a recusar determinado alimento por causa da cor, por exemplo. Porque ela começa a associar com outras coisas além da própria experiência sensório-motora. Pode associar o verde à algo ruim, por exemplo, principalmente se baseando em modelos próximos (amigos ou família).

Nessa fase, com a compreensão de linguagem melhor, ela tende a expressar sobre o que quer comer e o que não quer também. Tem uma coordenação motora fina muito melhor para manejar e entender pra que servem os utensílios e é muito provável que, se já não estiver usando, passe a se interessar por eles.

O boom de linguagem traz junto a nomeação dos alimentos, e podem começar a surgir alguns adjetivos, dependendo do grau de desenvolvimento da linguagem… bom, ruim, quente, frio… Coisas simples mas que já são um avanço e tanto pra caracterizar sua interação com os alimentos.

Por isso, nessa fase, trabalhar com uma criança que começou a introdução alimentar de forma inadequada é mais difícil. Porque começam os quereres e não quereres e diminui muito a disponibilidade de se provar coisas novas. Nada que não dê pra “consertar”, apenas mais difícil, porque ela já assimilou muitos hábitos e padrões e o modo de interagir com o mundo mudou completamente.

Então por exemplo, quando uma mãe me manda um e-mail dizendo: “Aline, meu filho tem 2 anos e meio e só come tudo papa, não aceita sólidos, posso fazer seu curso?”. Eu digo, “não, gaste esse dinheiro com uma nutri, uma fono – e talvez uma psicóloga, dependendo do caso!”. Nesses casos, um atendimento multiprofissional especializado é fundamental.

Vale lembrar que o próprio Ministério da Saúde ressalta que a introdução dos alimentos complementares deve ser lenta e gradual. É comum que a criança rejeite as primeiras ofertas, pois tudo é novo. Mas é importantíssimo lembrar que, no início, a alimentação deve complementar o leite materno e não substituí-lo. Portanto, a introdução das refeições não deve substituir as mamadas no peito.

Há crianças que se adaptam facilmente e aceitam muito bem os novos alimentos. Outras precisam de mais tempo, não devendo esse fato ser motivo de ansiedade e angústia para a família. No início da introdução dos alimentos, a quantidade que a criança ingere pode ser pequena. Após a refeição, se a criança demonstrar sinais de fome ela não só pode, como deve ser amamentada. Aproveite! Aproveite essa fase em que a alimentação ainda é complementar para dar OPORTUNIDADES DE APRENDIZAGEM. Te garanto que vai valer a pena! 🙂

Referências:
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Os benefícios da Introdução Alimentar ParticipATIVA

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É muito comum que as pessoas perguntem se há como fazer o BLW no jantar e aos finais de semana, já que durante a semana os pais trabalham e não há possibilidade do bebê fazer BLW na creche ou com o cuidador. A resposta é um pouco mais complexa do que sim ou não, mas posso garantir a vocês que, mesmo quem não tem a oportunidade de seguir um modelo estrito, permitindo que o bebê lidere todo o processo, se beneficia fortemente de um modelo participativo.

Há de se entender que, entre o ideal e o possível existe uma linha contínua na qual, muitas vezes, temos que encontrar nosso ponto de equilíbrio para nos apoiar em tudo o que vem como consequência positiva. E beneficiar-se disso.

Quando se trata de introdução alimentar, manter a sanidade é sempre a melhor opção. Se basear no que é ideal e fazer as melhores escolhas baseadas em sua realidade, do seu bebê e da sua família como um todo. Não existe manual de instruções. E nunca vai existir, porque somos seres humanos. INDIVÍDUOS. INDIVIDUAIS. ÚNICOS.

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Protocolos e manuais de procedimento são essenciais pra se garantir a confiabilidade e a prática baseada em evidências. Sem eles, nossa gama de atuação seria imprevisível e possivelmente baseada em achismos, o que foge da proposta da ciência. Mas, na prática, em muitos casos, existem limitações entre o que está descrito e o que é praticável dentro de um lar. Assim, passa-se avaliar uma relação custo-benefício, na qual não existe certo ou errado, mas melhor ou pior.

