O que você precisa saber sobre a Introdução Alimentar ParticipATIVA

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Como já conversamos anteriormente, existem muitos mitos e crenças a respeito de como deveria ser feita uma introdução alimentar adequada. Apesar de estar minuciosamente descrita em diversos manuais de saúde ao redor do mundo, incluindo a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Ministério da Saúde do Brasilna prática, algumas crenças são fortemente assimiladas e difundidas pela cultura popular, por profissionais da saúde desatualizados e pela Indústria. Grande parte dessas crenças são baseadas em uma cultura milenar, dentro de um paradigma relacionado à escassez de alimento. Isso faz parte de uma grande bola de neve que tem sido um dos principais responsáveis pelo aumento do sobrepeso e doenças correlatas na infância.

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Com a ampliação da discussão sobre a abordagem Baby-led weaning  (BLW), tem sido possível refletir profundamente sobre o modelo de introdução alimentar tradicional atual. Embora as pesquisas nesse campo tenham avançado, até os dias de hoje, quando se fala em introdução alimentar utilizando o termo tradicional, parece impossível desvincular a oferta da papinha assistida através do modelo passivo do “aviãozinho“.

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Fonte: Nani Humor

O BLW é um modelo completamente antagônico à essa alimentação complementar vista como tradicional, pois não prevê a oferta assistida pelos cuidadores em nenhum momento. Pelo contrário,  fundamenta-se na alimentação sob livre demanda e gerenciada pelo próprio bebê, confiando que ele possa ter total controle sobre sua própria alimentação, obviamente dentro da rotina proposta pela própria organização familiar.

Desta forma, ainda que os pais ofereçam alimentos em pedaços desde o início da IA, oferecer comida passivamente ao bebê vai na contramão dos principais fundamentos do BLW, que são o respeito à autonomia e a confiança de que o bebê sabe o que, quanto, como e com que ritmo irá comer. Para que ele exerça sua auto regulação sem interferências e sem a necessidade da interpretação do adulto em relação aos seus sinais de fome e saciedade.

Gill Rapley, em 2015, defendeu seu doutorado e nele observou algumas diferenças importantes ao comparar a auto-alimentação com a alimentação passiva com a colher. A seguir, as fotos mostram explicitamente como o bebê e o cuidador se comportam de formas bastante diferentes durante cada uma dessas situações:

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Dentro desse contexto, entender perfeitamente o que é o Baby-led Weaning é extremamente importante. Segundo Rapley, quem está ouvindo sobre BLW pela primeira precisa tomar decisões conscientes sobre o que estão fazendo ou pretendendo fazer. Caso contrário, tendem a desanimar quando o BLW “não funcionar”, mais frequentemente visto com a queixa “meu bebê não leva a comida à boca”, quando na verdade, no BLW há total respeito e confiança na própria intenção do bebê em levar ou não o alimento até a boca. Muitos bebês não demonstram prontidão para se alimentar até aproximadamente os 9 meses de vida e, de fato, forçar que ele prove um alimento em pedaço sem que ele esteja intrinsecamente pronto para recebê-lo poderia inclusive aumentar o risco de engasgo e levar a asfixia.

Leia mais: O BLW não deu certo comigo

Além disso, precisamos aumentar o conhecimento que temos sobre a alimentação infantil guiada pelo bebê. As pesquisas precisam de metodologia clara e concisa, caso contrário estamos comparando alho com bugalho, como dizia minha avó. BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança para saber o que ele mesmo precisa. Então “fazer um pouco de cada” ou “algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação assistida” pode funcionar pra você e pro seu contexto e dinâmica familiar, mas não é BLW.

E embora eu reconheça a importância da definição exata e das bases e fundamentos do BLW, concordo plenamente com o que Gill Rapley disse em seu workshop, em Novembro passado aqui no Brasil:

“o BLW é o ideal, mas a maternidade é real”

E a introdução alimentar tradicional vem historicamente tão cheia de significados, crenças e mitos, que fica impossível se encaixar em uma abordagem tradicional depois de entender e re-significar todo o paradigma que veio sendo criado ao longo do tempo. É dentro desse contexto que um grande número de famílias tenta encaixar os fundamentos da abordagem BLW na sua rotina de introdução alimentar, e não sabe muito bem ao certo explicar sua escolha. Geralmente dizem “faço um pouco de cada” – e como vimos, não existe “um pouco de BLW”.

Leia mais: Mitos e verdades sobre a introdução alimentar tradicional

Foi em 2015 que o termo Introdução Alimentar ParticipATIVA começou a ganhar força, ainda no meio online, por conta de uma hashtag que eu comecei a usar no instagram e que se popularizou. Hoje, já são milhares postagens com a tag #iaparticipativa. E essa abordagem, ao meu ver, tomou essa proporção pelo acolhimento aos milhares de cuidadores que se identificam com o BLW, mas não conseguem levá-lo à prática em 100% da sua dinâmica. Recebo centenas de mensagens de famílias que se encantam com o BLW, mas não conseguem aplicá-lo à risca. E é nesse “limbo” que a gente se encontra, nessa busca pelo respeito, confiança e autonomia, ainda que exista a oferta de alimento guiada pelo adulto. É na busca pelos fundamentos do BLW na realidade, no contexto e no dia a dia de cada um.

Meu principal objetivo com o termo Introdução Alimentar ParticipATIVA é popularizar os fundamentos do BLW e o que há de mais atualizado em termos do conhecimento que temos acerca da alimentação infantil, acabando de vez com o paradigma desatualizado que recai sobre o termo introdução alimentar tradicional. Chega de papinhas processadas, apetrechos desnecessários criados pela indústria, mingaus açucarados pra engordar e “abre a boca, olha o aviãozinho”.

