Lançamento da versão brasileira do livro Baby-led Weaning: o que vem por aí!

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O post de hoje escrevo com tanto entusiasmo que chego a me emocionar! Vcs sabem, a abordagem BLW foi um divisor de águas na minha vida, e foi através da leitura do Livro “Baby-led Weaning” que um mundo inteiro se abriu diante das minhas possibilidades de atuação profissional.
Na última semana, tive o imenso prazer de fazer a última revisão dos termos técnicos do livro e posso dizer? Que reconfortante ler BLW direto da fonte, em nossa própria língua! Gill e Tracey escrevem com uma leveza e clareza inigualáveis! Reler o livro em português foi reafirmar tudo o que venho fortemente difundindo aqui no Brasil há mais de 3 anos! Vc deve imaginar como estou ansiosa pra conhecer a Gill pessoalmente!
E pra te contar tudo o q vem por aí, eu marquei um encontro online com a Ana Basaglia, da Editora Timo! Ela vai contar tudinho que você precisa saber sobre a vinda das autoras para o Brasil!
Ao se inscrever gratuitamente neste encontro, você concorre à 1 exemplar da edição brasileira do livro e à 1 vaga na palestra presencial para os pais!!!
Já te adianto que, agora em novembro, as queridas Gill Rapley e Tracey Murkett vem para o Brasil para o lançamento de “Baby-led Weaning – o desmame guiado pelo bebê”, pela editora Timo! E o CONALCO, em parceria com a Timo, está organizando 3 eventos SUPER bacanas pra quem trabalha, quer trabalhar ou simplesmente quer aprender mais sobre a abordagem BLW direto da fonte! 

Com a Ana, vou te contar sobre as novidades da versão brasileira do livro baby-led Weaning, sobre os eventos com as autoras, curso de imersão em BLW e vamos sortear 1 exemplar da edição brasileira do livro e 1 vaga para a palestra presencial com os pais!!! 

Esperamos por você!

Com carinho,

Aline Padovani

Concurso BLW Brasil: suas fotos publicadas na versão brasileira do livro!

ATUALIZAÇÃO 09/09/2017:

VENCEDORES DO CONCURSO (Chequem seus emails por gentileza)

  1. quinteros.rocio@
  2. analuciavendel@
  3. talita.deffente@
  4. natalia_valli@
  5. anapaula.cutolo@
  6. melinacaldani2@
  7. storino.sandra@
  8. ana.abreus@
  9. marianacarraca@
  10. lorenabit@
  11. ananery.pmg@
  12. muchmamae@
  13. simonemenzani@
  14. carolfesteves@
  15. vivianevieira@
  16. vi_assis@
  17. persis.castro@
  18. draamandaluiza@
  19. biancapizzato@
  20. cibeleneves@
  21. @mairasoares
  22. anairampasquale@

 

Lembrando que todas as fotos recebidas serão utilizadas para divulgar o “Baby-led Weaning” no Brasil! 🙂 Gill e Tracey receberam as fotos com muito carinho e se propuseram também a utilizar as fotos no Workshop que farão em São Paulo! ❤

Aproveito pra divulgar o site oficial do evento, com informações sobre o lançamento do livro, Palestras e Workshops, e a introdução do livro já em português pra vc baixar em PDF! Corre lá!

Muito obrigada a todas que participaram!!!

Com carinho,

Ana, Aline e toda equipe

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Que tal ter uma foto criativa do seu bebê na versão brasileira do livro ‘Baby-led Weaning‘, de Gill Rapley e Tracey Murkett?

Em parceria com a Editora Timo, lançamos o #concursoBLWnoBrasil

Baixe o regulamento nesse link: Regulamento Concurso Cultural.

Escolha uma categoria e envie sua foto!

As melhores fotos, além de participarem da edição brasileira do livro, ganharão um exemplar autografado e um acesso à transmissão ao vivo do evento com as duas autoras no Brasil!

Demais né!!!  Compartilha com alguém que você acha que gostaria de participar!!!

 

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O que você não sabe sobre o Baby-led Weaning

Introdução alimentar: tradicional, BLW ou participativa? – Parte II

por Aline Padovani, Fonoaudióloga

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Na introdução alimentar tradicional são os pais quem decidem quando e como o bebê começa a comer, e quando acaba a alimentação à base de leite. Já no baby-led weaning, o bebê tem autonomia para decidir quando começa e quando termina todo esse processo, e a alimentação é baseada nos seus instintos inatos e na sua capacidade de auto-regulação.

O BLW é uma abordagem de introdução alimentar que engloba oferecer alimentos saudáveis, compartilhando as refeições da família, certificando-se de que apenas o bebê coloque comida em sua própria boca. Aos pais e cuidadores, fica a responsabilidade de confiar que ele saiba se deve comer, o que comer, o quanto e com que rapidez – além de oferecer alimentos palpáveis desde o início, possibilitando assim que eles peguem com suas próprias mãos (Rapley, 2016).

E assim como a Introdução Alimentar Tradicional, o BLW também está cerceado por crenças que dificultam o entendimento da abordagem e, portanto, dificultam sua aceitação. Inúmeras famílias adaptam-se completamente ao BLW, sendo urgente a desmistificação de alguns conceitos para que os profissionais da saúde que acompanham essas famílias estejam aptos e prontos para aconselhá-las.

Saiba mais sobre o Curso Avançado em BLW e Introdução Alimentar ParticipATIVA.

