O que você precisa saber sobre a Introdução Alimentar ParticipATIVA

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Como já conversamos anteriormente, existem muitos mitos e crenças a respeito de como deveria ser feita uma introdução alimentar adequada. Apesar de estar minuciosamente descrita em diversos manuais de saúde ao redor do mundo, incluindo a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Ministério da Saúde do Brasilna prática, algumas crenças são fortemente assimiladas e difundidas pela cultura popular, por profissionais da saúde desatualizados e pela Indústria. Grande parte dessas crenças são baseadas em uma cultura milenar, dentro de um paradigma relacionado à escassez de alimento. Isso faz parte de uma grande bola de neve que tem sido um dos principais responsáveis pelo aumento do sobrepeso e doenças correlatas na infância.

Leia mais: Mitos e verdades sobre a introdução alimentar

Com a ampliação da discussão sobre a abordagem Baby-led weaning  (BLW), tem sido possível refletir profundamente sobre o modelo de introdução alimentar tradicional atual. Embora as pesquisas nesse campo tenham avançado, até os dias de hoje, quando se fala em introdução alimentar utilizando o termo tradicional, parece impossível desvincular a oferta da papinha assistida através do modelo passivo do “aviãozinho“.

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Fonte: Nani Humor

O BLW é um modelo completamente antagônico à essa alimentação complementar vista como tradicional, pois não prevê a oferta assistida pelos cuidadores em nenhum momento. Pelo contrário,  fundamenta-se na alimentação sob livre demanda e gerenciada pelo próprio bebê, confiando que ele possa ter total controle sobre sua própria alimentação, obviamente dentro da rotina proposta pela própria organização familiar.

Desta forma, ainda que os pais ofereçam alimentos em pedaços desde o início da IA, oferecer comida passivamente ao bebê vai na contramão dos principais fundamentos do BLW, que são o respeito à autonomia e a confiança de que o bebê sabe o que, quanto, como e com que ritmo irá comer. Para que ele exerça sua auto regulação sem interferências e sem a necessidade da interpretação do adulto em relação aos seus sinais de fome e saciedade.

Gill Rapley, em 2015, defendeu seu doutorado e nele observou algumas diferenças importantes ao comparar a auto-alimentação com a alimentação passiva com a colher. A seguir, as fotos mostram explicitamente como o bebê e o cuidador se comportam de formas bastante diferentes durante cada uma dessas situações:

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Dentro desse contexto, entender perfeitamente o que é o Baby-led Weaning é extremamente importante. Segundo Rapley, quem está ouvindo sobre BLW pela primeira precisa tomar decisões conscientes sobre o que estão fazendo ou pretendendo fazer. Caso contrário, tendem a desanimar quando o BLW “não funcionar”, mais frequentemente visto com a queixa “meu bebê não leva a comida à boca”, quando na verdade, no BLW há total respeito e confiança na própria intenção do bebê em levar ou não o alimento até a boca. Muitos bebês não demonstram prontidão para se alimentar até aproximadamente os 9 meses de vida e, de fato, forçar que ele prove um alimento em pedaço sem que ele esteja intrinsecamente pronto para recebê-lo poderia inclusive aumentar o risco de engasgo e levar a asfixia.

Leia mais: O BLW não deu certo comigo

Além disso, precisamos aumentar o conhecimento que temos sobre a alimentação infantil guiada pelo bebê. As pesquisas precisam de metodologia clara e concisa, caso contrário estamos comparando alho com bugalho, como dizia minha avó. BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança para saber o que ele mesmo precisa. Então “fazer um pouco de cada” ou “algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação assistida” pode funcionar pra você e pro seu contexto e dinâmica familiar, mas não é BLW.

E embora eu reconheça a importância da definição exata e das bases e fundamentos do BLW, concordo plenamente com o que Gill Rapley disse em seu workshop, em Novembro passado aqui no Brasil:

“o BLW é o ideal, mas a maternidade é real”

E a introdução alimentar tradicional vem historicamente tão cheia de significados, crenças e mitos, que fica impossível se encaixar em uma abordagem tradicional depois de entender e re-significar todo o paradigma que veio sendo criado ao longo do tempo. É dentro desse contexto que um grande número de famílias tenta encaixar os fundamentos da abordagem BLW na sua rotina de introdução alimentar, e não sabe muito bem ao certo explicar sua escolha. Geralmente dizem “faço um pouco de cada” – e como vimos, não existe “um pouco de BLW”.

Leia mais: Mitos e verdades sobre a introdução alimentar tradicional

Foi em 2015 que o termo Introdução Alimentar ParticipATIVA começou a ganhar força, ainda no meio online, por conta de uma hashtag que eu comecei a usar no instagram e que se popularizou. Hoje, já são milhares postagens com a tag #iaparticipativa. E essa abordagem, ao meu ver, tomou essa proporção pelo acolhimento aos milhares de cuidadores que se identificam com o BLW, mas não conseguem levá-lo à prática em 100% da sua dinâmica. Recebo centenas de mensagens de famílias que se encantam com o BLW, mas não conseguem aplicá-lo à risca. E é nesse “limbo” que a gente se encontra, nessa busca pelo respeito, confiança e autonomia, ainda que exista a oferta de alimento guiada pelo adulto. É na busca pelos fundamentos do BLW na realidade, no contexto e no dia a dia de cada um.

