Como ajudar a criança a aceitar novos alimentos?

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Pais de crianças pequenas geralmente se preocupam com os hábitos alimentares dos seus filhos. As queixas se relacionam geralmente com a dieta excessivamente limitada aos ultraprocessados, a rejeição a qualquer coisa verde, a recusa de tentar qualquer coisa nova ou as explosivas batalhas durante as refeições, que tornam a hora de comer estressante para todos. Frequentemente pais exasperados que – convencidos de que eles tentaram tudo – chegam à conclusão de que seu filho é constitucionalmente um “comedor exigente” e que é incapaz de expandir seus horizontes.

Foi assim que duas especialistas no campo dos desafios alimentares: Jessica Piatak, terapeuta ocupacional, e Kristina Carraccia, fonoaudióloga, ambas do The Center for Discovery, com sede em Nova York, se especializam em trabalhar com crianças com graves dificuldades de desenvolvimento, distúrbios do espectro do autismo e fragilidades médicas. Elas desenvolveram uma abordagem denominada pelas autoras de “Exploração e descoberta de alimentos”, chamada de FED (Food Exploration and Discovery). Esta abordagem tem sido usada com sucesso para tratar crianças com distúrbios sensoriais e comportamentais severos. Crianças que tinham antes dietas extremamente limitadas, geralmente compostas por dois ou três alimentos processados, passaram a ter uma dieta mais variada, nutritiva e com base em alimentos inteiros.

Embora algumas crianças possam levar mais tempo do que outras para essa transição, as terapeutas dizem ainda não terem encontrado um “comedor exigente” cuja dieta não pudesse ser ampliada com sua abordagem gradual, personalizada e flexível. Sua abordagem baseia-se em um único princípio fundamental:

“o objetivo não é simplesmente fazer a criança comer em toda refeição, mas sim chegar a um ponto em que uma criança come porque está intrinsecamente motivada para fazê-lo”

Este é um objetivo de mudança de comportamento a longo prazo e, como tal, pode levar um grande período de tempo para alcançar. O processo é gradual e realizado em passos progressivos. Pode levar de três a seis meses até que uma variedade mais ampla tenha sido adicionada com sucesso, podendo variar de 10 dias a 2 anos. Mas até à data, todas as crianças finalmente chegaram lá. Com uma abordagem flexível, a mentalidade correta e muita paciência, você pode transformar a hora da refeição.

 

Aqui estão algumas das dicas para começar:

 

Nunca force uma criança a tocar, provar ou comer um alimento.

Muitas escolas e famílias empregam táticas pra que a criança “apenas experimente”, com a promessa de que, se eles não gostarem, podem dizer “não, obrigado”. Ou ainda, prometem recompensas, que serão dadas se a criança comer certo alimento no jantar.

Essas abordagens prejudicam o objetivo de ajudar as crianças a se sentirem confortáveis ​​o suficiente para tentar – e aceitar – novos alimentos. Pense em como você pode sentir se, ao visitar um país estrangeiro, você for forçado a morder insetos fritos ou cérebro de bezerro, mesmo se puder dizer depois “não, obrigado”! Isso é o que algumas crianças com desafios alimentares podem sentir ao enfrentar um prato de verdes desconhecidos – particularmente crianças do espectro autístico.

Se você está empenhado em criar uma criança que come de forma variada e em ter uma hora de comer harmoniosa, criar um momento de refeição sem pressão é essencial. Para fazê-lo, comprometa-se a ficar do seu lado da divisão da responsabilidade alimentar e resistir ao impulso de forçar, coagir, subornar ou colocar alimentos na boca do seu filho.

Como Ellyn Satter, referência mundial nas práticas de alimentação da infância, ensina:

“Você decide o que servir e quando. Seu filho consegue decidir se deve comê-lo e, em caso afirmativo, quanto.”

 

Defina orientações e expectativas para as refeições.

As crianças podem ficar ansiosas quando não sabem o que esperar, e muitas vezes fazem melhor quando as rotinas são previsíveis. Com a hora da refeição não é diferente. As crianças podem se preocupar que não haverá algo que eles queiram comer, ou talvez que eles sejam forçados a tentar algo assustador. Piatak e Carraccia usam vários mantras adaptados a tais situações para ajudar a colocar as crianças à vontade.

