Meu bebê parou de comer!

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Durante a fase de introdução alimentar, os bebês passam por diversas fases de inapetência, o que é absolutamente normal, mas deixa qualquer cuidador de cabelo em pé. São inúmeras as razões, que afetam não só a alimentação, como também o humor e o sono do bebê. Por isso, antes de se gabar aos quatro ventos que seu filho come tudo, ou dorme a noite inteira, previna os cuspes na testa e tente passar pelos 3 primeiros anos de vida sem surtar em cada uma dessas fases.

As dificuldades alimentares em crianças em desenvolvimento típico podem ter início durante essas fases de inapetência. Ao invés de tratar esses períodos como uma etapa de desenvolvimento normal da criança, profissionais despreparados costumam piorar a situação com a simples frase “esse bebê precisa comer”. Uma frase tão curta, mas com um potencial enorme de desequilibrar toda uma dinâmica de alimentação. A família torna-se ansiosa, aumentando os níveis de estresse e frustração durante as refeições. E o impacto emocional durante as refeições tem grande influência nos resultados futuros de alimentação (Morris & Klein, 2000).

Uma grande falácia do atendimento pediátrico em qualquer especialidade é orientar o desmame para que o bebê coma mais. Acontece que durante os dois primeiros anos de vida o alimento é complementar ao leite materno, e não o contrário. Por isso, amamentar até os dois anos ou mais, como recomenda a Organização Mundial da Saúde, só faz com que a família tenha mais segurança em respeitar a criança nessas fases de inapetência, e passar por esses períodos sem trauma ou estresse.

Os primeiros três anos de vida coincidem com uma série de grandes mudanças na vida do bebê. Muitas vezes acontecem em série, e em concomitância com outras situações, podem deixar o bebê bastante agitado, desregulando seu padrão habitual de fome e sono. Sabendo-se que é esperado que o bebê passe por essas fases transitórias, o cuidador torna-se atento à mudanças sutis no comportamento, relacionando as causas e baixando a expectativa em relação aos padrões de alimentação e sono.

Demonstrar empatia, acolher e buscar soluções viáveis a curto prazo são essenciais para que família e bebê passem por essas fases sem traumas.

Saltos de Desenvolvimento

“Meu filho não quer mais ficar no cadeirão, está com 11 meses e fica jogando a comida no chão e olhando pra baixo. Está quase andando e não para quieto um minuto. Não sei mais o que fazer”

Toda vez que o bebê começa a desenvolver uma nova habilidade, ele fica tão excitado durante o processo, que quer praticar a todo momento. Durante esses períodos, eles podem resistir às rotinas já estabelecidas e podem mudar os padrões aos quais os pais já estavam habituados, como a hora da refeição.

Nos dias que antecedem o chamado salto de desenvolvimento, o bebê se sente perdido dentro do que já lhe era conhecido. Seus sistemas perceptivo e cognitivo mudaram, houve maturação neurológica, mas não houve tempo hábil para adaptação às mudanças.

O bebê passa a reconhecer o mundo de forma diferente, situação que com frequência gera ansiedade. O bebê tende a voltar para o seu porto seguro, geralmente, a mãe. O resultado é o aumento da demanda de mamadas, do colo e a modificação dos padrões de sono, humor e apetite. Mas depois da aquisição de uma nova habilidade (como sorrir, interagir, sentar, engatinhar, andar, falar) o bebê dá um salto no desenvolvimento e fica feliz com o final da ‘crise’.

A duração de cada salto pode variar, podendo durar dias ou semanas, podendo voltar ao padrão anterior como se nada tivesse acontecido. A aquisição da nova habilidade é facilmente notável e o bebê está claramente satisfeito e independente com a nova situação. Essas aquisições ocorrem em vários aspectos: desenvolvimento motor, desenvolvimento do controle motor fino, linguagem e desenvolvimento social.

Seria cômico, se não fosse trágico, mas no primeiro ano de vida o bebê passa por saltos de desenvolvimento praticamente todos os meses. Então é bem natural que o apetite seja extremamente flutuante no primeiro ano de vida.

 

Picos de crescimento

“Meu filho não quer mais comer, chora quando o coloco sentado no cadeirão, só quer peito, peito, peito…”

Picos de crescimento são fenômenos que se referem ao crescimento do bebê, períodos em que precisam de mais alimento para crescer em um ritmo mais acelerado. Então um bebê que dormia longos períodos à noite, pode começar a acordar mais e solicitar mais mamadas. Esta necessidade geralmente dura de poucos dias a uma semana, seguido de um retorno ao padrão menor de mamadas, mas agora com o organismo da mãe adaptado a produzir mais leite. É muito importante respeitar a demanda aumentada, pois somente assim a produção de leite materno poderá se ajustar perfeitamente às necessidades do bebê.