Com o tempo, minha expectativa é que o termo seja até desnecessário, a ponto que toda e qualquer Introdução Alimentar seja orientada de forma adequada e atualizada, com o bebê sendo considerado o protagonista em todo esse processo. De forma inédita no Brasil, em 2017, a Sociedade Brasileira de Pediatria, que antes considerava a evolução gradual da consistência dos alimentos a partir dos 8 meses (papa com pedaços), em sua última publicação já reconhece que no momento da alimentação complementar o bebê também deve experimentar com as mãos, estimulando a interação com a comida, explorando as diferentes texturas dos alimentos como parte natural de seu aprendizado sensório motor e evoluindo conforme seu tempo de desenvolvimento.

Pela minha experiência, a “Introdução Alimentar ParticipATIVA” é uma abordagem que tem se mostrado, na prática, em um continuum de transição, do que antes considerávamos normal, para o cenário que o BLW nos trouxe à tona. Passamos de um modelo que era completamente passivo e baseado na quantidade, na necessidade de ingestão de comida e no medo do engasgo, para o paradigma da qualidade, da abundância de aprendizagem e do respeito e confiança no bebê durante esse período. Entendendo o desenvolvimento infantil dentro desse processo e a importância das oportunidades para o desenvolvimento das habilidades de auto-alimentação.

Essa transição se apresenta em uma linha contínua, que liga o paradigma tradicional ao guiado pelo bebê, considerando esses dois movimentos completamente opostos. E onde coexistem, na linha desse continuum, milhares e milhares de cuidadores e bebês com suas devidas realidades, crenças, culturas, necessidades e dinâmicas familiares.

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Mudança do paradigma tradicional para o da introdução alimentar guiada pelo bebê. (Padovani, 2017)

 

Vale ressaltar que a Introdução Alimentar ParticipATIVA vai de encontro aos Manuais Oficiais de introdução alimentar em vigor no Brasil e no Mundo. E muito além, incentiva as famílias a entenderem o processo de prontidão do bebê, dentro da construção de uma rotina flexível, que tem início aos seis meses, e permite que gradativamente o bebê tenha espaço e oportunidade para se interessar pelos alimentos e começar a comer dentro do modelo de divisão de responsabilidades, como o proposto por Ellyn Satter e ampliado por Gill Rapley. Os cuidadores são incentivados a apresentar, desde o início da introdução alimentar, os alimentos em seu formato original, possibilitando não apenas que as crianças experienciem o máximo possível de sensações desde o seu primeiro contato com os alimentos, como também tenham cada vez mais autonomia, conforme progridem suas habilidades de auto-alimentação.

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Modelo de Divisão de Responsabilidades em uma abordagem ParticipATIVA

 

Leia mais: O que você não sabe sobre o Baby-led Weaning


Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co

Saiba mais sobre o Curso Avançado em Introdução Alimentar ParticipATIVA e Baby-led Weaning AQUI.

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Referências:

 

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção
Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos: um guia para o profissional da saúde na atenção básica. 2ª. ed, Ministério da Saúde, Brasília, 2013.

Padovani AR. Introdução Alimentar ParticipATIVA. Versão digital em e-book. Copyright CONALCOLab 2017 (no prelo).

Rapley G, Tracey M. Baby-led weaning: o desmame guiado pelo bebê. Editora Timo, 2017.

Rapley G. Spoon-feeding or self-feeding? The infant’s first experience of solid food. PhD (Philosophy). Canterbury Christ Church University. 2015.

Satter E. Child of Mine: feeding with love and good sense. Bull Publishing Company. 2000.

Sociedade Brasileira de Pediatria. A Alimentação Complementar e o Método BLW (Baby-Led Weaning). Departamento de Nutrologia, Guia Prático de Atualização, nº3. Maio, 2017.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP, 2012.

World Health Organization. Department of Nutrition for Health and Development. Complementary feeding: family foods for breastfed children. Geneva: WHO, 2000.

WHO. Global Consultation on Complementary Feeding. Guiding Principles for Complementary Feeding of the Breastfeed. December 10-3, 2001.

BLW: onde estamos e para onde vamos?

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Após a descrição da introdução alimentar em livre-demanda ter sido publicada e descrita no livro “Baby-led weaning”, de Rapley e Murkett, em 2008, alguns pesquisadores começaram a se interessar e estudar o método. Em sete anos, ainda restam muitas dúvidas, mas as linhas de pesquisa já começam a ganhar forma. Gill Rapley, idealizadora do método, nos conta em seu website que, além dos estudos já publicados, ainda existem mais alguns em andamento, incluindo uma grande pesquisa sobre os riscos de gag e engasgo, comparando os métodos tradicional versus BLW. Ela mesmo está concluindo sua tese de doutorado, comparando alimentação passiva versus auto-alimentação do ponto de vista do bebê. Então muita informação ainda está por vir.

Um dos principais problemas no estudo e avanço das pesquisas em BLW é o fato destas serem feitas sumariamente por meio de questionários respondidos por voluntários. Isso pode facilmente enviesar resultados, já que as pessoas que se candidatam tem, de certa forma, grande interesse na divulgação do método. Além disso, entende-se que essa auto-seleção impacta em maiores graus de escolarização e idade entre os respondentes, comparativamente à população geral. É como avaliar apenas uma parte da população que não reflete a população geral.

Amy Brown, uma forte pesquisadora no assunto, acabou de publicar um artigo que investigou as diferenças no comportamento alimentar, bem-estar e personalidade entre um grupo de mães que segue uma introdução alimentar “baby-led” versus um grupo que segue uma abordagem tradicional. Essa pesquisa avaliou 604 questionários e seus resultados estatísticos mostraram que as ”mães BLW” tinham um grau de escolaridade significativamente maior, além de maior propensão a ter uma profissão com cargo gerencial. Observou também que as “mães BLW” tiveram menores pontuações em características pessoais que geralmente são associadas com obesidade infantil.