 

“BLW é comer alimentos em pedaços”

Eu costumo dizer que os alimentos em pedaços são o meio e não o fim. Adequar os cortes dos alimentos para que o bebê possa pegá-los é muito importante pois, de outra forma, suas habilidades seriam insuficientes pra que ele tivesse autonomia pra se auto-alimentar, sem interferência, desde o início. Mas embora seja uma etapa fundamental do processo, o objetivo principal é que a partir da apresentação dos alimentos em pedaços, o bebê seja capaz de ser o protagonista da sua própria alimentação.

Assim, BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança dele para saber o que ele precisa. Se você está preocupado em oferecer o que restou com uma colher, depois do bebê ter comido com suas próprias mãos, então você não está realmente confiando nele. E o ponto é que confiar em seu bebê e não confiar muito nele são simplesmente incompatíveis. Assim, ao fazer algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação da colher pode funcionar para você, mas não é BLW (Rapley, 2016)

Leia mais: O que você está fazendo é BLW? E isso importa?

 

“Bebês não são capazes de comer sozinhos”

Não apenas os bebês SÃO capazes de comer sozinhos a partir dos seis meses, como muitos aceitam ser alimentados apenas dessa forma. Muitas famílias relatam que nem sabiam sobre a existência do BLW (“isso já existia desde que o mundo é mundo”), mas já entendiam que essa era a única forma que o bebê estava disposto a se alimentar.

Bom, você ainda pode não estar convencido disso, até ver essa enorme quantidade de bebês comendo por si só aqui.

Vale ressaltar que estamos falando de bebês nascidos a termo, em desenvolvimento típico. Quaisquer condições que dificultem ou prolonguem demasiado o aprendizagem da auto-alimentação, com certeza fazem com o que o BLW seja repensado. Cada caso deve ser avaliado individualmente pelo profissional de saúde que acompanha a família e o bebê.

 

“Bebês precisam comer papinhas”

Como vimos, a história da “papinha batida” tem sua fundamentação em toda a história da alimentação complementar. Bebês que iniciam a alimentação precocemente, devido à imaturidade no desenvolvimento motor, não tem outra opção senão receber um alimento pastoso homogêneo na colher. Por outro lado, ao estudar o desenvolvimento infantil, fica muito evidente que a oferta de semi-sólidos e sólidos poderia ser iniciada à partir de sinais de prontidão do bebê, observados através das habilidades de auto-alimentação que se tornam mais intensas e presentes por volta dos seis meses de vida.

Leia mais: Introdução alimentar: tradicional, BLW ou participativa? – Parte I

E é através da História que entendemos que existe um senso comum, que diz que os primeiros alimentos do bebê precisam ser amassados, homogêneos e oferecidos em uma colher. Rapley (2008, 2015) ressalta que, apesar desse senso comum, essa não é de fato uma prática comprovada cientificamente. Segundo a autora, não existem evidências que suportem a necessidade de um bebê de seis meses iniciar sua alimentação apenas com alimentos pastosos homogêneos, ou mesmo a necessidade de receber colheradas.

Cichero (2016-1), em uma revisão de literatura, tentou fortemente defender a ideia de que os bebês não estão preparados para manejar alimentos em pedaços aos seis meses, descrevendo todo o padrão de aprendizagem das habilidades motoras orais estudado até então. Mas durante toda sua revisão, a autora utiliza, em sua maioria, artigos e textos de livros escritos previamente à 2003, quando a OMS passou a indicar a introdução alimentar aos seis meses. Foi nessa mesma época que Gill Rapley também começou a falar sobre Baby-led Weaning, lançando seu primeiro livro apenas em 2008. Fato é, não adianta comparar o desenvolvimento dos bebês que fazem BLW desde o início, com os bebês que começam a introdução alimentar através da decisão do adulto e sendo alimentados passivamente com a colher. Novos estudos sobre o desenvolvimento motor oral, a partir da prontidão do bebê para se auto-alimentar, são necessários para trazer luz à essa discussão.

Atualmente, a OMS orienta oferecer alimentos que a criança possa pegar somente a partir dos 9 meses, enquanto o Ministério da Saúde do Brasil e Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam aumentar gradativamente a consistência da “papa” a partir dos 8 meses. A Sociedade Brasileira de Pediatria se posicionou recentemente (2017) em seu Guia Prático de Atualização sobre Alimentação Complementar e o Método Baby-led Weaning e, em sua conclusão, orienta:

“Reconhece-se que no momento da alimentação complementar, o lactente pode receber os alimentos amassados oferecidos na colher, mas também deve experimentar com as mãos, explorar as diferentes texturas dos alimentos como parte natural de seu aprendizado sensório motor. Deve-se estimular a interação com a comida, evoluindo de acordo com seu tempo de desenvolvimento.”

A UNICEF e o NHS do Reino Unido, em parceria, lançaram o Start4life, uma iniciativa para auxiliar os pais a darem um começo de vida mais saudável a seus bebês. Em sua brochura (2011), não mencionam o baby-led weaning, mas orientam:

“A partir dos 6 meses, incentive o bebê a comer alimentos em pedaços que ele possa facilmente segurar com as mãos, para ajudar ele a praticar por ele mesmo. Comece com alimentos em pedaços que se amassam facilmente na boca e que são grandes o suficientes para que eles consigam agarrar com as mãos. Sempre fique ao lado do seu bebê enquanto ele está comendo.”

Já o artigo ilustrado a seguir é referente ao ano de 1964, período no qual os bebês começavam a comer “a qualquer momento a partir do nascimento”:

1964 -

“Deveriam ser dados sólidos para as crianças mastigarem a partir do momento em que elas estão prontas: em uma criança típica isto acontece aos 6 – 7 meses”

 

“Bebês não conseguem mastigar e engolir pedaços”

Essa crença deriva da crença anterior, relacionada ao estudo das funções orais através de pesquisas feitas com bebês alimentados passivamente com a colher. Como discutimos anteriormente, novos estudos são necessários para avaliar o desenvolvimento das funções orofaciais a partir da prontidão do bebê para se auto-alimentar.