Pode ser que o bebê se prontifique à comer mais, se ele já tiver entendido que comer mata a fome. Por outro lado, se o bebê ainda associa a saciedade com a alimentação láctea, é bem provável que ele recuse a comida em detrimento ao leite, pois é dessa forma que o corpo dele entende que ele vai garantir o necessário para crescer. Além disso, o leite materno é um alimento muito completo e tem muito mais calorias do que uma papinha ou pedaços de frutas ou legumes. Sabiamente, seu corpinho vai preferir o que irá lhe garantir maior aporte calórico e menor gasto de energia para essas fases de “estirão”.

Nesses períodos a mãe pode interpretar incorretamente e achar que seu leite é insuficiente, ou pior, ser induzida a achar que seu leite é fraco. Em ambos casos, a primeira solução parece ser o complemento de leite artificial. O que é um erro, pois perde-se o poderoso estímulo de sucção no peito, prejudicando o equilíbrio perfeito da natureza de produzir o leite conforme a demanda.

Outra situação bastante frequente relacionada ao crescimento é que, mais cedo ou mais tarde, o bebê passa a comer menos, devido à mudança do ritmo de crescimento da criança. No primeiro ano, os bebês engordam e crescem mais rapidamente do que em qualquer outro período da vida fora da barriga da mãe. E a criança de 1 a 6 anos, que cresce lentamente, come proporcionalmente menos do que a de seis meses ou a de doze anos, que estão em períodos de rápido crescimento.

É importante reforçar que nem toda criança come igual, nem cresce no mesmo ritmo ou acompanha as curvas de peso. Por isso, é essencial avaliar outros dados, e que isso seja feito em uma consulta individualizada, preferencialmente com um o pediatra e o suporte de um nutricionista infantil.

 

Angústia da separação

“Meu bebê não aceita ficar no cadeirão, só quer ficar no colo. Só come com outras pessoas, comigo só quer peito, peito, peito…”

Por volta de 6-8 meses, o bebê começa a perceber que é um indivíduo separado da mãe. Essa descoberta lhe traz angústia e medo, e por isso ele pode pedir mais colo, chorar mais que o usual e solicitar muita mais atenção da mãe.

Neste momento, a mãe ainda é o centro do mundo do bebê e representa seu porto seguro. Como a noção de permanência não está completamente estabelecida, essa angústia é muito acentuada. O bebê não consegue entender que a mãe continua ali, mesmo quando está longe do seu campo de visão.

A Dra Andréia Mortensen, neurocientista, explica o seguinte:

“O sistema de angústia da separação, localizado no cérebro inferior, está geneticamente programado para ser hipersensível. Nos primeiros estágios da evolução humana era muito perigoso que o bebê estivesse longe da sua mãe. Se não chorasse para alertar seus pais do seu paradeiro, não conseguiria sobreviver. Então, quando o bebê sofre pela ausência dos seus pais, no seu cérebro ativam-se as mesmas zonas que quando sofre uma dor física. Ou seja, a linguagem da perda é idêntica à linguagem da dor. Não tem sentido aliviar as dores físicas, como um corte no joelho, e não consolar as dores emocionais, como a angústia da separação. Mas, infelizmente, é isso o que fazem muitos pais, por não conseguirem aceitar que a dor emocional de seu filho é tão real como a física. Essa é uma verdade neurobiológica que todos deveríamos respeitar.

O período “crítico” de desenvolvimento emocional e social ocorre nos primeiros 18 meses da criança. A parte do cérebro que regula as emoções – a amídala – é formada cedo, de acordo com as experiências que o cérebro recebe. O desenvolvimento de um vínculo emocional, empatia e confiança, e todos os aspectos da inteligência emocional fornecem o fundamento para desenvolvimento de outros aspectos emocionais conforme a criança cresce. Então, nutrir emocionalmente e responsivamente o bebê é importante para que a criança aprenda empatia, felicidade, otimismo e resiliência na vida.

Então, se se a mãe tiver que se afastar do filho pequeno para trabalhar ou por outro motivo, muito carinho, conversa, paciência e coerência nas atitudes são necessários para que ele continue tendo confiança nela e supere esse período de crise. É também muito importante certificar-se que o bebê criou um vínculo afetivo com o outro cuidador. 