Outros estudos demonstraram que as “mães BLW” tendem a amamentar por mais tempo e introduzir a alimentação complementar mais tarde, quando comparadas às mães que seguem uma abordagem tradicional. Além disso, tem um estilo de alimentação menos restritivo, colocam menos pressão na situação de alimentação e tem menor preocupação em monitorar o peso da criança. Amy Brown reforça que esses achados, por si só, já podem interferir positivamente nas escolhas alimentares e experiências durante a introdução alimentar. Consequentemente, estão diretamente relacionados às diferenças encontradas em relação ao peso e comportamento alimentar entre os grupos.

Enquanto existem diversos estudos mostrando essas diferenças de estilo de vida e comportamento, ainda não foi publicado nenhuma pesquisa que mostre os efeitos do BLW na qualidade nutricional das dietas das famílias que seguem o método. Um estudo-piloto publicado em 2012 sugere que a família tende a modificar sua dieta nos três primeiros meses, mas depois disso retorna à alimentação ao usual. Os pesquisadores ressaltam o receio quanto à oferta excessiva de sódio e gorduras saturadas, e à adequação e balanceamento nutricional das dietas familiares, o que pode acabar colocando em risco o desenvolvimento e saúde geral da criança.

Uma extensa revisão de literatura foi publicada pela revista Nutrients, em 2012, reiterando a abordagem “Baby-led Weaning” como uma opção praticável para muitas crianças no momento da introdução da alimentação complementar. Porém, reforça algumas perguntas que, até a data de hoje, não temos resposta:

• Esses bebês conseguem obter nutrientes suficientes, incluindo aporte calórico e ferro?
• Esses bebês se alimentam com uma maior variedade de alimentos?
• O BLW é uma abordagem viável na prevenção da obesidade infantil, através da auto-seleção da ingestão?
• Anemia, engasgo e falha no crescimento são realmente preocupações reais para os bebês que seguem uma abordagem BLW?

Para se pensar no BLW em uma perspectiva populacional, seria necessário um estudo que avaliasse os riscos e benefícios do método, determinados pelo acompanhamento a longo prazo de dois grupos selecionados ao acaso, comparando-se os resultados entre o grupo BLW e o grupo controle. Não é um estudo fácil e nem tende a sair de uma hora para a outra. E enquanto não se tem uma resposta científica, as famílias que se interessam e são adeptas ao método continuam a se informar e compartilhar experiências através dos diversos fóruns de discussão sobre o assunto na internet.

Alguns países já se posicionaram a respeito do método, como é o caso da Nova Zelândia, onde o Ministro da Saúde desestimulou publicamente a utilização do método por entender que ainda não existem evidências científicas suficientes. O Departamento de Saúde Pública do Reino Unido, por sua vez, não cita o termo “BLW”, mas em uma publicação recente sobre a introdução da alimentação complementar, o Start4Life, em 2009, já incentiva as mães à oferecerem alimentos macios em pedaços a partir dos seis meses.

De qualquer forma, práticas como: incentivar hábitos familiares saudáveis, incentivar a participação ativa do bebê durante o processo de introdução alimentar, observar atentamente os sinais de fome e saciedade, não forçar a criança a comer e incentivar a mastigação já estão descritas pela OMS e são destacadas nos manuais da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2012 e no Guia Alimentar para crianças até 2 anos do Ministério da Saúde de 2013.

O que as pesquisas também não contam pra gente é o porquê ainda tantos profissionais não incentivam essas práticas, já que são amplamente conhecidas e comprovadas cientificamente como formas de melhorar a qualidade da saúde e comportamento alimentar das nossas crianças.

Enquanto muitos profissionais enxergam o BLW como “moda”, eu prefiro divulgar o método como uma maneira simples e eficaz de introduzir todas essas práticas no dia-a-dia de cada família, de forma simples e agradável para todos. Ainda que o BLW ainda não esteja cientificamente provado, todos os seus fundamentos fazem total sentido e a maioria pode facilmente ser incorporado na prática de quem opta por uma introdução alimentar participativa. Assim, ainda que o BLW não possa ser visto no âmbito da Saúde Pública, não há porque desconsiderar o método em uma consulta individualizada.

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Referências:

Brown A. Differences in eaing behaviour, well being and personality bettwen mothers following baby-led vs.traditional weaning styles. Maternal and Child Nutrition, 2015.

Sachs M. Baby-led weaning and current UK recommendations: are they compatible? Guest Editorial. Maternal and Child Nutrition, 2011.

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Brown A, Lee MD. Early influences on child satiety-responsiveness: the role of weaning style. Pediatric Obesity 2013.

Cameron, Sonya L., Anne-Louise M. Heath, and Rachael W. Taylor. “How feasible is baby-led weaning as an approach to infant feeding? A review of the evidence.” Nutrients 4.11 (2012): 1575-1609.

Rowan, Hannah, and Cristen Harris. “Baby-led weaning and the family diet. A pilot study.” Appetite 58.3 (2012): 1046-1049.

Os benefícios da Introdução Alimentar ParticipATIVA

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É muito comum que as pessoas perguntem se há como fazer o BLW no jantar e aos finais de semana, já que durante a semana os pais trabalham e não há possibilidade do bebê fazer BLW na creche ou com o cuidador. A resposta é um pouco mais complexa do que sim ou não, mas posso garantir a vocês que, mesmo quem não tem a oportunidade de seguir um modelo estrito, permitindo que o bebê lidere todo o processo, se beneficia fortemente de um modelo participativo.

Há de se entender que, entre o ideal e o possível existe uma linha contínua na qual, muitas vezes, temos que encontrar nosso ponto de equilíbrio para nos apoiar em tudo o que vem como consequência positiva. E beneficiar-se disso.