No final das contas, o desafio é olhar o copo sempre meio cheio. Olhar com otimismo para o que conseguimos extrair de positivo e buscar estar sempre em um contínuo de mudança para melhor. Mudar aos poucos é melhor do que não mudar nunca. Amamentar por alguns meses é melhor do que nunca ter tentado amamentar. Priorizar a fruta, ao invés do suco, é melhor do que oferecer só o suco, sempre. Oferecer alimentos em pedaços de vez em quando é melhor do nunca oferecer. Fazer a maioria das refeições longe da TV é melhor do que depender dela sempre.

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Copo meio cheio ou meio vazio pra você?

Voltando ao BLW, em seu sentido estrito, o bebê controla a sua própria ingestão de alimentos durante todas as refeições, a ponto dele mesmo decidir quando ele vai passar a comer mais e mamar menos, até o desmame completo (um processo que espera-se que termine somente após os dois anos).

Seguido à risca, no BLW o bebê não sofre influências externas relacionadas à quantidade de alimento ingerido. Se ele está disposto a comer, ele come. Se não, não há nenhuma intenção ou esforço em mudar isso. Dessa forma, teoricamente (existem estudos ainda iniciais), seria o único método capaz de proporcionar total autonomia no controle da fome (comer por necessidade e não por vontade) e da saciedade (comer o necessário para saciar a fome e não por gula). Seria a livre demanda da introdução alimentar.

Porém, o BLW tem outras vantagens que podem, sem dúvida alguma, estender-se ao método participativo, como por exemplo:

– Permitindo a exploração dos alimentos pelo bebê, oferecemos a oportunidade do bebê conhecê-los em suas diferentes formas, cores, cheiros, texturas e sabores, criando um paladar incrivelmente variado e reduzindo consideravelmente as chances dessa criança vir a ser um “chato pra comer”.

– O bebê aprende, desde sempre, todas as funções orais de acordo com a evolução de suas habilidades: morder, mastigar e engolir, em uma ordem fisiológica e natural, durante um período em que está fisiologicamente preparado para prevenir os engasgos por meio do reflexo de gag anteriorizado (por volta dos 6 meses).

– Estimula a independência e, ao contrário do que muita gente pensa, o interesse pelos talheres e copos de casa desde muito cedo, desde que sejam dadas oportunidades.

– O bebê torna-se mais disponível para provar e experimentar coisas novas, já que sabe que pode recusar ou não aceitar algo caso não tenha interesse. Leva-se em média 10 apresentações, de um mesmo alimento, em diferentes formatos e texturas, para se ter certeza que o bebê realmente gosta ou não gosta. Por isso, não há a necessidade de se insistir em um alimento que foi ignorado, ou “escondê-lo” em preparações, apenas apresentá-lo novamente, em uma outra ocasião, de diferentes formas (exemplo: cozido, assado, grelhado).

Portanto, queridos leitores, não se atenham à nomenclatura “BLW”. Se não der pra garantir o método ao pé da letra, façam o possível para seguir uma filosofia ParticipATIVA, permitindo que seu bebê possa desfrutar de todas as vantagens que tendem a vir em decorrência dela.

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O conceito de Introdução Alimentar Participativa (IA ParticipATIVA)

 

Recentemente, muito tem se falado sobre o método Baby-led weaning de introdução alimentar. Ao contrário do que muita gente pensa, o método em si não prevê a oferta assistida pelos pais em nenhum momento – pois fundamenta-se na alimentação livre e gerenciada pelo próprio bebê na grande maioria das vezes, visando o total controle do bebê sobre sua própria alimentação. Desta forma, ainda que os pais ofereçam alimentos em pedaços desde o início da IA, oferecer a papa passivamente ao bebê já descaracterizaria o BLW.

Mas, como já discutimos anteriomente nesse post, um grande número de famílias acaba optando por introduzir fundamentos do método BLW na introdução alimentar convencional. Com isso, um novo conceito em introdução alimentar acabou sendo criado, o qual vai de encontro aos Manuais Oficiais de introdução alimentar em vigor no Brasil e no Mundo. E muito além, incentiva as famílias a introduzirem, desde o início da introdução alimentar, os alimentos sólidos em seu formato original, possibilitando que as crianças experienciem o máximo possível de sensações desde o seu primeiro contato com os alimentos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, sabe-se que o sucesso da alimentação complementar depende não somente do que é servido, mas também de como, quando, onde e por quem é servido. Alguns estudos comportamentais descobriram que existe uma tendência a não se observar o modo como a criança come, a menos que ela comece a não aceitar mais o alimento ou fique doente. A hipótese de alguns pesquisadores é que, quanto mais ativo for o estilo de alimentação ao qual a criança é exposta, melhor será sua aceitação.

