Mitos e verdades sobre a introdução alimentar tradicional

por Aline Padovani

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Você está prestes a começar a introdução alimentar do bebê e se vê repleto de possibilidades… Nossa, “na minha época não era assim”. Talvez essa seja a primeira reação quando você começa a procurar sobre o assunto. Reconhecer que o conhecimento científico não é estático e sim, as recomendações mudam com o tempo, é um excelente começo.

Vamos nessa série de posts conhecer um pouco melhor sobre o que há de verdade e o que há de mitos e crenças envolvendo esse período tão importante da vida dos bebês. Mais do que “escolher um método”, seria importante que você refletisse e entendesse a complexidade dessa fase, e assimilasse o que funciona pra você, pra sua família e pro seu contexto.

I – A introdução alimentar tradicional

Infelizmente, existem muitos mitos e crenças a respeito da introdução alimentar tradicional. Apesar de estar minuciosamente descrita em diversos manuais de saúde ao redor do mundo, incluindo a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Ministério da Saúde do Brasil, na prática, essas crenças são fortemente assimiladas e difundidas pela cultura popular (o famoso “palpite”), por profissionais da saúde desatualizados e pela Indústria. Isso faz parte de uma grande bola de neve que tem sido um dos principais responsáveis pelo aumento do sobrepeso e doenças correlatas na infância.

O mito do “leite fraco”

O mito do leite fraco acompanha a mãe desde o nascimento, mas acentua-se fortemente após os seis meses, quando o bebê teoricamente deve começar a comer. De alguma forma, a cultura popular reforça o mito com a crença de que “o leite vira água”.

Aos pais, são ditos que o leite não nutre, e que o bebê tem que comer. Essa crença leva um esforço absurdo para fazer com que o bebê coma a todo e qualquer custo. Profissionais da saúde desatualizados reforçam o mito, indicando o desmame e o uso de fórmulas “fortificadas”. A indústria, obviamente, se aproveita de tudo isso e lança produtos e mais produtos que são de fácil aceitação e viciam prontamente o paladar infantil, como as papinhas prontas, os amidos açucarados e as farinhas para “engrossar” o leite.

Como pode ser visto no gráfico abaixo, o leite materno não vira água após os seis meses. Na realidade, o leite materno é capaz de suprir mais da metade da necessidade calórica de um bebê até os 12 meses. A alimentação complementa o leite, e não o contrário. E todas as grandes instituições de saúde ao redor do mundo já consideram que o leite materno é o alimento ideal e perfeito para os bebês até os 6 meses e que a amamentação deveria ser incentivada até os dois anos ou mais.

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Fonte: Organização Mundial da Saúde, 2009

Tendo em mente que o leite materno é o principal alimento do bebê no primeiro ano de vida, os pais se sentem muito mais tranquilos para assimilar que a introdução alimentar pode ser feita lenta e gradualmente, conforme preconizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (2012):

A introdução de alimentos novos e de consistência diferente da amamentação é um momento de grande aprendizado para o lactente, mas também, como toda novidade, é um momento de crise. A amamentação tem o poder de aliar alimentação a afeto, e esta passagem deve ter também afeto na condução. O uso da colher deve ser iniciado com o lactente no colo da mãe ou de quem der as colheradas. A paciência e a suavidade, assim como palavras tranquilizadoras e manifestações positivas, devem completar os esforços de quem ajuda nesta iniciação.

A maneira como será conduzida a mudança do regime de aleitamento materno exclusivo para essa multiplicidade de opções poderá determinar, a curto, médio ou longo prazo, atitudes favoráveis ou não em relação ao hábito e ao comportamento alimentar. O respeito ao tempo de adaptação aos novos alimentos, assim como às preferências e às novas quantidades de comida, modificará a ação destes alimentos em mecanismos reguladores do apetite e da saciedade. Assim, deve-se respeitar a autorregulação do lactente, não interferindo na sua decisão de não querer mais o alimento.

A crença do “bebê saudável é bebê gordinho”

Não que bebês gordinhos não sejam saudáveis, mas a grande verdade é que, magrinho ou gordinho, essas não são as únicas características que determinam a saúde do bebê. Outros aspectos, além do peso, são igualmente importantes, como os dados de nascimento, crescimento e desenvolvimento do bebê. Uma avaliação e orientação individualizada, com um profissional especializado e atualizado, é fundamental.