Nessa fase, procure passar todo tempo possível com seu bebê, principalmente se trabalha fora. Separe os momentos logo após o reencontro do dia de trabalho para ter dedicação exclusiva a ele. Sente confortavelmente, faça contato olho no olho, amamente, interaja com seu bebê. Você pode estar cansada e estressada depois da longa jornada de trabalho, mas se conseguir um pouco de energia para receber seu bebê com alegria, você também se sentirá melhor após alguns minutos de uma reconexão significativa. Somente depois pense no jantar, no banho e outros afazeres. Considere promover proximidade na hora de dormir se suspeita que o bebê tem acordado mais a noite por estar passando por um pico de ansiedade de separação.”

Leia o texto completo da Dra Andréia Mortensen, sobre saltos de desenvolvimento, picos de crescimento e angústia da separação, nesse LINK.

 

O nascimento dos dentes

“Meu bebê não quer mais pegar a comida, vira o rosto para a colher, empurra e joga tudo no chão. Está salivando muito, acho que vem dente por aí…”

Os dentes começam a nascer mais ou menos aos 6 meses de idade. Os primeiros a aparecer são os incisivos centrais inferiores, seguidos pelos incisivos centrais superiores, e incisivos laterais inferiores. Por volta de 1 ano e meio surgem os incisivos laterais superiores, e então começa a erupção dos dentes mais posteriores como os caninos e os molares. Aos 3 anos, aproximadamente, o bebê terá todos os dentes de leite. E é normal um atraso de aproximadamente 8 meses.

 

Os primeiros sinais de que os dentinhos estão chegando são coceira na gengiva pela pressão dos dentes, gengiva mais abaulada e esbranquiçada e aumento da salivação por conta do amadurecimento das glândulas salivares e pela incapacidade do bebê engolir toda a saliva. Alguns bebês ainda apresentam: dor, febre baixa (até 38º), diarreia e acidez nas fezes (o que pode causar assaduras), constipação nasal e aumento de secreção nasal. Apesar desses últimos não terem comprovação científica, não é incomum encontrar relato desses sintomas entre os bebês dessa idade.

Todos esses sintomas deixam o bebê mais agitado, podendo facilmente interferir nos padrões de alimentação e sono. Alimentos mais consistentes ajudam a massagear a gengiva, mas se houver dor, é comum que o bebê os rejeite completamente. Ofereça alimentos frios e amolecidos, progredindo a consistência aos poucos, até que se perceba que o incômodo maior tenha passado. A melhor forma de saber isso é deixando os sólidos à disposição. O próprio bebê vai saber quando é a hora de voltar a comer normalmente.

Géis anestésicos podem levar ao engasgo e aspiração pela dessensibilização da região orofaríngea e são portanto contra-indicados. A Associação Brasileira de Odontopediatria comunicou ainda, em nota oficial, que produtos a base de benzocaína não devem ser usados em crianças menores de dois anos de idade, exceto sob a orientação e supervisão de um profissional de saúde. O Comitê de Drogas dos EUA (FDA) fez um alerta ao público de que o uso de benzocaína, principal ingrediente de produtos fármacos usados para reduzir a dor na boca ou nas gengivas, está associado a uma rara, mas grave doença. Esta condição é chamada metemoglobinemia e resulta na redução significativa da quantidade de oxigênio transportado no sangue, podendo levar à óbito.

Se a irritação e/ou dor for muito intensa, consulte o pediatra. Você pode ainda tentar tratamentos homeopáticos ou fitoterápicos, com profissionais especializados.

 

 

Outras mudanças

“Há dias meu bebê não aceita nada além de frutas. Mudamos de casa há 1 mês e ele começou a ir para a escola. Seus horários de soneca estão todos desregulados e ele tem aumentado as mamadas noturnas…”

Outros acontecimentos, como o nascimento de um irmãozinho/a, introdução de alimentos novos, o retorno da mãe ao trabalho e entrada em creche, viagens, doenças, separação dos pais, atritos com coleguinhas, ausência de um ente querido, entre outros, podem interferir no sono e na alimentação da criança.

Outros motivos que podem ocasionar a falta de apetite em crianças é quando estão resfriadas, gripadas, com alguma infecção, principalmente de garganta. O calor excessivo pode dar moleza, desânimo e vontade de “comer nada” também. Nesses casos, ofereça muito líquido para hidratação e alimentos mais leves, já que a criança não consegue se alimentar normalmente.