O BLW considera o desenvolvimento da maioria dos bebês aos 6 meses, incluindo a prontidão para receber alimentos sob diferentes perspectivas: sistema gastrodigestivo está mais preparado, o controle postural permite que o bebê comece a sentar sem apoio por volta desta idade, os primeiros dentes podem começar a nascer, o bebê está adquirindo maior movimentação da musculatura proximal e distal, conseguindo alcançar, agarrar objetos e levá-los à boca, o que leva à inibição do reflexo de protrusão de língua. O reflexo de gag ainda encontra-se anteriorizado, protegendo o bebê contra engasgos, principalmente no início, onde eles ainda estão aprendendo a mastigar.

Cichero (2016-2), em uma segunda revisão de literatura, novamente tenta reforçar que os bebês precisam passar por uma fase de transição, aprendendo a mastigar por meio da exposição à papa com pequenos pedaços macios, passando a mastigar de forma segura, alimentos naturalmente macios, como banana e abacate apenas a partir dos 10 meses. Toda a base de seu estudo e revisão são de datas anteriores à descrição do BLW e, como já coloquei anteriormente, não há como explicar o BLW através de pesquisas sobre mastigação feitas com bebês em introdução alimentar tradicional. Observe a tabela a seguir (em inglês):

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Cichero, 2016 (2)

Curiosamente, desde que o BLW começou a ser difundido, primeiramente na Inglaterra em 2002, e mundialmente após o lançamento do primeiro livro da Gill Rapley em 2008, não houve nenhum relato de caso de efeito adverso com o uso da abordagem, até o momento. Muito pelo contrário, a abordagem vem sendo cada vez mais compreendida e utilizada na prática, conforme pode ser visto nesse link aqui. O vídeo a seguir mostra um bebê de quase seis meses comendo seu primeiro alimento:

Em sua tese de doutorado, Delaney (2010) encontrou evidências de que purês não necessariamente são mais fáceis de comer e que, aprimorar as habilidades em comer purês não melhora a forma com que lidamos com os sólidos. Delaney também encontrou evidências que a experiência acelera o desenvolvimento das habilidades mastigatórias para acima do que seria esperado apenas pela maturidade do desenvolvimento. Observou também que bebês de 8 meses são capazes de demonstrar um grande número de habilidades, em uma variedade de texturas, contrariando o que antigamente se considerava padrão.

Rapley (2016), em resposta à um estudo neozelandês que compara a introdução alimentar tradicional ao baby-led weaning, diz o seguinte:

“Quando se trata de engasgo, é importante notar que a natureza do alimento não é o único fator. A postura e habilidades de mastigação do indivíduo também importam, assim como sua capacidade em se concentrar na alimentação.

(…) alguns escritores acreditam que os bebês BLW podem ser mais propensos a sufocar “porque eles estão se alimentando de alimentos integrais durante os estágios iniciais da alimentação complementar, enquanto eles ainda estão aprendendo a mastigar e engolir”. Mas isso implica que os bebês podem “aprender” a mastigar e engolir sem ser dado qualquer coisa mastigável. Não é assim que o desenvolvimento funciona!

De fato, não há evidência de que os bebês BLW estejam mais em risco de engasgamento do que bebês que são alimentados com colher.

Na verdade, o oposto pode até ser verdade, uma vez que os bebês BLW têm a oportunidade de praticar a mastigação a partir do momento em que as habilidades relevantes estão se desenvolvendo. Além disso, uma vez que não estão sob pressão para comer, eles são capazes de se concentrar no alimento e comer conscientemente, em seu próprio ritmo, o que lhes permite concentrar-se no que está acontecendo dentro de sua boca.

Se é o caso que os pais BLW são mais propensos a oferecer alimentos que apresentam um “risco de asfixia”, pode ser porque os bebês têm demonstrado que eles têm as habilidades necessárias para gerenciá-los.”

Pra finalizar, um estudo conduzido por Fangupo e colaboradores (2016) acompanhou mais de 180 famílias divididas entre aquelas que praticavam a auto-alimentação e aquelas que ofereciam a alimentação na colher. Os pesquisadores observaram que bebês que se auto-alimentavam não apresentaram maior ou menor risco de engasgo do que aqueles submetidos à uma prática mais tradicional. Na verdade, para ambos os grupos foram oferecidos alimentos potencialmente perigosos. O que significa que é preciso orientar muito bem os cuidadores a respeito de práticas seguras de alimentação, não importando a abordagem que será empregada.

 

“Bebês tem que se ‘acostumar’ à colher

Durante muitos e muitos anos os bebês foram obrigados a começar a comer muito cedo, então não havia outra opção senão “se acostumar à colher”. Primeiro porque é apenas por volta dos seis meses que o bebê consegue sentar sem apoio e liberar os braços, as mãos e a mandíbula, o que é essencial para a auto-alimentação. E também porque, como o reflexo de protrusão de língua ainda é muito forte e presente antes dos seis meses, utilizava-se a colher para inibir esse reflexo e, assim, conseguir alimentar o bebê.

Dessa forma, o adulto empurrava a comida dentro da boca e o reflexo de protrusão de língua jogava todo o alimento para fora. Até que, empurrando continuamente a colher sobre a língua, o reflexo era inibido e o bebê finalmente “se acostumava” à situação, praticamente apenas deglutindo a sopa espessa que lhe era colocada na boca.

