Quando o bebê aprende a comer com o talher?

Asian toddler girl eating cereals with milk on high chair at home

Não existe data mágica para que o bebê se interesse em usar o talher…

As habilidades de auto-alimentação se desenvolvem gradualmente, conforme o desenvolvimento motor do bebê avança e os movimentos motores aumentam em número, velocidade, acurácia e complexidade. No nível cognitivo, o bebê começa a assimilar, pouco a pouco, os esquemas de auto-alimentação através da observação e experimentação. Por isso, quanto mais oportunidades, maiores as chances das habilidades se desenvolverem naturalmente, sem que haja a necessidade de “treino”.

HABILIDADES

Figura 1. O desenvolvimento de uma habilidade é dependente de uma série de fatores, inerentes ao próprio indivíduo, ao ambiente que o cerca e às características da própria tarefa

 

Treino, inclusive, é uma palavra que eu prefiro não usar. Pela perspectiva do Baby-led Weaning e da Introdução Alimentar ParticipATIVA, o bebê neurotípico está predisposto a aprender e se desenvolver, sequencial e progressivamente, em um meio que favorece seu aprendizado. Assim, os talheres poderiam ser disponibilizados desde o início, porém sem expectativas de que o bebê irá começar a usá-los no tempo do adulto. O bebê vai começar a utilizar os talheres a partir da disponibilidade destes e de sua própria prontidão motora e cognitiva.

 

Favorecendo o uso dos talheres

Dito isso, vamos falar sobre oportunidades, e como acompanhar o desenvolvimento motor e cognitivo do bebê, organizando o ambiente e as tarefas de forma que o entorno seja positivo e favorecedor ao desenvolvimento das habilidades necessárias para o uso dos talheres (Figura 1).

 

Familiarização

Não existe dia certo para apresentar os talheres. Eles podem ser colocados na mesa ou bandeja do cadeirão antes mesmo da apresentação dos alimentos. Bebês que já sentam antes dos seis meses, não só podem como devem participar dos momentos de refeição familiar.

Leve o bebê junto à mesa com vocês e deixe que ele manipule os talheres, copos e pratos como brinquedos. Isso tudo faz parte do processo de familiarização, especialmente no início.

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Deixe o bebê explorar os utensílios assim que ele começar a sentar com mínimo apoio

 

Garfo ou colher?

Nenhum dos dois. Saiba que a base motora para levar um talher à boca se inicia no momento em que o bebê começa a levar as mãos e os objetos à boca. A destreza com os dedos, preensão, o equilíbrio, o alcance são habilidades prévias que podem ser adquiridas ainda com um mordedor, um brinquedo, um pedaço de brócolis ou uma colher. Cada qual com uma formas, textura e peso diferente, irão ensinar ao bebê os esquemas motores básicos que futuramente vão ser utilizados na aprendizagem da auto-alimentação com talheres. Então não se prenda à esse detalhe, apenas dê diferentes oportunidades.

A medida que o bebê vai mostrando aumento da complexidade nas habilidades motoras, como começar a levar à boca o alimento com mais facilidade, começar a esboçar um movimento grosseiro de pinça e transferir alimentos de uma mão à outra, o talher já pode ser colocado com o intuito de despertar interesse para a auto-alimentação. As próximas descobertas serão lentas e graduais, especialmente por observação e experimentação.

 

Experimentação

Não existe regra para começar por um ou outro utensílio, como já foi dito. Mas, respeitando as fases de desenvolvimento motor e cognitivo do bebê, é bem provável que vocês dois se frustem menos sabendo como lidar e o que esperar durante a curva de aprendizagem.

Uma boa forma de começar com os talheres é apresentando uma colher rasa, preenchida com algum alimento pegajoso. O  bebê vai naturalmente ver o objeto como um brinquedo e levá-lo à boca (ou ao olho, cabelo, bochechas rs). Aos poucos ele vai percebendo que aquele objeto pode transferir aquela “coisa” com sabor, do prato/bandeja para a boca. E começa tentar mergulhar a colher e lamber o que fica grudado nela.