Meu principal objetivo com o termo Introdução Alimentar ParticipATIVA é popularizar os fundamentos do BLW e o que há de mais atualizado em termos do conhecimento que temos acerca da alimentação infantil, acabando de vez com o paradigma desatualizado que recai sobre o termo introdução alimentar tradicional. Chega de papinhas processadas, apetrechos desnecessários criados pela indústria, mingaus açucarados pra engordar e “abre a boca, olha o aviãozinho”.

Com o tempo, minha expectativa é que o termo seja até desnecessário, a ponto que toda e qualquer Introdução Alimentar seja orientada de forma adequada e atualizada, com o bebê sendo considerado o protagonista em todo esse processo. De forma inédita no Brasil, em 2017, a Sociedade Brasileira de Pediatria, que antes considerava a evolução gradual da consistência dos alimentos a partir dos 8 meses (papa com pedaços), em sua última publicação já reconhece que no momento da alimentação complementar o bebê também deve experimentar com as mãos, estimulando a interação com a comida, explorando as diferentes texturas dos alimentos como parte natural de seu aprendizado sensório motor e evoluindo conforme seu tempo de desenvolvimento.

Pela minha experiência, a “Introdução Alimentar ParticipATIVA” é uma abordagem que tem se mostrado, na prática, em um continuum de transição, do que antes considerávamos normal, para o cenário que o BLW nos trouxe à tona. Passamos de um modelo que era completamente passivo e baseado na quantidade, na necessidade de ingestão de comida e no medo do engasgo, para o paradigma da qualidade, da abundância de aprendizagem e do respeito e confiança no bebê durante esse período. Entendendo o desenvolvimento infantil dentro desse processo e a importância das oportunidades para o desenvolvimento das habilidades de auto-alimentação.

Essa transição se apresenta em uma linha contínua, que liga o paradigma tradicional ao guiado pelo bebê, considerando esses dois movimentos completamente opostos. E onde coexistem, na linha desse continuum, milhares e milhares de cuidadores e bebês com suas devidas realidades, crenças, culturas, necessidades e dinâmicas familiares.

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Mudança do paradigma tradicional para o da introdução alimentar guiada pelo bebê. (Padovani, 2017)

 

Vale ressaltar que a Introdução Alimentar ParticipATIVA vai de encontro aos Manuais Oficiais de introdução alimentar em vigor no Brasil e no Mundo. E muito além, incentiva as famílias a entenderem o processo de prontidão do bebê, dentro da construção de uma rotina flexível, que tem início aos seis meses, e permite que gradativamente o bebê tenha espaço e oportunidade para se interessar pelos alimentos e começar a comer dentro do modelo de divisão de responsabilidades, como o proposto por Ellyn Satter e ampliado por Gill Rapley. Os cuidadores são incentivados a apresentar, desde o início da introdução alimentar, os alimentos em seu formato original, possibilitando não apenas que as crianças experienciem o máximo possível de sensações desde o seu primeiro contato com os alimentos, como também tenham cada vez mais autonomia, conforme progridem suas habilidades de auto-alimentação.

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Modelo de Divisão de Responsabilidades em uma abordagem ParticipATIVA

 

Leia mais: O que você não sabe sobre o Baby-led Weaning


Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co

Saiba mais sobre o Curso Avançado em Introdução Alimentar ParticipATIVA e Baby-led Weaning AQUI.

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Referências:

 

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção
Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos: um guia para o profissional da saúde na atenção básica. 2ª. ed, Ministério da Saúde, Brasília, 2013.

Padovani AR. Introdução Alimentar ParticipATIVA. Versão digital em e-book. Copyright CONALCOLab 2017 (no prelo).

Rapley G, Tracey M. Baby-led weaning: o desmame guiado pelo bebê. Editora Timo, 2017.

Rapley G. Spoon-feeding or self-feeding? The infant’s first experience of solid food. PhD (Philosophy). Canterbury Christ Church University. 2015.

Satter E. Child of Mine: feeding with love and good sense. Bull Publishing Company. 2000.

Sociedade Brasileira de Pediatria. A Alimentação Complementar e o Método BLW (Baby-Led Weaning). Departamento de Nutrologia, Guia Prático de Atualização, nº3. Maio, 2017.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP, 2012.

World Health Organization. Department of Nutrition for Health and Development. Complementary feeding: family foods for breastfed children. Geneva: WHO, 2000.

WHO. Global Consultation on Complementary Feeding. Guiding Principles for Complementary Feeding of the Breastfeed. December 10-3, 2001.

Prontidão para a introdução alimentar: meu olhar de mãe

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Joaquim está a 10 dias para fazer 6 meses. Mas tenho refletido muito sobre prontidão por aqui. Fiz algumas enquetes no facebook  e foi muito rico observar a diversidade de respostas, cada contexto cheio de carga afetiva e da certeza do que o momento pedia… Dá uma olhada  AQUI e AQUI.