Um exemplo de tal mantra de refeições, de acordo com Carraccia, pode assemelhar-se a isto: “Nós sentamos com nossa família. Se houver algo no seu prato que você não gosta, você pode colocá-lo em outro prato. Você pode comê-lo se quiser, mas você não precisa. Todo mundo ajuda a limpar a mesa quando acabamos de comer”. Repetir frases como essa ajudam a tornar a hora da refeição confortável, reduzindo a pressão que pode levar a uma dinâmica disfuncional das refeições.

 

Incentive as crianças com desafios alimentares a brincar com comida … Longe da mesa.

A maior parte da terapia de alimentação no The Center for Discovery não ocorre perto da mesa de jantar, de acordo com Piatak. O sucesso na mesa de jantar começa com uma variedade de técnicas de dessensibilização baseadas no jogo, que permitem que as crianças se sintam confortáveis ​​com as vistas, aromas, texturas e, eventualmente, gostos, de um alimento desconhecido em um ambiente divertido e de baixa participação. O jogo de comida incentiva as crianças a interagir com novos alimentos de forma não ameaçadora, sem expectativas. Conforme eles vão aprendendo mais sobre as propriedades de um alimento, vão gradualmente ficando mais confortáveis ​​para lamber ou até mesmo provar.

Diz Piatak: “Nós vamos colar alimentos em um caminhão de brinquedo. Ou podemos colocar vegetais ralados em nossos rostos como uma barba ou bigode e fazer caras engraçadas no espelho. O jogo da água também é um dos favoritos: vamos brincar com alimentos na água e às vezes adicionar bolhas. Ensinaremos as crianças a cuspir comida em uma tigela, e eles geralmente adoram, acham engraçado. E uma vez que eles sabem que têm permissão para cuspir uma comida, eles podem estar dispostos a saboreá-la”. “A improvisação”, acrescenta Carraccia, “é a chave”.

 

Transição progressiva e gradual.

Roma não foi construída da noite para o dia, e não é realista esperar que uma criança que só coma nuggets de frango e macarrão sem molho de repente se transforme em alguém que ama couve e quinoa. A abordagem FED entende a criança como ela é, aprendendo sobre seus alimentos e marcas preferenciais e tentando replicá-los de maneiras sutilmente modificadas. “Começamos apresentando outras versões de seus alimentos favoritos – como talvez nuggets de frango orgânicos ou cachorros-quentes – para tentar replicar sua marca preferida. Ou podemos misturar algum arroz diferente com o tipo usual que eles aceitam em casa, ou trocar nosso queijo pelo seu tipo usual de queijo em um sanduíche de queijo grelhado “, explica Piatak.

Lentamente, os terapeutas começam a incorporar novos alimentos, continuando a fazer pequenas mudanças nos alimentos preferidos. Talvez adicione um tempero diferente à pizza para mudar o sabor. Então, pizza na crosta torna-se pizza no pão, pizza sem molho, pizza com uma meia colher de chá de proteína ou vegetais. Ao longo do tempo, eles podem tirar a parte do pão completamente e trocar por um hambúrguer de peru coberto com molho e queijo. Então o molho se foi. Em seguida, o hambúrguer de peru transita para um hambúrguer de vegetais, ou vegetais desfiados são incorporados em empanadas caseiras. Na população que Piatak e Carraccia atendem, este processo é intencional e, muitas vezes, lenta, para ajudar a dessensibilizar crianças com fortes aversões sensoriais a novos alimentos. Com crianças levemente seletivas, você poderia ignorar uma ou duas etapas no processo.

 

Ofereça o familiar ao introduzir o novo.

Muitas mães com quem falei são da opinião de que oferecer uma comida favorita, como batatas fritas ou cachorros-quentes, ao tentar introduzir uma comida nova e saudável prejudicaria suas chances de sucesso. Certamente, se houver uma comida preferida oferecida, então uma criança não tem incentivo para tentar o novo alimento, certo? De fato, o oposto provavelmente é verdadeiro.

Os níveis de ansiedade podem ser elevados quando uma criança encontra uma mesa cheia de alimentos desconhecidos, e o estresse pode fazê-la recuar, recusando insistentemente a provar qualquer coisa. Mas uma criança que acredita que tem pelo menos alguma coisa na mesa que ela possa comer confortavelmente, acaba entendendo que não estão apostando que ela irá provar algo novo. Então, a noite de cachorro-quente é um ótimo momento para introduzir um complemento, como uma sopa de ervilha. E a noite de pizza é uma oportunidade para oferecer um buffet de opções de cobertura – desde cogumelos e azeitonas até manjericão e alcachofras – que a criança pode encontrar e considerar.