Observando o desenvolvimento natural das habilidades de auto-alimentação, é bem nítido que o reflexo de protrusão de língua começa a desaparecer à medida que outros sinais vão ficando bem evidentes, como a melhora da preensão e do alcance de objetos, que vão em direção à boca e são manipulados com lábios, língua e bochechas pelo próprio bebê. Assim, a colher se torna um mero detalhe.

Bom, a natureza parece muito sábia, não é? Mas os humanos se acham muito espertos e continuaram a empurrar a colher na língua do bebê para poder ‘inibir’ esse reflexo e, por volta dos seis meses, poder oferecer pequenos pedaços misturados à sopa. Anos depois, foi-se dado conta que o sistema gastro-digestivo do bebê está melhor preparado para receber outros alimentos, além do leite materno, apenas após os seis meses. O que coincide com o desaparecimento natural do reflexo de protrusão de língua. Será apenas um acaso da natureza? Ou o próprio corpo do bebê avisando que ainda não está preparado? Ainda não existem pesquisas que comprovem essa teoria.

O que se sabe é que o modo como os bebês e crianças pequenas aprendem seus hábitos e preferências alimentares, dentro do contexto da relação cuidador-criança, ainda é pouco estudado. Existem evidências que suportam tanto contribuições feitas pela exposição precoce à práticas tradicionais (como alimentar com uma colher), como também por outras três formas de aprendizagem: familiarização, associação e observação (Birch & Doub, 2014).

A aprendizagem através da familiarização acontece através da experiência. E a distinção entre o que é familiar e o que não é tem um peso muito forte na avaliação da criança: o que lhe é familiar tende a ser preferido, e o que não é tende a ser evitado. Assim, as crianças tendem a preferir objetos, pessoas e atividades que lhe são familiares. Por isso, dar oportunidades para o bebê ter contato com os talheres desde cedo é essencial. Ele não precisa usar, a princípio. Com o tempo, e dadas devidas oportunidades, ele vai se interessar e tentar usá-lo.

A aprendizagem associativa envolve a associação entre duas situações e/ou estímulos. Então, no caso dos talheres, não necessariamente é preciso que ele seja alimentado com o talher desde cedo. A princípio, ele pode por exemplo usar um pão ou um palito de legume para capturar um purê grosso e levar à boca. As situações às quais o bebê é exposto o ensinam muito, ainda que ele não seja diretamente alimentado com uma colher.

A aprendizagem observacional, como o próprio nome diz, acontece pela observação dos modelos. As influências sociais tem um peso importante e entre os principais modelos estão os pais, a família, outros cuidadores e a creche/escolinha. Por isso, se culturalmente todos à volta do bebê comem com talheres, é bem improvável que ele vá comer com as mãos pra sempre.

 

“Bebês não comem o suficiente por si só”

Nós temos uma mania muito inconveniente de achar que sabemos exatamente o quanto o outro deveria comer.  Quando uma mãe está amamentando, ela é frequentemente posta à prova: “seu leite não é suficiente, você precisa complementar”. Quando o bebê começa a comer, logo surgem os comentários: “ele come muito pouco, ele precisa comer mais”. E o que acontece na adolescência e vida adulta? A quantidade é sempre posta à prova.

Embora se tenha uma ideia do que cada indivíduo precisa pra se manter vivo e saudável, não se sabe ao certo o quanto cada um precisa para saciar a sua própria fome e seu desejo de comer. A família tem um papel fundamental no modo como a criança aprende a comer, especialmente através de estratégias que utiliza para reconhecer os sinais de fome e saciedade. A auto-suficiência da criança em relação à sua ingestão de comida é o que contribui para um comportamento alimentar adequado (Silva e colaboradores, 2016).

O que acontece é que, no baby-led weaning, não há interferência externa, então não há a dependência da interpretação e intervenção do cuidador. Como o BLW é centrado na auto-alimentação e, no início, as habilidades motoras limitadas dificultam a ingestão de grande quantidade de alimentos, existe um grande medo grande por parte de pais e profissionais de que o bebê não vá receber tudo o que precisa.

Mas entender que a transição do leite para o alimento sólido deve ser gradativa é fundamental para diminuir as expectativas em relação às quantidades que o bebê vai comer nas primeiras ofertas de comida, evitando frustrações que geram o ciclo de recusa alimentar da criança.

 

Leia Mais: Recusa, controle e distúrbios alimentares: o efeito bola de neve

O quadro a seguir mostra como o leite materno se mantém como principal fonte de energia durante os primeiros meses de introdução alimentar, sendo ultrapassado pelos alimentos somente entre 12 e 24 meses.

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Leia mais: BLW: O bebê vai comer tudo o que precisa?

É claro que existem questões não respondidas, como a ingestão adequada de micronutrientes, por exemplo. Isso pode ser particularmente relevante se alimentos de baixa densidade calórica, como legumes e frutas, forem predominantes na dieta do bebê. Por isso, independente da abordagem escolhida para a introdução alimentar, é urgente e necessário que profissionais da saúde enfatizem a importância de se incluir alimentos energéticos e ricos em ferro desde o início da alimentação complementar (Morison e colaboradores, 2016).

Leia mais: Garantindo energia e ferro para o bebê no BLW

E ainda que o BLW seja provavelmente passível de ser seguido pela maioria das famílias de bebês nascidos a termo e em desenvolvimento típico, é claro que pode não ser a melhor opção para todos os bebês em todas as situações. Bebês com atraso no desenvolvimento motor ou outras alterações orais e/ou motoras podem não ser capazes de atingir suas necessidades calóricas e de nutrientes sem precisar de alguma assistência durante a alimentação (Cameron e colaboradores, 2012).

Leia mais: O BLW é o melhor método de introdução alimentar?