 

Leia mais: Por que esperar até os seis meses (ou muito próximo disso)?

 

Seu movimento é todo em direção à comida. Ele se joga pra conseguir beber a água do meu copo. Há 20 dias mais ou menos começou a sentar sem apoio e tudo se intensificou! Foi tão nítido!!! Apesar da gente estar à procura constante de regras, sabe o conselho que eu queria deixar?

 

CONECTE-SE.

 

Amamentar é um processo de conexão e de vínculo com seu bebê e com seu próprio corpo.

Alimentar de outras formas senão o peito é um processo de conexão diferente e uma forma muito intensa de se comunicar sem palavras com seu bebê.

É compreender o que o momento pede, seja assistindo com a colher, seja deixando ele pegar com as próprias mãos, seja dividindo o alimento que te nutre, apenas passando nos lábios do bebê pra que ele sinta o gostinho do que ele está vendo você comer.

Isso é Introdução Alimentar ParticipATIVA.

 

 

É estar atento, e respeitar – você e ele – ao mesmo tempo. Serem felizes na descoberta, sem preocupações.

Essa não foi a primeira vez que o babyQuim experimentou algo. Há 1 semana mais ou menos que ele está dando óbvias pistas de que chegou a hora de se nutrir de outras fontes.

E, pouco a pouco, vou lhe dando oportunidades.

Nada formal, de hora marcada. Data de início, horário certo, comida escolhida à dedo, quantidade pré-estabelecida.

 

Não, nada disso.

 

Desde que ele começou a sentar, levo ele junto à mesa. Bebo água com ele no meu colo.
A partir dessa oportunidade, ele me mostra o caminho.

Isso também é BLW.

Mas por aqui vamos chamar de Introdução Alimentar ParticipATIVA.

O conceito é diferente e, ao meu ver, bem mais abrangente. Então é assim que vamos seguir em frente.

 

Vem com a gente?

 

Leia Mais: O conceito de Introdução Alimentar Participativa (IA ParticipATIVA)

Leia Mais: Os 20 passos para a Introdução Alimentar ParticipATIVA – #IAparticipATIVA

 

 

 


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O BLW é o melhor método de introdução alimentar?

por Michelle Bento

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Essa semana me deparei novamente com a seguinte pergunta no facebook: “Existem estudos que comprovem que o BLW é o melhor método de introdução alimentar?”

Acompanhando a pergunta, pessoas a favor do BLW discutiam a ausência de pesquisas e sobre como argumentar com aqueles que pediam as evidências que comprovem todos os seus benefícios. E esse mesmo tipo de discussão eu já vi acontecer tantas outras vezes, incluindo outros assuntos também relacionados à maternidade.

Eu começo ponderando o título de “melhor” concedido ao BLW. A grande questão aqui não é querer convencer a todos de que o blw é melhor. Afinal, não existe UM melhor. O ponto aqui é mostrar que na verdade o que vem sendo feito tradicionalmente é que está péssimo! É levantar uma discussão sobre como podemos melhorar esse cenário adaptando esses conceitos difundidos através do baby-led weaning à realidade de cada família.

 

Leia mais: Os benefícios da Introdução Alimentar ParticipATIVA

 

E para várias premissas dos BLW existe sim base científica. E eu reuni aqui algumas delas.

Já está mais do que claro que a idade ideal para iniciar a alimentação complementar é aos 6 meses, não antes disso. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, “é apenas a partir dos 6 meses de idade que as necessidades nutricionais do lactente não podem ser supridas apenas pelo leite humano. Também é a partir dessa idade que a maioria das crianças atinge um estágio de desenvolvimento geral e neurológico (mastigação, deglutição, digestão e excreção) que a habilita a receber outros alimentos que não o leite materno”. O bebê de 6 meses tem uma capacidade motora completamente diferente do bebê de 4 meses, idade em que se recomendava (ou se recomenda, pois infelizmente ainda é muito comum ver profissionais fazendo essa indicação) iniciar os alimentos sólidos.

O quadro a seguir mostra como o leite materno se mantém como principal fonte de energia durante os primeiros meses de introdução alimentar, sendo ultrapassado pelos alimentos somente entre 12 e 24 meses. Como o BLW é centrado na auto-alimentação e no início as habilidades motoras limitadas dificultam a ingestão de grande quantidade de alimentos, existe um medo grande por parte de pais e profissionais de que o bebê não vá receber tudo o que precisa. Entender que a transição do leite para o alimento sólido deve ser bem gradativa é fundamental para diminuir as expectativas em relação às quantidades que o bebe vai comer nas primeiras ofertas de comida, evitando frustrações que geram o ciclo de recusa alimentar da criança.