Assim, a OMS recomenda um estilo de alimentação responsivo, aplicando os princípios psicosociais de cuidado: a) auxiliar diretamente o bebê e assistir crianças mais velhas a alimentarem-se sozinhas, atentando-se às pistas de fome e saciedade; b) alimentar devagar e pacientemente, encorajando as crianças a comer – mas não as forçando c) se a criança recusar inúmeros alimentos, tente com diferentes combinações, sabores, texturas e métodos de encorajamento; d) minimize as distrações durante as refeições, especialmente se a cirnaça perde a atenção facilmente; e) lembre-se que os momentos de alimentação são períodos de aprendizado e amor – fale olho-no-olho com a criança durante as refeições.

Essas orientações vão totalmente de encontro ao conceito configurado na Introdução Alimentar ParticipATIVA, na qual o bebê é agente ativo do processo de introdução da alimentação complementar, ainda que recebendo alimento de um intermediador. Dessa forma, a alimentação passa a ser assistida – e não passiva. Assitida pelos pais, que intermediam as preferências do bebê e o auxiliam motoramente, enquanto ele não adquire habilidade e eficiência na ingestão adequada de nutrientes necessários para o seu desenvolvimento.

E, considerando tudo que já conversamos, deixo aqui uma reflexão. Você já parou para se perguntar o quanto seu bebê está participando ativamente no momento da refeição? Ele está decidindo o que quer comer, o quanto quer, como quer?

Como já discutimos, “dar” é diferente de “oferecer”. É importante sempre lembrar que todas as atitudes e hábitos que estão sendo colocados no momento da refeição podem perdurar por muitos e muitos anos a fio. Se um bebê assimila que é permitido dizer não e é possível não aceitar algo, ele torna-se capaz de internalizar positivamente a habilidade de provar coisas novas e de aceitar que algo diferente esteja no prato – ainda que ele não queira comer.

Já conheceu alguma criança maior que não pode ver nada de cor diferente no prato que já recusa a refeição inteira? De onde será que vem esse comportamento? É claro que ninguém faz isso por mal, toda família quer ver seu bebê comendo muito e feliz. Mas em alguns momentos é necessário se perguntar o que realmente o bebê está APRENDENDO nesse processo (de IA). Muito do que ele aprender, vai ser implícito – isso significa que vc não vai ensinar, mas de certa forma, ele vai assimilar e guardar em sua memória. Assim, um comportamento, uma ação começa a se relacionar com determinada consequência. “Eu abro a boca porque senão ela fica brava” é completamente diferente de “Eu abro a boca porque eu tenho fome e vontade de comer“.

Quando uma colher é colocada na boca do bebê sem que ele intencionalmente se prepare pra isso, ele está realmente aprendendo a se alimentar? Ou simplesmente está ingerindo comida? Consegue perceber a diferença? Sei que cada bebê é único e reage de um jeito à situação. Se o seu bebê é um “comilão” nato, muito provavelmente vc nem vai chegar a se questionar se está fazendo certo/errado – e se é que existe certo/errado. Mas independente da individualidade do seu bebê, refletir sobre COMO o processo de IA está sendo conduzido e pensar no que essencialmente está sendo aprendido, pode te levar a compreender de fato como os hábitos de agora podem influenciar todo um futuro de organização e saúde alimentar.

Vale a pena, pode ter certeza. Refletir, repensar, reagir. Devagar e sempre ❤️

 

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Referências

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do
adolescente e na escola/Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento de Nutrologia, 3ª. ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP, 2012.

PAHO/WHO. Guiding principles for complementary feeding of the breastfed child. Washington DC, Pan American Health Organization/World Health Organization, 2002.

Introdução aos sólidos: dar x oferecer

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Depois de ter contato com o baby-led weaning pela primeira vez, vc deve estar se perguntando… “Mas isso funciona mesmo?

Imagine o que era feito antes de existirem os liquidificadores, processadores, talheres, e até mesmo os cereais infantis. Como era feita a introdução de sólidos antes dessas “modernidades” virem à tona? Como vcs acham que os indígenas são introduzidos à alimentação dos adultos? É de se parar para pensar.