A Indústria tem se apropriado dessa crença há muitos anos, levando os pais a acreditar que é necessário complementar a alimentação do lactente com farináceos açucarados, geralmente adicionados ao leite, para que o bebê possa aceitar melhor e engordar mais. Leia mais: Receitas de MINGAU DE VERDADE: porque seu bebê não precisa comer ultraprocessados

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“um alimento que tem ajudado a criar, sãs e robustas, milhões e milhões de crianças em todo o mundo” (trecho de uma propaganda de leite, de 1949). Fonte: propagandashistoricas.com.br

A crença de que “tem que raspar o prato”

Essa crença é baseada em uma cultura milenar, dentro do paradigma da escassez de alimento. Entretanto, ao longo do tempo, houveram mudanças dramáticas no tipo e na oferta de alimentos. Aos poucos, a escassez foi sendo substituída pela gigantesca oferta de produtos ultraprocessados, produzidos em larga escala, hiperenergéticos, deliciosos e baratos. E ainda que a desnutrição seja um problema real e atual em alguns países, observa-se o aumento cada vez mais expressivo dos índices de obesidade no Brasil e no Mundo.

A crença de que a criança tem que raspar o prato prevê um comportamento extremamente controlador e/ou restritivo dos pais, que determinam previamente o quanto a criança precisa comer. Derivam, dessa cultura, as práticas tradicionalistas:

  • oferecer comida como calmante,
  • oferecer comida a todo momento,
  • oferecer grandes porções,
  • oferecer apenas alimentos preferidos,
  • distrair a criança para que ela coma mais e
  • fazer pressão para comer tudo o que tem no prato.

Muitos estudos, entretanto, já demonstraram melhores resultados de alimentação infantil quando permite-se que a criança se auto-regule, sendo respeitada em seus sinais de fome e saciedade.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2009), sabe-se que o sucesso da alimentação complementar depende não somente do que é servido, mas também de como, quando, onde e por quem é servido. A hipótese de alguns pesquisadores é que, quanto mais ativo for o estilo de alimentação ao qual a criança é exposta, melhor será sua aceitação. Assim, a OMS recomenda um estilo de alimentação responsivo, aplicando os princípios psicossociais de cuidado:

  1. auxiliar diretamente o bebê, atentando-se às pistas de fome e saciedade;
  2. alimentar devagar e pacientemente, encorajando a comer – mas não forçando;
  3. oferecer diferentes combinações, sabores e texturas;
  4. minimizar as distrações durante as refeições;
  5. lembrar que os momentos de alimentação são períodos de aprendizado e amor.

Em um conceito ampliado, a alimentação responsiva significa “reciprocidade entre a criança e seu cuidador”. E inclui 4 passos principais (Harbron et al, 2013):

  1. Criação de uma rotina estruturada: expectativas e emoções já conhecidas promovem interação.
  2. Sinalização por meio de pistas: comunicação através de ações motoras, expressões faciais ou vocalização.
  3. Pronta resposta do cuidador a esses sinais, oferecendo suporte apenas se necessário e apropriado.
  4. A criança consegue perceber claramente e prevê a resposta do adulto.

Confiar na quantidade que a criança está disposta a comer é, sem dúvida, uma das maiores quebras de paradigma dos últimos tempos. E é a base para a construção de uma relação de confiança com o seu cuidador e com a sua própria alimentação. Na introdução alimentar tradicional, os pais devem ser os responsáveis pelo que e quando oferecem, e também pelo modo como isso é realizado. Mas apenas a criança deve ser responsável pela quantidade de alimento que ela come (Junqueira, 2017).

O mito “o bebê precisa começar a comer aos 4 meses”

Não há como discorrer sobre alguns mitos sem falar sobre a história da alimentação complementar, que por sua vez é claramente dependente da história do aleitamento materno.

No decorrer da história, inúmeros estudiosos se dispuseram a entender a necessidade e o tempo da introdução dos alimentos na vida dos bebês, sendo orientado que se começasse tão cedo quanto 1 mês de vida e tão tarde quanto 2 a 3 anos de idade. Para se ter uma ideia, no século XVI, os bebês começavam a comer por volta de 7 a 9 meses, situação que foi antecipada para 2 a 4 meses nos 2 séculos seguintes. Castilho e Filho (2010), em sua revisão de literatura discorrem que:

À medida que as mães deixaram de amamentar, os sólidos passaram a ser introduzidos mais cedo. Se a edição de 1911 de Diseases of Infancy and Childhood (Holt) recomendava que os vegetais fossem introduzidos a partir dos 3 anos, sua reedição (1929) indicava que isso deveria ocorrer aos 9 meses. Outros estudos também mostravam essa tendência.