 

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Referências

Birch & Doub. Learning to eat: birth to age 2y. Am J Clin Nutr 2014; 99: 723S.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., 2. reimpr. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015.

Castilho, SD & Barros Filho, AA. (2010). Alimentos utilizados ao longo da história para nutrir lactentes. Jornal de Pediatria, 86(3), 179-188.

Cichero, J. (1), Introducing solid foods using baby-led weaning vs. spoon-feeding: A focus on oral development, nutrient intake and quality of research to bring balance to the debate. Nutr Bull: 41(1), 2016.

Cichero J (2). Unlocking opportunities in food design for infants, children, and the elderly: Understanding milestones in chewing and swallowing across the lifespan for new innovations. Journal Texture Studies, 2016.

Delaney & Arvedson. Development Of Swallowing And Feeding. Dev Disabil Res Rev, 2008.

Delaney AL. Oral-motor movement patterns in feeding development. PhD (Communicative Disorders). University of Wisconsin-Madison. 2010.

DEWEY, KATHRYN G.; BROWN, Kenneth H. Update on technical issues concerning complementary feeding of young children in developing countries and implications for intervention programs. Food and Nutrition Bulletin, v. 24, n.1, p. 5-28, 2003.

FANGUPO, L. J.; HEATH, A. M.; WILLIAMS S. M.; et al. A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. 138(4), 2016.

Harbron et al. Responsive feeding: establishing healthy eating behaviour early on in life. S Afr J Clin Nutr S141 2013;26(3).

Le Reverend et al. Review: Anatomical, functional, physiological and behavioural aspects of the development of mastication in early childhood. British Journal of Nutrition, 2013.

Morison, BJ; Taylor, RW; Haszard, JJ et al (2016) ‘How different are baby-led weaning and conventional complementary feeding? A cross-sectional study of infants aged 6-8 months’, BMJ Open

PAHO/WHO. Guiding principles for complementary feeding of the breastfed child. Washington DC, Pan American Health Organization/World Health Organization, 2003.

Rapley & Murkett. Baby-led Weaning: The essential guide to introducing solid foods and helping your baby to grow up a happy and confident eater. The Experiment: New York, 2008.

Rapley G. Spoon-feeding or self-feeding? The infant’s first experience of solid food. PhD (Philosophy). Canterbury Christ Church University. 2015.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP 2012.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia: Guia Prático de Atualização. A Alimentação Complementar e o Método BLW (Baby-Led Weaning). Maio 2017.

 

O que você está fazendo é BLW? E isso importa?

por Gill Rapley, Julho 2016*

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Recebo muitas perguntas sobre ser possível mudar da introdução alimentar tradicional para o BLW, ou fazer um pouco de ambos. Eu também ouço histórias sobre os pais que estão sendo convidados a deixar grupos online porque eles não são “verdadeiros” BLW. Então eu pensei que era hora de eu explicar o meu pensamento sobre tudo isso.

 

O que é BLW?

Pergunta-se frequentemente “Você está fazendo BLW ou você está alimentando na colher?”. Mas a verdadeira questão deveria ser “Você está fazendo uma abordagem dirigida pelo bebê ou uma tradicional?”. Isso porque a introdução alimentar guiada pelo bebê (BLW) não é um método de alimentação, mas uma abordagem com fundamentos sobre bebês e comida.

É sobre como você vê as capacidades do seu bebê em relação à alimentação, e não apenas se você o alimenta com uma colher.

BLW engloba oferecer alimentos saudáveis, compartilhando as refeições da família, certificando-se de que apenas seu bebê coloque comida em sua boca, e confiando que ele saiba se deve comer, o que comer, o quanto e com que rapidez – além de oferecer seus alimentos palpáveis desde o início e deixá-la pegá-los com as mãos. É muito possível decidir não usar colheres e papinhas, sem abraçar completamente a confiança e o respeito para o seu bebê, que é realmente sobre o que é o BLW.

Podemos “mudar” para o BLW?

Sim! Acredito firmemente que nunca é tarde demais para mudar para o BLW.

PORÉM, quando um bebê começou com papinhas, sendo alimentado com a colher, não podemos defini-lo como tendo sido inteiramente BLW (veja Porque as definições importam, abaixo), mas isso não significa que ele e seus pais não podem ser ditos atualmente seguindo uma abordagem BLW. Não é diferente de uma mãe que começa a alimentação de fórmula e, em seguida, muda para a amamentaçãoseu bebê não terá sido “exclusivamente amamentado” mas eles são, no entanto, uma dupla amamentando agora.

Todos têm o direito de mudar sua abordagem quando aprendem algo novo, ou quando descobrem que o que eles escolheram não está funcionando para eles.

Podemos “fazer um pouco de ambos”?

Este é um assunto delicado. Eu sou totalmente a favor dos pais fazendo o que funciona melhor para eles e seu filho. Se isso envolve uma combinação de alimentação de colher e auto-alimentação, que assim seja. O que não é, no entanto, é uma combinação de BLW e introdução alimentar tradicional – é apenas o processo convencional, a partir de seis meses (a partir de quando a papinha sempre foi recomendada).

BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança dele para saber o que ele precisa.

Se você o está enchendo com uma colher depois dele ter tido com próprias mãos, então você não está realmente confiando nele. O ponto é que confiar em seu bebê e não confiar muito nele são simplesmente incompatíveis. Assim, ao fazer algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação da colher pode funcionar para você, mas não é BLW.