Saiba que a ideia do BLW não é nova e nem original. O que as autoras do livro fizeram foi compilar uma série de orientações para quem se propõe a utilizar método. Algo que muitas famílias já fizeram instintivamente antes mesmo disso ter um nome.

O que quero com o blog é despertar a curiosidade em vocês até o ponto de se perguntarem: “e por que não?”. Por que eu tenho que decidir o quanto meu bebê tem que ingerir se até o momento ele me deu todas as pistas? Por que não deixar que ele próprio descubra o quão prazeroso e simples é comer? Será que realmente temos que forçar a alimentação? O quão saudável está sendo essa transição? Quais hábitos estamos criando em nossas crianças?

Algumas dessas perguntas simplesmente pipocaram na minha cabeça no início da introdução alimentar do meu bebê até chegar ao ponto de não fazer sentido empurrar uma colher goela abaixo para fazer ele engolir comida. Ele ainda mama no peito, em livre demanda, tem um crescimento normal e acima da média, é super ativo, esperto e curioso.

Com o BLW, tenho aprendido que até quando me sinto na obrigação de tentar insistir pra que ele pelo menos se interesse pela comida, hoje sei oferecer, ao invés de dar. Ele, por sua vez, consegue claramente demonstrar quando não quer e nem que eu quisesse, acredito, conseguiria forçá-lo a comer. As vezes ele mesmo pede, abrindo a boca e inclinando-se para frente. Muitas vezes compartilhamos a mesma comida, ou ele do meu prato, ou eu da bandeja dele.

No final das contas, preocupe-se menos com regras estritas do tipo: “não use colher”, “não coloque nada na boca dele”, “não use purês de jeito nenhum” e blá-blá-blá. Deixe-se simplesmente guiar pelo bebê, como o próprio nome já diz. Deixe que ele dite o ritmo, que ele te mostre como prefere ser alimentado, faça da refeição um momento precioso e prazeroso para vcs dois. Sem pressão, apoie-se na oferta do leite em livre demanda como base nutricional. O que vier – e vai vir – será lucro tanto a curto, como a longo prazo, na criação de uma relação saudável com a comida e com o momento da refeição. Aprenda, essencialmente, a oferecer o alimento – ao invés de simplesmente “dar comida”.

E, se sobrar curiosidade e resolver tentar fazer em casa, não esqueça de tirar fotos e divirta-se muito vendo seu filho aprender!

Posso combinar métodos? O BLW e a oferta da papinha – Parte II

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Com a popularidade crescente do método BLW em alguns países como Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália, as pesquisas começaram a tomar forma. Em sua maioria trabalhos de análise de prontuários de pacientes e respostas de questionários aplicados com voluntários.

Conforme essas pesquisas foram sendo conduzidas, foi-se percebendo que existia, entre as mães simpatizantes com o método, uma linha contínua de aderência ao BLW. Isso significa que algumas mães eram extremamente rígidas em seguir todas as “regras” que o livro propunha, outras nem tanto. E entre as mães “nem tanto”, algumas auxiliavam o bebê somente quando estavam comendo fora, ou quando precisavam oferecer algo que precisava de colher (como iogurte, por exemplo) e outras praticavam aproximadamente 50/50 tradicional/BLW.

Ou seja, existiam mães BLW para todos os gostos. Tanto, que alguns pesquisadores encontraram dificuldades para dividir essas mães em grupos, para poder compará-los (os grupos) entre si. Um dos estudos, por exemplo, utilizou um limiar de no máximo 10% de alimentação assistida (oferecida pelo cuidador) para definir quem seria adepto do BLW e quem seria adepto ao método tradicional. Já outros estudos optaram por separar essas mães em grupos mais flexíveis. Tudo isso para poder comparar as diferenças nos resultados quando se aplicava o método BLW estritamente ou de maneira mais flexível.

Interessantemente, uma proporção de famílias que reportaram estar utilizando o BLW estavam na verdade utilizando uma abordagem mais flexível do método, a qual incluía uma combinação de alimentação independente e alimentação assistida. Geralmente, isso ocorria quando o bebê era aparentemente incapaz de se alimentar sozinho (por exemplo quando estava doente) ou especificamente para garantir apropriada ingestão de ferro (em alguns países é muito comum oferecer o cereal rico em ferro no café da manhã após os seis meses). O que os pesquisadores puderam inferir foi que o BLW e a alimentação assistida não eram vistos pela comunidade como métodos dicotômicos (que seria um excluindo o outro), mas sim estilos de alimentação infantil que poderiam ser combinados para adequar as necessidades da criança e da família em determinadas situações.