 

A colher rasa é mais fácil porque dispende menos energia e complexidade tanto para  para encher a colher como também para capturar e retirar o alimento com os lábios. Pratos com bordas altas e que não escorregam também facilitam que o bebê consiga encher uma colher mais facilmente, para então poder carregá-la até à boca.

 

Algumas marcas estrangeiras já pensaram estrategicamente nessa fase inicial, desenvolvendo uma colher pequena, completamente reta (sem a “concha”) e cheia de vilosidades. Ela permite que o alimento grude ao material com facilidade, reduzindo o grau de complexidade da tarefa motora. Assim, a partir dos seis meses, alguns bebês já fazem o movimento simples de levá-la até boca, como fazem com qualquer outro brinquedo. O uso desse utensílio não é de fato essencial, mas pode auxiliar especialmente as crianças com algum atraso motor.

 

E eu não indico usar a colher torta, a não ser que seu bebê tenha alguma alteração física ou motora que a faça necessária. Simplesmente porque os movimentos que a criança faz para levar o alimento à boca com uma colher torta são diferentes dos movimento que ela faz quando usa uma colher regular. Lembre-se, a tarefa também é importante na aprendizagem, e derrubar faz parte. Em alguns casos, a colher torta pode dificultar a aprendizagem da colher normal, visto que a criança vai ter que reaprender a usar o utensílio.

Outra coisa que você também pode gostar de saber é que o controle motor dispendido para levar o alimento para a boca com o garfo é muito menos complexo do que com a colher (que precisa de mais acurácia, força e equilíbrio). Você pode mostrar ao bebê que é possível espetar o garfo em uma fruta picada, por exemplo, e deixar que ele faça o movimento de levar até a boca.

 

Usar o garfo e alimentos picados pode ser inclusive uma estratégia bem eficiente para aquela fase em que os bebês jogam a comida longe apenas para ver a trajetória e a queda (estão aprendendo relações de causa e consequência por volta de 9-10 meses). Ensinar uma habilidade diferente nesse momento pode desviar o foco dessa “jogatina” e instigá-los a querer praticar o uso do garfo. Leia mais: Os 10 maiores desafios do BLW

 

Vocês são o modelo

Bebês naturalmente aprendem por observação. Então, culturalmente, se a sua família utiliza colher, garfo e faca, e vocês dão a oportunidade da criança se familiarizar e ter experiências com esses utensílios, fiquem tranquilos!

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Dê tempo ao tempo

De fato, uma das coisas mais importantes que você deve assimilar é que o uso dos talheres não acontece da noite para o dia. A grande maioria dos bebês tende a utilizar os talheres como um batuque inicialmente, levando meses para usar o talher para transportar o alimento do prato à boca. Alguns bebês internalizam o esquema rapidamente, e amam comer com talher, outros podem demorar meses (ou anos) para que decidam utilizá-lo.

De qualquer forma, quando se opta por um estilo de criação ativa que preza pela autonomia, é importante deixar as expectativas de lado. Se o bebê estiver disposto a comer, com certeza ele irá preferir usar as mãos, se para ele assim for mais fácil e prazeroso.

À medida que ele se desenvolve e percebe que o talher o ajuda a levar certos alimentos com mais facilidade à boca (como por exemplo arroz e feijão, uma sopa ou um mingau), ele tende a se interessar mais pelo seu uso também. Isso tende a acontecer após 1 ano, quando não somente suas habilidades motoras estão mais eficientes, como também seus esquemas cognitivos e suas habilidades psicossociais estão se desenvolvendo a todo vapor. Cada vez mais eles vão querer autonomia e serem reconhecidos por isso!

Devagar e Sempre! 😉

 

 

Michelle BentoNutricionista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2008, pós graduada em nutrição clínica funcional pelo Instituto Valéria Pascoal. Atua em co


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O que você não sabe sobre o Baby-led Weaning

Introdução alimentar: tradicional, BLW ou participativa? – Parte II

por Aline Padovani, Fonoaudióloga

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Na introdução alimentar tradicional são os pais quem decidem quando e como o bebê começa a comer, e quando acaba a alimentação à base de leite. Já no baby-led weaning, o bebê tem autonomia para decidir quando começa e quando termina todo esse processo, e a alimentação é baseada nos seus instintos inatos e na sua capacidade de auto-regulação.