 

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Leia Mais: Recusa, controle e distúrbios alimentares: o efeito bola de neve

 

“Crianças amamentadas desenvolvem muito cedo a capacidade de autocontrole sobre a ingestão de alimentos, de acordo com as suas necessidades, pelo aprendizado da saciedade e pela sensação fisiológica da fome durante o período de jejum. Mais tarde, dependendo dos alimentos e da forma como lhe são oferecidos, também desenvolvem o autocontrole sobre a seleção dos alimentos. E esse autocontrole sofrerá influência de outros fatores como o cultural e social. A prática das mães/pais ou dos profissionais de saúde que adotam esquemas rígidos de alimentação prejudica o adequado desenvolvimento do autocontrole da ingestão alimentar pela criança”.

Esse trecho foi retirado do Guia Alimentar Para Menores de 2 Anos do Ministério da Saúde, reforçando que o bebê é capaz de determinar sozinho a quantidade de alimentos que deve ingerir, através da sua auto regulação de fome-saciedade. O papel dos cuidadores é somente dar oportunidade, através da oferta de alimentos saudáveis e variados. Cabe ao bebê dizer o que e o quanto deseja comer.

A Organização Mundial de Saúde recomenda a “prática da alimentação responsiva, que usa os princípios de cuidados psicossociais ao se alimentar a criança. A prática inclui o respeito ao mecanismo fisiológico de auto-regulação do apetite da criança, ajudando-a a se alimentar até estar saciada, e requer sensibilidade da mãe/cuidador às indicações de fome e de saciedade da criança. Recomenda-se alimentar a criança lenta e pacientemente até que ela se sacie, jamais forçando-a a comer. As refeições devem ser prazerosas, com troca amorosa entre a criança quem a está alimentando, por meio de contato visual, toques, sorrisos e conversa. Se a criança recusar muitos alimentos, pode-se experimentar diferentes combinações, sabores, texturas e métodos de encorajamento não-coercitivos e que não distraiam a criança da refeição. Há evidências de que o estilo mais ativo de alimentar a criança melhora a ingestão de alimentos e o seu estado nutricional, bem como seu crescimento”.

Corroborando isso, um estudo bem recente, publicado agora no início do ano mostra que a alimentação responsiva é associada com melhores hábitos alimentares e uma melhor auto regulação de ingestão energética. Pais que utilizaram práticas alimentares não responsivas e não forneceram uma estrutura de alimentação adequada (tempo, local adequado e envolvimento familiar) relataram maiores dificuldades para que a criança comesse. Ao contrário, as famílias que usavam menos as práticas não responsivas e ofereciam melhor estrutura, relatavam que as crianças aproveitavam mais as refeições e não tinham dificuldade para comer.

Sobre o medo do bebê possa engasgar ao se auto-alimentar, um estudo conduzido por Fangupo e colaboradores (2016) acompanhou mais de 180 famílias divididas entre aquelas que praticavam a auto-alimentação e aquelas que ofereciam a alimentação na colher e concluiu que, desde que se forneça orientação adequada, bebês seguindo a abordagem BLISS (baby-led introduction to solids) não parecem estar sob maior risco de engasgo do que aqueles que seguindo uma prática mais tradicional. Na verdade, em ambos os grupos foram oferecidos alimentos potencialmente perigosos, o que significa que é preciso orientar muito bem os cuidadores a respeito de práticas seguras de alimentação, não importando a abordagem que será empregada.

 

Leia Mais: Prevenindo o engasgo: a escolha do adulto faz toda a diferença

 

É claro que ainda existem questões não respondidas, como a ingestão adequada de micronutrientes, por exemplo. E para isso precisamos de mais estudos específicos com o BLW. Mas já temos o suficiente para mudar as práticas tradicionais e estimular a participação ativa do bebê no processo de introdução alimentar. Então vamos nos unir para incentivar esse tipo de abordagem mesmo que para algumas famílias o BLW não se encaixe. Dá pra fazer muito bem às nossas crianças ainda que elas não comam sozinhas os alimentos inteiros desde o começo. Basta apresentá-los na textura adequada, separados, com calma e respeitando as escolhas do bebê no que diz respeito à o que, quando e em que quantidade ele quer comer.

 

Leia Mais: O conceito de Introdução Alimentar Participativa (IA ParticipATIVA)

Leia Mais: Os 20 passos para a Introdução Alimentar ParticipATIVA – #IAparticipATIVA

 

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em consultório e como personal (2)

 

Referências:

MONTE, Cristina M. G.; GIUGLIANI, Elsa, R. J. Recomendações para alimentação complementar da criança em aleitamento materno. Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, v. 80, p. 131-141, 2004. Suplemento.

DEWEY, KATHRYN G.; BROWN, Kenneth H. Update on technical issues concerning complementary feeding of young children in developing countries and implications for intervention programs. Food and Nutrition Bulletin, v. 24, n.1, p. 5-28, 2003.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2 ed. – 2 reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 72p.

MONTE, C. M.; GIUGLIANI, E. R. Recommendations for the complementary feeding of the breastfed child. Jornal de Pediatria, v. 80, n.5, S131-S141, 2004.

FINNANE, J. M.; JANSEN, E.; MALLAN, K. M.; DANIELS, L.A. Mealtime Structure and responsive feeding practices are associated with lesse food fussiness and more food enjoyment in children. Journal of Nutrition Education and Behavior. V. 49, N.1, 2017.