Outro fato importante a ser destacado é que a maior parte dos resultados positivos foram observados principalmente no grupo mais aderente ao BLW (pouca ou nenhuma oferta assistida). Famílias que seguiram o BLW de forma mais rígida também apresentaram melhores comportamentos em relação à saúde e nutrição. A maioria desses bebês foi amamentada exclusivamente até os seis meses e iniciaram alimentação complementar somente após essa idade, como sugere a OMS. Interessantemente, mães que seguiram o BLW rigidamente (pouca ou nenhuma oferta assistida) apresentaram melhores níveis de educação formal.

Uma questão de semântica.

É importante ressaltar que, dar uma fruta ou um legume na mão da criança uma vez ou outra, ou oferecer os sólidos para a criança durante a oferta da papinha, não caracteriza BLW. O termo ficou em evidência como uma “moda” entre as mães, mas é importante entender o conceito original. Entenda, pesquise, pergunte, troque ideias e receitas com outras mães que já aplicaram ou que estão aplicando o método, inclusive para receber suporte e “apoio moral”. Quanto mais você entender o método, mais sentido ele vai fazer pra você e maiores as chances de você estar praticando com sucesso o melhor que o BLW tem a oferecer para seu bebê.

Praticar o BLW precisa de muito empenho, paciência e requer que você, acima de tudo, confie no seu bebê. Ele vai ser o principal ditador das regras. Ele vai te dizer o que, como, quando e quanto quer comer. Pode ser que você deixe a disposição uma série de alimentos e ele te diga (mesmo sem falar) que não é ali nem agora que ele gostaria de estar. Não se desespere, tenha paciência, controle a ansiedade. Dê tempo à ele. A alimentação é em livre-demanda. Se ele não quer comer agora, tente daqui meia hora. Coloque-se no lugar do bebê e tente entender a vontade dele. E lembre-se que o leite é a principal fonte de nutrição do bebê durante o primeiro ano de vida. Discuta suplementos de vitaminas e ferro com o seu pediatra de confiança.

E importantíssimo: BLW só depois que o bebê for capaz de sentar com pouco ou sem apoio e capturar objetos com a mão e levá-los à boca. Antes disso, se for necessária a introdução de alimentação complementar, somente o método tradicional é indicado.

Vale lembrar que o método tradicional de introdução de alimentação complementar é amplamente utilizado e é inclusive o proposto pelo Ministério da Saúde do Brasil atualmente. Se vc é uma pessoa que gosta de ter total controle da situação, entre de cabeça no método tradicional. Porém, caso opte pelo método tradicional, sugiro que não deixe de oferecer alimentos em pedaços (finger food) vez ou outra para seu bebê. O estímulo sensorial destes alimentos é extremamente importante e vão auxiliar no correto desenvolvimento oral do seu bebê. Na dúvida, consulte um fonoaudiólogo.

Referências:

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Rapley G, Murkett T. Baby-led weaning: helping your child love good food. London, UK: Vermilion, 2008.

Brown A, Lee MD. Early influences on child satiety-responsiveness: the role of weaning style. Pediatric Obesity 2013.

Os 20 passos para a Introdução Alimentar ParticipATIVA – #IAparticipATIVA

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Se a proposta do BLW te agrada, mas você não consegue seguir o método à risca, então esse post é pra você. Sejam bem-vindos para tirar dúvidas, propor sugestões, dar ideias, criticar, enfim, fazer desse post um espaço colaborativo.

Introdução Alimentar ParticipATIVA OU

(como aproveitar o melhor do BLW, mesmo oferecendo a papinha):

1. Aguarde os seis meses do seu bebê para iniciar a introdução alimentar. São inúmeras as pesquisas que mostram que o sistema digestivo do bebê é imaturo até esta idade. Está mais do que provado: até os seis meses de idade, o leite – materno ou artificial – é tudo e somente o que o bebê precisa (OMS e Ministério da Saúde). E fique atento: a maior parte das dicas abaixo preveem que seu bebê já tenha capacidade para sentar-se sozinho e levar objetos á boca com facilidade (habilidades conquistadas próximo aos seis meses).