Em 1920, vegetais peneirados eram introduzidos no final do primeiro ano, tubérculos com 18 meses e outros alimentos só após os 2 anos.

Na década de 50, frutas e vegetais eram prescritos a partir dos 4 meses, e na seguinte, 83% das crianças de 1 mês atendidas no distrito de Colúmbia já recebiam algum alimento mais consistente.

Em uma pesquisa realizada em Los Angeles (1976), Hollen observou que 1/3 dos médicos indicavam a introdução de sólidos nas primeiras 6 semanas e quase 2/3, antes dos 3 meses.

Ao mesmo tempo em que isso acontecia, a introdução do leite animal passou a ocorrer cada vez mais cedo, e a prevalência da amamentação diminuiu ainda mais entre 1930 e 1970. Muitas vezes, o uso de fórmulas industrializadas ficava restrito a poucos meses devido ao alto custo se comparado ao leite de vaca.”

Foi a partir da década de 1980 que as coisas começaram a mudar, quando o pesquisador brasileiro Cesar Victora liderou uma pesquisa  considerada um divisor de águas na área de alimentação infantil. Seu trabalho foi o primeiro a mostrar que a amamentação exclusiva (sem oferta de águas ou chás para os bebês) ajudava a reduzir em 14 vezes o risco de morte por diarreia e em 3,6 vezes o risco de morte infantil por doenças respiratórias. A pesquisa, que mais tarde foi replicada em outros países, alterou totalmente a recomendação da alimentação infantil, mais de 20 anos depois, quando, em 2001, a Organização Mundial da Saúde, passou a indicar que os bebês se alimentassem exclusivamente com leite materno durante os seis primeiros meses de vida. 

O Manual de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (2012) descreve de forma muito explícita:

Não há evidências de que exista alguma vantagem na introdução precoce (antes dos seis meses) de outros alimentos que não o leite humano na dieta da criança. Por outro lado, os relatos de que essa prática possa ser prejudicial são abundantes.”

E ainda:

“A partir do sexto mês de vida, deve-se introduzir a alimentação complementar, mantendo-se o aleitamento materno até os 2 anos de idade ou mais. Retardar a introdução de alimentos complementares não protege a criança do desenvolvimento de doenças alérgicas, podendo mesmo aumentar este risco. A introdução de grande variedade de alimentos sólidos por volta de 3 a 4 meses de vida parece elevar o risco de eczema atópico e de alergia alimentar.”

Leia mais: O bebê está pronto para a introdução alimentar? (O que dizem as pesquisas)

O mito do “suquinho de laranja”

Também relacionado à história do aleitamento materno e da fórmula infantil, a introdução do suco de frutas precocemente deriva da época em que os leites artificiais não tinham nutrientes suficientes, e o leite de vaca era dado em maior escala. Castilho e Filho (2010) comentam que:

“Enquanto os alemães utilizavam leite fervido para seu preparo, os estadunidenses priorizavam o leite in natura por observarem que certas doenças, como o escorbuto, ocorriam predominantemente em crianças alimentadas com leite esterilizado, pasteurizado ou condensado. Em 1912, Funk sugeriu que o beribéri, o escorbuto, a pelagra e o raquitismo eram decorrentes da falta de vitaminas na dieta. Essa descoberta determinou a recomendação de que se suplementasse a alimentação com suco de frutas e óleo de fígado de bacalhau. Desde então, o uso do leite fervido deixou de representar uma ameaça à saúde, e o emprego de fórmulas diluídas se popularizou.”

Ainda que datada do início do século passado,  essa é uma orientação que ainda hoje percorre os consultórios pediátricos, orientando-se o suco de laranja, em horários de substituição ao leite, aos 4 meses. Mas a Sociedade Brasileira de Pediatria, em sua última publicação sobre alimentação complementar (2012), é bem coerente ao afirmar:

“O tipo de fruta a ser oferecido terá de respeitar características regionais, custo, estação do ano e presença de fibras, lembrando que nenhuma fruta é contraindicada. Os sucos naturais devem ser evitados, mas se forem administrados que sejam dados no copo, de preferência após as refeições principais, e não em substituição a estas, em dose máxima de 100 mL/dia, com a finalidade de melhorar a absorção do ferro não heme presente nos alimentos como feijão e folhas verde-escuras.”