O BLW é uma abordagem de introdução alimentar que engloba oferecer alimentos saudáveis, compartilhando as refeições da família, certificando-se de que apenas o bebê coloque comida em sua própria boca. Aos pais e cuidadores, fica a responsabilidade de confiar que ele saiba se deve comer, o que comer, o quanto e com que rapidez – além de oferecer alimentos palpáveis desde o início, possibilitando assim que eles peguem com suas próprias mãos (Rapley, 2016).

E assim como a Introdução Alimentar Tradicional, o BLW também está cerceado por crenças que dificultam o entendimento da abordagem e, portanto, dificultam sua aceitação. Inúmeras famílias adaptam-se completamente ao BLW, sendo urgente a desmistificação de alguns conceitos para que os profissionais da saúde que acompanham essas famílias estejam aptos e prontos para aconselhá-las.

Saiba mais sobre o Curso Avançado em BLW e Introdução Alimentar ParticipATIVA.

 

“BLW é comer alimentos em pedaços”

Eu costumo dizer que os alimentos em pedaços são o meio e não o fim. Adequar os cortes dos alimentos para que o bebê possa pegá-los é muito importante pois, de outra forma, suas habilidades seriam insuficientes pra que ele tivesse autonomia pra se auto-alimentar, sem interferência, desde o início. Mas embora seja uma etapa fundamental do processo, o objetivo principal é que a partir da apresentação dos alimentos em pedaços, o bebê seja capaz de ser o protagonista da sua própria alimentação.

Assim, BLW é mais do que apenas oferecer sua comida para o bebê pegar – é sobre a confiança dele para saber o que ele precisa. Se você está preocupado em oferecer o que restou com uma colher, depois do bebê ter comido com suas próprias mãos, então você não está realmente confiando nele. E o ponto é que confiar em seu bebê e não confiar muito nele são simplesmente incompatíveis. Assim, ao fazer algum tipo de auto-alimentação e alguma alimentação da colher pode funcionar para você, mas não é BLW (Rapley, 2016)

Leia mais: O que você está fazendo é BLW? E isso importa?

 

“Bebês não são capazes de comer sozinhos”

Não apenas os bebês SÃO capazes de comer sozinhos a partir dos seis meses, como muitos aceitam ser alimentados apenas dessa forma. Muitas famílias relatam que nem sabiam sobre a existência do BLW (“isso já existia desde que o mundo é mundo”), mas já entendiam que essa era a única forma que o bebê estava disposto a se alimentar.

Bom, você ainda pode não estar convencido disso, até ver essa enorme quantidade de bebês comendo por si só aqui.

Vale ressaltar que estamos falando de bebês nascidos a termo, em desenvolvimento típico. Quaisquer condições que dificultem ou prolonguem demasiado o aprendizagem da auto-alimentação, com certeza fazem com o que o BLW seja repensado. Cada caso deve ser avaliado individualmente pelo profissional de saúde que acompanha a família e o bebê.

 

“Bebês precisam comer papinhas”

Como vimos, a história da “papinha batida” tem sua fundamentação em toda a história da alimentação complementar. Bebês que iniciam a alimentação precocemente, devido à imaturidade no desenvolvimento motor, não tem outra opção senão receber um alimento pastoso homogêneo na colher. Por outro lado, ao estudar o desenvolvimento infantil, fica muito evidente que a oferta de semi-sólidos e sólidos poderia ser iniciada à partir de sinais de prontidão do bebê, observados através das habilidades de auto-alimentação que se tornam mais intensas e presentes por volta dos seis meses de vida.

Leia mais: Introdução alimentar: tradicional, BLW ou participativa? – Parte I

E é através da História que entendemos que existe um senso comum, que diz que os primeiros alimentos do bebê precisam ser amassados, homogêneos e oferecidos em uma colher. Rapley (2008, 2015) ressalta que, apesar desse senso comum, essa não é de fato uma prática comprovada cientificamente. Segundo a autora, não existem evidências que suportem a necessidade de um bebê de seis meses iniciar sua alimentação apenas com alimentos pastosos homogêneos, ou mesmo a necessidade de receber colheradas.