Piatak e Carraccia usam o familiar como trampolim para novos alimentos. Se uma criança ama iogurte, por exemplo, ela pode mergulhar um florete de brócolis no iogurte e apenas sentir a textura do brócolis na língua enquanto lambe o iogurte. Importante: aconselha-se paciência com a transição. Só porque uma criança não coloca a comida na boca, isso não significa que o progresso não está sendo feito. Cada nova exposição desensibiliza um pouco mais a criança e, à medida que aumenta o conforto, cresce também a vontade de experimentar novos alimentos.

 

Nunca atrapalhe as crianças a comerem algo.

A confiança é a base do relacionamento com a alimentação, como em qualquer outro relacionamento, e você está violando essa confiança ao, vamos dizer, esconder espinafres processados em seus brownies, ou beterrabas em suas vitaminas. Além disso, uma vez que o objetivo é fazer com que as crianças comam porque são intrinsecamente motivadas a fazê-lo, você não vai conseguir nada escondendo um pedaço de espinafre no corpo da criança que não  escolheu consumir por sua própria vontade. É como ganhar uma batalha, mas perder a guerra. Carraccia explica que não é necessário esconder o que é diferente na comida da criança. “Nós dizemos: ‘Esta é pizza com um pouco de brócolis’, e nunca tentamos enganar. Nós sempre somos honestos, e não tentamos misturar as coisas para que a criança não saiba, porque todo esse processo é baseado na confiança”.

 

Texto traduzido e adaptado de Health US News, escrito pela Nutricionista Tamara Duker Freuman, texto original aqui.

Meu bebê parou de comer!

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Durante a fase de introdução alimentar, os bebês passam por diversas fases de inapetência, o que é absolutamente normal, mas deixa qualquer cuidador de cabelo em pé. São inúmeras as razões, que afetam não só a alimentação, como também o humor e o sono do bebê. Por isso, antes de se gabar aos quatro ventos que seu filho come tudo, ou dorme a noite inteira, previna os cuspes na testa e tente passar pelos 3 primeiros anos de vida sem surtar em cada uma dessas fases.

As dificuldades alimentares em crianças em desenvolvimento típico podem ter início durante essas fases de inapetência. Ao invés de tratar esses períodos como uma etapa de desenvolvimento normal da criança, profissionais despreparados costumam piorar a situação com a simples frase “esse bebê precisa comer”. Uma frase tão curta, mas com um potencial enorme de desequilibrar toda uma dinâmica de alimentação. A família torna-se ansiosa, aumentando os níveis de estresse e frustração durante as refeições. E o impacto emocional durante as refeições tem grande influência nos resultados futuros de alimentação (Morris & Klein, 2000).

Uma grande falácia do atendimento pediátrico em qualquer especialidade é orientar o desmame para que o bebê coma mais. Acontece que durante os dois primeiros anos de vida o alimento é complementar ao leite materno, e não o contrário. Por isso, amamentar até os dois anos ou mais, como recomenda a Organização Mundial da Saúde, só faz com que a família tenha mais segurança em respeitar a criança nessas fases de inapetência, e passar por esses períodos sem trauma ou estresse.

Os primeiros três anos de vida coincidem com uma série de grandes mudanças na vida do bebê. Muitas vezes acontecem em série, e em concomitância com outras situações, podem deixar o bebê bastante agitado, desregulando seu padrão habitual de fome e sono. Sabendo-se que é esperado que o bebê passe por essas fases transitórias, o cuidador torna-se atento à mudanças sutis no comportamento, relacionando as causas e baixando a expectativa em relação aos padrões de alimentação e sono.

Demonstrar empatia, acolher e buscar soluções viáveis a curto prazo são essenciais para que família e bebê passem por essas fases sem traumas.

Saltos de Desenvolvimento

“Meu filho não quer mais ficar no cadeirão, está com 11 meses e fica jogando a comida no chão e olhando pra baixo. Está quase andando e não para quieto um minuto. Não sei mais o que fazer”

Toda vez que o bebê começa a desenvolver uma nova habilidade, ele fica tão excitado durante o processo, que quer praticar a todo momento. Durante esses períodos, eles podem resistir às rotinas já estabelecidas e podem mudar os padrões aos quais os pais já estavam habituados, como a hora da refeição.