Um monte de pais que dizem que estão “fazendo um pouco de ambos” estão de fato apenas seguindo a introdução alimentar tradicional, sem perceber. A razão está relacionada com o tempo: o BLW estava começando a ser falado aproximadamente na mesma época que a idade mínima recomendada para alimentação sólida estava mudando de quatro meses para seis meses (2002). O resultado é que muitos pais não percebem que alimentos sólidos já foram recomendados a partir de seis meses – juntamente com papinhas – antes disso. Eles acreditam, portanto, que oferecer ao seu bebê qualquer alimento sólido significa que eles estão “fazendo (um pouco de) BLW”.

Por que as definições importam?

A definição de BLW realmente importa? Eu acredito que sim, por duas razões.

Primeiro, é importante para os pais que estão ouvindo sobre BLW pela primeira vez. Se eles estão a tomar uma decisão informada sobre como eles querem abordar a introdução alimentar do seu bebê, eles precisam entender o caráter subjacente ao BLW. Se não o fizerem, poderão implementar apenas parte dele, e dessa forma desanimarem quando não funcionar. Pior, eles podem fazer algo perigoso, como colocar pedaços de comida na boca do bebê, o que poderia levar a asfixia.

A segunda razão pela qual acredito que a definição é importante é permitir um aumento do conhecimento sobre crianças e alimentos – globalmente. Se pensarmos que os benefícios a longo prazo para os bebês que fizeram BLW devem ser provados (melhores hábitos alimentares, menos risco de obesidade etc)  – ou mesmo desmentidos – pela pesquisa científica, então os estudos precisam definir clara e inequivocamente o que é um “verdadeiro BLW”. Se os pesquisadores se propuseram a comparar os bebês que foram BLW com os bebês à maneira tradicional, sem definir com precisão o que esses termos significam, então há um risco real de que alguns bebês serão ditos BLW, quando, por exemplo, eles tiveram papinhas pelas duas primeiras semanas, ou foram rotineiramente alimentados em certas refeições, ou foram sempre alimentados separadamente do resto da família.

Este enlameamento das águas tornaria os resultados da pesquisa sem sentido, e poderia muito bem significar que alguns dos benefícios reais da BLW não aparecem. É a mesma insistência dos pesquisadores para que haja uma definição clara de ‘amamentação exclusiva’, cuja importância só foi percebida quando as diferenças reais entre o aleitamento materno e a alimentação de fórmula começaram a surgir.

Pertencendo ao ‘clube’

Então o que isso significa para os grupos e fóruns BLW ?

Os pais que estão “fazendo um pouco de ambos”, ou que começaram seguindo uma abordagem convencional e depois “mudaram” para a BLW podem ser membros do “clube” BLW?

Minha resposta é sim, eu acho que eles deveriam. Embora eu acredite que é importante para todos que esteja claro se o que eles estão fazendo é ou não é BLW “de verdade”, eu não acredito que alguém deva se sentir excluído por não escolher (ou ser capaz) de segui-lo à risca. Todo mundo é diferente: para alguns, sua rede de apoio da família e amigos é pro-BLW, enquanto outros enfrentam resistência a cada dia. Alguns bebês têm desafios médicos ou de desenvolvimento específicos que afetam sua alimentação.

Para muitos pais, ser capaz de compartilhar as experiências dos outros é o que lhes dá a coragem de continuar no nível que eles estão, ou para dar um salto para o ‘completo’ BLW.

As pessoas se reúnem em diferentes pontos ao longo da rota parental, mas ainda podemos ser amigos e viajar juntos, compartilhando o que temos em comum, ao mesmo tempo, respeitando nossas diferenças. Embora não seja útil admitir pessoas cuja intenção é causar problemas, eu gostaria de pensar que alguém que está genuinamente interessado em descobrir mais sobre BLW poderia se sentir bem-vindo em um grupo BLW.

*Texto traduzido do site http://www.rapleyweaning.com, com autorização expressa da autora

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É cedo demais pra começar a introdução alimentar?

por Gill Rapley , Janeiro 2017*

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Tentar iniciar a introdução alimentar quando o bebê ainda não está pronto pode ser bem frustrante. Mas e quando o bebê demonstra todos os sinais que está pronto mas ainda não completou os 6 meses?

Frequentemente sou contatada por pais de bebês de 22-24 semanas que mostram interesse pela comida sólida. Eles estão com receio de começarem muito cedo, ainda que sintam que seus bebês estão dando claros sinais de que estejam prontos. Enquanto estou impossibilitada de oferecer um guia específico para bebês individualmente, minha resposta geral para esse dilema é como segue.

A ‘regra’ do 6 meses é importante porque mantém os bebês a salvo da intervenção precoce da introdução alimentar. Então eu sempre me refiro à isso em tudo que digo. Contudo, minha posição atual , baseada em minhas pesquisas e minha experiência clínica é que, qualquer coisa que o bebê esteja pronto pra fazer é provavelmente o que é certo para aquele bebê. Há uma boa razão para acreditar que as habilidades de desenvolvimento que são visíveis pra nós (como sentar na posição vertical) são confiáveis indicadores de que a natureza do sistema interno (digestivo) do bebê raramente comete erros.

Assim, se um bebê saudável pode (genuinamente) sentar na vertical, agarrar a comida e colocá-la em sua boca SOZINHO, então ele provavelmente está pronto pra fazer exatamente isso. Se ele também está pronto para mastigar – e talvez até mesmo engolir – isso é bom, mas é mais provável que essas habilidades sigam no devido tempo.

Uma das razões pela qual faço questão de enfatizar a ‘regra’ dos 6 meses, embora eu não considere algo imutável, é que é muito mais fácil para aqueles que não entendem o conceito de BLW, entender mal qualquer sugestão de que começar mais cedo do que é aceitável. Esse pode ser o começo de uma inclinação escorregadia para práticas perigosas, e absolutamente imperdoável.