Em todos esses casos, tenha muita paciência e empatia. Coloque-se no lugar da criança, e espere a causa ser resolvida para que, gradualmente, a rotina pode ser restabelecida.

Cabe ressaltar que períodos prolongados de inapetência, associados ou não com perda de peso e falha no crescimento, devem ser investigados. Se a criança apresenta sonolência, palidez e pouca disposição junto com a falta de fome pode indicar falta de nutrientes importantes, como ferro, cálcio, vitaminas e zinco. Leve-a ao pediatra e fale com ele sobre a situação. Alguns exames podem ser feitos. Entre outras causas mais graves, que devem ser investigadas e tratadas estão: doença do refluxo gastroesofágico, alterações no sistema digestivo, anemia, alterações motoras, doenças infecciosas, entre outras causas.

 

Faltará algum nutriente se ele não comer nada além do leite?

A partir dos 6 meses, a reserva de ferro que alguns bebês tinham ao nascer se acaba, e eles precisam comer ferro de outras fontes. É um dos motivos pelos quais se inicia a alimentação complementar aos 6 meses. Outros bebês, tem uma reserva de ferro maior e não precisariam de ferro extra até os 12 meses ou mais.

Por isso, é importante que, entre os primeiros alimentos que forem oferecidos ao bebê, estejam as carnes e os ovos, e que possam comer frutas ricas em vitaminas C antes ou após as refeições, que auxilia na absorção do ferro. A nutricionista Michelle Bento explica tudo isso melhor nesse post aquiGarantindo energia e ferro para o bebê no BLW

 

Aline P

 

CONALCO2017

 

Referências:

Dra Relva (2013). O livro da Maternagem. Pediatria Radical.

Gonzales, C (2016). Meu filho não come. ed Timo.

Morris & Klein (2000). Pre-Feeding Skills: A Comprehensive Resource for Mealtime Development 2nd Edition.

 

Mandel et al (2005). Energy Contents of Expressed Human Breast Milk in Prolonged Lactation. 

 

Sites consultados:

https://fortissima.com.br/2013/09/25/causa-falta-apetite-criancas-16290/

http://guiadobebe.uol.com.br/fases-de-crescimento-e-desenvolvimento-que-modificam-o-sono-do-bebe-e-da-crianca/

http://guiadobebe.uol.com.br/primeiros-dentinhos/

11 lições que eu aprendi com Carlos Gonzales

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Terminei de ler o livro “Meu Filho Não Come”, do pediatra espanhol Carlos Gonzales (editora Timo).

De fácil leitura, cheio de obviedades, referências científicas e também de visões pessoais e experiências do médico com o assunto.

Eu grifei algumas partes em especial e fiz algumas anotações interessantes que gostaria de dividir com vocês!

 

 

1- Leite materno é VIDA! É tão completo que uma pessoa sobreviveria anos, bem-nutrida, tomando apenas leite materno. As pessoas não continuam tomando leite materno porque simplesmente não lhe dariam hahah

 

2- A livre demanda durante a amamentação exclusiva não deveria nunca ser repensada (salvo casos excepcionais). Durante o período de amamentação exclusiva, o peito é a única fonte de hidratação e nutrição do bebê. Nesse caso, negar o peito porque ainda não deu o horário é como negar água à uma pessoa com sede ou comida à uma pessoa com fome.

 

3- É possível oferecer leite de fórmula em livre demanda também. Apenas experimente não se frustrar quando ele não bebe uma mamadeira inteira, já é um primeiro passo!

 

4- Em uma análise histórica, nota-se que o problema “a criança não come” foi criado por uma demanda da própria pediatria que, cada vez mais, passou a considerar datas cada vez mais precoces, e pré-determinar horários e quantidades pra criança comer.

 

5- Muitas vezes, “meu filho não come” começa ainda durante a amamentação. E o “problema” (que Gonzales nota que na maioria das vezes de fato não é um problema), vai se arrastando até a introdução alimentar. Dali por diante só piora.

 

6- Naturalmente, o problema “meu filho não come” acaba surgindo do desequilíbrio entre o que a criança come e o que o adulto espera que ela coma.

 

7- Não existe uma técnica milagrosa para a criança comer. Ou ela é saudável e não está com fome, ou tem alguma doença que deve ser investigada e tratada. E então, a partir do tratamento da CAUSA, pode ser que a criança coma mais. Ou não. Pode ser que ela continue comendo pouco, mas se desenvolva normalmente.

 

8- Não importa com qual alimento começar a introdução alimentar, não há bases científicas para recomendar um ou outro.