Nos dias que antecedem o chamado salto de desenvolvimento, o bebê se sente perdido dentro do que já lhe era conhecido. Seus sistemas perceptivo e cognitivo mudaram, houve maturação neurológica, mas não houve tempo hábil para adaptação às mudanças.

O bebê passa a reconhecer o mundo de forma diferente, situação que com frequência gera ansiedade. O bebê tende a voltar para o seu porto seguro, geralmente, a mãe. O resultado é o aumento da demanda de mamadas, do colo e a modificação dos padrões de sono, humor e apetite. Mas depois da aquisição de uma nova habilidade (como sorrir, interagir, sentar, engatinhar, andar, falar) o bebê dá um salto no desenvolvimento e fica feliz com o final da ‘crise’.

A duração de cada salto pode variar, podendo durar dias ou semanas, podendo voltar ao padrão anterior como se nada tivesse acontecido. A aquisição da nova habilidade é facilmente notável e o bebê está claramente satisfeito e independente com a nova situação. Essas aquisições ocorrem em vários aspectos: desenvolvimento motor, desenvolvimento do controle motor fino, linguagem e desenvolvimento social.

Seria cômico, se não fosse trágico, mas no primeiro ano de vida o bebê passa por saltos de desenvolvimento praticamente todos os meses. Então é bem natural que o apetite seja extremamente flutuante no primeiro ano de vida.

 

Picos de crescimento

“Meu filho não quer mais comer, chora quando o coloco sentado no cadeirão, só quer peito, peito, peito…”

Picos de crescimento são fenômenos que se referem ao crescimento do bebê, períodos em que precisam de mais alimento para crescer em um ritmo mais acelerado. Então um bebê que dormia longos períodos à noite, pode começar a acordar mais e solicitar mais mamadas. Esta necessidade geralmente dura de poucos dias a uma semana, seguido de um retorno ao padrão menor de mamadas, mas agora com o organismo da mãe adaptado a produzir mais leite. É muito importante respeitar a demanda aumentada, pois somente assim a produção de leite materno poderá se ajustar perfeitamente às necessidades do bebê.

Pode ser que o bebê se prontifique à comer mais, se ele já tiver entendido que comer mata a fome. Por outro lado, se o bebê ainda associa a saciedade com a alimentação láctea, é bem provável que ele recuse a comida em detrimento ao leite, pois é dessa forma que o corpo dele entende que ele vai garantir o necessário para crescer. Além disso, o leite materno é um alimento muito completo e tem muito mais calorias do que uma papinha ou pedaços de frutas ou legumes. Sabiamente, seu corpinho vai preferir o que irá lhe garantir maior aporte calórico e menor gasto de energia para essas fases de “estirão”.

Nesses períodos a mãe pode interpretar incorretamente e achar que seu leite é insuficiente, ou pior, ser induzida a achar que seu leite é fraco. Em ambos casos, a primeira solução parece ser o complemento de leite artificial. O que é um erro, pois perde-se o poderoso estímulo de sucção no peito, prejudicando o equilíbrio perfeito da natureza de produzir o leite conforme a demanda.

Outra situação bastante frequente relacionada ao crescimento é que, mais cedo ou mais tarde, o bebê passa a comer menos, devido à mudança do ritmo de crescimento da criança. No primeiro ano, os bebês engordam e crescem mais rapidamente do que em qualquer outro período da vida fora da barriga da mãe. E a criança de 1 a 6 anos, que cresce lentamente, come proporcionalmente menos do que a de seis meses ou a de doze anos, que estão em períodos de rápido crescimento.

É importante reforçar que nem toda criança come igual, nem cresce no mesmo ritmo ou acompanha as curvas de peso. Por isso, é essencial avaliar outros dados, e que isso seja feito em uma consulta individualizada, preferencialmente com um o pediatra e o suporte de um nutricionista infantil.

 

Angústia da separação

“Meu bebê não aceita ficar no cadeirão, só quer ficar no colo. Só come com outras pessoas, comigo só quer peito, peito, peito…”

Por volta de 6-8 meses, o bebê começa a perceber que é um indivíduo separado da mãe. Essa descoberta lhe traz angústia e medo, e por isso ele pode pedir mais colo, chorar mais que o usual e solicitar muita mais atenção da mãe.