Quando se trata de introdução alimentar, manter a sanidade é sempre a melhor opção. Se basear no que é ideal e fazer as melhores escolhas baseadas em sua realidade, do seu bebê e da sua família como um todo. Não existe manual de instruções. E nunca vai existir, porque somos seres humanos. INDIVÍDUOS. INDIVIDUAIS. ÚNICOS.

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Protocolos e manuais de procedimento são essenciais pra se garantir a confiabilidade e a prática baseada em evidências. Sem eles, nossa gama de atuação seria imprevisível e possivelmente baseada em achismos, o que foge da proposta da ciência. Mas, na prática, em muitos casos, existem limitações entre o que está descrito e o que é praticável dentro de um lar. Assim, passa-se avaliar uma relação custo-benefício, na qual não existe certo ou errado, mas melhor ou pior.

No final das contas, o desafio é olhar o copo sempre meio cheio. Olhar com otimismo para o que conseguimos extrair de positivo e buscar estar sempre em um contínuo de mudança para melhor. Mudar aos poucos é melhor do que não mudar nunca. Amamentar por alguns meses é melhor do que nunca ter tentado amamentar. Priorizar a fruta, ao invés do suco, é melhor do que oferecer só o suco, sempre. Oferecer alimentos em pedaços de vez em quando é melhor do nunca oferecer. Fazer a maioria das refeições longe da TV é melhor do que depender dela sempre.

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Copo meio cheio ou meio vazio pra você?

Voltando ao BLW, em seu sentido estrito, o bebê controla a sua própria ingestão de alimentos durante todas as refeições, a ponto dele mesmo decidir quando ele vai passar a comer mais e mamar menos, até o desmame completo (um processo que espera-se que termine somente após os dois anos).

Seguido à risca, no BLW o bebê não sofre influências externas relacionadas à quantidade de alimento ingerido. Se ele está disposto a comer, ele come. Se não, não há nenhuma intenção ou esforço em mudar isso. Dessa forma, teoricamente (existem estudos ainda iniciais), seria o único método capaz de proporcionar total autonomia no controle da fome (comer por necessidade e não por vontade) e da saciedade (comer o necessário para saciar a fome e não por gula). Seria a livre demanda da introdução alimentar.

Porém, o BLW tem outras vantagens que podem, sem dúvida alguma, estender-se ao método participativo, como por exemplo:

– Permitindo a exploração dos alimentos pelo bebê, oferecemos a oportunidade do bebê conhecê-los em suas diferentes formas, cores, cheiros, texturas e sabores, criando um paladar incrivelmente variado e reduzindo consideravelmente as chances dessa criança vir a ser um “chato pra comer”.

– O bebê aprende, desde sempre, todas as funções orais de acordo com a evolução de suas habilidades: morder, mastigar e engolir, em uma ordem fisiológica e natural, durante um período em que está fisiologicamente preparado para prevenir os engasgos por meio do reflexo de gag anteriorizado (por volta dos 6 meses).

– Estimula a independência e, ao contrário do que muita gente pensa, o interesse pelos talheres e copos de casa desde muito cedo, desde que sejam dadas oportunidades.

– O bebê torna-se mais disponível para provar e experimentar coisas novas, já que sabe que pode recusar ou não aceitar algo caso não tenha interesse. Leva-se em média 10 apresentações, de um mesmo alimento, em diferentes formatos e texturas, para se ter certeza que o bebê realmente gosta ou não gosta. Por isso, não há a necessidade de se insistir em um alimento que foi ignorado, ou “escondê-lo” em preparações, apenas apresentá-lo novamente, em uma outra ocasião, de diferentes formas (exemplo: cozido, assado, grelhado).

Portanto, queridos leitores, não se atenham à nomenclatura “BLW”. Se não der pra garantir o método ao pé da letra, façam o possível para seguir uma filosofia ParticipATIVA, permitindo que seu bebê possa desfrutar de todas as vantagens que tendem a vir em decorrência dela.

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Prevenindo o engasgo: a escolha do adulto faz toda a diferença

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Fonte: banco de imagens Google

Continuando nossa série sobre os mecanismos de defesa do bebê e situações de risco, hoje vamos falar de prática!! Depois de toda a teoria que vcs podem ler e reler aqui, aqui e aqui, hoje vamos falar de como podemos tornar o ambiente mais seguro possível e SIM, praticar o BLW com a maior tranquilidade e segurança, de forma que os benefícios sobreponham os riscos!

Antes de tudo, vamos relembrar algumas recomendações essenciais:

  1. Estar ciente das manobras de desobstrução que você pode fazer em casa.
  2. Insistir para que as crianças comam à mesa, sentadas. Evite alimentá-las enquanto  correm, andam, brincam, estão rindo. Não deixá-las deitar com alimento na boca.
  3. Supervisione SEMPRE a alimentação de crianças pequenas.
  4. Fique atento às crianças mais velhas. Muitos acidentes ocorrem quando irmãos ou irmãs mais velhas oferecem objetos ou alimentos perigosos para os menores.
  5. Evite comprar brinquedos com partes pequenas e mantenha objetos pequenos da casa fora do alcance das crianças. Siga a recomendação da embalagem dos brinquedos, com relação à idade ideal para aquisição. E não permita que crianças pequenas brinquem com moedas.