2. Dê oportunidades ao seu bebê: ainda que vc não confie totalmente na exclusividade do BLW no início, tente estabelecer metas a fim de fazer uma evolução gradual, com o objetivo de aderir 100% ao método ao final de um período (normalmente um ou dois meses são suficientes para você confiar na capacidade de ingestão e deglutição do seu bebê). Durante o período de adaptação, procure o máximo possível seguir as orientações abaixo, caso contrário vc pode facilmente estar mandando mensagens contraditórias ao seu bebê.

3. Entenda os sinais de saciedade (habilidade de interromper uma refeição quando se está satisfeito) e de resposta à comida (desejo de comer independente da fome). O BLW tem a vantagem de não interferir nas escolhas do bebê, pois ele está comendo sozinho, o que torna estes sinais auto-reguláveis e é sem dúvida uma das maiores vantagens do método. Quando vc oferece, sua capacidade de observar e se atentar a esses sinais devem ser redobradas. Resista à tentativa de “só mais uma colherinha” e à oferta de “lanchinhos” para distrair a criança.

4. Ofereça uma variedade de alimentos ao bebê, separadamente (por exemplo: tirinhas de legumes e carne) e em conjunto também (por exemplo: omelete, panquecas, muffins). Não há necessidade de oferecer um alimento por vez, ou dias consecutivos o mesmo alimento – a menos que sua família tenha histórico de alergia alimentar. Atente-se para os alimentos potencialmente alergênicos e que devem ser evitados antes de 1 ano de idade. Converse com o pediatra ou com uma nutricionista, se possível.

5. Na medida do possível, deixe o bebê participar das refeições com a família, e aproveite sempre que possível esse momento para oferecer alimentos em sua forma original, deixando-o comer sozinho e oferecendo-lhe a mesma comida da família, mas adaptada à sua idade (geralmente apenas sem adição de sal/açúcar). Bebês aprendem muito por imitação, então mesmo que vc dê a refeição dele em um horário separado do restante da família, procure participar comendo um snack saudável junto à ele.

6. Dê oportunidades ao bebê: observe mudanças sutis e acompanhe seu desenvolvimento motor oral e global. Procure dar oportunidades sem criar demasiadas expectativas, para que vc não acabe frustrando o bebê e ele se desinteresse pelo alimento. Por exemplo, com a aquisição do movimento de pinça, o bebê já é capaz de capturar alimentos menores da bandeja (ou seja, ele pode comer o arroz e o feijão com as mãos). Outro exemplo, com o avanço da habilidade de pinça e da coordenação motora, o bebê já pode ser capaz de segurar um talher e levá-lo à boca. Ele não vai ser eficiente em um primeiro momento, mas pode começar a demonstrar interesse a partir dos 10-12 meses.

7. Dê oportunidades ao bebê: na medida do possível, deixe que o bebê manuseie os talheres. Se possível, deixe um jogo de talheres disponível, próximo a ele. Assim, você pode facilmente perceber o momento em que ele vai estar preparado para começar a fazê-lo sozinho (geralmente a partir dos 10-12 meses). O garfo costuma ser mais fácil que a colher, pois o bebê pode “espetar” o alimento. Pode ser que ele queira alimentar você ou queira que vc o alimente durante estes treinos. Considere essas atitudes como um jogo de aprendizagem e continue deixando que ele tome a iniciativa. Crie a oportunidade mas cuidado com as suas expectativas sobre a utilização do talher, caso contrário podem acabar ambos frustrados.

8. Aproveite o momento da papa para abusar dos alimentos ricos em ferro, de origem animal ou vegetal. De acordo com o Ministério da Saúde (2005), para melhorar o aproveitamento do ferro do alimento complementar, é válida a adição de carne bovina, peixe ou ave nas dietas, mesmo que seja em pequena quantidade e a oferta, logo após as refeições, de frutas cítricas ou sucos com alto teor de ácido ascórbico.

9. Aproveite o momento da papa: para treinar a captura do alimento da colher e a mastigação, já que, em um primeiro momento, com o alimento inteiro, ele não desenvolve essas habilidades. E seu bebê já tem maturidade para isso aos seis meses de idade.