FANGUPO, L. J.; HEATH, A. M.; WILLIAMS S. M.; et al. A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. 138(4), 2016.

 

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Tudo o que eu não imaginava sobre introdução alimentar, por Rafa Santos

12182199_904544859594342_1434098752_n“BLW não era para mim, fui educada com papinhas. Mas eu quis conhecer todas as possibilidades saudáveis de desenvolvimento do meu filho

BLW não era para mim, minha mãe me ensinou q bebê que não come não fica gordinho e saudável. Mas meu filho não aceitava a colher.

BLW não era para mim, sou uma mãe ansiosa que por qualquer coisa que acontece fico estressada e frustrada. Mas meu filho decidiu que não precisava seguir todos os dias o mesmo ritual.

BLW não era para mim porque quero que meu filho coma muito bem todos os dias. Mas meu filho acha que o mamá dele é a coisa mais gostosa do mundo e tem dia que ele decide q é só isso q ele vai querer.

BLW não era para mim porque onde já se viu um bebê decidir o que vai comer. Mas meu filho me ensinou que ele também precisa ser respeitado e que dói fundo ver um filho chorando por ser obrigado a comer o q não quer.

BLW não era pra mim pq eu sou preguiçosa e odeio ter que ficar limpando tudo o tempo todo. Mas meu filho me ensinou o quanto é prazeroso brincar e ver o sorriso dele enquanto vê o alimento sendo esmagado no próprio cabelo ou na bandeja ou no chão.

BLW não era p mim pq eu odeio desperdício. Mas meu filho acha legal ver o alimento se espatifando no chão.

BLW não era para mim mas eu decidi que faria tudo isso por ele, que mudaria meus horários por ele, que seria mais saudável por ele, que relaxaria mais com ele, que me permitiria mais para que ele se aprendesse mais.

Quem escolheu o BLW foi meu filho, eu so decidi respeitar!

(Rafa Santos, mãe do Elioenai, de 9 meses)

Quer ter seu relato publicado no Ta Na Hora do Papá?

Me mande um e-mail contando como foi a história de vocês na Introdução Alimentar!

Mande sua história e uma foto que represente esse momento tão especial do seu bebê para contato@conalco.com.br

As melhores histórias serão publicadas toda terça-feira!!!

Um beijão,

Aline

CONALCO2015

BLW: onde estamos e para onde vamos?

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Após a descrição da introdução alimentar em livre-demanda ter sido publicada e descrita no livro “Baby-led weaning”, de Rapley e Murkett, em 2008, alguns pesquisadores começaram a se interessar e estudar o método. Em sete anos, ainda restam muitas dúvidas, mas as linhas de pesquisa já começam a ganhar forma. Gill Rapley, idealizadora do método, nos conta em seu website que, além dos estudos já publicados, ainda existem mais alguns em andamento, incluindo uma grande pesquisa sobre os riscos de gag e engasgo, comparando os métodos tradicional versus BLW. Ela mesmo está concluindo sua tese de doutorado, comparando alimentação passiva versus auto-alimentação do ponto de vista do bebê. Então muita informação ainda está por vir.

Um dos principais problemas no estudo e avanço das pesquisas em BLW é o fato destas serem feitas sumariamente por meio de questionários respondidos por voluntários. Isso pode facilmente enviesar resultados, já que as pessoas que se candidatam tem, de certa forma, grande interesse na divulgação do método. Além disso, entende-se que essa auto-seleção impacta em maiores graus de escolarização e idade entre os respondentes, comparativamente à população geral. É como avaliar apenas uma parte da população que não reflete a população geral.

Amy Brown, uma forte pesquisadora no assunto, acabou de publicar um artigo que investigou as diferenças no comportamento alimentar, bem-estar e personalidade entre um grupo de mães que segue uma introdução alimentar “baby-led” versus um grupo que segue uma abordagem tradicional. Essa pesquisa avaliou 604 questionários e seus resultados estatísticos mostraram que as ”mães BLW” tinham um grau de escolaridade significativamente maior, além de maior propensão a ter uma profissão com cargo gerencial. Observou também que as “mães BLW” tiveram menores pontuações em características pessoais que geralmente são associadas com obesidade infantil.

Outros estudos demonstraram que as “mães BLW” tendem a amamentar por mais tempo e introduzir a alimentação complementar mais tarde, quando comparadas às mães que seguem uma abordagem tradicional. Além disso, tem um estilo de alimentação menos restritivo, colocam menos pressão na situação de alimentação e tem menor preocupação em monitorar o peso da criança. Amy Brown reforça que esses achados, por si só, já podem interferir positivamente nas escolhas alimentares e experiências durante a introdução alimentar. Consequentemente, estão diretamente relacionados às diferenças encontradas em relação ao peso e comportamento alimentar entre os grupos.