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De acordo com a literatura consultada (vide referências ao final do artigo), os alimentos mais frequentemente relacionados ao engasgo incluem:

  • Doces (especificamente doces duros ou pegajosos)
  • Qualquer oleaginosa e similares (amendoas, castanhas, amendoim etc)
  • Sementes (semente de girassol, caroço de azeitona etc)
  • Grãos crus (exemplo: feijão, arroz, milho etc)
  • Pedaços grandes de carne e queijos duros
  • Salsichas
  • Queijos pegajosos
  • Pedaços grandes e rígidos de carnes e queijos
  • Salgadinhos (principalmente duros como doritos, batata-frita etc)
  • Casca de fruta e frutas duras cruas (como a maçã e a pêra verde)
  • Uvas inteiras
  • Chicletes
  • Cubos de gelo
  • Creme de amendoim ou cream cheese em blocos grandes (pegajosos e grudam no céu da boca)
  • Pipoca – PRINCIPALMENTE o peruá (parte amarelinha)
  • Pretzels
  • Uvas passas
  • Vegetais duros crus e verduras cruas
  • Alimentos em forma de cordão (exemplo: broto de feijão, espaguete, verduras (ex:couve) cortadas em tiras etc)

Ufa! A lista é grande não? Mas pensando que muito do que está listado aí não é nem indicado para um bebê, já que é pura porcaria rs, ainda tem MUITA coisa pra oferecer! Então, por exemplo, alguns dos alimentos de alto risco que vocês podem tranquilamente passar sem oferecer pelo menos até os 4 anos de idade:

  • salsichas e linguiças
  • doces duros, molengos ou pegajosos. Ao contrário do que muita gente pensa, gelatina também é super perigoso, pois é escorregadio e, quando não mastigado, um pedaço pode tranquilamente obstruir a via aérea.
  • amendoins, sementes e oleaginosas (amendoas, castanhas, nozes etc)
  • uvas inteiras
  • pedaços grandes de carne ou queijo duro
  • mashmallows
  • pipoca
  • chiclete

E o que podemos fazer para melhorar a apresentação dos alimentos a fim de reduzir as chances de engasgo:

  • Os alimentos mais seguros para as crianças são aqueles cortados em pedaços que oferecem mínimo ou nenhum risco de “entupirem” a via aérea. Os desenhos abaixo ilustram a via aérea e como um objeto ou alimento pode facilmente obstruir totalmente a passagem de ar.
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Fraga e colaboradores, 2008

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Denny e colaboradores, 2014

  • Cortar salsichas e alimentos de formatos similares (exemplo: cenoura) no sentido do comprimento, em “formato de batata-frita” – o ideal é fugir do formato que tende a “entupir” a glote, como visto nas ilustrações acima.
  • Amaciar vegetais e frutas duras, cozinhando-os na água, forno ou vapor, a fim de que se tornem fáceis de mastigar por amassamento com as gengivas. A consistência ideal para BLW é a de salada de legumes: nem muito duro, nem muito mole (pois esfarela na mão do bebê que não tem controle da força).
  • Quando o bebê ainda é “banguela”, você pode oferecer as frutas com parte da casca para facilitar a preensão palmar (já que a maioria escorrega). Mas é prudente retirar as cascas das frutas quando o bebê já tem dentes e é capaz de “rasgar” a casca com a força da mordida.
  • CARNES! Campeãs de dúvidas!
    • Enquanto o bebê ainda não tem o movimento de pinça desenvolvido, você pode oferecer as carnes:
      • desfiadas umidificadas (molho ou purê) em pequenas porções;
      • ou bem cozidas, macias, cortadas em tiras ou cubos, no sentido transversal das fibras (assim os pedaços que se soltam ficam pequenos e fáceis de mastigar);
      • ou também, carnes moídas em formato de hamburguer, almôndega ou croquete.
    • Conforme o bebê adquire o movimento de pinça, o ideal é:
      • cortar em pedaços bem pequenos,
      • desfiados
      • ou carne moída,
      • até que o bebê tenha habilidade para mastigar pedaços maiores com o nascimento dos molares (até os dois anos mais ou menos).
  • Alimentos pegajosos (exemplo: cream cheese, pasta de amendoim e similares) se consumidos, devem ser apresentados em porções pequenas, pois podem “grudar” no céu da boca.
  • Algumas leguminosas como o quiabo e a vagem costumam ser queridinhos no BLW, pois são de fácil preensão. Mas atentem-se para as sementinhas e os grãos de feijão que podem desprender desses alimentos e escorregar para o fundo da boca. A melhor forma de oferecer esses alimentos é cortadinho em rodelas pequenas quando o bebê já é capaz de pegá-las.
  • Alimentos fibrosos e/ou duros para mastigar mesmo após o cozimento (ex: quiabo, vagem, brocolis comum, folhas etc) são mais fáceis de mastigar se cortados em pedaços pequenos e/ou misturados à outras preparações/receitas.
  • Hidratar as frutas secas e cozinhar bem os grãos antes de oferecê-los aos bebês.
  • Milho verde na espiga deve estar beeem molinho (daqueles que estouram nos dentes), para os “banguelas”, vcs podem “rasgar” os grãos com um ralador de queijo.
  • É extremamente arriscado oferecer uvas inteiras aos bebês e crianças pequenas, assim como qualquer outro alimento neste formato (tomatinhos, cerejas, jabuticabas, azeitonas, ovinho de codorna, entre outros). Quaisquer alimentos nestes formatos devem ser cortados longitudinalmente em duas ou quatro partes. Cortes transversais não são indicados, pois não “quebram” o formato do alimento que é capaz de “entupir” a glote.
  • Retirar sementes e caroços.
  • As folhas podem ser oferecidas cozidas ou cruas, mas sempre bem picadas. Como no início o bebê não consegue pegar os pedacinhos, sugiro que você ainda assim misture folhas verdes em outras receitas (ex: omelete), para que o bebê também sinta o gosto “amarguinho” que a maioria das folhas verde-escura tem.
  • Evite pães de forma e/ou pães brancos industrializados “massudos”, pois quando misturados à saliva formam uma pasta grudenta que pode dificultar a mastigação e deglutição do bebê, levando à gags excessivos (e possível engasgo ou vômito).
  • Caso for oferecer água durante as refeições, certifique-se de que não há alimento sólido dentro da boca. O manejo de líquidos com os sólidos dispersos na boca é extremamente difícil e pode comumente levar ao engasgo. Oferecer líquidos durante um engasgo pode inclusive levar à piora do engasgo e consequente aspiração.