O problema é que é tentador ver mais habilidade em um filho do que ele realmente apresenta, e oferecer apenas um pouco de ajuda para capacitá-lo, ou para alcançar um objetivo em particular. Na maioria das vezes isso não importa, mas quando se trata de comer, a capacidade do bebê – ou incapacidade – para manejar a sequência de ações necessárias é um importante fator de segurança.

Ajudá-los a superar um obstáculo que ainda não conseguem administrar por si mesmos (ex: fornecendo apoio extra para sentar ou estender a mão, guiando os braços para a boca, ou – pior – colocando a comida na boca ‘para ajudar’) é potencialmente perigoso. É útil lembrar que essa ‘conquista’ de comer é objetivo dos adultos não das crianças. O bebê não sabe o que é o ponto de tudo isso – ele está apenas descobrindo como funciona seu próprio corpo e as coisas ao redor dele.

Se ele não consegue levar a comida na própria boca, e daí? Ele não ‘falhou’- e ele não tem noção de que precisa de ajuda. O papel dos pais é dar a OPORTUNIDADE pra fazer tudo que ele estiver pronto pra fazer, seja tocando a comida, pegando, lambendo, mastigando e/ou engolindo – ou nenhuma das opções – e isso não capacita o bebê de fazer alguma coisa que ele ainda não consiga manejar.

Os seis meses representam uma média de idade de prontidão, da mesma forma que a maioria dos bebês dão seu primeiro passo por volta do seu primeiro aniversário. Claramente alguns estarão prontos pra andar mais cedo, e alguns mais tarde do que isso. Nós não tentamos impedir aqueles que estão prontos pra andar antes da idade ‘correta’.

Se nós estamos preparados pra aceitar que boa proporção de bebês não estão prontos pra se alimentar com comidas sólidas até terem sete, oito, nove meses, então é perfeitamente sensato permitir que também terão alguns que podem começar a fazer isso antes de alcançar a ‘mágica’ idade dos seis meses. O ponto crucial, da forma como vejo, é que essa atitude deve ser espontânea e independente. 

Em minha opinião, argumentos sobre a idade ‘certa’ para introduzir alimentos sólidos são importantes apenas se os pais é que estão decidindo quando colocar a comida na boca do bebê. Como acontece, é claro, com a introdução alimentar tradicional com a colher. Tais argumentos são redundantes se a decisão é feita pelo bebê, porque todos os bebês desenvolvem habilidades de comer em uma sequência definida, alinhadas com sua maturidade global.

Teoricamente, não há razão para não oferecer oportunidade para um bebê de um ou dois meses de idade sentar-se ou pegar alimentos de um prato. O que impede isso de ser uma opção sensata não é o fato de ser uma idade ‘errada’, mas sim o fato do bebê simplesmente não ser capaz de fazê-lo. O mesmo se aplica para três, quatro e cinco meses.

É extremamente improvável que qualquer infante abaixo de cinco meses e meio seria, sem nenhuma ‘ajuda’, capaz de conseguir mais do que o gosto de um alimento sólido.

Há aqueles que podem ser a exceção, não a regra. Desde que isso esteja completamente compreendido, começar sólidos, na minha opinião, não constitui um problema. A chave da mudança de tudo isso é que nós não temos as palavras certas para descrever a introdução de alimentos sólidos quando o bebê está no controle.

‘Começar sólidos’ com uma alimentação de colher e papinhas, significa alguém colocando comida na boca do bebê, no dia decidido por eles. Mas ‘começar sólidos’ usando o BLW simplesmente significa fornecer aos bebês a oportunidade de comer se e quando eles quiserem e forem capazes. É o bebê que decide a partir daí.

*Texto traduzido do site http://www.rapleyweaning.com, com autorização expressa da autora

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O BLW é o melhor método de introdução alimentar?

por Michelle Bento

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Essa semana me deparei novamente com a seguinte pergunta no facebook: “Existem estudos que comprovem que o BLW é o melhor método de introdução alimentar?”

Acompanhando a pergunta, pessoas a favor do BLW discutiam a ausência de pesquisas e sobre como argumentar com aqueles que pediam as evidências que comprovem todos os seus benefícios. E esse mesmo tipo de discussão eu já vi acontecer tantas outras vezes, incluindo outros assuntos também relacionados à maternidade.

Eu começo ponderando o título de “melhor” concedido ao BLW. A grande questão aqui não é querer convencer a todos de que o blw é melhor. Afinal, não existe UM melhor. O ponto aqui é mostrar que na verdade o que vem sendo feito tradicionalmente é que está péssimo! É levantar uma discussão sobre como podemos melhorar esse cenário adaptando esses conceitos difundidos através do baby-led weaning à realidade de cada família.

 

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E para várias premissas dos BLW existe sim base científica. E eu reuni aqui algumas delas.

Já está mais do que claro que a idade ideal para iniciar a alimentação complementar é aos 6 meses, não antes disso. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, “é apenas a partir dos 6 meses de idade que as necessidades nutricionais do lactente não podem ser supridas apenas pelo leite humano. Também é a partir dessa idade que a maioria das crianças atinge um estágio de desenvolvimento geral e neurológico (mastigação, deglutição, digestão e excreção) que a habilita a receber outros alimentos que não o leite materno”. O bebê de 6 meses tem uma capacidade motora completamente diferente do bebê de 4 meses, idade em que se recomendava (ou se recomenda, pois infelizmente ainda é muito comum ver profissionais fazendo essa indicação) iniciar os alimentos sólidos.