Cichero (2016-1), em uma revisão de literatura, tentou fortemente defender a ideia de que os bebês não estão preparados para manejar alimentos em pedaços aos seis meses, descrevendo todo o padrão de aprendizagem das habilidades motoras orais estudado até então. Mas durante toda sua revisão, a autora utiliza, em sua maioria, artigos e textos de livros escritos previamente à 2003, quando a OMS passou a indicar a introdução alimentar aos seis meses. Foi nessa mesma época que Gill Rapley também começou a falar sobre Baby-led Weaning, lançando seu primeiro livro apenas em 2008. Fato é, não adianta comparar o desenvolvimento dos bebês que fazem BLW desde o início, com os bebês que começam a introdução alimentar através da decisão do adulto e sendo alimentados passivamente com a colher. Novos estudos sobre o desenvolvimento motor oral, a partir da prontidão do bebê para se auto-alimentar, são necessários para trazer luz à essa discussão.

Atualmente, a OMS orienta oferecer alimentos que a criança possa pegar somente a partir dos 9 meses, enquanto o Ministério da Saúde do Brasil e Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam aumentar gradativamente a consistência da “papa” a partir dos 8 meses. A Sociedade Brasileira de Pediatria se posicionou recentemente (2017) em seu Guia Prático de Atualização sobre Alimentação Complementar e o Método Baby-led Weaning e, em sua conclusão, orienta:

“Reconhece-se que no momento da alimentação complementar, o lactente pode receber os alimentos amassados oferecidos na colher, mas também deve experimentar com as mãos, explorar as diferentes texturas dos alimentos como parte natural de seu aprendizado sensório motor. Deve-se estimular a interação com a comida, evoluindo de acordo com seu tempo de desenvolvimento.”

A UNICEF e o NHS do Reino Unido, em parceria, lançaram o Start4life, uma iniciativa para auxiliar os pais a darem um começo de vida mais saudável a seus bebês. Em sua brochura (2011), não mencionam o baby-led weaning, mas orientam:

“A partir dos 6 meses, incentive o bebê a comer alimentos em pedaços que ele possa facilmente segurar com as mãos, para ajudar ele a praticar por ele mesmo. Comece com alimentos em pedaços que se amassam facilmente na boca e que são grandes o suficientes para que eles consigam agarrar com as mãos. Sempre fique ao lado do seu bebê enquanto ele está comendo.”

Já o artigo ilustrado a seguir é referente ao ano de 1964, período no qual os bebês começavam a comer “a qualquer momento a partir do nascimento”:

1964 -

“Deveriam ser dados sólidos para as crianças mastigarem a partir do momento em que elas estão prontas: em uma criança típica isto acontece aos 6 – 7 meses”

 

“Bebês não conseguem mastigar e engolir pedaços”

Essa crença deriva da crença anterior, relacionada ao estudo das funções orais através de pesquisas feitas com bebês alimentados passivamente com a colher. Como discutimos anteriormente, novos estudos são necessários para avaliar o desenvolvimento das funções orofaciais a partir da prontidão do bebê para se auto-alimentar.

O BLW considera o desenvolvimento da maioria dos bebês aos 6 meses, incluindo a prontidão para receber alimentos sob diferentes perspectivas: sistema gastrodigestivo está mais preparado, o controle postural permite que o bebê comece a sentar sem apoio por volta desta idade, os primeiros dentes podem começar a nascer, o bebê está adquirindo maior movimentação da musculatura proximal e distal, conseguindo alcançar, agarrar objetos e levá-los à boca, o que leva à inibição do reflexo de protrusão de língua. O reflexo de gag ainda encontra-se anteriorizado, protegendo o bebê contra engasgos, principalmente no início, onde eles ainda estão aprendendo a mastigar.