Neste momento, a mãe ainda é o centro do mundo do bebê e representa seu porto seguro. Como a noção de permanência não está completamente estabelecida, essa angústia é muito acentuada. O bebê não consegue entender que a mãe continua ali, mesmo quando está longe do seu campo de visão.

A Dra Andréia Mortensen, neurocientista, explica o seguinte:

“O sistema de angústia da separação, localizado no cérebro inferior, está geneticamente programado para ser hipersensível. Nos primeiros estágios da evolução humana era muito perigoso que o bebê estivesse longe da sua mãe. Se não chorasse para alertar seus pais do seu paradeiro, não conseguiria sobreviver. Então, quando o bebê sofre pela ausência dos seus pais, no seu cérebro ativam-se as mesmas zonas que quando sofre uma dor física. Ou seja, a linguagem da perda é idêntica à linguagem da dor. Não tem sentido aliviar as dores físicas, como um corte no joelho, e não consolar as dores emocionais, como a angústia da separação. Mas, infelizmente, é isso o que fazem muitos pais, por não conseguirem aceitar que a dor emocional de seu filho é tão real como a física. Essa é uma verdade neurobiológica que todos deveríamos respeitar.

O período “crítico” de desenvolvimento emocional e social ocorre nos primeiros 18 meses da criança. A parte do cérebro que regula as emoções – a amídala – é formada cedo, de acordo com as experiências que o cérebro recebe. O desenvolvimento de um vínculo emocional, empatia e confiança, e todos os aspectos da inteligência emocional fornecem o fundamento para desenvolvimento de outros aspectos emocionais conforme a criança cresce. Então, nutrir emocionalmente e responsivamente o bebê é importante para que a criança aprenda empatia, felicidade, otimismo e resiliência na vida.

Então, se se a mãe tiver que se afastar do filho pequeno para trabalhar ou por outro motivo, muito carinho, conversa, paciência e coerência nas atitudes são necessários para que ele continue tendo confiança nela e supere esse período de crise. É também muito importante certificar-se que o bebê criou um vínculo afetivo com o outro cuidador. 

Nessa fase, procure passar todo tempo possível com seu bebê, principalmente se trabalha fora. Separe os momentos logo após o reencontro do dia de trabalho para ter dedicação exclusiva a ele. Sente confortavelmente, faça contato olho no olho, amamente, interaja com seu bebê. Você pode estar cansada e estressada depois da longa jornada de trabalho, mas se conseguir um pouco de energia para receber seu bebê com alegria, você também se sentirá melhor após alguns minutos de uma reconexão significativa. Somente depois pense no jantar, no banho e outros afazeres. Considere promover proximidade na hora de dormir se suspeita que o bebê tem acordado mais a noite por estar passando por um pico de ansiedade de separação.”

Leia o texto completo da Dra Andréia Mortensen, sobre saltos de desenvolvimento, picos de crescimento e angústia da separação, nesse LINK.

 

O nascimento dos dentes

“Meu bebê não quer mais pegar a comida, vira o rosto para a colher, empurra e joga tudo no chão. Está salivando muito, acho que vem dente por aí…”

Os dentes começam a nascer mais ou menos aos 6 meses de idade. Os primeiros a aparecer são os incisivos centrais inferiores, seguidos pelos incisivos centrais superiores, e incisivos laterais inferiores. Por volta de 1 ano e meio surgem os incisivos laterais superiores, e então começa a erupção dos dentes mais posteriores como os caninos e os molares. Aos 3 anos, aproximadamente, o bebê terá todos os dentes de leite. E é normal um atraso de aproximadamente 8 meses.

 

Os primeiros sinais de que os dentinhos estão chegando são coceira na gengiva pela pressão dos dentes, gengiva mais abaulada e esbranquiçada e aumento da salivação por conta do amadurecimento das glândulas salivares e pela incapacidade do bebê engolir toda a saliva. Alguns bebês ainda apresentam: dor, febre baixa (até 38º), diarreia e acidez nas fezes (o que pode causar assaduras), constipação nasal e aumento de secreção nasal. Apesar desses últimos não terem comprovação científica, não é incomum encontrar relato desses sintomas entre os bebês dessa idade.

Todos esses sintomas deixam o bebê mais agitado, podendo facilmente interferir nos padrões de alimentação e sono. Alimentos mais consistentes ajudam a massagear a gengiva, mas se houver dor, é comum que o bebê os rejeite completamente. Ofereça alimentos frios e amolecidos, progredindo a consistência aos poucos, até que se perceba que o incômodo maior tenha passado. A melhor forma de saber isso é deixando os sólidos à disposição. O próprio bebê vai saber quando é a hora de voltar a comer normalmente.