Pra finalizar, queria deixar um trecho que li no site do Dr Moises, que fez muito sentido pra mim e gostaria de compartilhar com vocês:

Nem todo mundo que fuma tem câncer de pulmão, nem todo mundo que bebe bebida alcoólica tem cirrose, nem todo mundo que tem relação sem preservativos tem AIDS. Mas há uma chance maior de isso tudo acontecer. Nem por isso, deixamos de orientar a forma que se julga adequada (não fumar, não beber e relações sexuais sempre com proteção).

Assim, nem todas as crianças que usarem andador terão acidentes e serão internadas, nem todas as crianças que estiverem em um carro fora das cadeirinhas vão morrer em acidentes, nem todas as crianças que consumirem mel abaixo de um ano de idade terão botulismo, e nem todas as crianças que tomarem sucos terão obesidade ou diabetes tipo 2. Mas há uma chance maior de isso tudo acontecer. Nem por isso, deixamos de orientar a forma que se julga adequada (não usar andador, no carro, sempre na cadeirinha, não oferecer mel abaixo de um ano de idade e não oferecer sucos abaixo de um ano de idade e dar preferência para as frutas in natura).

Por isso, querida leitoras, o recado hoje é: estejam cientes e conscientes sobre os riscos, sobre como podem facilitar a alimentação segura e agir em caso de necessidade, tornando o BLW um método apenas leve e prazeroso de introdução alimentar. Sei que provavelmente vocês já deram muitos dos alimentos citados aí em cima, assim como eu, mas o que quero sempre difundir são as ESCOLHAS CONSCIENTES!

Sabendo o que esperar e como agir em caso de necessidade, TUDO fica mais traquilo e seguro para o bebê e mais fácil pra você, que provavelmente vai ter que dar a mesma santa explicação sobre BLW pra todos à sua volta!

😀

Se tiverem mais dicas ou quiserem compartilhar experiências, deixem um recadinho por aqui!

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Referências:

Silva LA, Santos I.  Desobstrução de vias aéreas superiores em crianças menores de um ano  Rev. Enf. Profissional 2014. jan/abr, 1(1):267-275.

Chapin, Meyli M., et al. “Nonfatal choking on food among children 14 years or younger in the United States, 2001–2009.” Pediatrics 132.2 (2013): 275-281.

Rapley & Murkett. Baby-led weaning: Helping your baby to love good food. 2008.

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/000048.htm

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/presentations/100221_1.htm

American Academy of Pediatrics. “Policy statement–prevention of choking among children.” Pediatrics 125.3 (2010): 601-607.

American Academy of Pediatrics. Choking Prevention. Online: http://www.healthychildren.org/English/health-issues/injuries-emergencies/Pages/Choking-Prevention.aspx

Fraga, Andrea de Melo Alexandre, et al. “Aspiração de corpo estranho em crianças: aspectos clínicos, radiológicos e tratamento broncoscópico.” J Bras Pneumol 34.2 (2008): 74-82.

Padovani, Aline Rodrigues, et al. “Protocolo Fonoaudiológico de Avaliação do Risco para Disfagia (PARD) Dysphagia Risk Evaluation Protocol.” Rev Soc Bras Fonoaudiol 12.3 (2007): 199-205.

Denny, Sarah A., Nichole L. Hodges, and Gary A. Smith. “Choking in the Pediatric Population.” American Journal of Lifestyle Medicine (2014): 1559827614554901.

Padovani, Aline Rodrigues. Protocolo fonoaudiológico de introdução e transição da alimentação por via oral para pacientes com risco para disfagia (PITA). Diss. Universidade de São Paulo.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’ and mothers’ knowledge of, attitudes to and experiences with, Baby-Led Weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012;2

http://www.wetreatkidsbetter.org/2011/03/knowing-the-signs-of-choking-and-prevent/

http://www.nhs.uk/conditions/pregnancy-and-baby/pages/helping-choking-baby.aspx

http://www.med.umich.edu/yourchild/topics/choking.htm

http://www.sbp.com.br/htn/noticias/aspiracao-de-corpo-estranho

Perguntas frequentes: Meu bebê rejeita tudo, é normal?

Perguntas frequentes

Independente do método escolhido para a introdução alimentar, é normal sim o bebê não se interessar pela comida nas primeiras semanas de IA. Além disso, o bebê tem um reflexo inato que faz com que a língua empurre para fora da boca tudo o que for de consistência diferente da do leite materno. Esse reflexo é chamado de “reflexo de protrusão da língua” e tende a desaparecer muito próximo aos seis meses do bebê. Assim como o reflexo de gag, o reflexo de protrusão da língua é um reflexo de proteção, diretamente ligado à capacidade fisiológica do bebê de se proteger contra engasgos.

Vale a pena também lembrar que 6 meses é uma data aproximada na qual os bebês estariam prontos/precisariam receber outros alimentos para complementar o aleitamento (materno/fórmula/misto). Assim, é possível que alguns bebês só se interessem pela comida em alguns meses, alguns até após 1 ano. Não se desesperem, o leite ainda é o principal alimento do bebê durante o primeiro ano de idade (e isso também é uma estimativa).

Prefira qualidade à quantidade, SEMPRE. Lembre-se, é melhor que o bebê se habitue à alimentação complementar aceitando duas colheres de legumes, carne e verduras do que engula um prato inteiro de mingau de cereais industrializados açucarados. Crie o hábito, deixe que o próprio bebê se interesse pela comida e pelo ato de alimentar-se em si.