Cichero (2016-2), em uma segunda revisão de literatura, novamente tenta reforçar que os bebês precisam passar por uma fase de transição, aprendendo a mastigar por meio da exposição à papa com pequenos pedaços macios, passando a mastigar de forma segura, alimentos naturalmente macios, como banana e abacate apenas a partir dos 10 meses. Toda a base de seu estudo e revisão são de datas anteriores à descrição do BLW e, como já coloquei anteriormente, não há como explicar o BLW através de pesquisas sobre mastigação feitas com bebês em introdução alimentar tradicional. Observe a tabela a seguir (em inglês):

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Cichero, 2016 (2)

Curiosamente, desde que o BLW começou a ser difundido, primeiramente na Inglaterra em 2002, e mundialmente após o lançamento do primeiro livro da Gill Rapley em 2008, não houve nenhum relato de caso de efeito adverso com o uso da abordagem, até o momento. Muito pelo contrário, a abordagem vem sendo cada vez mais compreendida e utilizada na prática, conforme pode ser visto nesse link aqui. O vídeo a seguir mostra um bebê de quase seis meses comendo seu primeiro alimento:

Em sua tese de doutorado, Delaney (2010) encontrou evidências de que purês não necessariamente são mais fáceis de comer e que, aprimorar as habilidades em comer purês não melhora a forma com que lidamos com os sólidos. Delaney também encontrou evidências que a experiência acelera o desenvolvimento das habilidades mastigatórias para acima do que seria esperado apenas pela maturidade do desenvolvimento. Observou também que bebês de 8 meses são capazes de demonstrar um grande número de habilidades, em uma variedade de texturas, contrariando o que antigamente se considerava padrão.

Rapley (2016), em resposta à um estudo neozelandês que compara a introdução alimentar tradicional ao baby-led weaning, diz o seguinte:

“Quando se trata de engasgo, é importante notar que a natureza do alimento não é o único fator. A postura e habilidades de mastigação do indivíduo também importam, assim como sua capacidade em se concentrar na alimentação.

(…) alguns escritores acreditam que os bebês BLW podem ser mais propensos a sufocar “porque eles estão se alimentando de alimentos integrais durante os estágios iniciais da alimentação complementar, enquanto eles ainda estão aprendendo a mastigar e engolir”. Mas isso implica que os bebês podem “aprender” a mastigar e engolir sem ser dado qualquer coisa mastigável. Não é assim que o desenvolvimento funciona!

De fato, não há evidência de que os bebês BLW estejam mais em risco de engasgamento do que bebês que são alimentados com colher.

Na verdade, o oposto pode até ser verdade, uma vez que os bebês BLW têm a oportunidade de praticar a mastigação a partir do momento em que as habilidades relevantes estão se desenvolvendo. Além disso, uma vez que não estão sob pressão para comer, eles são capazes de se concentrar no alimento e comer conscientemente, em seu próprio ritmo, o que lhes permite concentrar-se no que está acontecendo dentro de sua boca.

Se é o caso que os pais BLW são mais propensos a oferecer alimentos que apresentam um “risco de asfixia”, pode ser porque os bebês têm demonstrado que eles têm as habilidades necessárias para gerenciá-los.”

Pra finalizar, um estudo conduzido por Fangupo e colaboradores (2016) acompanhou mais de 180 famílias divididas entre aquelas que praticavam a auto-alimentação e aquelas que ofereciam a alimentação na colher. Os pesquisadores observaram que bebês que se auto-alimentavam não apresentaram maior ou menor risco de engasgo do que aqueles submetidos à uma prática mais tradicional. Na verdade, para ambos os grupos foram oferecidos alimentos potencialmente perigosos. O que significa que é preciso orientar muito bem os cuidadores a respeito de práticas seguras de alimentação, não importando a abordagem que será empregada.

 

“Bebês tem que se ‘acostumar’ à colher

Durante muitos e muitos anos os bebês foram obrigados a começar a comer muito cedo, então não havia outra opção senão “se acostumar à colher”. Primeiro porque é apenas por volta dos seis meses que o bebê consegue sentar sem apoio e liberar os braços, as mãos e a mandíbula, o que é essencial para a auto-alimentação. E também porque, como o reflexo de protrusão de língua ainda é muito forte e presente antes dos seis meses, utilizava-se a colher para inibir esse reflexo e, assim, conseguir alimentar o bebê.

Dessa forma, o adulto empurrava a comida dentro da boca e o reflexo de protrusão de língua jogava todo o alimento para fora. Até que, empurrando continuamente a colher sobre a língua, o reflexo era inibido e o bebê finalmente “se acostumava” à situação, praticamente apenas deglutindo a sopa espessa que lhe era colocada na boca.