Géis anestésicos podem levar ao engasgo e aspiração pela dessensibilização da região orofaríngea e são portanto contra-indicados. A Associação Brasileira de Odontopediatria comunicou ainda, em nota oficial, que produtos a base de benzocaína não devem ser usados em crianças menores de dois anos de idade, exceto sob a orientação e supervisão de um profissional de saúde. O Comitê de Drogas dos EUA (FDA) fez um alerta ao público de que o uso de benzocaína, principal ingrediente de produtos fármacos usados para reduzir a dor na boca ou nas gengivas, está associado a uma rara, mas grave doença. Esta condição é chamada metemoglobinemia e resulta na redução significativa da quantidade de oxigênio transportado no sangue, podendo levar à óbito.

Se a irritação e/ou dor for muito intensa, consulte o pediatra. Você pode ainda tentar tratamentos homeopáticos ou fitoterápicos, com profissionais especializados.

 

 

Outras mudanças

“Há dias meu bebê não aceita nada além de frutas. Mudamos de casa há 1 mês e ele começou a ir para a escola. Seus horários de soneca estão todos desregulados e ele tem aumentado as mamadas noturnas…”

Outros acontecimentos, como o nascimento de um irmãozinho/a, introdução de alimentos novos, o retorno da mãe ao trabalho e entrada em creche, viagens, doenças, separação dos pais, atritos com coleguinhas, ausência de um ente querido, entre outros, podem interferir no sono e na alimentação da criança.

Outros motivos que podem ocasionar a falta de apetite em crianças é quando estão resfriadas, gripadas, com alguma infecção, principalmente de garganta. O calor excessivo pode dar moleza, desânimo e vontade de “comer nada” também. Nesses casos, ofereça muito líquido para hidratação e alimentos mais leves, já que a criança não consegue se alimentar normalmente.

Em todos esses casos, tenha muita paciência e empatia. Coloque-se no lugar da criança, e espere a causa ser resolvida para que, gradualmente, a rotina pode ser restabelecida.

Cabe ressaltar que períodos prolongados de inapetência, associados ou não com perda de peso e falha no crescimento, devem ser investigados. Se a criança apresenta sonolência, palidez e pouca disposição junto com a falta de fome pode indicar falta de nutrientes importantes, como ferro, cálcio, vitaminas e zinco. Leve-a ao pediatra e fale com ele sobre a situação. Alguns exames podem ser feitos. Entre outras causas mais graves, que devem ser investigadas e tratadas estão: doença do refluxo gastroesofágico, alterações no sistema digestivo, anemia, alterações motoras, doenças infecciosas, entre outras causas.

 

Faltará algum nutriente se ele não comer nada além do leite?

A partir dos 6 meses, a reserva de ferro que alguns bebês tinham ao nascer se acaba, e eles precisam comer ferro de outras fontes. É um dos motivos pelos quais se inicia a alimentação complementar aos 6 meses. Outros bebês, tem uma reserva de ferro maior e não precisariam de ferro extra até os 12 meses ou mais.

Por isso, é importante que, entre os primeiros alimentos que forem oferecidos ao bebê, estejam as carnes e os ovos, e que possam comer frutas ricas em vitaminas C antes ou após as refeições, que auxilia na absorção do ferro. A nutricionista Michelle Bento explica tudo isso melhor nesse post aquiGarantindo energia e ferro para o bebê no BLW

 

Aline P

 

CONALCO2017

 

Referências:

Dra Relva (2013). O livro da Maternagem. Pediatria Radical.

Gonzales, C (2016). Meu filho não come. ed Timo.

Morris & Klein (2000). Pre-Feeding Skills: A Comprehensive Resource for Mealtime Development 2nd Edition.

 

Mandel et al (2005). Energy Contents of Expressed Human Breast Milk in Prolonged Lactation. 

 

Sites consultados:

https://fortissima.com.br/2013/09/25/causa-falta-apetite-criancas-16290/

http://guiadobebe.uol.com.br/fases-de-crescimento-e-desenvolvimento-que-modificam-o-sono-do-bebe-e-da-crianca/

http://guiadobebe.uol.com.br/primeiros-dentinhos/