Enquanto existem diversos estudos mostrando essas diferenças de estilo de vida e comportamento, ainda não foi publicado nenhuma pesquisa que mostre os efeitos do BLW na qualidade nutricional das dietas das famílias que seguem o método. Um estudo-piloto publicado em 2012 sugere que a família tende a modificar sua dieta nos três primeiros meses, mas depois disso retorna à alimentação ao usual. Os pesquisadores ressaltam o receio quanto à oferta excessiva de sódio e gorduras saturadas, e à adequação e balanceamento nutricional das dietas familiares, o que pode acabar colocando em risco o desenvolvimento e saúde geral da criança.

Uma extensa revisão de literatura foi publicada pela revista Nutrients, em 2012, reiterando a abordagem “Baby-led Weaning” como uma opção praticável para muitas crianças no momento da introdução da alimentação complementar. Porém, reforça algumas perguntas que, até a data de hoje, não temos resposta:

• Esses bebês conseguem obter nutrientes suficientes, incluindo aporte calórico e ferro?
• Esses bebês se alimentam com uma maior variedade de alimentos?
• O BLW é uma abordagem viável na prevenção da obesidade infantil, através da auto-seleção da ingestão?
• Anemia, engasgo e falha no crescimento são realmente preocupações reais para os bebês que seguem uma abordagem BLW?

Para se pensar no BLW em uma perspectiva populacional, seria necessário um estudo que avaliasse os riscos e benefícios do método, determinados pelo acompanhamento a longo prazo de dois grupos selecionados ao acaso, comparando-se os resultados entre o grupo BLW e o grupo controle. Não é um estudo fácil e nem tende a sair de uma hora para a outra. E enquanto não se tem uma resposta científica, as famílias que se interessam e são adeptas ao método continuam a se informar e compartilhar experiências através dos diversos fóruns de discussão sobre o assunto na internet.

Alguns países já se posicionaram a respeito do método, como é o caso da Nova Zelândia, onde o Ministro da Saúde desestimulou publicamente a utilização do método por entender que ainda não existem evidências científicas suficientes. O Departamento de Saúde Pública do Reino Unido, por sua vez, não cita o termo “BLW”, mas em uma publicação recente sobre a introdução da alimentação complementar, o Start4Life, em 2009, já incentiva as mães à oferecerem alimentos macios em pedaços a partir dos seis meses.

De qualquer forma, práticas como: incentivar hábitos familiares saudáveis, incentivar a participação ativa do bebê durante o processo de introdução alimentar, observar atentamente os sinais de fome e saciedade, não forçar a criança a comer e incentivar a mastigação já estão descritas pela OMS e são destacadas nos manuais da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2012 e no Guia Alimentar para crianças até 2 anos do Ministério da Saúde de 2013.

O que as pesquisas também não contam pra gente é o porquê ainda tantos profissionais não incentivam essas práticas, já que são amplamente conhecidas e comprovadas cientificamente como formas de melhorar a qualidade da saúde e comportamento alimentar das nossas crianças.

Enquanto muitos profissionais enxergam o BLW como “moda”, eu prefiro divulgar o método como uma maneira simples e eficaz de introduzir todas essas práticas no dia-a-dia de cada família, de forma simples e agradável para todos. Ainda que o BLW ainda não esteja cientificamente provado, todos os seus fundamentos fazem total sentido e a maioria pode facilmente ser incorporado na prática de quem opta por uma introdução alimentar participativa. Assim, ainda que o BLW não possa ser visto no âmbito da Saúde Pública, não há porque desconsiderar o método em uma consulta individualizada.

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Referências:

Brown A. Differences in eaing behaviour, well being and personality bettwen mothers following baby-led vs.traditional weaning styles. Maternal and Child Nutrition, 2015.

Sachs M. Baby-led weaning and current UK recommendations: are they compatible? Guest Editorial. Maternal and Child Nutrition, 2011.

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Brown A, Lee MD. Early influences on child satiety-responsiveness: the role of weaning style. Pediatric Obesity 2013.

Cameron, Sonya L., Anne-Louise M. Heath, and Rachael W. Taylor. “How feasible is baby-led weaning as an approach to infant feeding? A review of the evidence.” Nutrients 4.11 (2012): 1575-1609.

Rowan, Hannah, and Cristen Harris. “Baby-led weaning and the family diet. A pilot study.” Appetite 58.3 (2012): 1046-1049.

Entendendo a Introdução Alimentar Participativa (IA ParticipATIVA)

Recentemente, muito tem se falado sobre o método Baby-led weaning de introdução alimentar. Ao contrário do que muita gente pensa, o método em si não prevê a oferta assistida pelos pais em nenhum momento – pois fundamenta-se na alimentação livre e gerenciada pelo próprio bebê na grande maioria das vezes, visando o total controle do bebê sobre sua própria alimentação. Desta forma, ainda que os pais ofereçam alimentos em pedaços desde o início da IA, oferecer a papa passivamente ao bebê já descaracterizaria o BLW.