Observando o desenvolvimento natural das habilidades de auto-alimentação, é bem nítido que o reflexo de protrusão de língua começa a desaparecer à medida que outros sinais vão ficando bem evidentes, como a melhora da preensão e do alcance de objetos, que vão em direção à boca e são manipulados com lábios, língua e bochechas pelo próprio bebê. Assim, a colher se torna um mero detalhe.

Bom, a natureza parece muito sábia, não é? Mas os humanos se acham muito espertos e continuaram a empurrar a colher na língua do bebê para poder ‘inibir’ esse reflexo e, por volta dos seis meses, poder oferecer pequenos pedaços misturados à sopa. Anos depois, foi-se dado conta que o sistema gastro-digestivo do bebê está melhor preparado para receber outros alimentos, além do leite materno, apenas após os seis meses. O que coincide com o desaparecimento natural do reflexo de protrusão de língua. Será apenas um acaso da natureza? Ou o próprio corpo do bebê avisando que ainda não está preparado? Ainda não existem pesquisas que comprovem essa teoria.

O que se sabe é que o modo como os bebês e crianças pequenas aprendem seus hábitos e preferências alimentares, dentro do contexto da relação cuidador-criança, ainda é pouco estudado. Existem evidências que suportam tanto contribuições feitas pela exposição precoce à práticas tradicionais (como alimentar com uma colher), como também por outras três formas de aprendizagem: familiarização, associação e observação (Birch & Doub, 2014).

A aprendizagem através da familiarização acontece através da experiência. E a distinção entre o que é familiar e o que não é tem um peso muito forte na avaliação da criança: o que lhe é familiar tende a ser preferido, e o que não é tende a ser evitado. Assim, as crianças tendem a preferir objetos, pessoas e atividades que lhe são familiares. Por isso, dar oportunidades para o bebê ter contato com os talheres desde cedo é essencial. Ele não precisa usar, a princípio. Com o tempo, e dadas devidas oportunidades, ele vai se interessar e tentar usá-lo.

A aprendizagem associativa envolve a associação entre duas situações e/ou estímulos. Então, no caso dos talheres, não necessariamente é preciso que ele seja alimentado com o talher desde cedo. A princípio, ele pode por exemplo usar um pão ou um palito de legume para capturar um purê grosso e levar à boca. As situações às quais o bebê é exposto o ensinam muito, ainda que ele não seja diretamente alimentado com uma colher.

A aprendizagem observacional, como o próprio nome diz, acontece pela observação dos modelos. As influências sociais tem um peso importante e entre os principais modelos estão os pais, a família, outros cuidadores e a creche/escolinha. Por isso, se culturalmente todos à volta do bebê comem com talheres, é bem improvável que ele vá comer com as mãos pra sempre.

 

“Bebês não comem o suficiente por si só”

Nós temos uma mania muito inconveniente de achar que sabemos exatamente o quanto o outro deveria comer.  Quando uma mãe está amamentando, ela é frequentemente posta à prova: “seu leite não é suficiente, você precisa complementar”. Quando o bebê começa a comer, logo surgem os comentários: “ele come muito pouco, ele precisa comer mais”. E o que acontece na adolescência e vida adulta? A quantidade é sempre posta à prova.

Embora se tenha uma ideia do que cada indivíduo precisa pra se manter vivo e saudável, não se sabe ao certo o quanto cada um precisa para saciar a sua própria fome e seu desejo de comer. A família tem um papel fundamental no modo como a criança aprende a comer, especialmente através de estratégias que utiliza para reconhecer os sinais de fome e saciedade. A auto-suficiência da criança em relação à sua ingestão de comida é o que contribui para um comportamento alimentar adequado (Silva e colaboradores, 2016).

O que acontece é que, no baby-led weaning, não há interferência externa, então não há a dependência da interpretação e intervenção do cuidador. Como o BLW é centrado na auto-alimentação e, no início, as habilidades motoras limitadas dificultam a ingestão de grande quantidade de alimentos, existe um grande medo grande por parte de pais e profissionais de que o bebê não vá receber tudo o que precisa.

Mas entender que a transição do leite para o alimento sólido deve ser gradativa é fundamental para diminuir as expectativas em relação às quantidades que o bebê vai comer nas primeiras ofertas de comida, evitando frustrações que geram o ciclo de recusa alimentar da criança.