 

9- Forçar a comer é desumano. Coloque-se no lugar na criança, mesmo sem ser criança. Ninguém em sã consciência se vê em uma situação fazendo cena pra não comer quando se tem vontade.

 

10- Um experimento que vai mudar sua vida (se o seu filho é saudável, mas não come):

  1. Pese seu filho em uma balança
  2. Não o obrigue a comer
  3. Volte a pesá-lo depois de um tempo
  4. Se ele não tiver perdido 1 kg, continue sem obrigá-lo a comer e volte ao passo 2
  5. Se ele tiver perdido 1kg o experimento acabou. (leve-o a um especialista – essa parte é por minha conta rs)

 

11- Dois conselhos pra vida:

  1. Não obrigue uma criança a comer
  2. Não obrigue jamais, por nenhum método, sob nenhuma circunstância, por nenhum motivo uma criança a comer.

 

Se tiverem a oportunidade, leiam! Fácil e agradável leitura!

Beijão!

Aline

 

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Recusa, controle e distúrbios alimentares: o efeito bola de neve

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A recusa alimentar atinge cerca de 25% de crianças em desenvolvimento normal. Essas recusas podem ser provocadas por uma combinação de fatores psicológicos, emocionais e sociais. Estudos que investigam as desordens alimentares em crianças avaliam componentes como a relação familiar, estrutura cultural, temperamento e desenvolvimento da criança, duração do aleitamento materno e práticas da introdução alimentar.

O hábito alimentar se forma a partir de experiências e práticas observadas dentro do âmbito familiar e social na primeira infância. Não surpreende então que a atitude dos pais em relação à comida e o tipo de abordagem dos pais no momento das refeições seja fator definitivo para o ciclo de recusa da criança.

Quando os pais criam expectativas e elas não são atendidas, um ambiente de  estresse pode ser gerado. Momentos de refeições infelizes e estressantes aumentam as chances de recusa. E vira uma bola de neve! Os pais se tornam mais ansiosos, mais exigentes, menos tolerantes e mais controladores. E pronto! Está instalado um distúrbio alimentar!

A recusa alimentar deve ser sempre avaliada em conjunto com o ganho de peso. E é muito comum essa queixa vir acompanhada de ganho de peso e desenvolvimento normais. Se o ganho de peso e o crescimento estão adequados e foi descartada uma causa orgânica (alergia alimentar, refluxo, problemas de deglutição etc), é preciso que a família entenda que cada criança tem o seu tempo e que a introdução alimentar é um evento a longo prazo.

Se a introdução alimentar for conduzida de maneira respeitosa, num ambiente tranquilo e de forma agradável, em algum momento aquele bebê vai despertar o interesse pela comida. E quando isso acontecer, sua relação com a comida será boa, haverá prazer em fazer as refeições.  Já o bebê que foi forçado a comer ou que teve sua comida batida e misturada no início da alimentação pode até aceitar nos primeiros meses, mas perde a oportunidade de conhecer os alimentos, experimentar texturas e sabores e, pior ainda, pode criar uma aversão ao alimento por conta do estresse gerado nas refeições.

Pensando em todas essas informações junto com a proposta do BLW, fica fácil entender porque algumas de suas vantagens incluem melhor relação com a comida, diminuição da seletividade alimentar, melhor qualidade da dieta, melhor controle de fome-saciedade. Entender que cada bebê tem seu tempo e deixá-los guiar o processo de transição do leite para a alimentação sólida, sem se preocupar com o ritmo ou quantidade, mas somente com a qualidade do que é oferecido possibilita uma introdução alimentar verdadeiramente respeitosa, tranquila, prazerosa.

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

 

Leia também:

O BLW não deu certo comigo

Os benefícios da Introdução Alimentar ParticipATIVA

Os 20 passos para a Introdução Alimentar ParticipATIVA – #IAparticipATIVA

 

Bibliografia:

TAN, S.; YILMAZ, A. E.; KARABEL, M.; KARA, S.; ALDEMIR, S.; KARABEL, D. Children with food refusal: An assessment of parental eating attitudes and their styles of coping with stress. Journal of the Chinese Medical Association, v.75, s.5, p.209-215, 2012.

LEVY, Y.; LEVY, A.; ZANGEN, T.; KORNFELD, L.; DALAL, I.; SAMUEL, E.; BOAZ, M.; DAVID, N. B.; DUNITZ, M.; LEVINE, A. Diagnostic Clues for Identification of Nonorganic vs Organic Causes of Food Refusal and Poor Feeding. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, v. 48, p. 355-362, 2009.

 

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