Continue oferecendo alimentos saudáveis em diversas apresentações, formatos e texturas. Pode-se levar até em média 10 tentativas até que um bebê coma com vontade determinado alimento. Faça suas refeições com seu bebê no colo. Deixe alguns alimentos “dando sopa” no seu prato, de preferência com fácil acesso às mãozinhas do pequeno. Assim, ele pode, a qualquer momento, se interessar e levar à boca. Tente comer com o bebê no seu colo, dividir uma fruta ou um copo d’água com ele. Sente no chão, deixe a comida fazer parte da brincadeira, não tenha medo da sujeira, principalmente no começo.

Se a introdução ao maravilhoso mundo dos alimentos for feita de forma natural e sem pressão, é muito possível que em poucos meses você esteja colhendo os frutos e vendo-o comer com vontade e nos horários determinados. No começo, TUDO é exploração e aprendizado. Um bebê não aprende a andar sem levar antes alguns tombos, não é mesmo?

Devagar e sempre ❤

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Entendendo a Introdução Alimentar Participativa (IA ParticipATIVA)

Recentemente, muito tem se falado sobre o método Baby-led weaning de introdução alimentar. Ao contrário do que muita gente pensa, o método em si não prevê a oferta assistida pelos pais em nenhum momento – pois fundamenta-se na alimentação livre e gerenciada pelo próprio bebê na grande maioria das vezes, visando o total controle do bebê sobre sua própria alimentação. Desta forma, ainda que os pais ofereçam alimentos em pedaços desde o início da IA, oferecer a papa passivamente ao bebê já descaracterizaria o BLW.

Mas, como já discutimos anteriomente nesse post, um grande número de famílias acaba optando por introduzir fundamentos do método BLW na introdução alimentar convencional. Com isso, um novo conceito em introdução alimentar acabou sendo criado, o qual vai de encontro aos Manuais Oficiais de introdução alimentar em vigor no Brasil e no Mundo. E muito além, incentiva as famílias a introduzirem, desde o início da introdução alimentar, os alimentos sólidos em seu formato original, possibilitando que as crianças experienciem o máximo possível de sensações desde o seu primeiro contato com os alimentos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, sabe-se que o sucesso da alimentação complementar depende não somente do que é servido, mas também de como, quando, onde e por quem é servido. Alguns estudos comportamentais descobriram que existe uma tendência a não se observar o modo como a criança come, a menos que ela comece a não aceitar mais o alimento ou fique doente. A hipótese de alguns pesquisadores é que, quanto mais ativo for o estilo de alimentação ao qual a criança é exposta, melhor será sua aceitação.

Assim, a OMS recomenda um estilo de alimentação responsivo, aplicando os princípios psicosociais de cuidado: a) auxiliar diretamente o bebê e assistir crianças mais velhas a alimentarem-se sozinhas, atentando-se às pistas de fome e saciedade; b) alimentar devagar e pacientemente, encorajando as crianças a comer – mas não as forçando c) se a criança recusar inúmeros alimentos, tente com diferentes combinações, sabores, texturas e métodos de encorajamento; d) minimize as distrações durante as refeições, especialmente se a cirnaça perde a atenção facilmente; e) lembre-se que os momentos de alimentação são períodos de aprendizado e amor – fale olho-no-olho com a criança durante as refeições.

Essas orientações vão totalmente de encontro ao conceito configurado na Introdução Alimentar ParticipATIVA, na qual o bebê é agente ativo do processo de introdução da alimentação complementar, ainda que recebendo alimento de um intermediador. Dessa forma, a alimentação passa a ser assistida – e não passiva. Assitida pelos pais, que intermediam as preferências do bebê e o auxiliam motoramente, enquanto ele não adquire habilidade e eficiência na ingestão adequada de nutrientes necessários para o seu desenvolvimento.

E, considerando tudo que já conversamos, deixo aqui uma reflexão. Você já parou para se perguntar o quanto seu bebê está participando ativamente no momento da refeição? Ele está decidindo o que quer comer, o quanto quer, como quer?

Como já discutimos, “dar” é diferente de “oferecer”. É importante sempre lembrar que todas as atitudes e hábitos que estão sendo colocados no momento da refeição podem perdurar por muitos e muitos anos a fio. Se um bebê assimila que é permitido dizer não e é possível não aceitar algo, ele torna-se capaz de internalizar positivamente a habilidade de provar coisas novas e de aceitar que algo diferente esteja no prato – ainda que ele não queira comer.

Já conheceu alguma criança maior que não pode ver nada de cor diferente no prato que já recusa a refeição inteira? De onde será que vem esse comportamento? É claro que ninguém faz isso por mal, toda família quer ver seu bebê comendo muito e feliz. Mas em alguns momentos é necessário se perguntar o que realmente o bebê está APRENDENDO nesse processo (de IA). Muito do que ele aprender, vai ser implícito – isso significa que vc não vai ensinar, mas de certa forma, ele vai assimilar e guardar em sua memória. Assim, um comportamento, uma ação começa a se relacionar com determinada consequência. “Eu abro a boca porque senão ela fica brava” é completamente diferente de “Eu abro a boca porque eu tenho fome e vontade de comer“.

Quando uma colher é colocada na boca do bebê sem que ele intencionalmente se prepare pra isso, ele está realmente aprendendo a se alimentar? Ou simplesmente está ingerindo comida? Consegue perceber a diferença? Sei que cada bebê é único e reage de um jeito à situação. Se o seu bebê é um “comilão” nato, muito provavelmente vc nem vai chegar a se questionar se está fazendo certo/errado – e se é que existe certo/errado. Mas independente da individualidade do seu bebê, refletir sobre COMO o processo de IA está sendo conduzido e pensar no que essencialmente está sendo aprendido, pode te levar a compreender de fato como os hábitos de agora podem influenciar todo um futuro de organização e saúde alimentar.