Mas, como já discutimos anteriomente nesse post, um grande número de famílias acaba optando por introduzir fundamentos do método BLW na introdução alimentar convencional. Com isso, um novo conceito em introdução alimentar acabou sendo criado, o qual vai de encontro aos Manuais Oficiais de introdução alimentar em vigor no Brasil e no Mundo. E muito além, incentiva as famílias a introduzirem, desde o início da introdução alimentar, os alimentos sólidos em seu formato original, possibilitando que as crianças experienciem o máximo possível de sensações desde o seu primeiro contato com os alimentos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, sabe-se que o sucesso da alimentação complementar depende não somente do que é servido, mas também de como, quando, onde e por quem é servido. Alguns estudos comportamentais descobriram que existe uma tendência a não se observar o modo como a criança come, a menos que ela comece a não aceitar mais o alimento ou fique doente. A hipótese de alguns pesquisadores é que, quanto mais ativo for o estilo de alimentação ao qual a criança é exposta, melhor será sua aceitação.

Assim, a OMS recomenda um estilo de alimentação responsivo, aplicando os princípios psicosociais de cuidado: a) auxiliar diretamente o bebê e assistir crianças mais velhas a alimentarem-se sozinhas, atentando-se às pistas de fome e saciedade; b) alimentar devagar e pacientemente, encorajando as crianças a comer – mas não as forçando c) se a criança recusar inúmeros alimentos, tente com diferentes combinações, sabores, texturas e métodos de encorajamento; d) minimize as distrações durante as refeições, especialmente se a cirnaça perde a atenção facilmente; e) lembre-se que os momentos de alimentação são períodos de aprendizado e amor – fale olho-no-olho com a criança durante as refeições.

Essas orientações vão totalmente de encontro ao conceito configurado na Introdução Alimentar ParticipATIVA, na qual o bebê é agente ativo do processo de introdução da alimentação complementar, ainda que recebendo alimento de um intermediador. Dessa forma, a alimentação passa a ser assistida – e não passiva. Assitida pelos pais, que intermediam as preferências do bebê e o auxiliam motoramente, enquanto ele não adquire habilidade e eficiência na ingestão adequada de nutrientes necessários para o seu desenvolvimento.

E, considerando tudo que já conversamos, deixo aqui uma reflexão. Você já parou para se perguntar o quanto seu bebê está participando ativamente no momento da refeição? Ele está decidindo o que quer comer, o quanto quer, como quer?

Como já discutimos, “dar” é diferente de “oferecer”. É importante sempre lembrar que todas as atitudes e hábitos que estão sendo colocados no momento da refeição podem perdurar por muitos e muitos anos a fio. Se um bebê assimila que é permitido dizer não e é possível não aceitar algo, ele torna-se capaz de internalizar positivamente a habilidade de provar coisas novas e de aceitar que algo diferente esteja no prato – ainda que ele não queira comer.

Já conheceu alguma criança maior que não pode ver nada de cor diferente no prato que já recusa a refeição inteira? De onde será que vem esse comportamento? É claro que ninguém faz isso por mal, toda família quer ver seu bebê comendo muito e feliz. Mas em alguns momentos é necessário se perguntar o que realmente o bebê está APRENDENDO nesse processo (de IA). Muito do que ele aprender, vai ser implícito – isso significa que vc não vai ensinar, mas de certa forma, ele vai assimilar e guardar em sua memória. Assim, um comportamento, uma ação começa a se relacionar com determinada consequência. “Eu abro a boca porque senão ela fica brava” é completamente diferente de “Eu abro a boca porque eu tenho fome e vontade de comer“.

Quando uma colher é colocada na boca do bebê sem que ele intencionalmente se prepare pra isso, ele está realmente aprendendo a se alimentar? Ou simplesmente está ingerindo comida? Consegue perceber a diferença? Sei que cada bebê é único e reage de um jeito à situação. Se o seu bebê é um “comilão” nato, muito provavelmente vc nem vai chegar a se questionar se está fazendo certo/errado – e se é que existe certo/errado. Mas independente da individualidade do seu bebê, refletir sobre COMO o processo de IA está sendo conduzido e pensar no que essencialmente está sendo aprendido, pode te levar a compreender de fato como os hábitos de agora podem influenciar todo um futuro de organização e saúde alimentar.

Vale a pena, pode ter certeza. Refletir, repensar, reagir. Devagar e sempre ❤️


Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co

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Referências

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do
adolescente e na escola/Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento de Nutrologia, 3ª. ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP, 2012.

PAHO/WHO. Guiding principles for complementary feeding of the breastfed child. Washington DC, Pan American Health Organization/World Health Organization, 2002.

 

Posso combinar métodos? O BLW e a oferta da papinha – Parte II

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Com a popularidade crescente do método BLW em alguns países como Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália, as pesquisas começaram a tomar forma. Em sua maioria trabalhos de análise de prontuários de pacientes e respostas de questionários aplicados com voluntários.

Conforme essas pesquisas foram sendo conduzidas, foi-se percebendo que existia, entre as mães simpatizantes com o método, uma linha contínua de aderência ao BLW. Isso significa que algumas mães eram extremamente rígidas em seguir todas as “regras” que o livro propunha, outras nem tanto. E entre as mães “nem tanto”, algumas auxiliavam o bebê somente quando estavam comendo fora, ou quando precisavam oferecer algo que precisava de colher (como iogurte, por exemplo) e outras praticavam aproximadamente 50/50 tradicional/BLW.