 

Leia Mais: Recusa, controle e distúrbios alimentares: o efeito bola de neve

O quadro a seguir mostra como o leite materno se mantém como principal fonte de energia durante os primeiros meses de introdução alimentar, sendo ultrapassado pelos alimentos somente entre 12 e 24 meses.

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Leia mais: BLW: O bebê vai comer tudo o que precisa?

É claro que existem questões não respondidas, como a ingestão adequada de micronutrientes, por exemplo. Isso pode ser particularmente relevante se alimentos de baixa densidade calórica, como legumes e frutas, forem predominantes na dieta do bebê. Por isso, independente da abordagem escolhida para a introdução alimentar, é urgente e necessário que profissionais da saúde enfatizem a importância de se incluir alimentos energéticos e ricos em ferro desde o início da alimentação complementar (Morison e colaboradores, 2016).

Leia mais: Garantindo energia e ferro para o bebê no BLW

E ainda que o BLW seja provavelmente passível de ser seguido pela maioria das famílias de bebês nascidos a termo e em desenvolvimento típico, é claro que pode não ser a melhor opção para todos os bebês em todas as situações. Bebês com atraso no desenvolvimento motor ou outras alterações orais e/ou motoras podem não ser capazes de atingir suas necessidades calóricas e de nutrientes sem precisar de alguma assistência durante a alimentação (Cameron e colaboradores, 2012).

Leia mais: O BLW é o melhor método de introdução alimentar?

 

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Referências

Birch & Doub. Learning to eat: birth to age 2y. Am J Clin Nutr 2014; 99: 723S.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos : um guia para o profissional da saúde na atenção básica / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., 2. reimpr. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015.

Castilho, SD & Barros Filho, AA. (2010). Alimentos utilizados ao longo da história para nutrir lactentes. Jornal de Pediatria, 86(3), 179-188.

Cichero, J. (1), Introducing solid foods using baby-led weaning vs. spoon-feeding: A focus on oral development, nutrient intake and quality of research to bring balance to the debate. Nutr Bull: 41(1), 2016.

Cichero J (2). Unlocking opportunities in food design for infants, children, and the elderly: Understanding milestones in chewing and swallowing across the lifespan for new innovations. Journal Texture Studies, 2016.

Delaney & Arvedson. Development Of Swallowing And Feeding. Dev Disabil Res Rev, 2008.

Delaney AL. Oral-motor movement patterns in feeding development. PhD (Communicative Disorders). University of Wisconsin-Madison. 2010.

DEWEY, KATHRYN G.; BROWN, Kenneth H. Update on technical issues concerning complementary feeding of young children in developing countries and implications for intervention programs. Food and Nutrition Bulletin, v. 24, n.1, p. 5-28, 2003.

FANGUPO, L. J.; HEATH, A. M.; WILLIAMS S. M.; et al. A Baby-Led Approach to Eating Solids and Risk of Choking. Pediatrics. 138(4), 2016.

Harbron et al. Responsive feeding: establishing healthy eating behaviour early on in life. S Afr J Clin Nutr S141 2013;26(3).

Le Reverend et al. Review: Anatomical, functional, physiological and behavioural aspects of the development of mastication in early childhood. British Journal of Nutrition, 2013.

Morison, BJ; Taylor, RW; Haszard, JJ et al (2016) ‘How different are baby-led weaning and conventional complementary feeding? A cross-sectional study of infants aged 6-8 months’, BMJ Open

PAHO/WHO. Guiding principles for complementary feeding of the breastfed child. Washington DC, Pan American Health Organization/World Health Organization, 2003.

Rapley & Murkett. Baby-led Weaning: The essential guide to introducing solid foods and helping your baby to grow up a happy and confident eater. The Experiment: New York, 2008.

Rapley G. Spoon-feeding or self-feeding? The infant’s first experience of solid food. PhD (Philosophy). Canterbury Christ Church University. 2015.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. Departamento de Nutrologia, 3a ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP 2012.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia: Guia Prático de Atualização. A Alimentação Complementar e o Método BLW (Baby-Led Weaning). Maio 2017.