10. Aproveite o momento da papa: evite papas liquidificadas, passadas na peneira ou no processador. Procure amassar grosseiramente e desfiar a carne em pequenos fiapos. Misture as carnes com algo consistente, geralmente uma batata ou batata-doce, vai ajudá-lo na mastigação com as gengivas e formação do bolo alimentar, reduzindo consideravelmente a chance dele engasgar com os fiapos.

11. Durante a oferta assistida, deixe que seu bebê veja o que ele está comendo, deixe ele tocar no alimento ou no talher caso insista para isso. Você pode oferecer os alimentos juntos ou separados e um bom treino é olhar para o que está oferecendo e se perguntar “EU teria vontade de comer?”. Se for oferecer uma fruta, tente levar a fruta e raspar/amassar a fruta na frente do bebê, para que ele aprecie a “transformação” do alimento (exemplos: mamão ou pêra raspada, banana amassada).

12. Respeite o tempo do seu bebê. Não encha a colher, espere ele abrir a boca para inserir a colher e espere ele fechar a boca e retirar o alimento sozinho da colher. Aguarde ele mastigar e engolir para oferecer uma nova colherada. Se ele não abriu a boca ou é porque ainda não engoliu ou porque não quer mais. Aprenda a observar os sinais, coloque-se no lugar do bebê.
*OBS: “Raspar” a colher no lábio superior para “jogar” a comida na boca do bebê é, além de tudo, um péssimo hábito e desestimula o adequado funcionamento da musculatura oral.

13. Desapegue-se de distratores como televisão, musiquinha, aviãozinho, olha o passarinho, vou dar pro papai etc etc etc. Tudo isso incentiva o bebê a alimentar-se além do que ele realmente desejaria/precisaria. Não quer, não quer. Controle a ansiedade, confie nos sinais de seu bebê.

14. Não se desespere se o bebê não abriu a boca ou quis comer poucas colheres ou ainda, se não quis comer nada. Controle a ansiedade. Tudo é novidade. O bebê ainda não associou a comida à fome, portanto comer é mais uma brincadeira e assimilação de novas experiências sensoriais. Confie na amamentação ou oferta de fórmula no primeiro ano de vida. Discuta com o pediatra a necessidade de uma suplementação de ferro e outras vitaminas, se necessário.

15. Não há necessidade de limpar sua boca a toda hora, muito menos “raspar” a colher no queixo a cada colherada. Além de ser desagradável, desensibiliza a região ao redor da boca. Com o tempo, ele sentirá e perceberá que tem comida parada ali e vai tentar tirar, com a língua, com as mãos e futuramente, com o guardanapo (depois q for ensinado, claro).

16. Converse com o seu bebê, principalmente se ele já for maiorzinho. Pergunte a ele o que ele quer primeiro, se quer mais, se está satisfeito etc etc etc.

17. Desapegue-se das mamadeiras e chuquinhas. Utilize um copo de transição com alças (assim o bebê pode logo aprender a utilizá-lo sozinho) e, assim q possível, ensine-o a beber água no copo normal.

18. Aprenda primeiros socorros. Há risco de engasgos tanto com alimentos sólidos quanto com líquidos e purês, e saber o que fazer caso necessite é essencial para a segurança de seu bebê. Aprenda a diferenciar reflexo de gag de engasgo e respeite o tempo que seu bebê vai precisar para se acostumar a ter alimentos em sua boca.

19. Oriente os cuidadores e/ou creche quanto ao BLW. Caso eles se neguem a fazer, imprima essa lista de recomendações e sugira que a sigam durante a oferta com a colher.

20. Tenha em mente o mantra: controle a ansiedade, controle a ansiedade, controle a ansiedade. Nem tudo é perfeito, principalmente no começo. A introdução dos sólidos exige dedicação, paciência e persistência. Vai haver muita sujeira e desperdício, especialmente nas primeiras semanas. A introdução complementar é um dos nossos primeiros desafios na educação dos filhos e, caso a IA em LD faça sentido pra vc, confie nos sinais do seu bebê e boa sorte pra vcs!

Referências Bibliográficas

Ferreira, LP; Befi-Lopes, DM; Limongi, SCO. Tratado de Fonoaudiologia. São Paulo: Rocca, 2004. p. 415-38.

Ministério da Saúde, Organização Pan-Americana da Saúde. Guia alimentar para crianças menores de 2 anos. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2005.

World Health Organization. Department of Nutrition for Health and Development. Complementary feeding: family foods for breastfed children. Geneva: WHO, 2000.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP 2012.