Ou seja, existiam mães BLW para todos os gostos. Tanto, que alguns pesquisadores encontraram dificuldades para dividir essas mães em grupos, para poder compará-los (os grupos) entre si. Um dos estudos, por exemplo, utilizou um limiar de no máximo 10% de alimentação assistida (oferecida pelo cuidador) para definir quem seria adepto do BLW e quem seria adepto ao método tradicional. Já outros estudos optaram por separar essas mães em grupos mais flexíveis. Tudo isso para poder comparar as diferenças nos resultados quando se aplicava o método BLW estritamente ou de maneira mais flexível.

Interessantemente, uma proporção de famílias que reportaram estar utilizando o BLW estavam na verdade utilizando uma abordagem mais flexível do método, a qual incluía uma combinação de alimentação independente e alimentação assistida. Geralmente, isso ocorria quando o bebê era aparentemente incapaz de se alimentar sozinho (por exemplo quando estava doente) ou especificamente para garantir apropriada ingestão de ferro (em alguns países é muito comum oferecer o cereal rico em ferro no café da manhã após os seis meses). O que os pesquisadores puderam inferir foi que o BLW e a alimentação assistida não eram vistos pela comunidade como métodos dicotômicos (que seria um excluindo o outro), mas sim estilos de alimentação infantil que poderiam ser combinados para adequar as necessidades da criança e da família em determinadas situações.

Outro fato importante a ser destacado é que a maior parte dos resultados positivos foram observados principalmente no grupo mais aderente ao BLW (pouca ou nenhuma oferta assistida). Famílias que seguiram o BLW de forma mais rígida também apresentaram melhores comportamentos em relação à saúde e nutrição. A maioria desses bebês foi amamentada exclusivamente até os seis meses e iniciaram alimentação complementar somente após essa idade, como sugere a OMS. Interessantemente, mães que seguiram o BLW rigidamente (pouca ou nenhuma oferta assistida) apresentaram melhores níveis de educação formal.

Uma questão de semântica.

É importante ressaltar que, dar uma fruta ou um legume na mão da criança uma vez ou outra, ou oferecer os sólidos para a criança durante a oferta da papinha, não caracteriza BLW. O termo ficou em evidência como uma “moda” entre as mães, mas é importante entender o conceito original. Entenda, pesquise, pergunte, troque ideias e receitas com outras mães que já aplicaram ou que estão aplicando o método, inclusive para receber suporte e “apoio moral”. Quanto mais você entender o método, mais sentido ele vai fazer pra você e maiores as chances de você estar praticando com sucesso o melhor que o BLW tem a oferecer para seu bebê.

Praticar o BLW precisa de muito empenho, paciência e requer que você, acima de tudo, confie no seu bebê. Ele vai ser o principal ditador das regras. Ele vai te dizer o que, como, quando e quanto quer comer. Pode ser que você deixe a disposição uma série de alimentos e ele te diga (mesmo sem falar) que não é ali nem agora que ele gostaria de estar. Não se desespere, tenha paciência, controle a ansiedade. Dê tempo à ele. A alimentação é em livre-demanda. Se ele não quer comer agora, tente daqui meia hora. Coloque-se no lugar do bebê e tente entender a vontade dele. E lembre-se que o leite é a principal fonte de nutrição do bebê durante o primeiro ano de vida. Discuta suplementos de vitaminas e ferro com o seu pediatra de confiança.

E importantíssimo: BLW só depois que o bebê for capaz de sentar com pouco ou sem apoio e capturar objetos com a mão e levá-los à boca. Antes disso, se for necessária a introdução de alimentação complementar, somente o método tradicional é indicado.

Vale lembrar que o método tradicional de introdução de alimentação complementar é amplamente utilizado e é inclusive o proposto pelo Ministério da Saúde do Brasil atualmente. Se vc é uma pessoa que gosta de ter total controle da situação, entre de cabeça no método tradicional. Porém, caso opte pelo método tradicional, sugiro que não deixe de oferecer alimentos em pedaços (finger food) vez ou outra para seu bebê. O estímulo sensorial destes alimentos é extremamente importante e vão auxiliar no correto desenvolvimento oral do seu bebê. Na dúvida, consulte um fonoaudiólogo.

Referências:

Cameron SL, Taylor RW, Heath A-LM. Parent-led or baby-led? Associations between complementary feeding practices and health-related behaviours in a survey of New Zealand families. BMJ Open 2013.

Cameron SL, Heath A-LM, Taylor RW. Healthcare professionals’, and mothers’, knowledge of, attitudes to and experiences with, baby-led weaning: a content analysis study. BMJ Open 2012.

Rapley G, Murkett T. Baby-led weaning: helping your child love good food. London, UK: Vermilion, 2008.

Brown A, Lee MD. Early influences on child satiety-responsiveness: the role of weaning style. Pediatric Obesity 2013.