O quadro a seguir mostra como o leite materno se mantém como principal fonte de energia durante os primeiros meses de introdução alimentar, sendo ultrapassado pelos alimentos somente entre 12 e 24 meses. Como o BLW é centrado na auto-alimentação e no início as habilidades motoras limitadas dificultam a ingestão de grande quantidade de alimentos, existe um medo grande por parte de pais e profissionais de que o bebê não vá receber tudo o que precisa. Entender que a transição do leite para o alimento sólido deve ser bem gradativa é fundamental para diminuir as expectativas em relação às quantidades que o bebe vai comer nas primeiras ofertas de comida, evitando frustrações que geram o ciclo de recusa alimentar da criança.

 

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“Crianças amamentadas desenvolvem muito cedo a capacidade de autocontrole sobre a ingestão de alimentos, de acordo com as suas necessidades, pelo aprendizado da saciedade e pela sensação fisiológica da fome durante o período de jejum. Mais tarde, dependendo dos alimentos e da forma como lhe são oferecidos, também desenvolvem o autocontrole sobre a seleção dos alimentos. E esse autocontrole sofrerá influência de outros fatores como o cultural e social. A prática das mães/pais ou dos profissionais de saúde que adotam esquemas rígidos de alimentação prejudica o adequado desenvolvimento do autocontrole da ingestão alimentar pela criança”.

Esse trecho foi retirado do Guia Alimentar Para Menores de 2 Anos do Ministério da Saúde, reforçando que o bebê é capaz de determinar sozinho a quantidade de alimentos que deve ingerir, através da sua auto regulação de fome-saciedade. O papel dos cuidadores é somente dar oportunidade, através da oferta de alimentos saudáveis e variados. Cabe ao bebê dizer o que e o quanto deseja comer.

A Organização Mundial de Saúde recomenda a “prática da alimentação responsiva, que usa os princípios de cuidados psicossociais ao se alimentar a criança. A prática inclui o respeito ao mecanismo fisiológico de auto-regulação do apetite da criança, ajudando-a a se alimentar até estar saciada, e requer sensibilidade da mãe/cuidador às indicações de fome e de saciedade da criança. Recomenda-se alimentar a criança lenta e pacientemente até que ela se sacie, jamais forçando-a a comer. As refeições devem ser prazerosas, com troca amorosa entre a criança quem a está alimentando, por meio de contato visual, toques, sorrisos e conversa. Se a criança recusar muitos alimentos, pode-se experimentar diferentes combinações, sabores, texturas e métodos de encorajamento não-coercitivos e que não distraiam a criança da refeição. Há evidências de que o estilo mais ativo de alimentar a criança melhora a ingestão de alimentos e o seu estado nutricional, bem como seu crescimento”.

Corroborando isso, um estudo bem recente, publicado agora no início do ano mostra que a alimentação responsiva é associada com melhores hábitos alimentares e uma melhor auto regulação de ingestão energética. Pais que utilizaram práticas alimentares não responsivas e não forneceram uma estrutura de alimentação adequada (tempo, local adequado e envolvimento familiar) relataram maiores dificuldades para que a criança comesse. Ao contrário, as famílias que usavam menos as práticas não responsivas e ofereciam melhor estrutura, relatavam que as crianças aproveitavam mais as refeições e não tinham dificuldade para comer.

Sobre o medo do bebê possa engasgar ao se auto-alimentar, um estudo conduzido por Fangupo e colaboradores (2016) acompanhou mais de 180 famílias divididas entre aquelas que praticavam a auto-alimentação e aquelas que ofereciam a alimentação na colher e concluiu que, desde que se forneça orientação adequada, bebês seguindo a abordagem BLISS (baby-led introduction to solids) não parecem estar sob maior risco de engasgo do que aqueles que seguindo uma prática mais tradicional. Na verdade, em ambos os grupos foram oferecidos alimentos potencialmente perigosos, o que significa que é preciso orientar muito bem os cuidadores a respeito de práticas seguras de alimentação, não importando a abordagem que será empregada.

 

Leia Mais: Prevenindo o engasgo: a escolha do adulto faz toda a diferença

 

É claro que ainda existem questões não respondidas, como a ingestão adequada de micronutrientes, por exemplo. E para isso precisamos de mais estudos específicos com o BLW. Mas já temos o suficiente para mudar as práticas tradicionais e estimular a participação ativa do bebê no processo de introdução alimentar. Então vamos nos unir para incentivar esse tipo de abordagem mesmo que para algumas famílias o BLW não se encaixe. Dá pra fazer muito bem às nossas crianças ainda que elas não comam sozinhas os alimentos inteiros desde o começo. Basta apresentá-los na textura adequada, separados, com calma e respeitando as escolhas do bebê no que diz respeito à o que, quando e em que quantidade ele quer comer.

 

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Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

 

Referências:

MONTE, Cristina M. G.; GIUGLIANI, Elsa, R. J. Recomendações para alimentação complementar da criança em aleitamento materno. Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, v. 80, p. 131-141, 2004. Suplemento.

DEWEY, KATHRYN G.; BROWN, Kenneth H. Update on technical issues concerning complementary feeding of young children in developing countries and implications for intervention programs. Food and Nutrition Bulletin, v. 24, n.1, p. 5-28, 2003.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2 ed. – 2 reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 72p.

MONTE, C. M.; GIUGLIANI, E. R. Recommendations for the complementary feeding of the breastfed child. Jornal de Pediatria, v. 80, n.5, S131-S141, 2004.

FINNANE, J. M.; JANSEN, E.; MALLAN, K. M.; DANIELS, L.A. Mealtime Structure and responsive feeding practices are associated with lesse food fussiness and more food enjoyment in children. Journal of Nutrition Education and Behavior. V. 49, N.1, 2017.

FANGUPO, L. J.; HEATH, A. M.; WILLIAMS S. M.; et al. A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. 138(4), 2016.

 

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