A crença de que “o bebê vai engasgar”

Essa crença, como vocês já podem imaginar, também tem sua explicação com o decorrer da história da alimentação complementar. Na pré-história, o homem caçava seus próprios alimentos, e os rebanhos ainda não haviam sido organizados. Como não havia como extrair leites de outros animais, quando a mãe não podia amamentar, a criança estava condenada à morte, a menos que outra mulher a substituísse nessa mesma função. Nessa época, a amamentação se prolongava provavelmente até a criança ser capaz de procurar seu próprio alimento (Castilho e Filho, 2010)

Nessa busca por alimento, não havia outra forma senão seguir seus próprios instintos e desenvolver suas habilidades para se auto-alimentar, naturalmente, como todos os mamíferos. Mas como vimos, no decorrer da história, os pais foram orientados a iniciar a alimentação em inúmeras e diferentes fases do desenvolvimento. Observe a figura a seguir:

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Fonte: Pinterest

Consegue claramente perceber a sutileza das etapas do desenvolvimento motor global do bebê de 1 a 6 meses?

Até por volta de 6 meses, o bebê não tem condições motoras para estabilizar seu corpo em uma linha média, o que é essencial para garantir o movimento mandibular e, por consequência, os movimentos de lateralização de língua necessários durante a mastigação. Somente a partir dos 4 meses é que o bebê começa a tentar pegar um objeto e levá-lo à boca, atividade que vai se aprimorando e atinge seu ápice dos 5 aos 7 meses. A partir daí, essa atividade também vai dando lugar à curiosidade e exploração de outras formas, como rotacionar o objeto e transferi-lo entre as mãos. Leia mais: O bebê precisa conseguir sentar para comer sólidos?

Por esse motivo, bebês que iniciam a alimentação precocemente, não tem outra opção senão receber um alimento pastoso homogêneo na colher. Por outro lado, ao estudar o desenvolvimento infantil, fica muito evidente que a oferta de semi-sólidos e sólidos poderia ser iniciada à partir de sinais de prontidão do bebê, observada através das habilidades de auto-alimentação que se tornam mais intensas e presentes por volta dos seis meses de vida. É inclusive uma janela de oportunidades muito importante, visto que o período crítico para apresentação de sólidos, descrito em literatura, é entre 6 a 9 meses. Estudos mostram que crianças que tiveram introdução de sólidos depois dos 10 meses eram mais seletivas e ingeriam menos comida aos 15 meses e aos 7 anos de idade (Le Reverend et al, 2013).

É preciso dar oportunidade para o bebê aprender a mastigar . E quando é o próprio bebê que controla o alimento em sua boca, ele tem total controle da situação. Se está difícil, ele não vai colocar mais. Mas quando falamos em alimentação tradicional, ainda que a gente tente não interferir no processo, de certa forma estamos sujeito a errar, interpretar erroneamente os sinais do bebê. Principalmente porque quem decide quando começar a alimentação complementar, na introdução alimentar tradicional, é o adulto.

Dessa forma, é possível que o bebê ainda não esteja, em termos de desenvolvimento, preparado para manejar alimentos sólidos em sua boca. Como a introdução alimentar tradicional prevê a total dependência do adulto, ainda é recomendado amassar a comida em forma de purê para iniciar a introdução alimentar tradicional. Essa, sem dúvida, é a forma mais segura de iniciar a introdução alimentar tradicional.

É bem possível que o bebê engasgue, por exemplo, se você tentar dar uma colherada enquanto ainda ele tem comida na boca. Ou ainda, tentar dar uma colherada quando ele realmente está com dificuldade de mastigar. Por esse motivo, a progressão das consistências na introdução alimentar tradicional se faz necessária. É impossível predizer se o bebê está realmente preparado para receber sólidos em sua boca se a decisão de alimentar parte do adulto, e não do próprio bebê. Quando um bebê está no controle da situação, ele só vai colocar comida na boca quando estiver confortável para aquilo. Isso é instintivo, natural. Leia mais: E se meu bebê engasgar?