Vale a pena, pode ter certeza. Refletir, repensar, reagir. Devagar e sempre ❤️


Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co

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Referências

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do
adolescente e na escola/Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento de Nutrologia, 3ª. ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP, 2012.

PAHO/WHO. Guiding principles for complementary feeding of the breastfed child. Washington DC, Pan American Health Organization/World Health Organization, 2002.

 

Posso combinar métodos? O BLW e a oferta da papinha – Parte II

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Com a popularidade crescente do método BLW em alguns países como Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália, as pesquisas começaram a tomar forma. Em sua maioria trabalhos de análise de prontuários de pacientes e respostas de questionários aplicados com voluntários.

Conforme essas pesquisas foram sendo conduzidas, foi-se percebendo que existia, entre as mães simpatizantes com o método, uma linha contínua de aderência ao BLW. Isso significa que algumas mães eram extremamente rígidas em seguir todas as “regras” que o livro propunha, outras nem tanto. E entre as mães “nem tanto”, algumas auxiliavam o bebê somente quando estavam comendo fora, ou quando precisavam oferecer algo que precisava de colher (como iogurte, por exemplo) e outras praticavam aproximadamente 50/50 tradicional/BLW.

Ou seja, existiam mães BLW para todos os gostos. Tanto, que alguns pesquisadores encontraram dificuldades para dividir essas mães em grupos, para poder compará-los (os grupos) entre si. Um dos estudos, por exemplo, utilizou um limiar de no máximo 10% de alimentação assistida (oferecida pelo cuidador) para definir quem seria adepto do BLW e quem seria adepto ao método tradicional. Já outros estudos optaram por separar essas mães em grupos mais flexíveis. Tudo isso para poder comparar as diferenças nos resultados quando se aplicava o método BLW estritamente ou de maneira mais flexível.

Interessantemente, uma proporção de famílias que reportaram estar utilizando o BLW estavam na verdade utilizando uma abordagem mais flexível do método, a qual incluía uma combinação de alimentação independente e alimentação assistida. Geralmente, isso ocorria quando o bebê era aparentemente incapaz de se alimentar sozinho (por exemplo quando estava doente) ou especificamente para garantir apropriada ingestão de ferro (em alguns países é muito comum oferecer o cereal rico em ferro no café da manhã após os seis meses). O que os pesquisadores puderam inferir foi que o BLW e a alimentação assistida não eram vistos pela comunidade como métodos dicotômicos (que seria um excluindo o outro), mas sim estilos de alimentação infantil que poderiam ser combinados para adequar as necessidades da criança e da família em determinadas situações.

Outro fato importante a ser destacado é que a maior parte dos resultados positivos foram observados principalmente no grupo mais aderente ao BLW (pouca ou nenhuma oferta assistida). Famílias que seguiram o BLW de forma mais rígida também apresentaram melhores comportamentos em relação à saúde e nutrição. A maioria desses bebês foi amamentada exclusivamente até os seis meses e iniciaram alimentação complementar somente após essa idade, como sugere a OMS. Interessantemente, mães que seguiram o BLW rigidamente (pouca ou nenhuma oferta assistida) apresentaram melhores níveis de educação formal.

Uma questão de semântica.

É importante ressaltar que, dar uma fruta ou um legume na mão da criança uma vez ou outra, ou oferecer os sólidos para a criança durante a oferta da papinha, não caracteriza BLW. O termo ficou em evidência como uma “moda” entre as mães, mas é importante entender o conceito original. Entenda, pesquise, pergunte, troque ideias e receitas com outras mães que já aplicaram ou que estão aplicando o método, inclusive para receber suporte e “apoio moral”. Quanto mais você entender o método, mais sentido ele vai fazer pra você e maiores as chances de você estar praticando com sucesso o melhor que o BLW tem a oferecer para seu bebê.

Praticar o BLW precisa de muito empenho, paciência e requer que você, acima de tudo, confie no seu bebê. Ele vai ser o principal ditador das regras. Ele vai te dizer o que, como, quando e quanto quer comer. Pode ser que você deixe a disposição uma série de alimentos e ele te diga (mesmo sem falar) que não é ali nem agora que ele gostaria de estar. Não se desespere, tenha paciência, controle a ansiedade. Dê tempo à ele. A alimentação é em livre-demanda. Se ele não quer comer agora, tente daqui meia hora. Coloque-se no lugar do bebê e tente entender a vontade dele. E lembre-se que o leite é a principal fonte de nutrição do bebê durante o primeiro ano de vida. Discuta suplementos de vitaminas e ferro com o seu pediatra de confiança.

E importantíssimo: BLW só depois que o bebê for capaz de sentar com pouco ou sem apoio e capturar objetos com a mão e levá-los à boca. Antes disso, se for necessária a introdução de alimentação complementar, somente o método tradicional é indicado.

Vale lembrar que o método tradicional de introdução de alimentação complementar é amplamente utilizado e é inclusive o proposto pelo Ministério da Saúde do Brasil atualmente. Se vc é uma pessoa que gosta de ter total controle da situação, entre de cabeça no método tradicional. Porém, caso opte pelo método tradicional, sugiro que não deixe de oferecer alimentos em pedaços (finger food) vez ou outra para seu bebê. O estímulo sensorial destes alimentos é extremamente importante e vão auxiliar no correto desenvolvimento oral do seu bebê. Na dúvida, consulte um fonoaudiólogo.

Referências:

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Rapley G, Murkett T. Baby-led weaning: helping your child love good food. London, UK: Vermilion, 2008.

Brown A, Lee MD. Early influences on child satiety-responsiveness: the role of weaning style. Pediatric Obesity 2013.