Mas embora a Sociedade Brasileira de Pediatria (2012) já recomende que o bebê comece a comer os alimentos que fazem parte da rotina familiar, progredindo a consistência da alimentação a partir dos 9 meses, muitas famílias insistem na consistência pastosa homogênea e no máximo pastosa heterogênea para além do primeiro ano de vida. Com o passar do tempo, a ausência de estímulos necessários para o aprendizado da mastigação leva a uma inabilidade para manejar alimentos sólidos na boca, ocasionando frequentemente uma recusa e aversão por alimentos dessa textura. A criança não come simplesmente porque não sabe comer.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (2012):

“A consistência dos alimentos deve ser progressivamente elevada, respeitando-se o desenvolvimento da criança e evitando-se, dessa forma, a administração de alimentos muito diluídos (com baixa densidade energética) para propiciar a oferta calórica adequada. Além disso, as crianças que não recebem alimentos em pedaços até os 10 meses apresentam, posteriormente, maior dificuldade de aceitação de alimentos sólidos.”

e ainda:

A alimentação complementar pode ser chamada de transição quando for especialmente preparada para a criança pequena até que ela possa receber alimentos da mesma consistência dos consumidos pela família (em torno dos 9-11 meses de idade).

Os alimentos utilizados pela família (modificados ou simplesmente alimentos da família) são os que fazem parte do hábito familiar, devem ser oferecidos inicialmente em forma de papa, passando-se a apresentá-los em pequenos pedaços dos 9 aos 11 meses e, aos 12 meses, na mesma consistência com que são consumidos pela família. Nesse momento, cabe ao pediatra avaliar a qualidade dos alimentos consumidos pela família”

 

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Referências:

  • Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., 2. reimpr. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015.
  • PAHO/WHO. Guiding principles for complementary feeding of the breastfed child. Washington DC, Pan American Health Organization/World Health Organization, 2003.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP 2012.
  • Le Reverend et al. Review: Anatomical, functional, physiological and behavioural aspects of the development of mastication in early childhood. British Journal of Nutrition, 2013.
  • Delaney & Arvedson. Development Of Swallowing And Feeding. Dev Disabil Res Rev, 2008.
  • Harbron et al. Responsive feeding: establishing healthy eating behaviour early on in life. S Afr J Clin Nutr S141 2013;26(3).
  • Birch & Doub. Learning to eat: birth to age 2y. Am J Clin Nutr 2014; 99: 723S.
  • Castilho, Silvia Diez, & Barros Filho, Antônio de Azevedo. (2010). Alimentos utilizados ao longo da história para nutrir lactentes. Jornal de Pediatria, 86(3), 179-188.

Os benefícios da Introdução Alimentar ParticipATIVA

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É muito comum que as pessoas perguntem se há como fazer o BLW no jantar e aos finais de semana, já que durante a semana os pais trabalham e não há possibilidade do bebê fazer BLW na creche ou com o cuidador. A resposta é um pouco mais complexa do que sim ou não, mas posso garantir a vocês que, mesmo quem não tem a oportunidade de seguir um modelo estrito, permitindo que o bebê lidere todo o processo, se beneficia fortemente de um modelo participativo.

Há de se entender que, entre o ideal e o possível existe uma linha contínua na qual, muitas vezes, temos que encontrar nosso ponto de equilíbrio para nos apoiar em tudo o que vem como consequência positiva. E beneficiar-se disso.

Quando se trata de introdução alimentar, manter a sanidade é sempre a melhor opção. Se basear no que é ideal e fazer as melhores escolhas baseadas em sua realidade, do seu bebê e da sua família como um todo. Não existe manual de instruções. E nunca vai existir, porque somos seres humanos. INDIVÍDUOS. INDIVIDUAIS. ÚNICOS.

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Protocolos e manuais de procedimento são essenciais pra se garantir a confiabilidade e a prática baseada em evidências. Sem eles, nossa gama de atuação seria imprevisível e possivelmente baseada em achismos, o que foge da proposta da ciência. Mas, na prática, em muitos casos, existem limitações entre o que está descrito e o que é praticável dentro de um lar. Assim, passa-se avaliar uma relação custo-benefício, na qual não existe certo ou errado, mas melhor ou pior.

No final das contas, o desafio é olhar o copo sempre meio cheio. Olhar com otimismo para o que conseguimos extrair de positivo e buscar estar sempre em um contínuo de mudança para melhor. Mudar aos poucos é melhor do que não mudar nunca. Amamentar por alguns meses é melhor do que nunca ter tentado amamentar. Priorizar a fruta, ao invés do suco, é melhor do que oferecer só o suco, sempre. Oferecer alimentos em pedaços de vez em quando é melhor do nunca oferecer. Fazer a maioria das refeições longe da TV é melhor do que depender dela sempre.

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Copo meio cheio ou meio vazio pra você?

Voltando ao BLW, em seu sentido estrito, o bebê controla a sua própria ingestão de alimentos durante todas as refeições, a ponto dele mesmo decidir quando ele vai passar a comer mais e mamar menos, até o desmame completo (um processo que espera-se que termine somente após os dois anos).

Seguido à risca, no BLW o bebê não sofre influências externas relacionadas à quantidade de alimento ingerido. Se ele está disposto a comer, ele come. Se não, não há nenhuma intenção ou esforço em mudar isso. Dessa forma, teoricamente (existem estudos ainda iniciais), seria o único método capaz de proporcionar total autonomia no controle da fome (comer por necessidade e não por vontade) e da saciedade (comer o necessário para saciar a fome e não por gula). Seria a livre demanda da introdução alimentar.

Porém, o BLW tem outras vantagens que podem, sem dúvida alguma, estender-se ao método participativo, como por exemplo:

– Permitindo a exploração dos alimentos pelo bebê, oferecemos a oportunidade do bebê conhecê-los em suas diferentes formas, cores, cheiros, texturas e sabores, criando um paladar incrivelmente variado e reduzindo consideravelmente as chances dessa criança vir a ser um “chato pra comer”.

– O bebê aprende, desde sempre, todas as funções orais de acordo com a evolução de suas habilidades: morder, mastigar e engolir, em uma ordem fisiológica e natural, durante um período em que está fisiologicamente preparado para prevenir os engasgos por meio do reflexo de gag anteriorizado (por volta dos 6 meses).

– Estimula a independência e, ao contrário do que muita gente pensa, o interesse pelos talheres e copos de casa desde muito cedo, desde que sejam dadas oportunidades.

– O bebê torna-se mais disponível para provar e experimentar coisas novas, já que sabe que pode recusar ou não aceitar algo caso não tenha interesse. Leva-se em média 10 apresentações, de um mesmo alimento, em diferentes formatos e texturas, para se ter certeza que o bebê realmente gosta ou não gosta. Por isso, não há a necessidade de se insistir em um alimento que foi ignorado, ou “escondê-lo” em preparações, apenas apresentá-lo novamente, em uma outra ocasião, de diferentes formas (exemplo: cozido, assado, grelhado).

Portanto, queridos leitores, não se atenham à nomenclatura “BLW”. Se não der pra garantir o método ao pé da letra, façam o possível para seguir uma filosofia ParticipATIVA, permitindo que seu bebê possa desfrutar de todas as vantagens que tendem a vir em decorrência dela.

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Introdução alimentar: respeitando o tempo do bebê

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A introdução de alimentos novos e de consistência diferente da amamentação é um momento de grande aprendizado para o lactente, mas também, como toda novidade, é um momento de crise. A amamentação tem o poder de aliar alimentação a afeto, e esta passagem deve ter também afeto na condução. O uso da colher deve ser iniciado com o lactente no colo da mãe ou de quem der as colheradas. A paciência e a suavidade, assim como palavras tranquilizadoras e manifestações positivas, devem completar os esforços de quem ajuda nesta iniciação.

A maneira como será conduzida a mudança do regime de aleitamento materno exclusivo para essa multiplicidade de opções poderá determinar, a curto, médio ou longo prazo, atitudes favoráveis ou não em relação ao hábito e ao comportamento alimentar.

O respeito ao tempo de adaptação aos novos alimentos, assim como às preferências e às novas quantidades de comida, modificará a ação destes alimentos em mecanismos reguladores do apetite e da saciedade. Assim, deve-se respeitar a autorregulação do lactente, não interferindo na sua decisão de não querer mais o alimento.

As evidências sugerem que, embora a ingestão de porções em refeições individualizadas possa ser um tanto quanto irregular, o consumo energético em 24 horas costuma ser adequado. Na nossa cultura, comer bem é comer muito, além da falsa ideia de que comendo muito se fica mais resistente às doenças. Atitudes excessi- vamente controladoras e impositivas podem induzir ao hábito de consumir porções mais volumosas do que o necessário e à preferência por alimentos hipercalóricos. Esta condição é apontada como uma das causas preocupantes do aumento das taxas de obesidade infantil que se tem observado nos últimos anos, além de também ser uma das causas de inapetência na infância.

A alimentação complementar, embora com horários mais regulares que os da amamentação, deve permitir pequena liberdade inicial quanto a ofertas e horários, permitindo também a adaptação do mecanismo fisiológico de regulação da ingestão. Mantém-se, assim, a percepção correta das sensações de fome e saciedade, caracte- rística imprescindível para a nutrição adequada, sem excessos ou carências.

Fonte:

Manual do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2012.